Caderno Política · Relações internacionais

Nota de atribuição. Este texto parte da leitura crítica do artigo de opinião "Greater exchanges crucial for deepening trust between peoples", de Wang Lili, publicado pelo China Daily em 25 de setembro de 2026. Não se trata de tradução nem de reprodução. Os argumentos atribuídos à autora foram parafraseados e confrontados com fontes independentes.

Pela primeira vez desde 2015, Xi Jinping desembarcou em Washington para uma visita de Estado. Entre 23 e 25 de setembro, o presidente chinês e a primeira-dama Peng Liyuan foram recebidos por Donald Trump, em retribuição à viagem que o americano fez a Pequim em maio.[8] Foi o terceiro encontro presencial entre os dois em onze meses, segundo o Council on Foreign Relations, e o segundo de quatro previstos para 2026.[8]

Enquanto a cúpula acontecia, o jornal estatal chinês China Daily publicava um artigo de opinião de Wang Lili, professora da Universidade Renmin da China, defendendo que a estabilidade entre as duas potências depende menos de acordos entre chefes de Estado e mais da confiança construída entre as sociedades.[1] A tese merece atenção, e também escrutínio. Os números de opinião pública ajudam a entender até onde ela se sustenta.

Uma cúpula de símbolos

O saldo concreto da visita foi modesto. A CNBC resumiu o encontro como centrado no espetáculo, e não na substância.[6] Em análise publicada nesta segunda-feira, a mesma emissora observou que os comunicados dos dois países coincidiram em poucos pontos, entre eles a intenção de Trump e Xi de comparecerem à reunião da APEC em Shenzhen, em novembro, e ao G20 de Miami, em dezembro.[6] A trégua tarifária firmada em Busan no ano passado ganhou uma prorrogação de apenas dois meses.[6]

Os gestos de maior visibilidade foram justamente de diplomacia entre sociedades. Na Casa Branca, Xi anunciou, conforme relatou The Hill, a doação de dois pandas-gigantes e convites para que 100 mil estudantes americanos estudem na China ao longo de cinco anos.[7] Temas duros ficaram à margem do noticiário oficial: Trump teria dito a Xi que é inaceitável qualquer ajuda chinesa ao Irã na guerra em curso, segundo a CBS News, e o comunicado chinês mencionou o Oriente Médio sem citar o conflito.[6]

O argumento do China Daily

O texto de Wang Lili parte de uma distinção simples: as relações oficiais garantem estabilidade estratégica, mas é a confiança social que confere resiliência a elas.[1] Para a autora, redes permanentes entre universidades, centros de pesquisa e empresas, em temas como clima, saúde pública e ética da inteligência artificial, funcionariam como lastro quando as relações entre governos atravessam turbulência.[1]

A professora propõe que Washington restaure canais institucionais de intercâmbio, facilite vistos para estudantes e pesquisadores chineses e preserve como apolítica a cooperação em ciência básica, publicações acadêmicas, comunidades de código aberto e definição de padrões técnicos.[1] Ela também destaca a rede subnacional: segundo o artigo, os dois países somam 50 pares de províncias e estados-irmãos e 238 pares de cidades-irmãs, laços que poderiam atravessar os ciclos políticos federais.[1]

O ponto mais interessante do texto, porém, é uma concessão. A própria autora reconhece que a melhora recente na imagem da China nos Estados Unidos é mais uma recuperação a partir do fundo do poço do que uma mudança estrutural.[1] Os dados independentes confirmam essa leitura.

Confiança entre sociedades não se decreta em jantar de Estado. Ela se mede, devagar, em pesquisas de opinião.

O que dizem as pesquisas americanas

Em levantamento feito entre 23 e 29 de março de 2026, o Pew Research Center encontrou 27% de americanos com opinião favorável sobre a China, alta de seis pontos em um ano e quase o dobro do registrado em 2023.[2] O ponto mais baixo foi justamente 2023, com 14% de visões favoráveis e 83% desfavoráveis, conforme o Axios.[13] Hoje, 71% ainda veem o país de forma negativa.

A mudança mais nítida está na forma de enquadrar a relação. A parcela de americanos que chama a China de inimiga caiu de 42% em 2024 para 28% em 2026, e a maioria agora a descreve como competidora, segundo compilação da ReThink Media.[10] Uma segunda sondagem do Pew, realizada de 14 a 20 de setembro, na véspera da cúpula, mostrou que a fatia de adultos com sentimento caloroso em relação à China passou de 11% em 2021 para 19%.[3]

Há um recorte geracional e partidário relevante. O aquecimento é puxado por democratas, que têm opinião favorável em proporção quase duas vezes maior que republicanos (34% contra 18%).[13] Mas mesmo no Partido Republicano a idade pesa: em janeiro, 32% dos republicanos mais jovens descreviam a China como inimiga, contra 55% dos mais velhos.[10] É esse dado que sustenta a aposta de Wang Lili nos diálogos entre jovens líderes dos dois países.[1]

Os limites da tese

O artigo do China Daily trata a desconfiança americana sobretudo como produto de polarização política, ansiedade hegemônica e narrativas que demonizam a China.[1] A explicação é incompleta. Parte relevante da resistência nos Estados Unidos se apoia em preocupações concretas com segurança, e o próprio ambiente da visita ilustrou como a confiança também depende de liberdade de imprensa e reciprocidade.

Um episódio da cúpula é revelador. Segundo a CNBC, jornalistas de CNN, MS NOW e Politico foram barrados na Casa Branca mesmo após decisão judicial que determinava a restauração do acesso, enquanto veículos estatais chineses tiveram entrada autorizada.[6] A cena expõe um paradoxo: a diplomacia entre povos pressupõe circulação livre de informação, algo que nenhum dos dois governos garante plenamente.

Contraponto

Laços locais como vetor de influência

Nos Estados Unidos, a proposta de ampliar parcerias subnacionais encontra oposição organizada. Levantamento da agência AP publicado pelo U.S. News identificou ao menos 240 propostas estaduais voltadas contra a China, incluindo restrições a relações de cidades-irmãs, como a lei do Arkansas que atingiu Little Rock.[11] Na Câmara, os deputados Elise Stefanik e John Moolenaar apresentaram projeto para encerrar a parceria entre Washington e Pequim, argumentando que esses laços são geridos pelo Departamento de Trabalho da Frente Unida, órgão que classificam como braço de influência do Partido Comunista Chinês.[12]

Há também críticos dessas restrições. A mesma reportagem da AP registra especialistas para quem as medidas estaduais têm efeito limitado sobre a China e podem sacrificar intercâmbios legítimos, embora reconheçam preocupações válidas com ciberataques e dependência de equipamentos chineses em infraestrutura crítica.[11] O debate, portanto, não opõe ingênuos a desconfiados: opõe diferentes cálculos sobre quanto risco vale a pena correr em troca de canais de contato.

E o Brasil nessa equação

A discussão tem eco direto no país. A pesquisa do Pew com brasileiros, divulgada em 22 de setembro, mostra que a relação com os dois maiores parceiros comerciais é um dos temas em jogo na eleição de 4 de outubro, disputada, entre outros, pelo presidente Lula e pelo senador Flávio Bolsonaro.[4] Segundo o levantamento, 47% dos brasileiros têm opinião favorável sobre os Estados Unidos e 46% sobre a China, um empate que não existia há dois anos.[4]

% de brasileiros com opinião favorável EUA China 40 60 63 39 64 45 56 51 47 46 2023 2024 2025 2026
Fonte: Pew Research Center, pesquisas de primavera (hemisfério norte) com adultos brasileiros. Levantamento de 2026 feito entre 20 de fevereiro e 15 de abril, com 1.054 entrevistados.

O empate esconde uma divisão acentuada. Entre os brasileiros que se posicionam à esquerda, 57% veem a China com bons olhos, contra 40% dos que se dizem de direita. Com os Estados Unidos ocorre o inverso: 30% à esquerda e 58% à direita.[4] A confiança nos líderes é baixa dos dois lados: 30% confiam em Trump para agir corretamente nos assuntos mundiais e 22% em Xi.[4]

No Brasil, a geração também pesa, mas de forma diferente da americana. Segundo o relatório do Pew sobre a América Latina, cerca de seis em cada dez brasileiros com menos de 35 anos têm opinião positiva sobre os dois países, contra cerca de quatro em cada dez entre os que têm 50 anos ou mais.[5] Ou seja, o jovem brasileiro não escolhe lado: tende a ver as duas potências como parceiras possíveis.

O pragmatismo tem base material. De acordo com análise do Inter-American Dialogue, que cita dados do Conselho Empresarial Brasil-China, as exportações brasileiras para a China bateram recorde de US$ 58,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, com uma pauta ainda concentrada em matérias-primas.[9] O mesmo texto registra que 76% dos brasileiros acreditam que os Estados Unidos interferem nos assuntos de outros países, contra 50% que dizem o mesmo da China.[9]

Para o Brasil, a lição do debate sino-americano é dupla. A diplomacia entre povos rende confiança quando se apoia em interesses concretos, como comércio, ciência e educação. Mas ela não substitui a política externa de Estado, e a eleição de outubro vai definir com qual das duas potências o próximo governo pretende aprofundar laços, num eleitorado que avalia ambas de forma quase idêntica.

O que observar a partir de agora

O calendário oferece testes objetivos para a tese de Wang Lili. O primeiro é a implementação do programa de 100 mil estudantes, que dependerá de interesse real das universidades e famílias americanas. O segundo são os encontros na APEC de Shenzhen e no G20 de Miami, onde a trégua tarifária de dois meses terá de ser renegociada. O terceiro é a próxima rodada de pesquisas do Pew: se a recuperação de imagem continuar mesmo sem acordos substantivos, a confiança social terá mostrado alguma autonomia em relação à política de governo. Se recuar, o argumento de que ela funciona como lastro perderá força.

Perguntas frequentes

O que é diplomacia entre povos?

É o conjunto de contatos entre sociedades que ocorre fora dos canais oficiais de governo, como intercâmbio de estudantes, cooperação acadêmica, parcerias entre cidades-irmãs, câmaras de comércio e trocas culturais. A ideia é criar confiança social que funcione como amortecedor quando as relações entre governos se deterioram.

Quais foram os resultados da visita de Xi Jinping aos EUA?

Poucos resultados concretos. Xi anunciou dois pandas-gigantes e convites para 100 mil estudantes americanos estudarem na China em cinco anos. Os líderes confirmaram novos encontros na APEC, em novembro, e no G20, em dezembro, e a trégua tarifária foi prorrogada por dois meses.

A opinião dos americanos sobre a China melhorou?

Sim, mas a partir de um patamar muito baixo. A visão favorável chegou a 27% em março de 2026, quase o dobro de 2023, e a parcela que vê a China como inimiga caiu de 42% para 28% entre 2024 e 2026. Ainda assim, 71% mantêm opinião desfavorável.

Como os brasileiros veem China e Estados Unidos?

Estão empatados: 47% têm opinião favorável dos EUA e 46% da China, segundo o Pew. A esquerda tende a avaliar melhor a China, e a direita, os Estados Unidos. Entre os mais jovens, a visão positiva sobre ambos é mais comum.

Por que ler o artigo do China Daily com cautela?

Porque é um texto de opinião publicado por um jornal estatal chinês. Ele usa dados verificáveis, mas atribui a desconfiança americana principalmente a narrativas hostis, sem discutir as preocupações de segurança levantadas por legisladores dos Estados Unidos.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido