Economia · Conjuntura global

Esta análise parte da coluna "The global economy and the art of living dangerously", de Martin Wolf, comentarista-chefe de economia do Financial Times, publicada em 14 de outubro de 2026. O texto original não é reproduzido nem traduzido aqui. Leia a coluna completa no Financial Times.

A estabilidade econômica foi, durante quase duas décadas, a premissa silenciosa de governos, bancos centrais e empresas. Martin Wolf, o mais influente comentarista de economia do Financial Times, propõe abandoná-la. Em sua coluna desta quarta-feira (14), ele argumenta que seria reconfortante imaginar um mundo menos sujeito a choques nos próximos anos, mas que essa expectativa provavelmente não se confirmará.1 A ilustração de Ann Kiernan que acompanha o texto resume o clima: bombas de petróleo, mísseis no céu e uma figura política vestida de bobo da corte afundando numa poça de óleo.

O diagnóstico chega no dia seguinte à divulgação do Panorama Econômico Mundial (WEO) de outubro do FMI, apresentado em Bangkok durante as reuniões anuais do Fundo e do Banco Mundial. Os dois textos dialogam diretamente. O FMI elevou levemente sua projeção de crescimento global para 2026, de 3,0% para 3,1%, mas o próprio relatório reconhece que a economia mundial vem sendo atingida por eventos que, isoladamente, seriam considerados improváveis.2,6

O que significa "viver perigosamente" em termos econômicos

A tese de Wolf não é catastrofista. Ela descreve uma mudança de regime. Desde 2020, a economia global atravessou uma pandemia, a invasão da Ucrânia, a maior onda tarifária dos Estados Unidos em quase um século e, a partir de março de 2026, a guerra envolvendo o Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz. Reportagem do Axios registrou ainda no início do conflito que economistas já vinham alertando para o fim da era de baixa volatilidade dos anos 2010, substituída por um período marcado por guerras comerciais, guerras reais e choques de oferta recorrentes.14

O ponto central é que choques de oferta não se resolvem com ajustes na taxa de juros. Um banco central pode conter a demanda, mas não reabre um estreito marítimo nem reconstrói refinarias. Em entrevista à NPR na quarta semana da guerra, Wolf já advertia que, no pior cenário, o conflito poderia se tornar um dos maiores choques do pós-guerra, e que crises cambiais começavam a aparecer em economias vulneráveis.11 No podcast Morning Call, do National Australia Bank, ele descreveu a pressão sobre países emergentes como um golpe duplo: tarifas mais altas e energia mais cara ao mesmo tempo.12

A economia global não está simplesmente desacelerando ou acelerando. O crescimento está sendo redistribuído entre países conforme sua exposição à guerra e à inteligência artificial. Síntese do diagnóstico do FMI · WEO, outubro de 2026

Os números do FMI: crescimento médio, distribuição extrema

A média global de 3,1% esconde mais do que revela. Segundo a Fortune, apenas 32 países respondem por 95% do crescimento mundial projetado, e a diretora de pesquisa do FMI, Silvana Tenreyro, classificou o cenário como altamente desigual.3 A inflação global deve subir para 4,7% em 2026, ante 4,1% em 2025, antes de recuar para 4,1% em 2027.3

Duas forças opostas explicam essa dispersão. De um lado, o choque negativo de oferta de energia vindo do Oriente Médio. Do outro, o choque positivo de demanda gerado pelos investimentos em inteligência artificial. A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, descreveu essa dinâmica como um cabo de guerra em discurso em Singapura no dia 7 de outubro, acrescentando que hardware e produtos ligados à IA já superam 10% do comércio mundial de bens.5 Quem está na cadeia de valor da tecnologia, como Taiwan e Coreia do Sul, cresce acima da média. Quem importa energia e está fora dessa cadeia fica com a conta.

Projeções de crescimento do PIB em 2026 segundo o FMI Índia 7,0%, China 4,5%, mundo 3,1%, Estados Unidos 2,3%, América Latina e Caribe 2,3%, Brasil 2,2%, zona do euro 1,1%. CRESCIMENTO DO PIB PROJETADO PARA 2026 (%) Índia 7,0 China 4,5 Mundo 3,1 Estados Unidos 2,3 América Latina 2,3 Brasil 2,2 Zona do euro 1,1
Fonte: FMI, World Economic Outlook de outubro de 2026, conforme divulgado por Fortune, Euronews, Trading Economics e Folhapress. Projeções, não dados realizados.

As hipóteses do Fundo também merecem atenção. As projeções partem do pressuposto de que o Estreito de Ormuz será reaberto em março de 2027 e de que o transporte marítimo voltará aos padrões anteriores à guerra até outubro do mesmo ano.2 Qualquer desvio desse roteiro altera os números. Em abril, o FMI chegou a desenhar cenários adverso e severo, com crescimento global de 2,5% e 2,0%, respectivamente, segundo o Correio Braziliense.15

Dívida, inflação e a margem de manobra que encolheu

A fragilidade descrita por Wolf não decorre apenas da frequência dos choques, mas da capacidade cada vez menor de absorvê-los. Georgieva alertou que a dívida pública global caminha para superar 100% do PIB mundial, o maior nível desde o fim da Segunda Guerra, e que as economias avançadas concentram as cargas mais pesadas.5 Ela também recomendou aos bancos centrais uma postura prudentemente restritiva, porque a construção de infraestrutura de IA, os choques de energia e o endividamento elevado alimentam a inflação ao mesmo tempo.5

Há ainda um efeito menos visível. Análise do Bank of America, reproduzida pelo Investing.com, sustenta que a guerra provoca um choque de energia, e não apenas de petróleo: os efeitos atingem gás, combustíveis refinados e insumos industriais como fertilizantes, o que prolonga a pressão sobre preços mesmo se o fluxo de petróleo bruto se normalizar.13 Esse detalhe é decisivo para o Brasil.

O Brasil no mapa dos choques

A posição brasileira é ambígua. Como exportador líquido de petróleo, o país chegou a ter sua projeção de crescimento elevada pelo FMI em abril, sob o argumento de que a guerra teria efeito líquido levemente positivo. O relatório de outubro, porém, reduziu a estimativa de 2026 de 2,4% para 2,2% e a de 2027 de 2,2% para 1,9%, segundo a Folhapress.6 De acordo com o Diário do Poder, o Fundo atribui a desaceleração aos juros restritivos, à retirada de estímulos fiscais e à incerteza global, e projeta inflação de 4,4% em 2026 e 4,1% em 2027. O Brasil fica abaixo da média projetada para a América Latina e o Caribe.7

IndicadorValorFonte
PIB 2025 (realizado)2,3%IBGE, via O Povo
PIB 2026 (projeção)2,2%FMI, WEO out/2026
PIB 2027 (projeção)1,9%FMI, WEO out/2026
IPCA 2026 (projeção)4,4% (FMI) · 5,2% (Copom)FMI e Banco Central
Selic13,75% ao anoCopom, 16/09/2026
Petróleo, preço médio 2026US$ 87,7 o barrilFazenda e Planejamento

Os dados domésticos confirmam a perda de ritmo. Segundo O Povo, o PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, ante 1,1% no primeiro.8 O Banco Central reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano em 16 de setembro, em decisão unânime, mas o comunicado do Copom listou choques de petróleo, clima e energia entre os riscos de alta para a inflação e manteve a projeção do IPCA de 2026 em 5,2%.9 No relatório bimestral de receitas e despesas, a Fazenda e o Planejamento elevaram a estimativa do preço médio do barril de US$ 79,16 para US$ 87,7, conforme o Canal Rural.10

Ganho na receita, perda no custo

O petróleo caro amplia receitas de exportação e arrecadação de royalties, mas encarece combustíveis, frete e, sobretudo, fertilizantes, insumo do qual o agronegócio brasileiro depende fortemente via importação. O resultado é uma economia que ganha de um lado do balanço e perde do outro, enquanto o Banco Central precisa manter juros elevados para impedir que choques externos contaminem as expectativas. A dívida bruta, que pela metodologia do FMI caiu de 95,4% para 94,5% do PIB entre julho e agosto, limita qualquer tentativa de amortecer o choque com gasto público.6

Lida a partir do Brasil, a coluna de Wolf sugere uma pergunta prática: se a volatilidade é estrutural, a política econômica precisa ser desenhada para ela, e não para um cenário de normalidade que talvez não volte. Isso significa reconstruir espaço fiscal em tempos menos turbulentos, reduzir dependências críticas de insumos importados e ancorar expectativas de inflação de forma mais firme, para que cada choque externo custe menos juros.

Contraponto: a resiliência também é um dado

O diagnóstico de fragilidade convive com evidências de resistência. Georgieva afirmou que a economia mundial suportou o choque do petróleo melhor do que se temia, em boa medida graças ao boom de investimentos em IA, e o próprio FMI revisou o crescimento global para cima, não para baixo.5 A instituição estima que a IA, bem administrada, pode acrescentar meio ponto percentual ao crescimento mundial por ano.5

Para o Brasil, o argumento otimista é que o país tem matriz elétrica majoritariamente renovável, produção crescente de petróleo e um setor exportador que se beneficia de commodities em alta. Críticos da leitura pessimista lembram ainda que previsões de crise permanente subestimaram, várias vezes desde 2020, a capacidade de adaptação de empresas e famílias. A questão em aberto é se essa resiliência é um ativo durável ou um colchão que se desgasta a cada novo choque.

Perguntas frequentes

O que Martin Wolf defende na coluna "The global economy and the art of living dangerously"?

Wolf argue que seria confortável esperar um mundo menos sujeito a choques econômicos, mas que isso provavelmente não acontecerá. A coluna foi publicada pelo Financial Times em 14 de outubro de 2026, um dia após o FMI divulgar suas novas projeções globais.

Quanto a economia mundial deve crescer em 2026, segundo o FMI?

O FMI projeta crescimento global de 3,1% em 2026 e de 3,4% em 2027, segundo o World Economic Outlook de outubro de 2026. Em 2025, o crescimento foi de 3,5%. A inflação global deve chegar a 4,7% em 2026.

Qual é a projeção do FMI para o PIB do Brasil?

O FMI reduziu a projeção de crescimento do Brasil de 2,4% para 2,2% em 2026 e de 2,2% para 1,9% em 2027. A inflação brasileira projetada pelo Fundo é de 4,4% em 2026 e 4,1% em 2027.

Por que a guerra no Irã afeta o Brasil se o país exporta petróleo?

O petróleo caro aumenta receitas de exportação, mas também encarece combustíveis, frete e fertilizantes importados. Além disso, pressiona a inflação e obriga o Banco Central a manter juros elevados, o que desacelera a atividade.

O que é o "cabo de guerra" descrito pelo FMI?

É a disputa entre duas forças opostas: o choque negativo de oferta de energia provocado pela guerra no Oriente Médio e o choque positivo de demanda gerado pelos investimentos em inteligência artificial. O efeito líquido varia conforme a exposição de cada país.

Ewerton Lopes
Curador Editorial | O Tecido · Caderno Economia