Caderno Filosofia Ética & Política  •  05 de agosto de 2026  •  07 min de leitura
Medo, discurso e orçamento público

O mundo bate recordes de gasto militar num momento em que a política também bate recordes de divisão. A filosofia pergunta o que veio primeiro: a ameaça real, o medo fabricado ou a conveniência de quem lucra com os dois.

Há uma pergunta que os números do rearmamento global raramente fazem, mas que a filosofia política não pode evitar: por que uma sociedade escolhe temer? Não a ameaça em si — essa pode ser real, documentada, mensurável —, mas a decisão coletiva de organizar recursos, discurso público e prioridades orçamentárias em torno dela. Nesta semana, o Japão apresentou um Livro Branco de Defesa que trata a indústria militar como motor de crescimento econômico. O Brasil, a Europa e o Canadá seguem trajetória semelhante. Como mostrou reportagem publicada no Caderno Economia de O Tecido, o mundo gastou 2,887 trilhões de dólares em defesa em 2025 — o maior valor da história e o 11º ano consecutivo de alta, enquanto o próprio retorno econômico desse gasto é, na melhor das hipóteses, inferior ao de investimentos em educação e saúde.

Se a conta não fecha em termos puramente econômicos, resta perguntar por que ela segue sendo aprovada — e ampliada — com tão pouca resistência política. A resposta mais simples é também a mais antiga: Estados se armam porque temem uns aos outros, e o medo, uma vez instalado, se autoalimenta. Mas essa resposta, sozinha, explica a lógica entre nações. Não explica por que, dentro de cada país, o debate público perdeu a capacidade de questionar esse gasto com o mesmo rigor que aplica a outras políticas.

O medo antigo: da anarquia entre Estados

A tradição realista das relações internacionais tem um nome para esse primeiro mecanismo: dilema de segurança. O conceito, formalizado pelo cientista político John Herz na década de 1950 mas com raízes que remontam a Tucídides, descreve uma armadilha estrutural — não moral, não ideológica. Como não existe autoridade central acima dos Estados capaz de garantir a segurança de todos, cada país que se arma para se proteger acaba, pelo simples fato de tê-lo feito, tornando os vizinhos mais inseguros. Estes respondem armando-se também. Nenhuma das partes desejava a escalada; todas a produzem.

Esse mecanismo é suficiente para explicar boa parte do que está em curso. A guerra na Ucrânia e a tensão entre China e Taiwan são ameaças concretas, não fantasmas retóricos, e alimentam de forma direta o rearmamento europeu e asiático. Thomas Hobbes, no século XVII, já havia descrito a lógica: no estado de natureza, mesmo o homem mais pacífico tem razões para atacar primeiro, pois não pode confiar que o outro não o fará. A guerra, para Hobbes, nasce menos do ódio do que da desconfiança recíproca em um ambiente sem árbitro.

O medo novo: da polarização entre cidadãos

Mas o dilema de segurança descreve a relação entre Estados, não a razão pela qual sociedades internamente divididas deixam de debater o próprio gasto militar com espírito crítico. Aqui entra um segundo mecanismo, de natureza diferente: a polarização política transforma o adversário interno em inimigo, e essa gramática do "nós contra eles" migra com facilidade para a política externa. Quando o debate doméstico já opera por blocos hostis — em vez de posições divergentes dentro de um mesmo campo democrático —, fica mais fácil aceitar que o mundo lá fora também se organiza assim, e mais difícil sustentar posições intermediárias, como "investir em defesa, mas com escrutínio orçamentário rigoroso".

O dilema de segurança explica por que Estados se armam uns contra os outros. A polarização explica por que, dentro de cada Estado, ninguém mais pergunta se vale a pena.

Populismo: o lucro político do medo

Um terceiro fator, distinto da polarização, é o populismo — entendido aqui não como xingamento, mas como estilo político que se apresenta como voz direta do "povo" contra elites e ameaças externas, e que se sustenta em parte pela exploração deliberada de emoções como medo e ressentimento em vez de deliberação racional. O populismo não cria o medo do zero; ele o organiza, o simplifica e o transforma em capital eleitoral. Um orçamento de defesa que cresce é, nesse contexto, mais fácil de vender como prova de força e soberania do que uma reforma tributária ou um programa de saúde pública — ainda que o retorno social do segundo seja, pelos dados, maior.

Radicalismo: quando a posição substitui o argumento

Radicalização é um quarto processo, e talvez o menos visível: é o deslocamento gradual de uma posição para os extremos do espectro, a ponto de a intensidade da convicção substituir a qualidade do argumento. Um debate radicalizado sobre segurança nacional não distingue mais "quanto gastar" de "se somos ou não patriotas o suficiente para gastar". Nesse ambiente, qualquer questionamento ao orçamento militar deixa de ser uma pergunta técnica e passa a ser lido como deslealdade — o que blinda o gasto contra o mesmo tipo de auditoria pública aplicada a qualquer outra política.

Três engrenagens, um resultado

A honestidade filosófica exige não confundir essas três engrenagens. O dilema de segurança é a explicação de fundo para por que o mundo, como sistema, tende ao rearmamento em períodos de instabilidade real — e essa lógica seguiria existindo mesmo numa sociedade internamente coesa e pouco polarizada. A polarização, o populismo e o radicalismo não criam a ameaça externa, mas moldam a forma como cada sociedade a processa: reduzem a tolerância ao debate, encurtam a distância entre segurança nacional e identidade de grupo, e tornam o gasto militar uma bandeira mais do que uma política pública sujeita a custo-benefício. É por isso que o Brasil, sem estar em nenhum conflito armado direto, ainda assim ampliou 13% seus gastos militares em 2025 — dos quais 87% do orçamento executado do Ministério da Defesa foi consumido por pessoal, aposentadorias e pensões, não por capacidade operacional nova, segundo os dados reunidos na reportagem original de O Tecido.

Dwight Eisenhower, general antes de presidente, resumiu essa tensão de outra forma em 1953: todo canhão fabricado, todo navio de guerra lançado, representa em algum sentido um recurso retirado de quem tem fome e de quem tem frio. Não era um pacifista ingênuo — havia comandado a maior operação militar da história havia menos de uma década. Era, precisamente por isso, um alerta sobre o custo de oportunidade que nenhuma retórica de segurança nacional apaga por completo.

Contraponto

A ameaça é real, e isso basta

Para essa leitura, buscar explicações domésticas — polarização, populismo, radicalismo — é psicologizar um problema que é, antes de tudo, geopolítico. Rússia, China e outros atores revisionistas alteraram de fato o cálculo de risco de vizinhos e aliados; ignorar isso em nome de um debate mais "racional" seria negligência estratégica. Segurança nacional, nessa visão, não é luxo emocional: é pré-condição para qualquer outra política pública existir.

O medo é real, mas está sendo usado

Para essa leitura, a existência de ameaças reais não explica a ausência de escrutínio sobre como o dinheiro é gasto — inclusive quando, como no caso brasileiro, a maior parte do orçamento vai para folha de pagamento e não para capacidade nova. A polarização e o populismo não inventam a guerra na Ucrânia, mas explicam por que sociedades deixam de perguntar se cada real investido em defesa rende mais segurança do que o mesmo real investido em outro lugar — e por que quem pergunta corre o risco de ser chamado de ingênuo ou desleal.

Nenhuma das duas leituras invalida inteiramente a outra. É possível — e talvez necessário — sustentar as duas ao mesmo tempo: que o sistema internacional produz incentivos reais ao rearmamento, e que a qualidade do debate doméstico sobre como e quanto gastar depende de uma saúde democrática que a polarização, o populismo e o radicalismo corroem por dentro. A pergunta que fica não é apenas se o mundo deveria se armar menos, mas se ainda somos capazes, como sociedades, de fazer essa pergunta sem que ela seja lida como traição.

Esta reflexão dialoga diretamente com a reportagem "O mundo se arma: por que a conta do rearmamento pode custar mais caro do que parece", publicada no Caderno Economia de O Tecido em 05 de agosto de 2026, cujos dados sobre gastos militares globais, europeus e brasileiros foram usados como base factual para esta análise filosófica.

Nesta reflexão

  1. O medo antigo: dilema de segurança
  2. O medo novo: polarização
  3. Populismo e o lucro do medo
  4. Radicalismo: posição sem argumento
  5. Três engrenagens, um resultado
  6. Contraponto

Em números

US$ 2,887 tri Gasto militar mundial em 2025 (SIPRI)
11 anos Seguidos de alta no gasto militar global
87% Do orçamento de Defesa do Brasil em 2025 foi para pessoal, ativos e pensionistas
+172% Mais empregos gerados por US$ 1 bi em educação do que em defesa (PERI/Brown)

Linha do tempo do conceito

Séc. V a.C. Tucídides descreve o medo mútuo entre Atenas e Esparta como motor da Guerra do Peloponeso.
1651 Hobbes publica "Leviatã" e descreve o estado de natureza como guerra de todos contra todos por desconfiança mútua.
1951 John Herz formaliza o conceito de "dilema de segurança" nas relações internacionais.
1953 Eisenhower discursa sobre o custo social de cada arma fabricada ("Cross of Iron").
2025 SIPRI registra recorde histórico de gasto militar mundial, com Brasil, Europa e Canadá em alta.

Glossário

Dilema de segurança
Conceito de relações internacionais segundo o qual o fortalecimento militar de um Estado, mesmo defensivo, gera insegurança em outros, alimentando uma corrida armamentista indesejada por todos.
Polarização política
Processo pelo qual divergências dentro de uma sociedade se organizam em dois blocos rígidos e hostis, reduzindo o espaço para posições intermediárias.
Populismo
Estilo político que se apresenta como voz direta do "povo" contra elites e ameaças, apoiando-se na mobilização emocional mais do que na deliberação racional.
Radicalização
Deslocamento progressivo de posições políticas em direção aos extremos, no qual a intensidade da convicção passa a substituir a qualidade do argumento.
Estado de natureza
Conceito hobbesiano que descreve a condição humana hipotética sem autoridade central, marcada pela desconfiança mútua e pelo risco constante de conflito.