2 de setembro de 2026
Caderno Saúde · O Tecido

Você respira a gordura que perde — e a ciência prova isso

Contrariando médicos, nutricionistas e o senso comum, pesquisa mostra que 84% da massa da gordura eliminada ao emagrecer sai pelos pulmões, na forma de dióxido de carbono.

24 de maio de 2026·Ciência & Saúde

Quando alguém emagrece, para onde vai a gordura? A resposta que a maioria das pessoas dá — inclusive muitos profissionais de saúde — está errada. E a resposta correta é, ao mesmo tempo, surpreendente e elegante: a maior parte da gordura perdida sai pelo pulmão, na forma de dióxido de carbono.

A revelação não é nova, mas continua pouco conhecida. Em 2014, o físico e comunicador científico australiano Ruben Meerman e o professor Andrew Brown, da Universidade de Nova Gales do Sul, publicaram no British Medical Journal um estudo que deveria ter mudado para sempre a forma como entendemos o emagrecimento. A repercussão, porém, ficou muito aquém do esperado — e o equívoco persiste.

A gordura não "vira" energia

O senso comum diz que, quando emagrecemos, a gordura se transforma em energia ou calor. Essa ideia, além de incompleta, viola um princípio fundamental da física: a conservação da massa. A matéria não desaparece — ela muda de forma.

Para entender o que realmente acontece, é preciso conhecer a molécula central do processo: o triglicerídeo. É sob essa forma que o corpo armazena gordura nas células adiposas. Um triglicerídeo é composto apenas por três tipos de átomos: carbono, hidrogênio e oxigênio.

Quando o organismo precisa usar essa reserva como combustível, realiza um processo chamado oxidação: o triglicerídeo reage com o oxigênio inalado e se decompõe. O resultado são duas substâncias: dióxido de carbono (CO₂) e água (H₂O). Nada some — tudo é contabilizado.

A equação química que descreve esse processo é conhecida desde os anos 1940:

C₅₅H₁₀₄O₆ + 78 O₂ → 55 CO₂ + 52 H₂O + energia

O que Meerman fez — e ninguém havia feito antes — foi calcular as massas envolvidas nessa reação. Os números são reveladores.

Os pulmões: o principal órgão do emagrecimento

Para cada 10 kg de gordura oxidada, o corpo produz:

  • 8,4 kgde CO₂ — eliminados pela respiração
  • 1,6 kgde H₂O — eliminados pela urina, suor, lágrimas e expiração

84% da massa da gordura perdida sai literalmente pela boca e pelo nariz, a cada expiração. Os pulmões são, portanto, o principal órgão excretor no processo de emagrecimento — não os rins, não o intestino.

Para que essa oxidação ocorra, o organismo precisa inalar cerca de 29 kg de oxigênio para cada 10 kg de gordura queimada. Por isso, o peso total de gás expelido é muito maior do que o da gordura em si: são aproximadamente 28 kg de CO₂ produzidos nesse processo.

O erro dos profissionais de saúde

Meerman foi além da equação e fez uma pesquisa com 150 médicos de família, nutricionistas e personal trainers. Perguntou a cada um: para onde vai a gordura quando alguém emagrece?

A grande maioria respondeu que ela se transforma em energia ou calor. Apenas 5% dos nutricionistas deram a resposta correta: CO₂ e água. Cerca de 30% dos médicos marcaram "outros" — sugerindo alguma intuição sobre a conservação da massa, mas sem clareza sobre o mecanismo.

"Muitas pessoas, incluindo profissionais de saúde, acreditam que a gordura perdida durante uma dieta se transforma apenas em energia ou calor."— Ruben Meerman, físico e comunicador científico

O equívoco não é trivial: ele diz muito sobre como a bioquímica básica ainda não chegou à prática clínica cotidiana, e pode alimentar expectativas irreais sobre dietas e tratamentos.

Respirar mais emagrece?

⚠ Atenção

Hiperventilação não aumenta a oxidação da gordura. Apenas altera o equilíbrio de CO₂ no sangue, podendo causar tontura e outros efeitos indesejados. O que importa é a quantidade de triglicerídeos sendo oxidada — e isso depende do balanço entre calorias consumidas e gastas.

O que o exercício físico faz é justamente aumentar a taxa metabólica — e, com ela, a quantidade de gordura oxidada e, portanto, de CO₂ expirado. Uma hora de corrida, por exemplo, eleva em cerca de 20% a quantidade de carbono eliminada ao longo do dia em comparação ao repouso total.

O cotidiano invisível do emagrecimento

Uma pessoa de 70 kg em repouso expira cerca de 200 ml de CO₂ a cada 12 respirações por minuto. Ao longo de um dia, são cerca de 200 gramas de carbono eliminadas apenas pela respiração — e cerca de um terço disso acontece durante o sono.

Manter o peso perdido exige, simplesmente, que a quantidade de carbono ingerida nos alimentos não supere a quantidade expirada. "Para não recuperar o peso, basta não repor pela alimentação mais do que se eliminou pela respiração", resumem os autores.

A comparação com um alimento comum é ilustrativa: um muffin de 100 gramas representa aproximadamente 20% do gasto energético diário de uma pessoa média — o mesmo acréscimo que uma hora de corrida proporciona na eliminação de carbono.

Por que isso importa

Compreender o mecanismo real do emagrecimento não é apenas curiosidade científica. Tem consequências concretas para a forma como médicos orientam pacientes, como nutricionistas explicam dietas e como o público em geral entende o funcionamento do próprio corpo.

Meerman e Brown concluíram o estudo com uma recomendação direta: que esses conceitos básicos sejam incluídos nos currículos do ensino médio e nos cursos universitários de bioquímica. Afinal, a resposta para "onde vai a gordura quando emagrecemos?" está, literalmente, no air.

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