Vinte e cinco anos separam o 11 de setembro de 2001 do mundo que os jovens americanos habitam hoje. Nesse intervalo, segundo argumenta a ex-congressista Jane Harman em artigo publicado no Financial Times1, uma geração inteira cresceu sem nunca ter visto o Congresso dos Estados Unidos autorizar formalmente uma guerra, sem testemunhar um governo equilibrar as próprias contas e sem conhecer um Departamento de Estado robusto e funcional. Para essa geração, a disfunção institucional não é uma anomalia passageira. É a única normalidade que ela conhece.

O diagnóstico de Harman, que presidiu comissões de Inteligência, Forças Armadas e Segurança Interna no Congresso americano antes de dirigir o Woodrow Wilson Center, soma três eixos que raramente aparecem juntos em uma mesma análise: o endividamento público, o esvaziamento da diplomacia e o distanciamento dos aliados históricos. Os números recentes dão sustentação a cada um deles.

A diplomacia definha enquanto as contas sobem

A dívida pública bruta dos Estados Unidos ultrapassou a marca de 40 trilhões de dólares em agosto de 2026, o equivalente a cerca de 123% do PIB americano, um dos maiores índices entre economias desenvolvidas2. O custo de rolar essa dívida já consome mais recursos do que o próprio orçamento de defesa: os Estados Unidos pagam hoje pouco mais de 1,1 trilhão de dólares por ano só em juros, superando o valor destinado às Forças Armadas3.

No mesmo período em que o custo da dívida disparou, a estrutura diplomática americana foi reduzida a um esqueleto. A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que chegou a empregar cerca de 10 mil pessoas em todo o mundo, foi desmontada e absorvida pelo Departamento de Estado, restando apenas um punhado de funcionários da estrutura original4. O orçamento de assistência externa e diplomacia aprovado para o ano fiscal de 2026 somou 50 bilhões de dólares, 16% a menos que em 2025, depois de o governo Trump ter proposto cortes que, somando revogações de verbas já aprovadas, chegariam a 85% do total4.

O maior orçamento militar do mundo, buscando novo equilíbrio

Enquanto a diplomacia encolhe, o gasto militar global bate recordes. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), o mundo gastou quase 2,9 trilhões de dólares em defesa em 2025, o décimo primeiro ano seguido de alta5. Os Estados Unidos seguem isolados na liderança, com 954 bilhões de dólares, ainda que essa cifra represente uma retração de 7,5% em relação a 2024, atribuída principalmente à ausência de novos pacotes de ajuda militar à Ucrânia5. A Europa, por sua vez, acelerou: o gasto do continente saltou 14% em 2025, o maior salto anual entre os países europeus da Otan desde 1953, com a Alemanha cruzando pela primeira vez desde 1990 o patamar de 2% do PIB em defesa5.

Um país que gasta mais para pagar juros do que para se defender, e mais para se defender do que para negociar, está fazendo uma escolha estratégica, ainda que não a tenha declarado como tal.

Uma geração formada na desconfiança

O retrato institucional se reflete diretamente na percepção dos jovens americanos. A 52ª edição da Harvard Youth Poll, divulgada na primavera de 2026 pelo Instituto de Política da Kennedy School, registrou o menor índice de confiança no governo federal já medido entre americanos de 18 a 29 anos: apenas 15%6. Cinquenta e nove por cento desse grupo afirmaram acreditar que o país segue na direção errada, e só 33% confiam que as eleições legislativas de novembro de 2026 serão conduzidas de forma justa6. São números que corroboram, com dados de pesquisa, o argumento central de Harman: a desconfiança deixou de ser exceção e passou a ser o pano de fundo da vida política americana.

Contraponto: disciplina fiscal ou recuo estratégico?

Nem todos os analistas leem esses números como sinal de declínio. Defensores da atual reorientação orçamentária americana argumentam que décadas de gastos ininterruptos em intervenções militares no Oriente Médio e em ajuda externa sem retorno claro foram, elas mesmas, a verdadeira disfunção do período pós-11 de Setembro. Nessa leitura, forçar aliados europeus a assumir parte maior do próprio custo de defesa, como já ocorre com a meta da Otan de chegar a 5% do PIB até 2035, representa correção de rota, não abandono. O contra-argumento de Harman e de outros críticos é que esse ajuste ocorre sem estratégia declarada, de forma abrupta e sem substituto institucional para o vácuo diplomático deixado, o que aumenta o risco de erros de cálculo justamente em um momento de maior competição entre potências.

O Brasil no meio de uma política externa imprevisível

O efeito dessa reconfiguração não fica restrito ao debate interno americano. O Brasil vive, em 2026, sua segunda rodada em dois anos de tarifas elevadas impostas por Washington7. Depois da sobretaxa de 50% sobre boa parte das exportações brasileiras, aplicada em 2025 e associada pelo governo americano ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, uma nova tarifa adicional de 12,5% foi anunciada em 2026, desta vez sob a justificativa de supostas falhas brasileiras no combate ao trabalho forçado, alcançando dezenas de países simultaneamente7.

O Itamaraty classificou as negociações subsequentes como pouco mais que protocolares, sem disposição efetiva do lado americano em discutir os argumentos técnicos apresentados pelo Brasil7. O governo Lula, por sua vez, associou publicamente as tarifas ao calendário eleitoral brasileiro, já que a disputa presidencial de outubro de 2026 opõe o próprio presidente a Flávio Bolsonaro, candidato que recebe apoio da administração Trump7. Independentemente de qual leitura política prevaleça, o episódio ilustra de forma concreta o que Harman descreve em abstrato: uma diplomacia americana que negocia menos e usa tarifas como instrumento de pressão com mais frequência, deixando parceiros comerciais como o Brasil expostos a decisões tomadas por critérios que nem sempre são exclusivamente comerciais.

O que fica evidente

Os números não permitem uma leitura única, mas convergem em um ponto: os Estados Unidos gastam mais do que arrecadam, investem mais em armamento do que em negociação, e uma geração inteira de americanos amadureceu vendo essa combinação como normal. Para países que dependem da previsibilidade da política externa americana, o Brasil entre eles, essa normalização tem custo direto, medido em tarifas, incerteza regulatória e negociações que se arrastam sem desfecho.

Nota de atribuição: Este artigo foi elaborado a partir da leitura crítica do texto de opinião de Jane Harman, "Young Americans have never witnessed a functioning foreign policy", publicado no Financial Times em setembro de 2026, com pesquisa e dados complementares de fontes independentes listadas nas referências. O conteúdo original não foi reproduzido ou traduzido integralmente. Leia o artigo completo em: ft.com/content/2e97fb28-24cf-4ab0-89b1-454b4f97cdbc.

Perguntas frequentes

O que Jane Harman argumenta no artigo do Financial Times?

Harman sustenta que jovens americanos nasceram em um período no qual o Congresso não autoriza guerras formalmente, o orçamento federal não é equilibrado, o Departamento de Estado opera enfraquecido e a confiança entre aliados se deteriorou, e que essa geração passou a considerar esse cenário normal, quando na verdade representa uma ruptura em relação ao período anterior ao 11 de Setembro.

Quanto os Estados Unidos gastam hoje com defesa e com a dívida pública?

Em 2025, os Estados Unidos gastaram 954 bilhões de dólares em defesa, segundo o SIPRI. A dívida pública bruta americana ultrapassou 40 trilhões de dólares em agosto de 2026, com custo anual de juros acima de 1,1 trilhão de dólares, valor superior ao orçamento militar do país.

Como a política externa americana afeta o Brasil em 2026?

O Brasil enfrenta tarifas adicionais dos Estados Unidos, incluindo uma sobretaxa de 50% aplicada em 2025 e uma nova tarifa de 12,5% anunciada em 2026, em meio a um cenário eleitoral brasileiro e a negociações classificadas pelo Itamaraty como pouco substantivas.

Qual é o nível de confiança dos jovens americanos no governo federal em 2026?

Segundo a Harvard Youth Poll de 2026, apenas 15% dos americanos entre 18 e 29 anos confiam no governo federal, o menor índice já registrado pela pesquisa desde o ano 2000.