O Japão anunciou nesta semana que passará a tratar sua indústria de defesa como um dos pilares do crescimento econômico do país. A ideia está no novo Livro Branco de Defesa apresentado pelo governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, que soma 598 páginas e associa diretamente o investimento militar à inovação tecnológica e ao fortalecimento da base industrial nacional, segundo reportagem do jornal espanhol El País.
No prefácio do documento, o ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, defende que os investimentos em pesquisa e desenvolvimento militar têm efeito positivo sobre toda a base produtiva do país, e reafirma a aliança com os Estados Unidos como eixo central da estratégia de segurança de Tóquio. O governo japonês também eliminou restrições que, até então, limitavam a exportação de armamento a produtos não letais, abrindo caminho para a venda de equipamento convencional a outros países.
O movimento japonês não é um episódio isolado. Ele se encaixa em uma tendência que já dura mais de uma década e que, em 2025, bateu recorde: segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), o mundo gastou 2,887 trilhões de dólares em defesa, um crescimento real de 2,9% sobre 2024 e o 11º ano consecutivo de alta. Em proporção do PIB mundial, o chamado "ônus militar" chegou a 2,5%, o nível mais alto desde 2009.
Uma engrenagem que gira em todos os continentes
A Europa puxou boa parte desse crescimento: os gastos militares dos países do continente subiram 14% em 2025, para 864 bilhões de dólares, o maior volume já registrado pelo SIPRI. A pressão para rearmar-se levou os líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a fixar uma meta ainda mais ambiciosa, de 5% do PIB até 2035, somando defesa tradicional e infraestrutura de uso dual.
O Canadá é um dos exemplos mais recentes dessa corrida. Em março deste ano, o primeiro-ministro Mark Carney anunciou que o país havia atingido, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a meta histórica da OTAN de 2% do PIB em defesa, com gastos de cerca de 63 bilhões de dólares canadenses. O governo canadense também aderiu à iniciativa europeia de segurança conhecida como SAFE e ajuda a estruturar um novo banco multilateral voltado a financiar defesa e segurança entre países aliados. Críticos, porém, apontam que parte do valor foi contabilizada por meio de reorganizações administrativas, como a incorporação da Guarda Costeira canadense à pasta de Defesa, o que levanta dúvidas sobre quanto desse aumento se traduz, de fato, em capacidade militar nova.
O Brasil também acelera
O Brasil segue o mesmo caminho, ainda que em outra escala. Segundo o SIPRI, o país aumentou seus gastos militares em 13% em 2025, para 23,9 bilhões de dólares, mantendo-se como o maior investidor em defesa da América do Sul, responsável por 42,4% de toda a despesa militar da região, e ocupando a 21ª posição no ranking mundial. O instituto atribui parte do salto ao investimento em desenvolvimento tecnológico naval e ao aumento dos custos com pessoal militar.
Os números da execução orçamentária do Ministério da Defesa, no entanto, mostram um detalhe importante: dos 118,66 bilhões de reais efetivamente executados em 2025, cerca de 87% foram destinados a despesas com pessoal ativo, inativos e pensionistas, incluindo 56,09 bilhões de reais só com aposentadorias e pensões militares. Ou seja, o crescimento do orçamento não se traduziu, na mesma proporção, em modernização de equipamentos ou ganho de capacidade operacional. Em uma década, o gasto militar brasileiro cresceu apenas 1,6% em termos acumulados, e a participação da defesa no PIB nacional na verdade recuou, de 1,3% em 2016 para 1,1% em 2025.
O outro lado da conta
O argumento japonês, repetido por outros governos, é que a indústria de defesa gera empregos qualificados, atrai empresas emergentes e produz tecnologia com aplicação civil, os chamados efeitos de "uso dual". É um argumento real, mas parcial. Estudos de economistas que comparam o retorno de diferentes tipos de investimento público chegam a uma conclusão consistente: dólar por dólar, gastos em áreas como educação e saúde tendem a gerar mais empregos e mais efeito multiplicador sobre a economia do que gastos militares.
O trabalho mais citado nessa linha é da economista Heidi Garrett-Peltier, do Instituto de Pesquisa de Economia Política (PERI) da Universidade de Massachusetts Amherst, em parceria com Robert Pollin, também usado por pesquisadores do Costs of War Project, da Universidade Brown. Segundo o levantamento mais recente dessa série, cada bilhão de dólares investido gera cerca de 172% mais empregos quando aplicado em educação do que quando aplicado em defesa, e cerca de 84% mais empregos quando aplicado em saúde. Levantamentos anteriores da mesma linha de pesquisa já indicavam que investir em educação ou em transporte público cria mais do que o dobro dos empregos gerados pelo mesmo valor investido nas Forças Armadas.
Contraponto
A favor do investimento em defesa
Defensores do rearmamento argumentam que a indústria militar sustenta cadeias produtivas de alta tecnologia, gera empregos qualificados e de longo prazo, financia pesquisa que depois migra para uso civil e responde a ameaças de segurança concretas, como a tensão entre China e Taiwan ou a guerra na Ucrânia, que não podem ser adiadas em nome de outras prioridades orçamentárias.
A favor de priorizar áreas sociais
Críticos apontam que estudos empíricos mostram retorno econômico e social maior em educação, saúde e infraestrutura, com mais empregos gerados por dólar investido, além de efeitos duradouros sobre produtividade e coesão social. Nesta visão, o mesmo recurso aplicado fora da defesa reduziria tensões internas sem abrir mão da segurança nacional, desde que os investimentos militares sejam calibrados às ameaças reais.
Nenhuma das duas posições invalida a outra por completo. Segurança nacional tem valor que não se mede só em empregos criados, e negligenciá-la também tem custo econômico, como mostrou o Fundo Monetário Internacional ao calcular que guerras impõem perdas econômicas maiores do que crises financeiras ou desastres naturais. Mas o debate proposto pelo Japão, e replicado por Canadá, países europeus e o próprio Brasil, tende a apresentar o gasto militar como benefício econômico líquido, quando a evidência disponível sugere que ele é, na melhor das hipóteses, uma escolha entre alternativas com retornos desiguais.
Enquanto o mundo destina hoje a maior fatia do PIB à defesa desde 2009, a pergunta que os dados colocam não é apenas se vale a pena investir em segurança, mas onde, entre segurança e desenvolvimento, cada real ou dólar adicional rende mais para a sociedade que o paga.