CADERNO TECNOLOGIA

Dez anos atrás, a bolsa australiana prometia usar blockchain para revolucionar seus sistemas de negociação. O projeto naufragou em erros de software, gestão desorganizada e um prejuízo de US$ 170 milhões, além de uma multa de US$ 14,5 milhões por informações enganosas a investidores. Hoje, esse fracasso parece um detalhe distante. Bancos, gestoras e bolsas ao redor do mundo voltaram a apostar pesado na tecnologia, e desta vez o Brasil não está apenas assistindo de fora.

Segundo reportagem do Financial Times, o apetite de Wall Street mudou de patamar porque os reguladores mudaram de postura. Nos Estados Unidos, a gestão de Donald Trump adotou uma linha de incentivo ao setor de criptoativos, colocando à frente da SEC um ex-dirigente de associação cripto, e o Congresso avança com leis que tratam de stablecoins e da estrutura de mercado para ativos digitais. O resultado é que executivos como Jamie Dimon, do JPMorgan, e Larry Fink, da BlackRock, passaram a tratar publicamente a tokenização (transformar ações, títulos, imóveis e dinheiro em versões digitais negociáveis 24 horas por dia) como o próximo grande salto tecnológico do sistema financeiro, comparável à chegada da internet aos bancos.

O Brasil entrou na corrida

Enquanto Wall Street acelera, o mercado brasileiro monta sua própria estrutura regulatória, com uma diferença importante: aqui a tokenização já é realidade concreta, não apenas discurso. Levantamentos do RWA Monitor mostram que o país soma, desde 2012, R$ 13,55 bilhões em ativos tokenizados emitidos, sendo que só nos primeiros meses de 2026 foram lançados 684 novos ativos, movimentando R$ 6,87 bilhões até julho. O crescimento passou de casos de nicho para operações que incluem debêntures, notas comerciais, recebíveis de saúde e créditos de carbono.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tenta correr atrás desse avanço. Em julho, o presidente da autarquia, Otto Lobo, assinou a Portaria CVM/PTE 177, criando um Grupo de Trabalho de Tokenização (GTT) com representantes de 14 áreas internas. A missão é entregar, em até 60 dias, o desenho de um regime regulatório experimental cobrindo registro, depósito, custódia, negociação e liquidação de valores mobiliários tokenizados. Em paralelo, a Anbima já testa a aplicação prática de tecnologia de registro distribuído no mercado de capitais por meio de um projeto-piloto com 51 entidades participantes.

"A tokenização deixou de ocupar um espaço experimental e passou a se posicionar como infraestrutura complementar ao mercado de capitais." Rodrigo Caggiano, fundador do RWA Monitor

A B3 também escolheu não ficar de fora. A bolsa brasileira planeja lançar, no segundo semestre de 2026, uma plataforma própria de tokenização, começando pela integração de ações digitais. Segundo Humberto Costa, executivo da companhia, a estratégia é a B3 atuar como camada de liquidação, registro e integração entre participantes do mercado, sem assumir funções típicas de bancos ou emissores de moeda. A bolsa também participa de sandboxes regulatórios e de fóruns ligados ao Drex, o projeto do Banco Central que originalmente nasceu como moeda digital oficial.

O recuo estratégico do Drex

Justamente o Drex ilustra um contraste interessante com o entusiasmo americano descrito pelo Financial Times. Depois de anos testando uma rede de registro distribuído baseada em Hyperledger Besu, compatível com contratos inteligentes no padrão Ethereum, o Banco Central decidiu adiar o uso de blockchain pública na primeira entrega do projeto. A prioridade passou a ser resolver um problema mais imediato: a reconciliação de gravames, que permite usar um mesmo ativo como garantia de crédito mesmo quando ele está registrado em instituições diferentes. A entrega dessa primeira fase, sem blockchain, está prevista para o segundo semestre de 2026, com a maturação de tecnologias de registro distribuído e privacidade projetada para mais adiante.

Especialistas do setor, como Marcos Viriato, da Parfin, apontam que a criptografia homomórfica testada nos pilotos aumentava em até 50 vezes a complexidade computacional das operações, inviabilizando o uso em tempo real. Na prática, o Banco Central optou por uma arquitetura centralizada nesta primeira etapa, deixando a hibridização com blockchain para uma fase posterior, à medida que a tecnologia amadurece.

Os riscos que o entusiasmo não apaga

O otimismo, no entanto, não elimina os alertas. O FMI advertiu, em julho, que em sistemas baseados em blockchain as falhas podem se espalhar mais rápido do que instituições ou supervisores conseguem reagir, já que riscos antes concentrados no balanço de uma única instituição passam a se acumular nas plataformas e nos códigos que governam as transações tokenizadas. O Banco Central Europeu fez alerta semelhante, destacando que a automação de ações corporativas e chamadas de margem pode ampliar riscos sistêmicos justamente por remover a discricionariedade humana em momentos de pânico.

Há também o risco de infraestrutura. Segundo a empresa de segurança Blockaid, citada pelo Financial Times, projetos baseados em Ethereum perderam US$ 332 milhões em ataques hackers só no primeiro semestre de 2026, o maior volume entre todas as blockchains monitoradas. E há o risco jurídico: quando a corretora americana Robinhood vendeu tokens referenciados a ações da OpenAI, a própria empresa veio a público esclarecer que os tokens não representavam participação acionária nem eram endossados por ela, um episódio que expôs a fragilidade de estruturas que prometem replicar ações sem oferecer os mesmos direitos econômicos ou de voto.

Contraponto

A favor: defensores da tokenização argumentam que contratos inteligentes eliminam intermediários, reduzem custos de liquidação de dias para minutos e permitem que ativos como fundos de renda fixa paguem rendimentos todos os dias, inclusive fins de semana e feriados, algo impossível nos wrappers financeiros tradicionais.

Contra: críticos, como a professora de direito Hilary Allen, da American University, argumentam que a automação total remove a "graça e a discricionariedade" que um operador humano aplicaria em momentos de estresse de mercado, e que colocar produtos financeiros tradicionais sobre redes públicas sem responsabilidade operacional clara é motivo de preocupação genuína.

O que vem pela frente

No Brasil, o desenho regulatório da CVM deve avançar nos próximos meses, com prazo de 120 dias (prorrogável por mais 30) para que o GTT entregue seu relatório final ao colegiado. Enquanto isso, a expectativa do mercado, segundo o RWA Monitor, é que fundos de investimento, ações listadas e stablecoins referenciadas ao real se tornem os próximos grandes impulsionadores da tokenização nacional, seguindo o caminho já trilhado por debêntures e recebíveis.

A pergunta que fica, tanto em Wall Street quanto na Faria Lima, é se a infraestrutura regulatória e tecnológica vai amadurecer na mesma velocidade do entusiasmo dos executivos. Como resume o próprio Financial Times, o maior risco talvez não seja o colapso de um sistema, mas a distração coletiva com promessas que não se concretizam.

Este artigo foi inspirado na reportagem "Wall Street learns to love blockchain", publicada pelo Financial Times em agosto de 2026, com apuração e dados adicionais sobre o mercado brasileiro pela equipe de O Tecido. Reportagem original: ft.com/content/7600731b-4f7f-4d38-a478-3196c565a880

Números-chave

R$ 13,55 bi em ativos tokenizados emitidos no Brasil desde 2012 (RWA Monitor)
R$ 6,87 bi movimentados só em 2026, até julho, em 684 novos ativos
US$ 332 mi perdidos em ataques a projetos Ethereum no 1º semestre de 2026 (Blockaid)
US$ 300 bi+ em stablecoins em circulação globalmente

Linha do tempo

  • 2016Bolsa australiana anuncia (e depois abandona) projeto de blockchain, com prejuízo de US$ 170 milhões.
  • Jul/2026CVM cria o Grupo de Trabalho de Tokenização (GTT) via Portaria CVM/PTE 177.
  • 2º sem/2026B3 planeja lançar plataforma própria de tokenização de ações.
  • 2º sem/2026Banco Central entrega primeira fase do Drex sem uso de blockchain pública.
  • Out/2026DTCC, nos EUA, lança versões tokenizadas de ativos que custodia.

Glossário

Tokenização
Conversão de um ativo (ação, título, imóvel, dinheiro) em uma representação digital negociável em blockchain.
Contrato inteligente
Código que executa ações automaticamente quando certas condições são cumpridas, como o pagamento de um dividendo.
Stablecoin
Criptomoeda cujo valor é atrelado 1:1 a uma moeda soberana, como o dólar ou o real.
Drex
Projeto do Banco Central do Brasil, hoje redirecionado para tokenização de ativos e garantias de crédito.

Referências

  1. Financial Times, "Wall Street learns to love blockchain" — ft.com
  2. Finsiders Brasil, sobre volume de tokenização no Brasil — finsidersbrasil.com.br
  3. Let's Money, sobre a Portaria CVM/PTE 177 e o GTT — letsmoney.com.br
  4. Exame, sobre a plataforma de tokenização da B3 — exame.com
  5. Seu Dinheiro, sobre a reformulação do Drex — seudinheiro.com
  6. DeFin Insights, sobre Drex e crédito tokenizado — defin.global