Política · Geopolítica · Oriente Médio

23 de outubro de 2026 · Leitura de 9 minutos

Nota de origem. Este texto parte da entrevista concedida pelo embaixador americano na ONU, Mike Waltz, à repórter Abigail Hauslohner, do Financial Times. O conteúdo original não é reproduzido nem traduzido; as informações atribuídas ao FT estão creditadas, e a análise foi ampliada com fontes independentes e com o contexto brasileiro.

Quando a guerra contra o Irã começou, em 28 de fevereiro, o presidente Donald Trump falou em quatro ou cinco semanas de operações. O conflito se aproxima agora do nono mês, e a mensagem que vem de Washington mudou de natureza. Em entrevista ao Financial Times, o embaixador dos Estados Unidos na ONU, Mike Waltz, admitiu que daqui a um ano o país ainda pode estar preso a um impasse com Teerã, sem acordo sobre o programa nuclear e sem a volta da navegação de antes da guerra pelo Estreito de Ormuz.1

A frase importa menos pelo que prevê e mais pelo que normaliza. Waltz evitou cravar cenários, disse esperar que o Irã negocie "de forma significativa" antes disso e garantiu que o governo está apertando a pressão econômica. Mas, ao afirmar que a Marinha pode sustentar o bloqueio aos portos iranianos por tempo indeterminado, ele transforma o que era apresentado como etapa intermediária em política de longo prazo. A estratégia deixa de ser vencer rápido e passa a ser esperar mais do que o adversário.1

Da promessa de semanas à admissão de um impasse

O caminho até aqui ajuda a entender por que o discurso mudou. Depois dos bombardeios iniciais, que mataram o líder supremo Ali Khamenei, o Irã fechou Ormuz. Um cessar-fogo de duas semanas em abril não se sustentou, e em 13 de abril Washington impôs o primeiro bloqueio naval aos portos iranianos, logo após o fracasso das conversas de Islamabad, segundo o histórico compilado sobre a operação.2 Um memorando de entendimento em junho chegou a derrubar o preço do petróleo, mas a trégua ruiu e o bloqueio voltou em 14 de julho.

Mesmo durante o acordo interino, a normalidade nunca voltou. Segundo a AGBI, o tráfego pelo estreito ficou em cerca de um terço do volume anterior à guerra.3 Em setembro, o Wall Street Journal relatou que conselheiros alertaram Trump de que a guerra poderia se estender até 2029, informação repercutida pela agência eixos.4 A entrevista de Waltz é, portanto, menos uma revelação do que uma confissão pública do que já circulava nos bastidores.

"O presidente e a Marinha dos EUA podem manter este bloqueio no futuro previsível."

Mike Waltz, embaixador dos EUA na ONU, ao Financial Times (tradução livre)

O bloqueio como política, não como ponte

O bloqueio tem resultados mensuráveis. Em 16 de outubro, o almirante Brad Cooper, comandante do Comando Central dos EUA, afirmou que a medida interrompeu cerca de US$ 25 bilhões em exportações de petróleo iraniano, com impacto sobre as finanças da Guarda Revolucionária e sobre o pagamento de aliados regionais de Teerã.2 É esse o argumento central de Washington: asfixiar a receita até que o custo de resistir supere o custo de ceder.

O problema é que asfixia econômica raramente produz rendição política em prazo previsível. O Irã tem fronteiras terrestres extensas e já disse publicamente que pode contornar o cerco por elas, como registrou o Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Fudan.5 Há também uma fricção jurídica: quando Trump sugeriu cobrar 20% sobre cargas que cruzam Ormuz em troca de "proteção", a Organização Marítima Internacional respondeu que não existe base legal para pedágios obrigatórios em estreitos de navegação internacional, conforme a Baird Maritime.6

O mercado, por sua vez, já começou a precificar um mundo em que Ormuz deixa de ser confiável. O Goldman Sachs estima que a expansão de oleodutos no Oriente Médio pode proteger mais de 60% das exportações de petróleo do Golfo de futuras interrupções até o fim de 2028, segundo a Reuters, via BusinessDay.7 Quando a infraestrutura global começa a ser redesenhada para conviver com um bloqueio, é sinal de que ninguém aposta em desfecho rápido.

0 60 120 ~70125+797287 Pré-guerrafev/26 30 abrpico 16 juntrégua 3 julacordo interino 17 jul2º bloqueio Brent, US$ por barril, em momentos-chave da guerra
Valores aproximados de fechamento ou cotação no dia, compilados a partir de despachos da Associated Press, Al Jazeera e Transport Topics. O gráfico não representa série contínua.

Três relógios: Washington, Jerusalém e Teerã

A entrevista ocorre num momento em que três calendários se sobrepõem. O primeiro é o americano: as eleições de meio de mandato acontecem em 3 de novembro, e a alta dos combustíveis pesa sobre os republicanos. O segundo é o israelense: o país vai às urnas em 27 de outubro, e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu voltou a defender a retomada da ofensiva. De acordo com reportagem do próprio FT, repercutida pelo jornal catalão Ara, Netanyahu teria mandado preparar uma nova campanha no início de outubro, contida pela recusa de Trump em reabrir a guerra antes das eleições americanas.8

O terceiro relógio é o de Teerã, e é justamente o que Washington não controla. Uma estratégia de cerco funciona quando o lado sitiado se cansa primeiro. Mas o governo iraniano tem incentivos para apostar que o desgaste interno americano, somado às divergências entre Trump e Netanyahu, chegará antes do colapso de suas finanças. A combinação de ameaças de nova ofensiva após 3 de novembro e de um bloqueio sem prazo cria, assim, uma janela de alta volatilidade nas próximas semanas.

O que o cerco custa ao Brasil

Para o Brasil, a duração do impasse não é tema abstrato. O país é exportador de petróleo cru, mas importador de diesel e de fertilizantes, e é por essas duas portas que a guerra entra na economia doméstica. Segundo estudo do Policy Center for the New South, Irã, Catar, Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes responderam por 36% das importações brasileiras de ureia em 2025, e o preço do insumo no país subiu 35% só nas primeiras semanas de março.9

O calendário agrícola agrava o problema. A janela de plantio da safra de verão, que concentra a demanda por nitrogenados, coincide com o período em que o bloqueio segue sem horizonte. Análise do CGIAR/IFPRI, citando pesquisadores da North Dakota State University, projetava que uma interrupção de Ormuz até o fim de 2026 reduziria em 27,3% as importações brasileiras de ureia entre abril de 2026 e março de 2027.10 Menos adubo aplicado hoje significa risco de produtividade menor na colheita de 2027, com efeito sobre exportações e preços de alimentos.

No diesel, o governo federal já recorreu a instrumentos fiscais. O Decreto nº 12.875/2026 zerou PIS/Cofins sobre o combustível, e a Medida Provisória nº 1.340/2026 criou uma subvenção por litro a produtores e importadores, conforme levantamento da Fundação Perseu Abramo sobre nota técnica do Dieese.11 São medidas desenhadas para um choque temporário. Se a própria diplomacia americana passa a tratar o impasse como horizonte de um ano, a pergunta sobre o custo fiscal de manter esses amortecedores deixa de ser hipotética. Ainda em março, um relatório citado pela BBC News Brasil, via A Gazeta, estimava que um petróleo estabilizado perto de US$ 100 levaria o IPCA de 2026 de 3,8% para quase 5%.12

Itamaraty entre o BRICS e Washington

O prolongamento também estreita o espaço diplomático do Brasil. No dia dos primeiros ataques, o Itamaraty condenou a ofensiva, pediu respeito ao direito internacional e "máxima contenção" e defendeu a negociação como único caminho para a paz, segundo a Agência Brasil. A nota foi criticada pelo senador Flávio Bolsonaro, para quem o país se colocou "do lado errado", o que levou o tema para dentro da disputa eleitoral doméstica.13

O dilema é estrutural. O Brasil mantém com o Irã uma corrente de comércio de cerca de US$ 3 bilhões por ano e, ao mesmo tempo, conduz negociações tarifárias sensíveis com os Estados Unidos. Para o professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da USP, ouvido pelo Movimento Econômico, a entrada do Irã no BRICS força o Itamaraty a buscar uma posição que não seja abertamente contrária a nenhum dos dois lados.14 Uma guerra curta permitiria administrar essa ambiguidade. Um cerco de um ano a transforma em teste contínuo, com cada votação na ONU e cada cúpula do BRICS cobrando definição.

Contraponto

O argumento a favor do cerco

Defensores da estratégia americana sustentam que o bloqueio é a forma menos letal de pressão disponível: reduz receitas do regime sem novos bombardeios, já cortou bilhões em exportações e enfraquece o financiamento de grupos aliados de Teerã. Nessa leitura, a paciência é a própria arma, e a admissão de Waltz sinaliza a Teerã que esperar não trará alívio.

O argumento contra

Críticos apontam que sanções e cercos raramente produzem concessões nucleares por si sós, que o Irã dispõe de rotas terrestres e de apoio externo, e que o custo é distribuído por toda a economia global, inclusive países sem envolvimento no conflito. Para eles, um impasse aceito como política tende a se perpetuar e a manter aberta a porta para uma nova escalada militar.

O que observar nas próximas semanas

  • 27 de outubro: o resultado da eleição israelense indicará se Netanyahu terá força política para pressionar por uma nova ofensiva.
  • 3 de novembro: as eleições de meio de mandato definem quanto espaço Trump terá para sustentar uma guerra impopular, ou para escalá-la.
  • Preço da ureia e do diesel no Brasil: a evolução nas próximas semanas mostrará se os amortecedores fiscais aguentam um horizonte de meses, não de semanas.
  • Votações na ONU e agenda do BRICS: são os momentos em que a ambiguidade do Itamaraty será testada em público.

A entrevista de Mike Waltz encerra, na prática, a fase em que se discutia quando a guerra acabaria. A pergunta agora é quem suporta por mais tempo o custo de não acabá-la. Para o Brasil, que não é parte do conflito, a resposta chega pelo preço do adubo, pela conta do diesel e pela margem cada vez menor de uma diplomacia que pretende falar com todos.

Perguntas frequentes

O que Mike Waltz disse ao Financial Times sobre o Irã?

Ele reconheceu que, daqui a um ano, os EUA ainda podem estar num impasse com o Irã, sem acordo nuclear e sem a volta da navegação normal em Ormuz. Afirmou que a Marinha pode manter o bloqueio por tempo indeterminado e que a pressão econômica está sendo reforçada.

Desde quando os EUA bloqueiam os portos do Irã?

O primeiro bloqueio começou em 13 de abril de 2026 e foi suspenso em junho, com um acordo interino. O segundo foi imposto em 14 de julho de 2026 e segue em vigor.

Como a guerra no Irã afeta o Brasil?

Principalmente por três vias: fertilizantes, já que países do Golfo responderam por 36% da ureia importada em 2025; diesel, do qual cerca de um quarto do consumo é importado; e inflação, pela alta do petróleo. Há também um efeito diplomático, porque o Irã integra o BRICS.

Qual é a posição do governo brasileiro?

O Itamaraty condenou os ataques de fevereiro, pediu respeito ao direito internacional e máxima contenção, e defende a negociação como único caminho. A oposição critica a postura e defende maior distância do conflito.

O bloqueio naval está funcionando?

O Comando Central dos EUA afirma que interrompeu cerca de US$ 25 bilhões em exportações de petróleo iraniano. Mas Teerã não aceitou os termos americanos, e o custo global em combustíveis e fertilizantes segue alto.