Ewerton Lopes colocou uma pergunta importante no O Tecido: com o fim do bônus demográfico brasileiro, a inteligência artificial poderá compensar a falta de trabalhadores? Seu texto identifica uma divisão que não se resolve com uma fábrica mais automatizada. O emprego formal tem mais condições de absorver máquinas e sistemas novos. Na informalidade, onde muita gente trabalha sem capital, equipe técnica ou infraestrutura, o ganho pode nunca chegar.
Nós acrescentaríamos outra pergunta, que surgiu dentro da nossa própria casa: quando a máquina faz o trabalho, por que a pessoa continua sem tempo?
Uma tarefa de duas horas passou a caber em quinze minutos
Nossa família mantém uma rede de publicação digital. Antes, colocar oito a dez fotografias ou outros itens de mídia no ar podia consumir cerca de duas horas por dia. Cada publicação exigia montar um post, enviar a imagem, escolher a imagem destacada, escrever título e informações para buscadores, relacionar outros arquivos, publicar e entrar em outro site da rede para divulgar novamente o mesmo material. Em geral, eram aproximadamente quinze minutos por item. Era um trabalho repetitivo que se acumulava entre as tarefas de cuidar de três crianças.
Criamos o Big King Media porque estávamos cansados dessa rotina. Hoje, as etapas que antes nos obrigavam a abrir várias telas são reunidas no mesmo sistema. O Kaleeyon AI ajuda a preparar o texto alternativo das imagens. O Photofall apresenta a mídia em galerias, enquanto o World Within World reúne fotografias, vídeos e histórias em coleções. A biblioteca compartilhada do WordPress Multisite permite reutilizar arquivos entre os sites, sem repetir cada upload. Os recursos de Media SEO ajudam a cuidar de títulos, descrições e descoberta das imagens. Continuamos escolhendo, conferindo e corrigindo o que publicamos, mas deixamos de repetir boa parte do trabalho de organização e divulgação.
A mesma rotina de oito a dez itens leva agora cerca de quinze minutos. São 105 minutos poupados por dia de publicação, a partir da nossa própria contagem. Esse número não veio de um estudo de produtividade do setor. Veio da comparação entre o tempo que nossa família gastava e o que passa a gastar no mesmo serviço.
E aqui está a diferença que interessa: não pegamos os 105 minutos para publicar mais quinze imagens. Nós ficamos com o tempo.
O que fizemos com as horas que a máquina devolveu
Vivemos com nossos filhos Keilah, Kaleeyon e Kezidek em Prado, no litoral da Bahia. O tempo devolvido aparece quando vamos à praia, entramos na água, conversamos, brincamos e cuidamos das plantas e alimentos que cultivamos no nosso AgriGames Foodway. Podemos observar algo novo crescendo, rir juntos ou simplesmente permanecer ali sem correr para terminar uma sequência de posts.
É essa vida que gera nossas fotografias e histórias. Se passássemos o dia presos ao sistema de publicação, ficaríamos ocupados demais para viver o que depois tentamos publicar. Automatizar a tarefa nos permitiu continuar produzindo o conteúdo sem entregar a ela o tempo que pertence à família.
Uma empresa pode chamar de produtividade o aumento do número de publicações por hora. Para nós, o resultado principal é outro: a produção cotidiana continuou, mas o trabalho exigido de duas pessoas diminuiu. São 105 minutos que não precisam ser vendidos, recuperados durante a madrugada nem retirados da convivência com os filhos.
O Brasil não pode deixar a informalidade fora dessa conta
O desafio levantado por Ewerton é especialmente brasileiro. Segundo o IBGE, 38,1% da população ocupada estava na informalidade na média de 2025. Na Bahia, a proporção foi de 52,8%. Há uma distância enorme entre uma indústria que compra sistemas de automação e uma mãe que trabalha por conta própria, responde mensagens de clientes, atende pedidos, fotografa mercadorias e ainda volta para uma casa cheia de tarefas.
Se a inteligência artificial chegar apenas às empresas capazes de pagar licenças, consultorias e equipes de implantação, ela poderá aumentar a vantagem de quem já tem estrutura. Para a costureira que administra encomendas sozinha, o agricultor que precisa organizar registros, a pequena editora que publica em vários canais ou a família que mantém seu próprio negócio, a automação deveria retirar etapas, não acrescentar uma nova assinatura e mais um painel para aprender.
Isso exige ferramentas acessíveis, documentação compreensível, conexão adequada e assistência para instalar e manter sistemas. Também exige distinguir trabalho que merece continuar sendo feito por uma pessoa de repetição que a máquina pode assumir. O nosso caso envolve publicação de mídia. A mesma pergunta pode ser aplicada a agendas de atendimento, registros agrícolas, manutenção de equipamentos e formulários repetidos em serviços públicos.
A queda da fecundidade não é apenas uma questão de oferta de mão de obra
O Censo de 2022 encontrou uma taxa de fecundidade de 1,55 filho por mulher no Brasil. É legítimo discutir o que o envelhecimento populacional fará com os serviços, a previdência e a organização do trabalho. Mas tratar o nascimento de crianças apenas como reposição futura de trabalhadores deixa de fora a vida de quem as cria.
O IBGE também mostra a carga do trabalho doméstico e de cuidados: na pesquisa de 2022, as mulheres dedicaram em média 21,3 horas semanais a essas atividades, 9,6 horas a mais do que os homens. A diferença não desaparece quando alguém volta do emprego remunerado. Com ou sem carteira assinada, a criança precisa comer, a roupa precisa ser cuidada e alguém atende quando um bebê acorda à noite.
A automação tem valor quando reduz essa sobrecarga ou facilita serviços que a família precisa usar. Se ela só aumenta a quantidade de tarefas remuneradas que uma pessoa consegue cumprir, a criança não ganhou a mãe de volta e o casal não ganhou uma tarde junto. O Brasil pode manter a produção em um cenário de menos trabalhadores e, ao mesmo tempo, continuar consumindo a vida familiar que sustenta as próximas gerações.
Produtividade deveria ter uma segunda coluna
Um balanço comum mostraria que reduzimos o tempo de publicação em 87,5%. A nossa segunda coluna mostraria o que aconteceu com a diferença. A tarefa permaneceu com volume parecido. Os 105 minutos deixaram de ser exigidos. E nós efetivamente passamos a usar esse tempo em família. Se tivéssemos apenas aumentado o número de posts, o ganho teria sido capacidade de produção, não tempo devolvido.
É uma distinção simples para o Brasil exigir em projetos de IA. Quanto trabalho era necessário antes? Quanto passou a ser necessário depois, incluindo conferência, correção e manutenção? Quem recebeu as horas liberadas? O trabalhador saiu mais cedo, o usuário deixou de enfrentar uma fila, a empresa atendeu mais pessoas ou o serviço inventou novas tarefas? São resultados diferentes e todos podem ser medidos sem contar a mesma hora duas vezes.
O ganho também precisa ser observado fora das empresas formalizadas. Uma cooperativa, uma escola, um pequeno comércio e uma família que trabalha por conta própria devem poder registrar as horas retiradas da rotina e as horas que realmente voltaram para as pessoas. Caso contrário, a inteligência artificial poderá elevar a produtividade média nacional enquanto conserva a desigualdade de tempo entre quem tem acesso à tecnologia e quem continua executando tudo manualmente.
Se faltar mão de obra, que falte primeiro o trabalho desnecessário
A questão demográfica apresentada por Ewerton merece resposta. Mas seria um desperdício usar a IA somente para manter um volume cada vez maior de trabalho com menos gente. Primeiro deveríamos descobrir quanto desse trabalho ainda precisa existir.
Nossa família não ficou mais rica em vida porque aprendeu a publicar dez vezes mais. Ficou com uma hora e quarenta e cinco minutos que antes desapareciam em cliques, formulários e duplicações. Nesse tempo podemos estar juntos, brincar com as crianças, cuidar de alimentos que crescem e viver as histórias que depois contamos.
Esse é o teste que propomos para a inteligência artificial no Brasil. Quando a máquina termina o serviço, a pessoa deve poder recuperar a própria vida. Uma sociedade que enfrenta a queda da fecundidade deveria reconhecer o valor desse tempo antes de perguntar quantos trabalhadores ainda consegue extrair de cada geração.