O mundo bate recordes de gasto militar num momento em que a política também bate recordes de divisão. A filosofia pergunta o que veio primeiro: a ameaça real, o medo fabricado ou a conveniência de quem lucra com os dois.
Há uma pergunta que os números do rearmamento global raramente fazem, mas que a filosofia política não pode evitar: por que uma sociedade escolhe temer? Não a ameaça em si — essa pode ser real, documentada, mensurável —, mas a decisão coletiva de organizar recursos, discurso público e prioridades orçamentárias em torno dela. Nesta semana, o Japão apresentou um Livro Branco de Defesa que trata a indústria militar como motor de crescimento econômico. O Brasil, a Europa e o Canadá seguem trajetória semelhante. Como mostrou reportagem publicada no Caderno Economia de O Tecido, o mundo gastou 2,887 trilhões de dólares em defesa em 2025 — o maior valor da história e o 11º ano consecutivo de alta, enquanto o próprio retorno econômico desse gasto é, na melhor das hipóteses, inferior ao de investimentos em educação e saúde.
Se a conta não fecha em termos puramente econômicos, resta perguntar por que ela segue sendo aprovada — e ampliada — com tão pouca resistência política. A resposta mais simples é também a mais antiga: Estados se armam porque temem uns aos outros, e o medo, uma vez instalado, se autoalimenta. Mas essa resposta, sozinha, explica a lógica entre nações. Não explica por que, dentro de cada país, o debate público perdeu a capacidade de questionar esse gasto com o mesmo rigor que aplica a outras políticas.
O medo antigo: da anarquia entre Estados
A tradição realista das relações internacionais tem um nome para esse primeiro mecanismo: dilema de segurança. O conceito, formalizado pelo cientista político John Herz na década de 1950 mas com raízes que remontam a Tucídides, descreve uma armadilha estrutural — não moral, não ideológica. Como não existe autoridade central acima dos Estados capaz de garantir a segurança de todos, cada país que se arma para se proteger acaba, pelo simples fato de tê-lo feito, tornando os vizinhos mais inseguros. Estes respondem armando-se também. Nenhuma das partes desejava a escalada; todas a produzem.
Esse mecanismo é suficiente para explicar boa parte do que está em curso. A guerra na Ucrânia e a tensão entre China e Taiwan são ameaças concretas, não fantasmas retóricos, e alimentam de forma direta o rearmamento europeu e asiático. Thomas Hobbes, no século XVII, já havia descrito a lógica: no estado de natureza, mesmo o homem mais pacífico tem razões para atacar primeiro, pois não pode confiar que o outro não o fará. A guerra, para Hobbes, nasce menos do ódio do que da desconfiança recíproca em um ambiente sem árbitro.
O medo novo: da polarização entre cidadãos
Mas o dilema de segurança descreve a relação entre Estados, não a razão pela qual sociedades internamente divididas deixam de debater o próprio gasto militar com espírito crítico. Aqui entra um segundo mecanismo, de natureza diferente: a polarização política transforma o adversário interno em inimigo, e essa gramática do "nós contra eles" migra com facilidade para a política externa. Quando o debate doméstico já opera por blocos hostis — em vez de posições divergentes dentro de um mesmo campo democrático —, fica mais fácil aceitar que o mundo lá fora também se organiza assim, e mais difícil sustentar posições intermediárias, como "investir em defesa, mas com escrutínio orçamentário rigoroso".
O dilema de segurança explica por que Estados se armam uns contra os outros. A polarização explica por que, dentro de cada Estado, ninguém mais pergunta se vale a pena.
Populismo: o lucro político do medo
Um terceiro fator, distinto da polarização, é o populismo — entendido aqui não como xingamento, mas como estilo político que se apresenta como voz direta do "povo" contra elites e ameaças externas, e que se sustenta em parte pela exploração deliberada de emoções como medo e ressentimento em vez de deliberação racional. O populismo não cria o medo do zero; ele o organiza, o simplifica e o transforma em capital eleitoral. Um orçamento de defesa que cresce é, nesse contexto, mais fácil de vender como prova de força e soberania do que uma reforma tributária ou um programa de saúde pública — ainda que o retorno social do segundo seja, pelos dados, maior.
Radicalismo: quando a posição substitui o argumento
Radicalização é um quarto processo, e talvez o menos visível: é o deslocamento gradual de uma posição para os extremos do espectro, a ponto de a intensidade da convicção substituir a qualidade do argumento. Um debate radicalizado sobre segurança nacional não distingue mais "quanto gastar" de "se somos ou não patriotas o suficiente para gastar". Nesse ambiente, qualquer questionamento ao orçamento militar deixa de ser uma pergunta técnica e passa a ser lido como deslealdade — o que blinda o gasto contra o mesmo tipo de auditoria pública aplicada a qualquer outra política.
Três engrenagens, um resultado
A honestidade filosófica exige não confundir essas três engrenagens. O dilema de segurança é a explicação de fundo para por que o mundo, como sistema, tende ao rearmamento em períodos de instabilidade real — e essa lógica seguiria existindo mesmo numa sociedade internamente coesa e pouco polarizada. A polarização, o populismo e o radicalismo não criam a ameaça externa, mas moldam a forma como cada sociedade a processa: reduzem a tolerância ao debate, encurtam a distância entre segurança nacional e identidade de grupo, e tornam o gasto militar uma bandeira mais do que uma política pública sujeita a custo-benefício. É por isso que o Brasil, sem estar em nenhum conflito armado direto, ainda assim ampliou 13% seus gastos militares em 2025 — dos quais 87% do orçamento executado do Ministério da Defesa foi consumido por pessoal, aposentadorias e pensões, não por capacidade operacional nova, segundo os dados reunidos na reportagem original de O Tecido.
Dwight Eisenhower, general antes de presidente, resumiu essa tensão de outra forma em 1953: todo canhão fabricado, todo navio de guerra lançado, representa em algum sentido um recurso retirado de quem tem fome e de quem tem frio. Não era um pacifista ingênuo — havia comandado a maior operação militar da história havia menos de uma década. Era, precisamente por isso, um alerta sobre o custo de oportunidade que nenhuma retórica de segurança nacional apaga por completo.
Contraponto
Para essa leitura, buscar explicações domésticas — polarização, populismo, radicalismo — é psicologizar um problema que é, antes de tudo, geopolítico. Rússia, China e outros atores revisionistas alteraram de fato o cálculo de risco de vizinhos e aliados; ignorar isso em nome de um debate mais "racional" seria negligência estratégica. Segurança nacional, nessa visão, não é luxo emocional: é pré-condição para qualquer outra política pública existir.
Para essa leitura, a existência de ameaças reais não explica a ausência de escrutínio sobre como o dinheiro é gasto — inclusive quando, como no caso brasileiro, a maior parte do orçamento vai para folha de pagamento e não para capacidade nova. A polarização e o populismo não inventam a guerra na Ucrânia, mas explicam por que sociedades deixam de perguntar se cada real investido em defesa rende mais segurança do que o mesmo real investido em outro lugar — e por que quem pergunta corre o risco de ser chamado de ingênuo ou desleal.
Nenhuma das duas leituras invalida inteiramente a outra. É possível — e talvez necessário — sustentar as duas ao mesmo tempo: que o sistema internacional produz incentivos reais ao rearmamento, e que a qualidade do debate doméstico sobre como e quanto gastar depende de uma saúde democrática que a polarização, o populismo e o radicalismo corroem por dentro. A pergunta que fica não é apenas se o mundo deveria se armar menos, mas se ainda somos capazes, como sociedades, de fazer essa pergunta sem que ela seja lida como traição.
Nesta reflexão
- O medo antigo: dilema de segurança
- O medo novo: polarização
- Populismo e o lucro do medo
- Radicalismo: posição sem argumento
- Três engrenagens, um resultado
- Contraponto
Em números
Linha do tempo do conceito
Referências
- O Tecido — O mundo se arma: por que a conta do rearmamento pode custar mais caro do que parece (05/08/2026)
- El País — Japón sitúa la industria militar como nuevo motor para el crecimiento de la economía (04/08/2026)
- Wikipédia — Dilema de segurança
- Politike/CartaCapital — Entenda o conceito de Dilema de Segurança
- Snopes — Verificação do discurso "Cross of Iron" de Eisenhower (1953)