Opinião · Meio ambiente e geopolítica
Em resumo
- Michel André defende que o século XXI precisa de instituições capazes de monitorar a vida, assim como o século XX criou instituições para monitorar conflitos.
- O mundo gastou US$ 2,887 trilhões com defesa em 2025 e destinou US$ 7,3 trilhões a atividades nocivas à natureza em 2023, contra US$ 220 bilhões para soluções baseadas na natureza.
- O Brasil já opera parte dessa infraestrutura (Inpe, MapBiomas, contas de ecossistemas do IBGE) e testa sua lógica econômica com o fundo TFFF.
- O gargalo brasileiro não é tecnológico, é institucional: medir nunca bastou para proteger quando falta continuidade política.
Uma assimetria de atenção
Um radar militar identifica o lançamento de um míssil em segundos. A perda de função de um manguezal, de um rio ou de um trecho de floresta costuma ser notada quando o dano já está feito. É dessa desproporção que parte o artigo que o bioacústico Michel André, diretor do Laboratório de Aplicações Bioacústicas da Universidade Politécnica da Catalunha, publicou nesta sexta-feira (25) no El País[1]. A tese é direta: o século XX construiu instituições para vigiar e conter guerras entre nações; o século XXI terá de construir instituições capazes de vigiar os sistemas vivos, porque não existe paz estável sem água, comida, clima e biodiversidade funcionando.
André evita o tom de acusação. Para ele, a economia moderna não errou ao ignorar o valor dos ecossistemas; ela foi desenhada numa época em que os recursos pareciam infinitos. Por isso uma floresta só ganhava preço quando derrubada e um peixe só entrava na conta quando chegava ao porto. A proposta do autor é uma Infraestrutura de Inteligência da Natureza: observatórios de biodiversidade, redes de monitoramento ecológico, análise de dados ambientais e certificação da recuperação de ecossistemas, operando de forma contínua. O raciocínio é encadeado em degraus e resumido numa frase do próprio texto: "Solo aquello que puede observarse puede comprenderse". Do que se compreende, passa-se ao que se governa, ao que se protege e, por fim, ao que atrai investimento.
A ideia merece atenção por pelo menos três motivos. E merece desconfiança por outros tantos.
Os números da desproporção
O primeiro motivo é que os dados confirmam o desequilíbrio que André descreve. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, o gasto militar mundial chegou a US$ 2,887 trilhões em 2025, o 11º ano seguido de alta, com o peso sobre o PIB global no nível mais alto desde 2009[2].
Do outro lado da balança, o relatório State of Finance for Nature 2026, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), estima que US$ 7,3 trilhões em recursos públicos e privados financiaram atividades nocivas à natureza em 2023. No mesmo ano, as soluções baseadas na natureza receberam cerca de US$ 220 bilhões, dos quais apenas US$ 23 bilhões vieram do setor privado[3]. Para cada dólar que protege, cerca de trinta degradam. E o próprio PNUMA calcula que seriam necessários US$ 571 bilhões por ano até 2030 para cumprir as metas globais de clima, biodiversidade e terra.
A comparação entre orçamento militar e monitoramento ambiental é, no texto de André, um recurso retórico. Ninguém propõe trocar tanques por sensores. Mas a ordem de grandeza ajuda a entender por que a natureza segue invisível nas decisões: quase nada do que a destrói aparece como custo, e quase nada do que a preserva aparece como ativo.
Crime ambiental como economia de conflito
O segundo motivo é a ponte que o autor faz entre ecologia e segurança. André sugere que empregos ligados à observação e à regeneração de ecossistemas poderiam formar uma economia de paz em regiões marcadas por conflitos, reduzindo o espaço de quem lucra com a violência. A hipótese dialoga com um diagnóstico antigo. O relatório The Rise of Environmental Crime, do PNUMA com a Interpol, estimou em 2016 que crimes ambientais movimentavam entre US$ 91 bilhões e US$ 258 bilhões por ano, o que os colocava entre as maiores atividades criminosas do mundo, com parte dos lucros financiando grupos armados, como no leste da República Democrática do Congo[4]. A cifra tem dez anos e deve ser lida como referência histórica, mas o mecanismo descrito segue atual.
No Brasil, esse mecanismo tem endereço. Na Amazônia, a sobreposição entre garimpo ilegal, extração de madeira e facções criminosas deixou de ser assunto exclusivo da política ambiental e passou a ocupar a agenda de segurança pública. Quando a floresta só vale morta, quem controla a derrubada controla a economia local. É exatamente essa equação que André quer inverter.
O Brasil já tem metade da infraestrutura
O terceiro motivo interessa mais ao leitor brasileiro: a infraestrutura que André descreve como próxima etapa civilizatória existe em boa parte aqui. O Inpe mede o desmatamento anual da Amazônia pelo Prodes desde 1988 e emite alertas quase diários pelo Deter desde 2004. O MapBiomas reconstrói décadas de uso da terra em todos os biomas. E o IBGE desenvolve, desde 2017, contas de ecossistemas alinhadas ao padrão das Nações Unidas, a partir do projeto NCAVES, em parceria com a União Europeia[5].
Os resultados recentes mostram o que o monitoramento permite quando há decisão política por trás. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, os alertas do Deter somaram 2.874 km² na Amazônia, queda de 36,87% e o menor valor da série iniciada em 2016, segundo reportagem da Exame. A taxa oficial do Prodes sai em novembro, e a expectativa do Observatório do Clima é de que seja a menor desde 1988, o que por ora é projeção[6].
Há ainda uma coincidência reveladora. O próprio André já trabalhou em território brasileiro: seus sensores acústicos foram usados para monitorar a biodiversidade da Reserva Mamirauá, no Amazonas, captando sons que revelam presença de espécies, caça e extração de madeira[7]. A inteligência da natureza não é ficção científica. O que ainda não existe é a ponte entre esses dados e as decisões que movem dinheiro: as contas de ecossistemas do IBGE continuam classificadas como experimentais e nenhuma delas entra no cálculo do PIB.
TFFF: o primeiro teste de mercado da tese
Se existe um laboratório real da ideia de André, ele se chama Fundo Florestas Tropicais para Sempre. Lançado pelo Brasil na COP30, em Belém, em novembro de 2025, o TFFF pretende remunerar países por hectare de floresta mantida em pé, com desconto quando há desmatamento. Todo o desenho depende de monitoramento por satélite. Sem medir, não há como pagar.
O fundo avança, mas devagar. Na última quarta-feira (23), durante a Semana do Clima de Nova York, o Reino Unido formalizou um aporte de 400 milhões de libras, e os compromissos chegaram a cerca de US$ 7,3 bilhões, perto de três quartos da meta de US$ 10 bilhões para dezembro[6]. A Noruega condicionou até US$ 3 bilhões ao cumprimento dessa meta, e há relatos de países que esperam o resultado da eleição presidencial brasileira de outubro antes de se comprometer, segundo o Mongabay[8].
O Brasil não precisa inventar a infraestrutura que André imagina. Precisa impedir que ela dependa de quem vence a próxima eleição.
Essa dependência é o ponto fraco que o artigo espanhol não enfrenta. André escreve como se a tecnologia fosse o elo ausente. A experiência brasileira sugere que o elo ausente é a continuidade.
O que o Brasil deveria fazer com essa ideia
A proposta de André ganha força quando traduzida em decisões concretas, e o Brasil é talvez o país mais bem posicionado para fazê-lo. Três passos parecem razoáveis. O primeiro é tirar as contas de ecossistemas do IBGE do status experimental e publicá-las com calendário fixo, como se faz com o PIB e a inflação, para que a variação do capital natural apareça no debate econômico com a mesma regularidade. O segundo é proteger o orçamento do monitoramento ambiental, do Inpe às redes de campo, contra cortes de ocasião, tratando-o como infraestrutura de Estado e não como programa de governo. O terceiro é dar transparência à ligação entre os dados de satélite e os pagamentos do TFFF, com participação de povos indígenas e comunidades tradicionais, que são ao mesmo tempo os principais guardiões e os principais observados.
André encerra seu texto afirmando que a paz entre as nações e a paz com o mundo vivo se tornaram inseparáveis. A frase soa ampla demais para caber numa política pública. Mas a sequência dos números deste mês, com o desmatamento em queda, o fundo florestal em busca de capital e uma eleição capaz de alterar os dois, mostra que a questão já tem data no calendário brasileiro. A pergunta não é se o país sabe medir a floresta. É se o que ele mede terá peso quando o governo mudar.
Perguntas frequentes
O que é a Infraestrutura de Inteligência da Natureza?
É a proposta de Michel André de uma rede permanente de observação dos sistemas vivos, com observatórios de biodiversidade, sensores ecológicos, análise de dados e certificação da recuperação de ecossistemas, capaz de medir continuamente o estado e a resiliência da natureza e orientar decisões políticas e econômicas.
Quanto o mundo gasta com defesa em comparação com a natureza?
O gasto militar mundial foi de US$ 2,887 trilhões em 2025, segundo o SIPRI. Em 2023, segundo o PNUMA, US$ 7,3 trilhões financiaram atividades nocivas à natureza, contra cerca de US$ 220 bilhões destinados a soluções baseadas na natureza.
O Brasil já monitora seus ecossistemas?
Sim, em parte. Inpe (Prodes e Deter), MapBiomas e as contas de ecossistemas do IBGE formam uma base sólida. Falta integrar esses dados às contas nacionais e garantir orçamento estável.
O que é o TFFF?
O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30, pretende pagar países por hectare de floresta tropical preservada. Em setembro de 2026, reunia cerca de US$ 7,3 bilhões em compromissos, para uma meta de US$ 10 bilhões até dezembro.
Quais as principais críticas à proposta?
Monitorar não garante proteger sem vontade política; há risco de financeirização da natureza; a governança dos dados levanta questões de soberania; e a ideia de uma economia de paz baseada em conservação ainda carece de evidência em escala.