Caderno Saúde · Prevenção cardiovascular
Durante décadas, a vacina foi apresentada ao paciente com doença cardíaca como uma medida acessória: algo que evita a gripe, a febre e alguns dias de cama. Essa leitura está mudando de forma rápida. Em pouco mais de um ano, a Sociedade Europeia de Cardiologia e o American College of Cardiology publicaram documentos que colocam a imunização de adultos ao lado de estatinas e anti-hipertensivos no rol de estratégias de prevenção cardiovascular. Em agosto, um estudo da Universidade de Oxford publicado na revista Nature Medicine acrescentou a vacina contra o herpes-zóster a essa lista. O tema ganhou novo fôlego neste domingo com uma reportagem do The Washington Post, que reuniu cardiologistas e infectologistas americanos em torno de quatro vacinas de rotina[1].
A pergunta que interessa ao leitor brasileiro é outra: quanto dessa proteção está ao alcance de quem depende do Sistema Único de Saúde? A resposta, em outubro de 2026, é parcial. Gripe e covid estão disponíveis na rede pública para idosos. A vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) chega pelo SUS apenas às gestantes. E a vacina recombinante contra o herpes-zóster teve a incorporação recusada em janeiro por razões orçamentárias.
A vacina entrou na diretriz de cardiologia
O marco europeu veio em junho de 2025, quando a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) publicou no European Heart Journal um consenso clínico intitulado, em tradução livre, "Vacinação como nova forma de prevenção cardiovascular". O documento reúne evidências de que vacinas contra influenza, SARS-CoV-2, VSR e herpes-zóster reduzem infecções em pacientes de alto risco, e registra que, no caso da gripe, há redução comprovada de eventos cardiovasculares maiores, como infarto e AVC[2]. O texto também orienta a vacinação durante internações por síndrome coronariana aguda e atribui a todos os profissionais de saúde, e não apenas à atenção primária, a responsabilidade de recomendar as doses[3].
Nos Estados Unidos, o American College of Cardiology lançou em agosto de 2025 uma orientação clínica que consolida as recomendações de vacinação para adultos com doença cardíaca, abrangendo influenza, pneumococo, covid-19, VSR e zóster[4]. Em 5 de agosto de 2026, a entidade publicou uma atualização no Journal of the American College of Cardiology com novos dados de ensaios clínicos. Entre eles, evidências randomizadas de que a vacina da gripe em alta dose, comparada à dose padrão, reduziu internações por doença respiratória, cardiovascular e por insuficiência cardíaca em idosos, com benefício absoluto maior entre pacientes cardiopatas[5]. Um dos materiais de apoio do ACC orienta o cardiologista a tratar a vacina como terapia de redução de risco e a não delegar a recomendação ao clínico geral[6].
Por que uma infecção pode desencadear um infarto
A relação entre vírus respiratórios e eventos cardíacos é observada desde a década de 1930, quando pesquisadores notaram mais mortes por infarto nas temporadas de gripe. A demonstração mais citada veio em 2018, com um estudo canadense publicado no New England Journal of Medicine. A equipe de Jeffrey Kwong, da Universidade de Toronto, cruzou exames laboratoriais de influenza com registros hospitalares de Ontário e encontrou um risco seis vezes maior de infarto na semana seguinte ao diagnóstico de gripe[7]. O risco também subiu após outros vírus respiratórios, embora em menor grau, e foi mais alto entre idosos[8].
O mecanismo proposto é essencialmente inflamatório. Ao combater a infecção, o organismo libera mediadores que podem desestabilizar placas de gordura nas artérias, aumentar a demanda de oxigênio do músculo cardíaco e favorecer a formação de coágulos. O consenso europeu cita exatamente esses três elos: inflamação, desestabilização da placa e maior exigência metabólica do miocárdio[3]. Em pessoas com insuficiência cardíaca, a febre e a desidratação de uma infecção grave podem bastar para descompensar um coração que já trabalha no limite. Especialistas ouvidos pelo Washington Post lembram ainda que, no caso da covid, há indícios de ação direta do vírus sobre o músculo cardíaco, e que o risco de eventos cardiovasculares pode permanecer elevado mesmo depois da recuperação[1].
Herpes-zóster: o experimento natural de Oxford
O estudo mais recente sobre o tema aproveitou uma mudança de mercado nos Estados Unidos. Até 2017, a vacina contra o zóster disponível no país era a de vírus vivo atenuado (Zostavax). A partir de outubro daquele ano, a vacina recombinante (Shingrix) substituiu a anterior em poucos meses. Pesquisadores liderados por Paul Harrison e Maxime Taquet, da Universidade de Oxford, usaram registros eletrônicos da rede TriNetX para comparar adultos de 60 anos ou mais vacinados imediatamente antes e imediatamente depois da transição[9].
Como os dois grupos eram muito semelhantes, exceto pelo tipo de vacina recebida, o desenho reduz o viés clássico dos estudos observacionais, em que quem se vacina costuma ser também quem cuida mais da saúde. Ao longo de sete anos, quem recebeu predominantemente a vacina recombinante teve carga cardiovascular 9% menor, considerando doença isquêmica do coração, insuficiência cardíaca e AVC isquêmico em conjunto[10]. Isoladamente, a doença isquêmica caiu 10% e a insuficiência cardíaca, 12%, em ambos os sexos. A redução de 12% no AVC isquêmico apareceu apenas entre os homens[9].
O próprio estudo traz duas ressalvas importantes. A associação foi mais forte nos primeiros anos e enfraqueceu com o tempo, e não houve diferença para miocardite, doença arterial periférica, AVC hemorrágico ou ataque isquêmico transitório[11]. Os autores pedem ensaios clínicos para confirmar a relação de causa. Um deles já está em curso: o DAN-ZOSTER, de fase IV, acompanha cerca de 162 mil dinamarqueses com 65 anos ou mais e tem eventos cardiovasculares maiores e demência como desfechos principais[9].
"A vacina provavelmente ajudou a manter você fora do hospital."
William Schaffner, infectologista da Universidade Vanderbilt, ao The Washington Post[1]Gripe, covid, VSR e zóster: o que o SUS oferece
A urgência do tema no Brasil se mede pelo tamanho do problema. Segundo o Cardiômetro da Sociedade Brasileira de Cardiologia, o país acumulava 318.945 mortes por doenças cardiovasculares até 16 de outubro de 2026, média de uma a cada 72 segundos[12]. A entidade projeta alta de 10,8% até 2030, de 417.550 óbitos em 2024 para 462.573. Em 2024, a insuficiência cardíaca respondeu sozinha por 230.559 internações no SUS[13], justamente uma das condições que mais se agravam com infecções respiratórias.
| Vacina | Situação no SUS (out/2026) | Evidência cardiovascular |
|---|---|---|
| Gripe (influenza) | Dose anual da vacina trivalente para idosos, gestantes, crianças e pessoas com comorbidades. A versão de alta dose, preferida para idosos nas diretrizes americanas, é encontrada em clínicas privadas. | A mais robusta: inclui ensaios randomizados com redução de eventos cardiovasculares maiores. |
| Covid-19 | Rotina para idosos com 60 anos ou mais, com uma dose a cada seis meses. Pessoas com comorbidades recebem reforço anual. | Infecção associada a infarto, AVC, arritmias e pericardite; vacina reduz quadros graves. |
| VSR | Oferecida a gestantes a partir da 28ª semana desde dezembro de 2025. Para idosos, apenas na rede privada. | Ensaio randomizado recente sugere menos doença cardiorrespiratória entre vacinados. |
| Herpes-zóster (recombinante) | Não incorporada. Na rede privada, o esquema de duas doses pode superar R$ 2 mil. | Observacional, incluindo o estudo de Oxford; ensaio dinamarquês em andamento. |
No caso da gripe, a campanha nacional de 2026 começou em 28 de março, mirou 79,4 milhões de pessoas em grupos prioritários e estabeleceu meta de 90% de cobertura[14]. A covid passou a ter calendário de rotina para idosos, com duas doses anuais separadas por seis meses[15]. A lacuna mais visível está no VSR: a vacina Abrysvo integra o calendário da gestante pelo SUS, mas o acesso para idosos continua restrito à rede privada, embora o fabricante colabore com o Instituto Butantan para produção nacional[16]. Nos Estados Unidos, segundo a reportagem do Washington Post, quase um quarto dos adultos com 50 anos ou mais internados por VSR em cinco temporadas teve um evento cardíaco agudo, frequentemente insuficiência cardíaca[1].
A conta do zóster no SUS
Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde publicou a decisão de não incorporar a vacina recombinante contra o herpes-zóster, avaliada para idosos com 80 anos ou mais e imunocomprometidos a partir de 18 anos. A Conitec estimou impacto orçamentário superior a R$ 5,2 bilhões em cinco anos e considerou o imunizante não custo-efetivo no preço apresentado, embora tenha reconhecido sua relevância clínica e deixado a porta aberta para nova negociação[17].
Os números da doença no país ajudam a dimensionar o debate. Entre 2008 e 2024, o SUS registrou 30.801 internações por herpes-zóster, e entre 2007 e 2023 foram 1.567 mortes, 90% delas em pessoas com 50 anos ou mais[18]. A análise da Conitec, porém, foi feita antes da publicação do estudo de Oxford e, como de praxe, mediu o benefício a partir da prevenção da própria doença. Se o efeito cardiovascular for confirmado por ensaios clínicos, a equação de custo-efetividade muda, e esse é exatamente o tipo de "fato novo" que a portaria prevê como gatilho para reavaliação.
O que muda para o paciente e para o médico
A principal consequência prática das novas diretrizes é deslocar a conversa sobre vacina para o consultório do cardiologista. O argumento das sociedades médicas é simples: a recomendação direta de um especialista é o fator que mais aumenta a adesão, e o paciente cardiopata visita o cardiologista com mais frequência do que qualquer outro profissional. No Brasil, onde a cobertura vacinal ainda não se recuperou plenamente da queda dos últimos anos, essa mudança de rotina custa pouco e pode ter efeito relevante.
Para quem tem doença cardíaca, histórico de AVC ou mais de 60 anos, o caminho começa pela caderneta: verificar se a dose anual da gripe e as doses semestrais de covid estão em dia, o que é gratuito no SUS. As vacinas contra VSR e zóster, hoje restritas à rede privada para esse público, devem ser discutidas com o médico, considerando idade, condições de saúde e custo. Nenhuma delas substitui o controle da pressão, do colesterol e do diabetes. São uma camada a mais de proteção, não um atalho.
Perguntas frequentes
Vacinas podem mesmo proteger o coração?
Sim, de forma indireta. Infecções como gripe, covid, VSR e herpes-zóster provocam inflamação que pode desestabilizar placas nas artérias e descompensar a insuficiência cardíaca. Ao reduzir casos graves dessas infecções, as vacinas diminuem o risco de infarto, AVC e internações cardíacas. A evidência é mais forte para a vacina da gripe.
Qual é a relação entre gripe e infarto?
Um estudo canadense publicado no New England Journal of Medicine em 2018 mostrou que o risco de internação por infarto fica cerca de seis vezes maior na semana seguinte a um diagnóstico laboratorial de gripe.
O que o estudo da Nature Medicine descobriu sobre a vacina do herpes-zóster?
Pesquisadores de Oxford compararam adultos de 60 anos ou mais vacinados com a vacina recombinante e com a antiga, de vírus vivo. Em sete anos, o primeiro grupo teve carga cardiovascular 9% menor, com reduções de 10% em doença isquêmica do coração e 12% em insuficiência cardíaca. O estudo é observacional e não prova causa.
A vacina contra herpes-zóster está disponível no SUS?
Não. Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde decidiu não incorporar a vacina recombinante após parecer da Conitec, que estimou impacto de mais de R$ 5,2 bilhões em cinco anos. A decisão pode ser revista diante de novos dados ou de redução de preço.
Idosos podem tomar a vacina contra VSR pelo SUS?
Até outubro de 2026, não. O SUS oferece a vacina contra o vírus sincicial respiratório apenas para gestantes a partir da 28ª semana. Para idosos, ela está disponível na rede privada.
Quem tem doença cardíaca pode tomar essas vacinas com segurança?
Segundo o American College of Cardiology, efeitos adversos graves são extremamente raros e, para pacientes cardiopatas, os benefícios superam com folga os riscos. A indicação individual deve ser feita com o médico, especialmente para imunocomprometidos e transplantados.