Caderno Longevidade · Ciência do envelhecimento

Nota de origem. Esta análise parte da reportagem "Will Anyone Actually Ever Live to 200?", de Christie Aschwanden, publicada pelo The New York Times em 14 de outubro de 2026 (leia o original). O Tecido não reproduz nem traduz o texto original. As referências a ele são creditadas, e o conteúdo foi ampliado com estudos científicos e dados brasileiros do IBGE.

Em 2000, o biólogo Steven Austad, pesquisador do envelhecimento na Universidade do Alabama em Birmingham, fez uma previsão que até hoje é lembrada em congressos de gerontologia: a primeira pessoa a completar 150 anos provavelmente já teria nascido. Vinte e seis anos depois, a pessoa viva mais velha do mundo tem 117. A reportagem publicada nesta quarta-feira pelo The New York Times volta à pergunta que sustenta um mercado inteiro de promessas: alguém, algum dia, chegará aos 200 anos?1

Com base nos dados disponíveis, a resposta curta é que nada no horizonte científico permite essa expectativa. A resposta longa passa por biologia celular, estatística de extremos e uma aposta de US$ 150 que só será paga em 2150.

Por que o corpo envelhece

A definição mais útil de envelhecimento não fala em desgaste, e sim em contabilidade. O corpo se repara o tempo todo. O que percebemos como velhice é o momento em que o conserto deixa de acompanhar o ritmo do estrago. Essa é a leitura de Jamie Justice, professora adjunta da Escola de Medicina da Universidade Wake Forest e diretora executiva do XPRIZE Healthspan, ouvida pelo NYT.1

A biologia já organizou esse estrago em categorias. Uma revisão publicada na revista Cell em 2023, referência na área, listou doze "marcas do envelhecimento", processos que se acumulam com a idade e se reforçam mutuamente.2 Entre os mais conhecidos estão:

  • Encurtamento dos telômeros, as pontas protetoras dos cromossomos, que perdem comprimento a cada divisão celular até que a célula deixa de se dividir corretamente.
  • Perda de eficiência das mitocôndrias, as estruturas que produzem energia dentro das células.
  • Proteínas danificadas ou mal dobradas, associadas a doenças como o Alzheimer.
  • Falhas no reparo do DNA, que abrem caminho para o câncer.
  • Senescência celular: células que não morrem, mas deixam de cumprir sua função e liberam substâncias inflamatórias.
  • Esgotamento das células-tronco, responsáveis pela manutenção dos tecidos.

O ponto central é que nenhuma dessas marcas atua sozinha. Coleen Murphy, diretora do Instituto Lewis-Sigler de Genômica Integrativa da Universidade Princeton, resumiu o problema ao jornal americano: o envelhecimento é um empilhamento de sistemas, e "se você cura um, sempre haverá o próximo".1

O que já se consegue manipular em laboratório

Há avanços concretos, mas quase todos ainda em animais ou em fase de teste. A classe de drogas mais comentada é a dos senolíticos, compostos experimentais que buscam eliminar as células senescentes. Outra frente tenta reprogramar a epigenética, isto é, as marcas químicas que regulam quais genes são ativados, para que as células "acreditem" ser mais jovens. Segundo a reportagem, pelo menos duas empresas de biotecnologia testam medicamentos nessa linha.1

Também estão em estudo três classes de remédios já aprovados para diabetes: a metformina, os inibidores de SGLT2 e os agonistas de GLP-1, estes também usados contra obesidade. Os estudos buscam efeitos sobre processos ligados ao envelhecimento, como a inflamação. Vale lembrar que nenhum deles tem indicação aprovada para retardar a velhice. Nos Estados Unidos, o XPRIZE Healthspan e a agência federal ARPA-H financiam pesquisas sobre biomarcadores e protocolos para testar terapias antienvelhecimento.1

Há, porém, uma distinção que o debate público costuma apagar. Quase toda essa pesquisa mira o healthspan, os anos vividos com saúde, e não o lifespan, a duração máxima da vida. Melhorar a qualidade dos 80, 90 e 100 anos é um objetivo diferente de empurrar o limite da espécie. O epidemiologista S. Jay Olshansky, da Universidade de Illinois em Chicago, apontou ao NYT o obstáculo prático de qualquer promessa de vida radicalmente mais longa: para saber se uma intervenção acrescenta 50 anos de vida, seria preciso esperar 50 anos.1

O teto que os números desenham

Se a biologia não fecha a questão, a demografia oferece pistas mais duras. Em 2016, uma equipe do Albert Einstein College of Medicine, liderada pelo geneticista Jan Vijg, analisou registros de mais de 40 países do Human Mortality Database. A conclusão, publicada na Nature, foi que a idade de morte dos supercentenários subiu rapidamente entre os anos 1970 e o início dos 1990 e depois se estabilizou por volta de 1995. Os autores estimaram a média da idade máxima humana em 115 anos e o limite absoluto em 125.3

Em 2024, o próprio Olshansky e colegas publicaram na Nature Aging um estudo com título explícito: a extensão radical da vida humana seria "implausível" no século 21. A análise mostra que, ao longo do século 20, a expectativa de vida ao nascer subiu cerca de 30 anos nos países desenvolvidos, impulsionada por saúde pública e medicina, mas que esse ritmo vem desacelerando desde 1990. Pelas projeções dos autores, a fração de pessoas que chegam aos 100 anos dificilmente passará de 15% entre as mulheres e 5% entre os homens, a menos que o próprio processo de envelhecimento seja retardado de forma expressiva.4

"É um teto de vidro, não uma parede de tijolos."S. Jay Olshansky, Universidade de Illinois em Chicago

A frase, dita por Olshansky na divulgação do estudo, resume a posição do grupo: o limite atual não seria uma fronteira biológica intransponível, mas só poderia ser rompido pela gerociência, a ciência que tenta desacelerar o envelhecimento em si, e não pelo combate a doenças uma a uma.5

O dado mais simples talvez seja o mais eloquente. O recorde documentado continua com a francesa Jeanne Calment, que morreu em 1997 com 122 anos, idade que alguns pesquisadores contestam. Desde então, como observou Austad ao NYT, ninguém sequer chegou aos 120.1 A britânica Ethel Caterham, pessoa viva mais velha do mundo segundo o Guinness e a LongeviQuest, completou 117 anos em 21 de agosto.9

Da expectativa média ao limite especulado Comparação em anos entre a expectativa de vida no Brasil em 1940 e 2024, a idade da pessoa viva mais velha, o recorde de Jeanne Calment, o limite estimado por Vijg, a aposta de Austad e a marca de 200 anos. 0 50 100 150 200 anos Expectativa de vida ao nascer, Brasil 1940 45,5 Expectativa de vida ao nascer, Brasil 2024 76,6 Pessoa viva mais velha (Ethel Caterham, 2026) 117 Recorde documentado (Jeanne Calment, 1997) 122 Limite absoluto estimado por Vijg (2016) 125 Previsão de Austad (2000) 150 A pergunta do título 200
Barras sólidas: dados observados ou estimativas científicas. Barras tracejadas: hipóteses. Fontes: IBGE, Tábuas Completas de Mortalidade 2024; Dong, Milholland e Vijg (Nature, 2016); LongeviQuest; The New York Times. Arte: O Tecido.

Contraponto

E se o limite não existir?

O campo está longe do consenso. Em 2018, a demógrafa Elisabetta Barbi, da Universidade Sapienza de Roma, publicou na Science uma análise de quase 4 mil italianos com 105 anos ou mais, acompanhados entre 2009 e 2015. O risco de morte, que cresce com a idade durante quase toda a vida, parou de subir depois dos 105 e se estabilizou em torno de 50% ao ano. Se esse "platô de mortalidade" existe, não haveria um limite fixo para a vida humana, apenas uma probabilidade cada vez menor de atingir idades extremas.6

Na mesma edição da Nature Aging que trouxe o estudo de Olshansky, os demógrafos Dmitri Jdanov e Domantas Jasilionis, do Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica, publicaram um comentário defendendo que cenários otimistas também sejam considerados nas projeções.7 No polo mais ousado, o gerontologista Aubrey de Grey, fundador da SENS Research Foundation, sustenta que um quarentão de hoje tem mais de 50% de chance de nunca morrer de velhice.1

A tese do platô, no entanto, não resistiu bem a novas checagens. O Instituto Nacional de Estudos Demográficos da França (INED) replicou a metodologia com dados franceses da International Database on Longevity, base com registros validados de quase 20 mil pessoas que morreram com 105 anos ou mais em 13 países. O resultado foi o oposto: a mortalidade continuou a subir depois dos 105.8 E a previsão de de Grey, por definição, só poderá ser verificada daqui a décadas.

O Brasil no relógio da longevidade

O caso brasileiro ilustra bem a diferença entre viver mais em média e viver mais do que o limite da espécie. Segundo as Tábuas Completas de Mortalidade divulgadas pelo IBGE em novembro de 2025, a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024, o maior valor desde o início da série histórica, em 1940, quando era de 45,5 anos.10 São mais de 31 anos ganhos em oito décadas, com uma única interrupção, durante a pandemia de covid-19. A projeção do instituto para 2025 é de 76,8 anos.10

Esse salto veio, sobretudo, de evitar mortes precoces: queda da mortalidade infantil, vacinação, saneamento, controle de doenças infecciosas. É exatamente o tipo de ganho que, segundo Olshansky, já foi "colhido" nos países ricos e que não se repete com a mesma força quando a população envelhece. Elevar a média de 45 para 76 anos não alterou em nada o teto de 122.

Ainda assim, o topo da pirâmide cresce. O Censo 2022 contou 37.814 brasileiros com 100 anos ou mais, alta de 56% em relação aos 24.236 registrados em 2010. As mulheres são 27.244 desse total, contra 10.570 homens. A cidade de São Paulo lidera em números absolutos, com 1.761 centenários, e a população com 65 anos ou mais já soma 10,9% do país.11

O Brasil também tem lugar de destaque entre os supercentenários. A freira gaúcha Inah Canabarro Lucas foi reconhecida como a pessoa mais velha do mundo em janeiro de 2025 e morreu em Porto Alegre em 30 de abril daquele ano, aos 116 anos. Hoje, o homem vivo mais velho do mundo com idade validada é o cearense João Marinho Neto, nascido em Maranguape em 5 de outubro de 1912, que acaba de completar 114 anos.9 Nenhum dos dois, porém, chegou perto da marca de Calment, o que reforça o padrão observado desde 1997.

Expectativa de vida não é idade máxima

A expectativa de vida ao nascer é uma média: quantos anos viveria, em média, quem nasce hoje se os padrões atuais de mortalidade se mantivessem. O tempo de vida máximo é a idade extrema que um indivíduo da espécie consegue atingir. A primeira subiu de forma espetacular no último século. A segunda está parada há quase 30 anos. Confundir as duas é o atalho mais comum das promessas de longevidade radical.

A aposta de 2150

A divergência entre Austad e Olshansky virou aposta formal. Depois da previsão de 2000, Olshansky apostou US$ 150 que o colega estava errado. Há uma cláusula importante: para Austad vencer, o primeiro humano de 150 anos precisa estar em plena posse de suas faculdades mentais. O dinheiro está aplicado em um fundo de investimento e será pago ao vencedor, ou aos seus descendentes, em 2150.1

A cláusula não é um detalhe. Para Austad, o cérebro é o maior desafio da longevidade extrema. A maioria das pessoas não deseja passar dos 100 sem a mente intacta, e grande parte dos neurônios, assim como a maior parte das células musculares, não se renova. Rins, corações e joelhos já são substituídos com rotina. Um cérebro, não, e mesmo que fosse possível, restaria a pergunta sobre se quem recebe o órgão continua sendo a mesma pessoa.1

O que fica para quem lê

O balanço das evidências aponta para três conclusões. Primeiro, a ciência do envelhecimento avança de verdade, mas seus resultados mais sólidos estão em laboratório e dizem respeito a viver melhor, não a viver indefinidamente. Segundo, os dados demográficos acumulados desde os anos 1990 sugerem um teto, ainda que haja debate legítimo sobre sua rigidez. Terceiro, para um país como o Brasil, que envelhece em ritmo acelerado, a pergunta relevante não é se alguém chegará aos 200, mas em que condições os milhões que passarão dos 80 vão viver esses anos.

Isso pede ceticismo diante de clínicas, suplementos e influenciadores que vendem "reversão da idade". Nenhuma intervenção disponível hoje tem eficácia comprovada para estender o tempo de vida máximo humano. A gerociência pode, um dia, mover o teto de vidro. Até lá, os ganhos mais seguros continuam sendo os conhecidos: prevenção, acesso a saúde e redução das desigualdades que fazem os brasileiros mais pobres morrerem mais cedo.

Perguntas frequentes

Alguém pode viver 200 anos?

Não há evidência científica de que isso seja possível. O recorde documentado é de 122 anos (Jeanne Calment, morta em 1997), e estudos publicados na Nature (2016) e na Nature Aging (2024) indicam que a extensão radical da vida é improvável neste século sem intervenções que retardem o próprio envelhecimento.

Qual é a maior idade humana já registrada?

122 anos e 164 dias, alcançados pela francesa Jeanne Calment, que morreu em 1997. Desde então, nenhuma pessoa com idade validada chegou aos 120. A pessoa viva mais velha, a britânica Ethel Caterham, completou 117 anos em agosto de 2026.

Qual é a expectativa de vida no Brasil?

Segundo o IBGE, a expectativa de vida ao nascer no Brasil foi de 76,6 anos em 2024, o maior valor da série iniciada em 1940, quando era de 45,5 anos. A projeção para 2025 é de 76,8 anos.

Quantos centenários existem no Brasil?

O Censo 2022 do IBGE registrou 37.814 pessoas com 100 anos ou mais, crescimento de 56% em relação a 2010. Cerca de sete em cada dez são mulheres.

O que são senolíticos?

São medicamentos experimentais que buscam eliminar células senescentes, que deixaram de funcionar mas continuam vivas e liberam substâncias inflamatórias. Ainda estão em fase de pesquisa e não têm aprovação para uso contra o envelhecimento.

Qual a diferença entre lifespan e healthspan?

Lifespan é a duração total da vida. Healthspan é o período vivido com saúde e autonomia. A maior parte da pesquisa atual em longevidade busca ampliar o healthspan, e não estender o limite máximo da vida humana.

Ewerton Lopes
Curador Editorial · O Tecido