Ciência · Demografia e longevidade

O demógrafo Saul Justin Newman, premiado com o Ig Nobel em 2024, afirma em novo livro que boa parte dos recordes de vida extrema se explica por certidões ausentes, erros de registro e fraude previdenciária. Os criadores das zonas azuis rebatem. O caso interessa diretamente ao Brasil.

O japonês Jiroemon Kimura morreu em 2013 como o homem mais velho do mundo, aos 116 anos. Segundo entrevista publicada neste sábado (17) pelo jornal espanhol El País, Kimura tinha duas datas oficiais de nascimento e teria concluído o ensino primário em três anos diferentes.1 O caso abre Morbid: Debunking Modern Longevity Science (MIT Press), livro em que o pesquisador australiano Saul Justin Newman reúne uma década de investigação sobre a qualidade dos dados de longevidade humana.

A tese central é desconfortável: os registros de pessoas com mais de 100 ou 110 anos estariam dominados por erros, e não por segredos biológicos. Newman recebeu em setembro de 2024 o primeiro Ig Nobel de Demografia, prêmio satírico concedido pela revista Annals of Improbable Research a trabalhos que fazem rir e depois pensar. Segundo a University College London, à qual ele estava vinculado, a pesquisa mostrou que as maiores taxas de longevidade extrema coincidem com alta pobreza, ausência de certidões de nascimento e escassez de pessoas na faixa dos 90 anos.2

O que são as zonas azuis e por que estão sob suspeita

Zonas azuis são áreas geográficas delimitadas com concentração supostamente excepcional de centenários. O conceito nasceu no início dos anos 2000 com o demógrafo belga Michel Poulain, que validou a primeira delas na Sardenha, e ganhou escala global com o jornalista norte-americano Dan Buettner, a partir de reportagens na National Geographic. A lista popularizada inclui Sardenha (Itália), Okinawa (Japão), Icária (Grécia), Nicoya (Costa Rica) e Loma Linda (Estados Unidos). Buettner transformou a ideia em livros, uma série da Netflix e uma empresa, a Blue Zones, que vende programas de saúde a prefeituras e planos de saúde nos Estados Unidos.3

Newman ataca o conceito em duas frentes. A primeira é estatística. Na entrevista ao El País, ele descreve o que chama de problema matemático de base: em uma coorte grande, basta uma fração mínima de pessoas que se declaram mais velhas do que são para que, com o passar das décadas, elas passem a representar parcela crescente dos sobreviventes, já que são de fato mais jovens e morrem mais tarde.1 A segunda frente é institucional: quem valida as idades dos centenários, argumenta ele, muitas vezes tem interesse comercial no resultado.

Um experimento simples mostra o efeito

Para dimensionar o argumento, O Tecido reproduziu o raciocínio em um modelo demográfico simplificado (lei de mortalidade de Gompertz, com parâmetros compatíveis com uma expectativa de vida próxima de 81 anos). Partimos de 100 mil pessoas com idade real de 50 anos e acrescentamos apenas 100 pessoas de 40 anos registradas como se tivessem 50, ou seja, 0,1% do grupo.

Participação de idades falsas entre sobreviventes Em uma coorte com 0,1% de pessoas dez anos mais jovens do que o registro, a participação delas entre os sobreviventes é de 0,2% aos 90 anos, 0,8% aos 100, 3,1% aos 105 e 20,6% aos 110. 0% 5% 10% 15% 0,1% 0,2% 0,8% 3,1% 20,6% 50 anos 90 anos 100 anos 105 anos 110 anos
Participação de pessoas com idade inflada em dez anos entre os sobreviventes de cada faixa. Simulação ilustrativa elaborada por O Tecido a partir do raciocínio descrito por Saul Newman. Não representa dados de nenhum país.

O resultado é eloquente: um erro que afeta 0,1% da população aos 50 anos responde por cerca de um em cada cinco "supercentenários" aos 110. Nenhuma fraude em massa é necessária. Basta um ruído pequeno e persistente no ponto de partida.

Registros que sobrevivem às pessoas

O exemplo mais citado vem do Japão. Em 2010, uma varredura do Ministério da Justiça japonês nos registros familiares (koseki) encontrou 234.354 pessoas nascidas antes de 1910 que nunca haviam sido baixadas do cadastro. Dessas, 77.118 teriam mais de 120 anos e 884 mais de 150, conforme estudo de Yasuhiko Saito, Vanessa Yong e Jean-Marie Robine publicado na revista Demographic Research.4 Os mesmos autores ressalvam, porém, que o impacto desse grupo sobre as estatísticas oficiais de expectativa de vida foi praticamente nulo, porque o Japão calcula esses indicadores a partir de outra base, o registro de residentes.

A ressalva importa e mostra a nuance que costuma se perder no debate. Um cadastro desatualizado não significa, automaticamente, que as estatísticas nacionais estejam erradas. Mas ilustra o ponto de Newman: documentos podem atestar com perfeita coerência a existência de alguém que já morreu. Em entrevistas à agência AFP, ele resumiu a ideia ao dizer que uma certidão errada na origem é copiada para todos os documentos seguintes, produzindo registros consistentes e igualmente falsos.5

A escala do problema documental segue grande. Relatório do UNICEF de dezembro de 2024 estima que 150 milhões de crianças menores de cinco anos, cerca de duas em cada dez, não têm o nascimento registrado.6 Se isso ocorre hoje, a precariedade dos registros de um século atrás, quando nasceram os centenários atuais, era muito maior.

"Se você é Elon Musk e já comprou tudo, a única coisa que resta vender é escapar da morte."

Saul Newman, em entrevista ao El País (tradução livre)

Longevidade como mercado

A frase de Newman dirige-se à nova onda de investimentos bilionários em longevidade, mas sua crítica mais específica atinge a indústria das zonas azuis. Ao El País, ele menciona reportagem do New York Times segundo a qual certificações da empresa Blue Zones custariam a municípios norte-americanos valores entre 3 e 40 milhões de dólares, ressalvando que os números exatos são difíceis de verificar.1 O próprio Michel Poulain, criador do termo, declarou ao site especializado STAT que se afastou de Buettner há mais de uma década por perceber que o conceito vinha se convertendo em negócio.7

Newman também questiona os hábitos atribuídos aos centenários. Segundo ele, Okinawa, vendida como paraíso da alimentação vegetal, registrava o menor consumo de vegetais do Japão, um dos maiores consumos de álcool e a pior média de índice de massa corporal entre idosos acima de 75 anos durante anos.1 A dissonância entre o estilo de vida anunciado e o observado é, para ele, mais um sinal de que a explicação está nos dados, e não no prato.

Há um ponto, contudo, em que o pesquisador é menos radical do que suas manchetes sugerem. Na mesma entrevista, ele afirma que o limite máximo da vida humana é uma curiosidade, e que o relevante é ampliar a expectativa média e a qualidade de vida, tarefa da medicina. Exercício físico, admite, faz bem comprovadamente.1

Contraponto · O que dizem os defensores das zonas azuis

Em outubro de 2024, pesquisadores ligados às zonas azuis publicaram declaração conjunta afirmando que Newman ignorou o rigoroso processo de verificação de idades e que usou estatísticas regionais amplas para descrever povoados rurais pequenos.8 Em dezembro de 2025, Steven Austad e Giovanni Pes publicaram na revista científica The Gerontologist uma resposta revisada por pares, sustentando que as idades foram validadas pelo cruzamento de múltiplas fontes documentais independentes, conforme os padrões da demografia gerontológica.9

A independência dessa resposta, no entanto, é limitada: Pes é um dos descobridores das zonas azuis e é justamente o pesquisador cujo vínculo com o setor Newman questiona. Os próprios defensores reconhecem ainda que a vantagem de longevidade dessas regiões pode estar desaparecendo, como mostra análise de Poulain e Anne Herm sobre a diferença entre gerações de Okinawa nascidas antes e depois da Segunda Guerra Mundial.7 Do lado de Newman, parte de seus estudos circulou por anos como pré-publicação antes de concluir a revisão por pares, ponto que seus críticos exploram.

E o Brasil?

O Censo Demográfico 2022 do IBGE contou 37.814 pessoas com 100 anos ou mais, 0,02% da população, contra 24.236 em 2010.10 Mais de 70% são mulheres. A distribuição geográfica chama atenção: a Bahia lidera em números absolutos, com 5.336 centenários, e divide com o Maranhão a maior proporção na população. O Nordeste concentra 16.317 centenários, quase 43% do total, apesar de não ser a região com maior expectativa de vida ao nascer.10

Esse padrão não prova erro nenhum, e há explicações demográficas legítimas, como a migração de jovens que eleva a fatia relativa de idosos em municípios do interior. Mas ele é exatamente o tipo de sinal que, pelo raciocínio de Newman, justificaria verificação cuidadosa. No censo, a idade é declarada pelo morador ou por um familiar, e quem hoje tem 100 anos nasceu nos anos 1920, quando o registro civil no interior do país era irregular e certidões tardias eram comuns.

IndicadorValorFonte
Centenários no Brasil (2022)37.814IBGE, Censo 2022
Sub-registro de nascimentos (2023)1,05% (4,21% em 2015)IBGE
Sub-registro de nascimentos na região Norte (2023)3,73%IBGE
Sub-registro de óbitos (2023)3,55% (Norte: 12,29%; Nordeste: 7,83%)IBGE
Pagamentos do INSS a beneficiários com indicativo de óbito (jan/2019 a jun/2023)R$ 193 milhões a 17,7 mil pessoasCGU

Os números recentes mostram avanço. O sub-registro de nascimentos caiu para 1,05% em 2023, o menor da série iniciada em 2015, segundo as Estatísticas do Registro Civil do IBGE.11 Já a subnotificação de mortes é mais que o triplo disso, e chega a 12% na região Norte.11 Do lado previdenciário, auditoria da Controladoria-Geral da União identificou que o INSS pagou R$ 193 milhões a cerca de 17,7 mil beneficiários com registro de óbito entre 2019 e meados de 2023, atribuindo o problema a falhas na rotina automatizada de cruzamento de dados.12 É o equivalente brasileiro do fenômeno que Newman descreve na Grécia e no Japão: pessoas que seguem vivas no sistema depois de mortas.

Para o leitor brasileiro, a lição não é desconfiar de cada bisavó centenária, mas reconhecer que estatísticas de longevidade extrema são tão boas quanto os cartórios que as alimentam. Políticas públicas de envelhecimento, cálculos atuariais e até a propaganda de dietas milagrosas dependem desses números.

Perguntas frequentes

O que são as zonas azuis?

São regiões delimitadas onde haveria concentração excepcional de pessoas com mais de 90 e 100 anos. As mais citadas são Sardenha, Okinawa, Icária, Nicoya e Loma Linda. O termo foi criado pelo demógrafo Michel Poulain e popularizado pelo jornalista Dan Buettner.

Por que Saul Newman contesta as zonas azuis?

Porque, segundo ele, os recordes de longevidade extrema se concentram em lugares com registros civis precários, pobreza e fraude previdenciária. Pequenos erros na idade declarada, acumulados ao longo de décadas, podem gerar falsos centenários em grande proporção.

Existe evidência científica a favor das zonas azuis?

Sim. Pesquisadores como Steven Austad e Giovanni Pes publicaram em 2025, na revista The Gerontologist, uma defesa revisada por pares do processo de validação de idades. A controvérsia segue aberta e envolve questionamentos sobre a independência de ambos os lados.

Quantos centenários há no Brasil?

O Censo 2022 do IBGE registrou 37.814 pessoas com 100 anos ou mais, cerca de 0,02% da população. A Bahia tem o maior número absoluto, e o Nordeste concentra quase 43% do total.

Hábitos saudáveis deixam de valer se as zonas azuis forem um mito?

Não. A crítica de Newman atinge a qualidade dos dados sobre idades extremas, não os benefícios comprovados de práticas como atividade física. O próprio pesquisador defende que o foco deve ser aumentar a expectativa média e a qualidade de vida.

Crédito editorial: este texto foi produzido a partir da entrevista de Juan F. Samaniego com Saul Newman publicada pelo jornal El País em 17 de outubro de 2026, complementada por pesquisa independente de O Tecido. Trechos atribuídos à entrevista são paráfrases ou traduções livres; a simulação estatística é de elaboração própria.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido