Política · Relações Internacionais

A morte de Zhu Rongji, aos 97 anos, reacende a discussão sobre como reformar o Estado sem provocar seu colapso. O contraste com a trajetória brasileira é inevitável.

Publicado em 17 de agosto de 2026 · Tempo de leitura: 8 min · Caderno Política
Zhu Rongji, ex-premiê da China
Zhu Rongji foi premiê da China entre 1998 e 2003, período em que conduziu a reforma das estatais e a entrada do país na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Zhu Rongji morreu em Pequim no dia 12 de agosto de 2026, aos 97 anos, vítima de doença, segundo a agência estatal Xinhua1. Poucos nomes na história econômica recente carregam um currículo tão decisivo quanto o dele. Como premiê da China entre 1998 e 2003, sob a presidência de Jiang Zemin, Zhu foi o engenheiro por trás da transição de uma economia estatal fechada para o modelo que hoje faz da China a maior potência manufatureira do planeta2.

Formado em engenharia elétrica, expurgado duas vezes pelo Partido Comunista (a primeira durante a campanha antidireitista de 1957, a segunda durante a Revolução Cultural, quando foi enviado ao campo para criar porcos e plantar arroz) Zhu ressurgiu nos anos 1980 como prefeito de Xangai e, a partir de 1998, como o principal artífice das reformas econômicas chinesas3. Reduziu pela metade os quadros da administração central, reformou o sistema tributário, forçou o fechamento ou a reestruturação de milhares de estatais deficitárias e negociou, ao longo de anos, a entrada da China na OMC, concluída em 20012.

O empresário canadense André Desmarais, presidente honorário do Conselho Empresarial Canadá-China, publicou no jornal La Presse um depoimento pessoal sobre décadas de convivência com o ex-premiê, a quem conheceu ainda em 1987, quando Zhu comandava Xangai e era praticamente desconhecido fora da China. No texto, Desmarais descreve um homem de curiosidade insaciável, capaz de interromper um jantar para perguntar, sem rodeios, quanto ganhava um executivo ocidental, e de definir esse valor como excessivo diante do salário de um operário comum4.

"O mundo vai lembrar de Zhu como um tecnocrata. Isso é verdade. Mas o que eu lembro é da sua dedicação e dos sacrifícios que ele exigia de si mesmo." André Desmarais, em depoimento ao jornal La Presse

Segundo o relato de Desmarais, durante as enchentes de 1998 (que deslocaram milhões de pessoas e mataram mais de 3 mil, segundo registros históricos do período) Zhu chegou atrasado a um encontro, exausto, recém-saído das áreas alagadas, e passou o tempo disponível falando sobre o que havia visto em vez de tratar de negócios4. É uma imagem que contrasta com a percepção externa do premiê como um técnico frio, obcecado por planilhas e metas fiscais.

Uma reforma que não coube em um manual

O que torna o legado de Zhu relevante para além da China é justamente sua natureza híbrida. Ele não privatizou o Estado chinês; ele o reorganizou. Entre 1998 e 2003, o governo separou a gestão das estatais dos ministérios setoriais, permitiu a entrada de capital privado em modelos de propriedade mista e concentrou recursos públicos nas empresas consideradas estratégicas, ao mesmo tempo em que liberou ou fechou milhares de companhias menores e deficitárias, prática conhecida como "agarrar as grandes, soltar as pequenas"5. O Estado encolheu em número de funcionários, mas não abriu mão do controle sobre os setores que considerava vitais: energia, telecomunicações, sistema financeiro, infraestrutura.

O resultado, décadas depois, é conhecido: a China tornou-se o maior destino de investimento estrangeiro direto do mundo pouco depois da adesão à OMC e consolidou-se como o principal polo manufatureiro global4. O custo social também foi real. Dezenas de milhões de trabalhadores perderam empregos em estatais falidas, sem uma rede de proteção equivalente à que existia em economias mais maduras, um trauma que ainda hoje molda parte da desconfiança popular chinesa em relação a reformas de mercado6.

Contraponto

Nem todos os analistas concordam que o legado de Zhu deva ser celebrado sem ressalvas. Editoriais recentes na imprensa asiática destacam que ele permaneceu, até o fim, um quadro disciplinado do Partido Comunista, comprometido com a manutenção do regime de partido único, e que sua agenda de convertibilidade plena do renminbi e integração total ao sistema financeiro global nunca se completou7. Outras análises apontam que a reestruturação das estatais, ao concentrar recursos em campeãs nacionais, também lançou as bases para vulnerabilidades que o sistema financeiro chinês carrega até hoje, incluindo o excesso de alavancagem em setores como o imobiliário8.

Sobre direitos humanos, Desmarais argumenta em seu depoimento que o critério não deveria se limitar às liberdades civis ocidentais, incluindo também o acesso a alimentação, moradia e desenvolvimento econômico básico4. É uma leitura defensável do ponto de vista do bem-estar material, mas que não substitui o debate sobre liberdades políticas e civis, que segue em aberto na China contemporânea.

O espelho brasileiro

É tentador comparar Zhu a Fernando Henrique Cardoso, contemporâneo que também enfrentou a tarefa de reorganizar as contas de um país recém-saído da instabilidade. Mas os caminhos divergiram de forma reveladora. Enquanto Pequim optou por modernizar e profissionalizar a gestão das estatais mantendo o controle estratégico do Estado, o Brasil, a partir dos anos 1990, apostou de forma mais ampla na privatização, com instrumentos como o Programa Nacional de Desestatização e, mais recentemente, a Lei das Estatais de 2016, que buscou profissionalizar a governança sem necessariamente preservar o controle público sobre setores considerados estratégicos9.

Trinta anos depois, os números falam por si. A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil, responsável por 27,2% de toda a corrente de comércio brasileira em 2025, num total recorde de US$ 171 bilhões movimentados entre os dois países, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços10. O Brasil registrou superávit de US$ 29,1 bilhões na relação bilateral, o maior entre todos os parceiros comerciais do país10. Ainda assim, a pauta exportadora brasileira para a China segue concentrada em commodities (soja, minério de ferro, petróleo), enquanto a China exporta ao Brasil produtos de maior valor agregado, do setor industrial a fármacos e veículos elétricos10.

O que o Brasil pode aprender com o caso chinês

  • Reforma administrativa com foco em eficiência, não apenas em corte. Zhu reduziu pela metade os quadros da administração central chinesa concentrando a máquina pública onde ela gerava mais resultado, e não distribuindo cortes de forma linear.
  • Diferenciar estatais estratégicas de estatais deficitárias. A política de "agarrar as grandes, soltar as pequenas" evitou que o debate sobre privatização virasse binário. Nem tudo precisa ser vendido, nem tudo precisa ser mantido do jeito que está.
  • Planejamento de longo prazo desacoplado do calendário eleitoral. A reforma das estatais chinesas levou mais de duas décadas de execução consistente, algo raro em democracias com ciclos eleitorais curtos, mas que aponta para a importância de políticas de Estado que sobrevivam a trocas de governo.
  • Agregar valor à pauta exportadora. Com quase um terço das exportações brasileiras concentradas em soja e minério para a China, o desafio brasileiro não é vender menos, mas diversificar o que vende, algo que a própria trajetória chinesa de industrialização sugere como caminho de desenvolvimento de longo prazo.
  • Rede de proteção social como parte do pacote de reforma. O custo humano do desemprego em massa provocado pelo fechamento de estatais chinesas é um alerta sobre a necessidade de programas de transição robustos sempre que reformas estruturais avançam.

Nenhuma dessas lições implica reproduzir o modelo chinês, que opera sob um regime de partido único incompatível com a democracia pluralista brasileira. Mas a disciplina de execução, a diferenciação estratégica entre o que o Estado deve controlar e o que pode transferir ao mercado, e a visão de longo prazo que caracterizaram a era Zhu seguem sendo, no mínimo, um contraponto útil ao debate público brasileiro sobre reforma do Estado.

Nota de atribuição: Este artigo se inspira no depoimento pessoal de André Desmarais sobre Zhu Rongji, publicado originalmente pelo jornal canadense La Presse em 17 de agosto de 2026, sob o título "L'homme qui a fait le travail". O texto original, em francês, não é reproduzido nem traduzido integralmente aqui; passagens específicas são citadas e atribuídas conforme indicado ao longo do texto. Leia o depoimento completo em: lapresse.ca.

Perguntas frequentes

Quem foi Zhu Rongji?

Zhu Rongji foi premiê da República Popular da China entre 1998 e 2003, sob a presidência de Jiang Zemin. Engenheiro de formação, ficou conhecido como o principal arquiteto das reformas econômicas chinesas dos anos 1990, incluindo a reestruturação das estatais e a entrada do país na Organização Mundial do Comércio.

Quando e como Zhu Rongji morreu?

Zhu Rongji morreu em Pequim em 12 de agosto de 2026, aos 97 anos, vítima de doença, segundo comunicado oficial do Partido Comunista da China divulgado pela agência estatal Xinhua.

Qual foi a principal reforma econômica liderada por Zhu Rongji?

Zhu liderou a reestruturação das empresas estatais chinesas, reduziu pela metade o quadro da administração central, reformou o sistema tributário e conduziu as negociações que levaram a China a ingressar na Organização Mundial do Comércio em 2001.

Qual a diferença entre a reforma das estatais na China e a privatização no Brasil?

A China modernizou a gestão de suas estatais mantendo o controle estratégico do Estado sobre setores considerados vitais, fechando ou consolidando apenas empresas menores e deficitárias. O Brasil, a partir dos anos 1990, seguiu um caminho mais amplo de privatização, com foco na redução da presença estatal direta na economia.

Qual o peso da China no comércio exterior brasileiro atualmente?

Em 2025, a China respondeu por 27,2% de toda a corrente de comércio exterior do Brasil, com US$ 171 bilhões movimentados entre os dois países, consolidando-se como o maior parceiro comercial brasileiro havia mais de uma década.

Ewerton Lopes · Curador Editorial, O Tecido