Filosofia · Ecologia e Pensamento

Toda civilização que já ergueu uma pirâmide, uma catedral ou um arranha-céu compartilha um ponto cego: a obsessão coletiva por construir para cima esconde o fato de que tudo aquilo que sustenta a vida humana, o alimento, a água, o ar respirável, depende de uma faixa de terra tão fina que caberia dentro de uma caixa de sapato. Essa é a provocação que o cozinheiro e ensaísta basco Andoni Luis Aduriz lança em artigo publicado no jornal espanhol El País1, ao lembrar que 95% dos alimentos produzidos no mundo nascem nos primeiros 20 centímetros da crosta terrestre. O restante do planeta, da rocha ao núcleo, é irrelevante para a fome humana.

A imagem é simples, quase banal, mas carrega uma inversão filosófica incômoda. Medimos progresso em altura: PIB que "cresce", torres que "se elevam", ambições que "voam alto". Raramente medimos o que está embaixo. E, no entanto, é embaixo que tudo se decide.

A ilusão da verticalidade

Da Torre de Babel às megalópoles contemporâneas, a espécie humana narra sua própria história como uma sucessão de conquistas verticais. Pirâmides, muralhas, arranha-céus e, mais recentemente, servidores empilhados em nuvens de dados, tudo aponta para cima. Essa gramática da ambição tem uma função psicológica evidente: o que se eleva parece vencer a gravidade, transcender a finitude, aproximar-se do divino ou do eterno.

Mas a fertilidade, alerta o texto de Aduriz, não obedece a essa lógica. Ela é horizontal, silenciosa e finita. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), formar apenas dois a três centímetros de solo fértil pode levar até mil anos2, enquanto a erosão contemporânea consome o equivalente a um campo de futebol de terra a cada cinco segundos2. Um terço dos solos do planeta já está degradado, e projeções da própria FAO indicam que até 90% podem estar em risco até 20502.

20 cm de solo fértil sustentam tudo o que está acima
Representação esquemática: a espessura do solo cultivável comparada à altura das estruturas que ele sustenta.

O que a arqueologia ensina sobre esquecer o chão

O artigo de Aduriz recorre a um exemplo maia para ilustrar o custo de ignorar essa fragilidade. Em Holmul, sítio pré-colombino na região guatemalteca do Petén, um relevo estucado do ano 600 registra a oferenda do primeiro tamal, elaboração ritual à base de milho que a cosmovisão maia tratava como matéria sagrada, origem espiritual da própria humanidade1. Séculos depois, a cidade foi abandonada. Pesquisas que cruzam anéis de árvores, sedimentos lacustres e dados climáticos apontam secas prolongadas como gatilho de uma cadeia de colapsos ecológicos e sociais: guerras, revoltas camponesas, queda do comércio1. Quando a cobertura florestal tropical desaparece, a produtividade do solo despenca, e com ela a viabilidade de alimentar populações inteiras.

"Quem é desenraizado desenraiza. Quem é enraizado não desenraiza." — Simone Weil

A frase, da filósofa francesa Simone Weil em sua obra póstuma O Enraizamento (1943), não trata de agricultura, mas de sociedades humanas. Weil argumenta que o enraizamento é "a necessidade mais importante e mais ignorada da alma humana"5, uma condição orgânica de pertencimento a um ambiente, uma história, uma tradição, sem a qual comunidades inteiras se tornam instáveis e propensas ao autoritarismo. A metáfora agrícola que Weil escolheu não é acidental: raiz, solo e permanência formam, em sua filosofia, o mesmo campo semântico da sobrevivência coletiva.

Húmus, humano, humildade: uma só raiz

Há uma coincidência etimológica que reforça essa ligação entre terra e caráter moral. Em latim, humus designava o solo, a terra fértil. Dela derivou o adjetivo humilis, literalmente "o que fica rente ao chão, que não se eleva"6, origem direta da palavra "humildade". A mesma raiz produziu ainda homo, "homem"6. Ou seja: humano e humilde compartilham etimologicamente a mesma matéria-prima que sustenta as lavouras. Ser humilde, na origem da palavra, é reconhecer-se feito de terra e dependente dela, exatamente o oposto do impulso civilizatório de erguer-se cada vez mais alto para escapar dessa condição.

O Brasil sobre solo instável

A reflexão filosófica ganha urgência prática quando aplicada ao território brasileiro, potência agrícola cuja economia depende diretamente da saúde do solo. Levantamentos da Embrapa mostram que as maiores áreas de solo altamente suscetível à erosão hídrica estão concentradas no Nordeste, coincidindo justamente com regiões já afetadas por processos de desertificação3. Já o módulo de degradação do MapBiomas, lançado em 2024, estima que entre 60 milhões e 135 milhões de hectares de vegetação nativa brasileira, entre 11% e 25% do total, estão suscetíveis a algum grau de degradação4, com a Caatinga apontada como o bioma sob maior risco de colapso do solo por desertificação4.

O paradoxo é evidente: o país que se orgulha de alimentar boa parte do planeta é também um dos que mais expõe seu solo a processos de degradação acelerada. A metáfora de Aduriz, pensada a partir da Europa e da Mesoamérica, encontra no Brasil um espelho particularmente nítido.

Contraponto

Nem todos veem na dependência do solo uma fatalidade filosófica. Correntes tecno-otimistas argumentam que a agricultura vertical, a hidroponia, os substratos sintéticos e a proteína cultivada em laboratório já demonstram que a produção de alimentos pode, em parte, se desacoplar do solo tradicional. Para essa visão, insistir na "humildade telúrica" seria romantizar uma limitação que a engenhosidade humana está progressivamente superando, assim como superou a dependência da força animal ou da luz solar direta para a maior parte da produção industrial. O contra-argumento filosófico permanece, no entanto: mesmo os substratos hidropônicos dependem de nutrientes originalmente extraídos do solo, e nenhuma tecnologia disponível hoje opera em escala capaz de substituir os bilhões de toneladas de alimento que o solo produz naturalmente todos os anos.

Viver rente ao chão

Talvez o convite mais honesto que se possa extrair da provocação de Aduriz não seja o abandono da ambição vertical, mas a recuperação de uma consciência dupla: é possível erguer catedrais e ao mesmo tempo lembrar que elas repousam sobre uma camada de vida finita e lenta de se regenerar. A civilização que só olha para cima corre o risco de repetir, em escala planetária, o destino de Holmul: esquecer que embaixo dos pés, e não acima da cabeça, está a condição de possibilidade de tudo o mais.

Este texto foi inspirado no artigo "Toda la producción se basa en la fertilidad, pero la humanidad se empeña en construir hacia arriba", de Andoni Luis Aduriz, publicado originalmente pelo jornal El País em 12 de setembro de 2026. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido integralmente; recomendamos a leitura completa na fonte primária, referenciada abaixo.

Perguntas Frequentes

Por que se diz que 95% dos alimentos do mundo dependem de apenas 20 centímetros de solo?

Porque a camada superficial da crosta terrestre onde ocorre a maior parte da atividade biológica e nutricional necessária ao cultivo tem, em média, cerca de 20 centímetros de profundidade. Segundo a FAO, é nessa faixa fina que se produz 95% dos alimentos consumidos globalmente, o que torna o solo um recurso ao mesmo tempo essencial e extremamente vulnerável.

Qual a relação etimológica entre as palavras "humildade", "húmus" e "homem"?

As três palavras compartilham a mesma raiz latina, "humus", que significa terra ou solo fértil. Do adjetivo derivado, "humilis", que designava tudo o que ficava próximo ao chão, nasceu "humildade". A palavra "homem" (do latim "homo") também deriva dessa mesma família etimológica, reforçando a ideia de que o ser humano é, na origem da linguagem, "feito de terra".

Como a fertilidade do solo pode ter contribuído para o colapso da civilização maia?

Estudos arqueológicos e climáticos indicam que cidades maias como Holmul, no Petén guatemalteco, enfrentaram secas prolongadas que reduziram drasticamente a produtividade agrícola. A perda de cobertura florestal e a degradação do solo em regiões tropicais tornaram inviável sustentar a produção de alimentos em larga escala, contribuindo para guerras, revoltas e o eventual abandono das cidades.

Qual é a situação da degradação do solo agrícola no Brasil atualmente?

Dados da Embrapa apontam as maiores áreas de solo altamente suscetível à erosão hídrica no Nordeste brasileiro, coincidindo com regiões já afetadas por desertificação. O MapBiomas, por sua vez, estima que entre 11% e 25% da vegetação nativa do país está suscetível a processos de degradação, com destaque de risco para o bioma Caatinga.

O que Simone Weil quis dizer com o conceito de "enraizamento"?

Em sua obra "O Enraizamento" (1943), a filósofa francesa Simone Weil descreve o enraizamento como a necessidade mais importante e mais ignorada da alma humana: a relação orgânica de pertencimento a um ambiente, uma comunidade e uma tradição. Para ela, o desenraizamento é uma das doenças mais perigosas das sociedades modernas, capaz de gerar instabilidade social e regimes autoritários.