Nenhum organismo na Terra é estéril. Do solo agrícola ao intestino humano, passando pela água e pelas raízes das plantas, tudo o que vive está coberto por comunidades de bactérias, fungos e microalgas conhecidas como microbiomas. Por décadas, a ciência conseguiu apenas catalogar essas espécies isoladamente. Agora, um conjunto de projetos de pesquisa financiados pela União Europeia tenta um passo mais ambicioso: preservar e compreender microbiomas inteiros, como comunidades funcionais, e não como coleções de organismos avulsos1.
O avanço da sequenciação de DNA e da capacidade computacional já produziu um catálogo cada vez mais amplo de micro-organismos presentes em solos, plantas, água e no próprio corpo humano. O que ainda escapa aos cientistas é como essas espécies interagem entre si e o que acontece quando essa composição muda, seja pela remoção de uma espécie, seja pela entrada de outra1.
Comunidades inteiras, não organismos isolados
É essa lacuna que motiva o projeto MICROBE, iniciativa europeia coordenada pela microbiologista Tanja Kostic, do Instituto Austríaco de Tecnologia, em parceria com centros de pesquisa da Alemanha, França e Reino Unido, com atuação prevista até 2027. O objetivo é desenvolver métodos padronizados para coletar, conservar e comparar microbiomas completos, e não apenas espécies isoladas em laboratório1.
A mudança de abordagem reflete uma constatação simples: micro-organismos não vivem sozinhos. Eles formam redes de interação constante, e um solo saudável, por exemplo, preserva um potencial biológico muito maior quando toda a sua comunidade microbiana é mantida intacta, e não apenas alguns organismos selecionados1. No Brasil, a Embrapa Meio Ambiente segue lógica parecida ao estudar os chamados solos supressivos, capazes de conter naturalmente o avanço de patógenos que atacam plantações inteiras. Segundo o pesquisador Rodrigo Mendes, a comunidade microbiana do solo auxilia na fixação de nitrogênio, na disponibilização de fósforo e na proteção contra doenças, funções que dependem do equilíbrio do conjunto, não de uma bactéria isolada2.
"A maior parte do oxigênio que respiramos é produzida pelos microbiomas dos oceanos. No nosso próprio organismo, micro-organismos intestinais produzem vitaminas que não conseguimos sintetizar sozinhos."
Solo saudável, agricultura de precisão
A pesquisa europeia se conecta a uma agenda política concreta: a Estratégia de Solo da União Europeia para 2030, que estabelece a meta de que todos os ecossistemas de solo do bloco estejam saudáveis até 2050. Estimativas oficiais da Comissão Europeia indicam que até 70% dos solos europeus hoje não atendem a esse padrão, prejudicados por décadas de uso intensivo, poluição e perda de matéria orgânica3.
A promessa prática dessa linha de pesquisa é a agricultura de precisão microbiana. Em vez de aplicar o mesmo fertilizante biológico ou defensivo em qualquer lavoura, agricultores poderiam analisar o microbioma específico da rizosfera, a fina camada de solo ao redor das raízes, e receber recomendações ajustadas a cada terreno. No Brasil, esse caminho já é explorado por equipes da Embrapa e da USP, que combinam sequenciamento genético com modelos de inteligência artificial para prever quais práticas de manejo favorecem comunidades microbianas benéficas, com potencial de reduzir o uso de defensivos químicos e aumentar a produtividade4.
Contraponto: promessa não é garantia
Nem todos os cientistas veem essa transição como iminente. Fertilizantes microbianos e biopesticidas já existem no mercado há anos, mas sua eficácia varia bastante de um solo para outro, justamente porque cada microbioma é único. Especialistas ligados à agricultura sustentável brasileira apontam que a regulamentação de bioinsumos e a resistência de produtores rurais à adoção dessas tecnologias ainda são obstáculos relevantes, o que sugere que a passagem do laboratório para a lavoura em larga escala deve ser gradual, e não uma ruptura imediata5.
O corpo como ecossistema
A mesma lógica se aplica à medicina. O corpo humano abriga trilhões de micro-organismos, um número que supera em muito o de células humanas propriamente ditas. O Projeto Microbioma Humano, lançado em 2008 pelo NIH, americano, já identificou mais de dez mil espécies microbianas associadas ao corpo humano e cerca de oito milhões de genes bacterianos, um patrimônio genético centenas de vezes maior que o genoma humano6.
Esse reconhecimento vem alimentando a chamada medicina de precisão baseada em microbioma. Em vez de tratamentos padronizados, pesquisadores começam a explorar intervenções voltadas a grupos de pacientes com perfis microbianos semelhantes, do ajuste de dietas à modulação da microbiota intestinal por probióticos, prebióticos ou transplante de microbiota fecal. Pesquisadores da USP, como o professor Chris Hoffmann, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, vêm mapeando como padrões alimentares distintos, como dietas ricas em carboidratos ou em proteína animal, se conectam a perfis microbianos diferentes e a riscos cardiovasculares específicos7.
Quem é dono de um microbioma
O avanço da pesquisa também levanta questões que vão além do laboratório. Um dos temas debatidos pela equipe do projeto MICROBE é a propriedade sobre esses recursos biológicos: a quem pertence um microbioma, sobretudo quando ele se revela comercialmente valioso? Para lidar com isso, os pesquisadores europeus trabalham ao lado de especialistas em bioética e regulação, buscando garantir que futuras aplicações comerciais sejam seguras e socialmente aceitas antes de chegarem ao mercado1.
Ao mesmo tempo, os cientistas evitam criar uma infraestrutura paralela do zero. A estratégia é integrar os novos métodos de conservação de microbiomas aos biobancos e coleções de cultura já existentes na Europa, de modo que essas coleções passem a integrar a infraestrutura de pesquisa biológica do continente como um todo1.
O que fica para o Brasil
Embora o financiamento europeu tenha características próprias, ligadas à Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030 e ao Pacto Ecológico Europeu, o desafio científico de fundo é global. O Brasil concentra parte relevante da biodiversidade microbiana do planeta, tanto em solos tropicais quanto em populações humanas com forte diversidade genética e alimentar. Instituições como Embrapa, USP e centros de pesquisa em saúde pública já produzem conhecimento nessa fronteira, mas especialistas apontam que a padronização de metodologias e a criação de bancos de dados regionais seguem como gargalos a superar, um desafio semelhante ao que motivou o consórcio europeu a se organizar em torno de protocolos comuns4.
Perguntas frequentes
O que é um microbioma?
É o conjunto de bactérias, fungos, vírus e outros micro-organismos que habitam um ambiente específico, como o solo, uma planta ou o corpo humano, junto com o material genético dessas espécies.
Por que os cientistas europeus estão tentando preservar microbiomas inteiros, e não só espécies isoladas?
Porque micro-organismos interagem entre si de forma constante, e boa parte das funções biológicas úteis, como a fixação de nutrientes no solo ou a produção de vitaminas no intestino, depende dessas interações, e não de uma única espécie isolada.
Como o microbioma do solo pode ajudar a agricultura brasileira?
Pesquisas conduzidas pela Embrapa mostram que compreender a comunidade microbiana da rizosfera permite prever a saúde do solo, diagnosticar riscos de doenças antecipadamente e reduzir a dependência de defensivos químicos, com potencial de aumento de produtividade e sustentabilidade.
O microbioma intestinal pode mudar o modo como doenças são tratadas?
Sim. Pesquisadores já associam perfis distintos de microbiota intestinal a riscos diferentes de doenças cardiovasculares, metabólicas e inflamatórias, o que abre caminho para tratamentos e dietas ajustados ao perfil microbiano de cada paciente, em vez de protocolos únicos para todos.
Quem é dono de um microbioma valioso?
Essa é uma questão em aberto. Pesquisadores europeus do projeto MICROBE debatem esse ponto junto a especialistas em bioética, já que um microbioma com aplicação comercial relevante levanta disputas sobre propriedade intelectual e benefícios econômicos.
Referências
- D'ALESSIO, Vittoria. "Formas de vida diminutas para salvar los suelos y la salud". El País, 07 set. 2026. Disponível em: elpais.com.
- Portal Embrapa. "Microrganismos compõem o sistema imunológico do solo e impactam a saúde das plantas".
- Comissão Europeia. Estratégia de Solo da UE para 2030.
- Portal Embrapa. "Sequenciamento de microrganismos do solo pode agir sobre doenças, produtividade e sustentabilidade agrícola".
- Revista de Gestão Social e Ambiental. "O Papel dos Microbiomas do Solo na Produção Sustentável de Alimentos", 2025.
- National Institutes of Health (NIH). Human Microbiome Project.
- Universidade de São Paulo (USP). "Manejo da microbiota intestinal pode personalizar medicina".