Um estudo alemão apresentado no fim de agosto no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, em Munique, reacendeu um debate que a cardiologia vinha tentando evitar desde que o público passou a trocar o açúcar por alternativas consideradas mais saudáveis. A pesquisa, conduzida por equipe do Hospital Charité, em Berlim, mostrou que pessoas com níveis mais altos de xilitol no sangue, o chamado "açúcar de bétula", têm risco substancialmente maior de sofrer infarto, AVC ou morte por causas cardiovasculares.1
O que mudouUm adoçante "natural" sob suspeita
O xilitol é um poliol, categoria de carboidratos com estrutura molecular parecida com a do açúcar comum, mas com menos calorias. É usado há décadas em gomas de mascar e balas sem açúcar, além de cremes dentais e enxaguantes bucais, justamente por dificultar a formação de cáries. Ao contrário dos edulcorantes artificiais como aspartame ou sucralose, que adoçam em doses ínfimas, os polióis precisam ser usados em quantidades maiores para produzir o mesmo efeito, o que os torna mais fáceis de rastrear no sangue e, segundo os pesquisadores, potencialmente mais relevantes do ponto de vista metabólico.2
Os dados apresentados em Munique vieram de duas coortes prospectivas de grande porte, o Canadian Longitudinal Study on Aging e o European Prospective Investigation into Cancer (EPIC)-Norfolk, somando mais de 17 mil participantes acompanhados por longos períodos. Pessoas no quartil mais alto de xilitol circulante apresentaram risco de eventos cardiovasculares maiores expressivamente superior ao daquelas no quartil mais baixo, com relação dose-dependente e resultado consistente entre diferentes faixas etárias e sexos.3
AntecedentesUma linha de evidências que já dura três anos
O achado alemão não nasce isolado. Desde 2023, um grupo da Cleveland Clinic liderado pelo cardiologista Stanley Hazen já vinha publicando resultados na mesma direção, primeiro com o eritritol, depois com o próprio xilitol. Em estudo publicado em 2024 no European Heart Journal, a equipe mostrou que pessoas com maior concentração de xilitol no sangue tinham risco praticamente dobrado de infarto, AVC ou morte em três anos, em uma coorte de mais de três mil pacientes avaliados por doença cardíaca.4
Além dos estudos observacionais, o grupo de Cleveland conduziu experimentos com voluntários saudáveis: ao ingerir uma solução com xilitol, os participantes apresentaram aumento imediato na capacidade de coagulação do sangue, o que não ocorreu quando ingeriram a mesma quantidade de glicose. Em laboratório, o composto tornou as plaquetas mais propensas a se agregar, mecanismo que está na origem de coágulos responsáveis por infartos e AVCs.4
CautelaO que os próprios pesquisadores pedem para não fazer
É significativo que os autores dos dois lados do Atlântico peçam moderação na leitura dos resultados. O estudo apresentado em Munique ainda não passou por revisão por pares nem foi publicado em periódico científico, condição que costuma preceder ajustes metodológicos antes da divulgação definitiva. Tanto o pesquisador berlinense Marco Witkowski quanto Hazen, em Cleveland, classificam os achados como associação estatística robusta, não como prova de causa e efeito.3
Contraponto
Estudos observacionais como estes mostram correlação, não causalidade comprovada. Pessoas que consomem mais produtos com xilitol podem diferir de outras formas relevantes para o risco cardiovascular, como padrão alimentar geral ou presença de diabetes, ainda que os pesquisadores tenham tentado ajustar estatisticamente essas variáveis. Hazen já havia recomendado, em entrevistas anteriores sobre o mesmo tema, que ninguém descarte o creme dental só por conter xilitol, e reforça que o uso ocasional em produtos de higiene bucal está em outra escala de exposição frente ao consumo de balas e bebidas adoçadas ao longo do dia.
Recorte localPor que isso interessa ao Brasil
O tema não é apenas uma curiosidade europeia ou norte-americana. O Brasil concentra hoje um dos maiores contingentes de pessoas com diabetes do mundo: a pesquisa Vigitel do Ministério da Saúde registrou 10,2% dos adultos das capitais brasileiras com diagnóstico da doença em 2023, proporção que segue subindo desde 2006 e que representa a população mais orientada, por médicos e nutricionistas, a substituir o açúcar por polióis como xilitol, eritritol e sorbitol.5
O uso desses adoçantes é autorizado no país pela Anvisa desde a RDC nº 18, de 2008, que também regula os limites de outros edulcorantes como sacarina e ciclamato. Não existe, até o momento, sinalização da agência sobre revisão dessa lista em função dos novos estudos, e a literatura científica brasileira ainda trata os polióis principalmente sob o ângulo do desconforto digestivo que provocam em excesso, não do risco cardiovascular.6
O pano de fundo cardiovascular brasileiro também ajuda a explicar por que o assunto merece atenção editorial. As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no país, responsáveis por cerca de 400 mil óbitos em 2022, segundo o estudo internacional Carga Global de Doenças. Somente o AVC matou 109,5 mil pessoas em 2023. Nesse contexto, qualquer fator de risco adicional, mesmo modesto na escala individual, ganha peso quando multiplicado pela dimensão da população exposta.7
Na práticaO que fazer com essa informação
Tardif, do Instituto de Cardiologia de Montreal, resume o risco observado no estudo alemão como comparável ao da obesidade, sem ser necessariamente maior. Para ele, a mensagem não é gerar pânico em torno das opções de substituição do açúcar, mas lembrar que a estratégia mais consistente continua sendo o padrão alimentar mediterrâneo, rico em frutas, vegetais e gorduras insaturadas, e não a troca isolada de um adoçante por outro.1
Hazen, por sua vez, aponta que o grupo de maior risco prático são as pessoas com diabetes, justamente por serem as mais propensas a consumir regularmente produtos com xilitol como alternativa ao açúcar comum. Sua recomendação direta é reduzir o consumo geral de açúcar e de seus substitutos, e não simplesmente deslocar o consumo de um tipo de adoçante para outro sem orientação profissional.4
Este artigo usa como ponto de partida a reportagem "Une alternative au sucre augmenterait le risque de maladies vasculaires", publicada por Mathieu Perreault no jornal canadense La Presse, com apuração complementar independente do Tecido junto a fontes científicas e institucionais brasileiras e internacionais. O conteúdo não reproduz nem traduz o texto original.
Perguntas frequentes
Xilitol faz mal à saúde cardiovascular?
Estudos observacionais recentes, incluindo um apresentado no Congresso Europeu de Cardiologia de 2026 e outros publicados pela Cleveland Clinic desde 2023, associam níveis sanguíneos elevados de xilitol a maior risco de infarto, AVC e morte cardiovascular. A relação ainda não foi comprovada como causal, e os próprios pesquisadores pedem cautela na interpretação.
Devo parar de usar creme dental ou goma de mascar com xilitol?
Pesquisadores da área não recomendam essa medida. O uso em produtos de higiene bucal envolve doses muito menores do que o consumo de balas, bebidas e alimentos adoçados ao longo do dia, que é o cenário de exposição estudado nas pesquisas com maior risco associado.
O xilitol é regulamentado no Brasil?
Sim. A Anvisa autoriza o uso de xilitol e de outros polióis como edulcorantes desde a Resolução RDC nº 18, de 2008. Não há, até o momento, sinalização pública da agência sobre revisão dessa autorização em razão dos estudos cardiovasculares recentes.
Qual a diferença entre xilitol e eritritol nesse debate?
Ambos são polióis e aparecem nos mesmos estudos da Cleveland Clinic, que encontrou mecanismos semelhantes de aumento da agregação plaquetária para os dois compostos. O eritritol foi associado ao risco cardiovascular em 2023, e o xilitol em estudos posteriores, incluindo o de 2026 apresentado em Munique.
Ewerton Lopes — Curador Editorial