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Durante anos, a orientação para escapar do golpe do amor cabia em poucas linhas: desconfie de mensagens mal escritas, peça uma chamada de vídeo e nunca mande dinheiro para quem você não conhece pessoalmente. A inteligência artificial generativa tornou boa parte desse manual obsoleta. Hoje o golpista escreve com fluência de falante nativo, exibe fotos coerentes de uma vida inteira e, se necessário, aparece em vídeo com um rosto e uma voz que não são seus. A pergunta que pesquisadores passaram a fazer é outra: se não dá mais para enxergar o golpe na superfície da conversa, é possível treinar as pessoas para reconhecer a manipulação que está por baixo dela?

Essa é a aposta de Fangzhou Wang, professora assistente de criminologia e justiça criminal da Universidade do Texas em Arlington, entrevistada recentemente no podcast Science Quickly, da Scientific American1. Wang estuda fraudes financeiras online e conduz projetos, ainda em andamento, que testam uma espécie de vacina comportamental contra o estelionato sentimental. O tema ganhou urgência porque o crime deixou de ser artesanal e passou a operar em escala industrial, inclusive no Brasil.

De conversa sedutora a linha de montagem

No episódio, a pesquisadora descreve uma mudança de natureza no golpe do amor. O esquema clássico, em que alguém com identidade falsa constrói afeto para depois pedir dinheiro, segue existindo. Mas a modalidade que mais cresce combina romance e investimento: depois de conquistar a confiança, o golpista propõe construir um futuro a dois e indica uma plataforma de aplicações que ele mesmo controla. A vítima acredita estar investindo; na prática, transfere o próprio patrimônio diretamente para a quadrilha1. Wang classifica o fenômeno como crime organizado com traços de colarinho branco, e não como delito de oportunistas isolados.

Os dados institucionais confirmam o diagnóstico. O relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) divulgado em julho de 2026 estima que golpes aplicados a partir do Leste e do Sudeste Asiático, da Austrália e da Nova Zelândia causaram entre US$ 88,3 bilhões e US$ 114,1 bilhões em perdas em 20254. Os complexos que operam esse tipo de fraude, conhecida internacionalmente como pig butchering (em tradução livre, engorda do porco antes do abate), usam mão de obra forçada de pelo menos 80 nacionalidades e lavam os recursos em criptoativos. O mesmo documento aponta IA generativa, deepfakes e fraude quase automatizada entre as ferramentas em expansão.

Nos Estados Unidos, o Internet Crime Complaint Center (IC3), do FBI, registrou US$ 929,3 milhões em perdas declaradas por golpes de confiança e romance em 2025, contra cerca de US$ 672 milhões no ano anterior2. No Reino Unido, o serviço Report Fraud, da polícia da City de Londres, contabilizou 10.784 denúncias de fraude romântica em 2025, alta de 29% em um ano, com prejuízo somado de £ 102 milhões8. Em todos os casos, as autoridades advertem que os números representam apenas o que foi denunciado: vergonha e culpa mantêm grande parte das vítimas em silêncio.

As cinco etapas do golpe do amor e onde a IA atua Diagrama em cinco etapas: identidade fabricada, aproximação, confiança e exclusividade, crise ou oportunidade e pedido financeiro. A IA atua nas três primeiras; a inoculação busca interromper o processo antes do pedido. COMO O GOLPE AVANÇA 1 Identidade fabricada 2 Aproximação e afinidade 3 Confiança e exclusividade 4 Crise ou oportunidade 5 Pedido financeiro IA GENERATIVA: textos, fotos, perfis e deepfakes INOCULAÇÃO: reconhecer a técnica antes do pedido ISOLAMENTO: "não conte a ninguém"
Esquema elaborado pelo O Tecido a partir do modelo de etapas descrito por Monica Whitty (2013) e dos relatos de Fangzhou Wang à Scientific American. O isolamento da vítima costuma acompanhar as fases finais.

Por que os velhos sinais de alerta deixaram de funcionar

Wang é direta ao revisar as dicas tradicionais1. O texto truncado e cheio de erros de ortografia, antes o primeiro indício de um perfil falso, desapareceu: os modelos de linguagem redigem mensagens impecáveis. A coerência entre fotos e vídeos ao longo do tempo continua sendo um critério útil, mas ferramentas de imagem sintética permitem fabricar uma biografia visual consistente. E até a chamada de vídeo ao vivo, por muito tempo tratada como prova definitiva, pode ser contaminada por software que troca rosto e voz em tempo real.

Segundo a pesquisadora, entrevistas com fraudadores indicam que eles já não escrevem os roteiros sozinhos: usam IA para produzir as mensagens e as imagens dos personagens1. O efeito é duplo. A qualidade de cada abordagem sobe e o custo de manter centenas de conversas simultâneas cai. Uma única operação passa a cultivar dezenas de relacionamentos paralelos com a mesma atenção que antes exigia um golpista dedicado a uma única vítima.

O problema é conhecido das polícias brasileiras. Em 2025, a Polícia Civil do Pará deflagrou a Operação Hollywood contra um grupo investigado por estelionato sentimental e lavagem de dinheiro que usava a imagem do ator Keanu Reeves para enganar vítimas. Em Salvador, a Operação Procuração Zero, em janeiro de 2026, investigou suspeitos de usar IA em videochamadas para se passar por terceiros diante de servidores de cartório. A chamada de vídeo, portanto, já não basta como prova de identidade nem para instituições.

Quando o golpe passa a escrever melhor do que a vítima, a defesa precisa sair da forma da mensagem e chegar à lógica da persuasão.

A lógica da vacina: dose fraca, defesa forte

O projeto mais recente de Wang parte da teoria da inoculação psicológica. Em vez de apenas informar que golpes existem, a intervenção expõe as pessoas a versões enfraquecidas das técnicas de persuasão usadas pelos golpistas e explica como cada uma funciona. A ideia é que o participante, ao reconhecer o mecanismo em uma situação controlada, consiga identificá-lo quando aparecer numa conversa real e interrompa o processo antes do pedido de dinheiro1. A equipe também investiga se esse treinamento funciona igualmente quando o conteúdo enganoso foi produzido por uma pessoa ou por uma IA.

A abordagem tem precedente sólido no campo da desinformação. Pesquisadores das universidades de Cambridge e Bristol, liderados por Jon Roozenbeek e Sander van der Linden, publicaram em 2022 na revista Science Advances sete experimentos com quase 30 mil participantes. Vídeos curtos que apresentavam técnicas de manipulação, como falsas dicotomias e bodes expiatórios, reduziram de forma significativa a suscetibilidade dos espectadores, inclusive num teste de campo no YouTube5. A estratégia, chamada de prebunking, funciona porque ensina o padrão, e não o conteúdo específico: quem aprende a reconhecer a falsa urgência a identifica em qualquer assunto.

Transposta para o golpe do amor, a lógica sugere ensinar o público a perceber movimentos típicos: a escalada rápida de intimidade, o pedido de exclusividade e sigilo, a crise inesperada que exige ajuda imediata, a oportunidade de investimento compartilhado. A literatura acadêmica descreve essas fases desde o trabalho da psicóloga Monica Whitty, que em 2013 propôs um modelo das técnicas persuasivas dos fraudadores no British Journal of Criminology7.

Saber não é o mesmo que resistir

O achado que mais surpreendeu Wang até aqui vai contra a intuição das campanhas de conscientização. Muitas pessoas conseguem listar sinais de alerta quando perguntadas em abstrato, mas não os reconhecem no meio de uma conversa real, carregada de afeto1. O conhecimento prévio não se converte automaticamente em resistência. Some-se a isso um jogo de adaptação: os golpistas acompanham as recomendações públicas, inclusive artigos acadêmicos, e ajustam seus roteiros.

Outro resultado preliminar diz respeito ao medo. Campanhas que apenas assustam, repetindo que golpes são perigosos sem mostrar como a manipulação opera, não parecem proteger melhor e podem até produzir efeitos adversos na forma como as pessoas se relacionam online1. Para a pesquisadora, o que importa é fortalecer duas variáveis: a motivação e a capacidade concreta de resistir à persuasão. Isso significa mostrar como a manipulação aparece nas mensagens e o que fazer quando o alerta acende.

A recomendação prática mais enfática de Wang é social, não tecnológica: não manter a relação em segredo. Contar a amigos, familiares ou colegas o que está acontecendo e o que gera desconfiança cria um olhar externo, menos envolvido emocionalmente1. Não por acaso, o pedido de sigilo é um dos recursos mais frequentes dos golpistas, segundo alertas do próprio FBI.

Contraponto

A inoculação psicológica tem limites que seus próprios defensores reconhecem. Estudos de prebunking costumam medir a capacidade de identificar manipulação em questionários logo após a intervenção, e não o comportamento financeiro das pessoas meses depois; pesquisas da área indicam que o efeito perde força com o tempo e exige reforços periódicos. A pesquisa de Wang aplicada a golpes românticos ainda não tem resultados publicados. Há também um risco político: concentrar a resposta na educação individual pode servir de álibi para plataformas e bancos que lucram com o tráfego e as transações. A própria pesquisadora rejeita essa leitura e afirma que aplicativos de relacionamento, redes sociais, instituições financeiras e forças policiais precisam tornar o golpe mais difícil de executar desde o início1.

O cenário brasileiro: 2,26 milhões de estelionatos em um ano

No Brasil, o golpe do amor se insere numa explosão mais ampla do estelionato. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026, registra 2.261.055 ocorrências em 2025, o equivalente a cerca de quatro golpes por minuto3. O número é 144% maior que o de 2020 e mais de cinco vezes o de 2018, numa curva acelerada pela pandemia e pela popularização do Pix. A taxa nacional chega a 1.059 casos por 100 mil habitantes.

Ocorrências de estelionato no Brasil, 2018, 2020 e 2025 Gráfico de barras: 426.799 casos em 2018, 927.898 em 2020 e 2.261.055 em 2025, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. ESTELIONATO NO BRASIL · OCORRÊNCIAS REGISTRADAS 201820202025 426.799927.8982.261.055
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026). Inclui estelionato comum e por fraude eletrônica. Elaboração: O Tecido.

O Anuário aponta ainda que facções criminosas mantêm escritórios dedicados exclusivamente a fraudes digitais, vistas como negócio de baixo risco e alta rentabilidade em comparação ao tráfico. É a versão brasileira da industrialização descrita por Wang e pelo UNODC. O gargalo está na resposta do Estado: levantamentos com base no próprio Anuário indicam que menos de 3% das ocorrências de estelionato chegam a virar processo judicial, o que deixa a prevenção como principal linha de defesa.

Na ponta financeira, o Banco Central reforçou o Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix. Desde outubro de 2025, os aplicativos bancários oferecem um botão de contestação para casos de fraude, golpe e coerção; em fevereiro de 2026 entraram em vigor as regras do chamado MED 2.0, que permitem rastrear o caminho do dinheiro entre contas e prometem devolução em até 11 dias após a contestação6. O mecanismo depende de velocidade: quanto mais cedo a vítima contesta, maior a chance de ainda haver saldo na conta usada pelo golpista. Num crime em que a vítima muitas vezes demora meses para perceber que foi enganada, esse é um limite estrutural.

O que fazer, segundo pesquisadores e autoridades

  • Trate qualquer pedido de dinheiro de quem você só conhece online como alerta máximo, por mais longa e convincente que seja a relação.
  • Desconfie de convites para investir junto, sobretudo em plataformas de criptoativos indicadas pela outra pessoa.
  • Não aceite o sigilo. Conte a alguém de confiança o que está acontecendo e o que parece estranho.
  • Não considere vídeo ou foto como prova de identidade. Deepfakes em tempo real já são usados em fraudes no Brasil.
  • Se transferiu dinheiro, aja rápido: conteste a transação pelo botão do MED no aplicativo do banco, registre boletim de ocorrência e guarde todas as conversas.

Perguntas frequentes

O que é o golpe do amor?

É uma forma de estelionato em que o criminoso cria uma identidade falsa, geralmente em aplicativos de relacionamento ou redes sociais, constrói um vínculo afetivo com a vítima e depois a convence a transferir dinheiro, seja para resolver uma suposta emergência, seja para aplicar em investimentos fraudulentos.

Como a inteligência artificial mudou o golpe do amor?

A IA generativa eliminou sinais clássicos como mensagens mal escritas, permite criar fotos e perfis coerentes e viabiliza deepfakes de rosto e voz em chamadas de vídeo. Além disso, reduz o custo de manter muitas conversas ao mesmo tempo, o que permite às quadrilhas operar em escala.

O que é inoculação psicológica contra golpes?

É uma técnica de prevenção inspirada nas vacinas: as pessoas são expostas a exemplos enfraquecidos das estratégias de persuasão usadas por golpistas, com a explicação de como cada uma funciona, para que consigam reconhecê-las em situações reais. A abordagem tem resultados positivos contra desinformação e está em teste para golpes românticos.

Chamada de vídeo ainda serve para confirmar se a pessoa é real?

Não de forma confiável. Softwares de deepfake conseguem alterar rosto e voz em tempo real, e investigações no Brasil já identificaram esse uso em fraudes. A chamada pode ajudar, mas não deve ser tratada como prova definitiva de identidade.

Caí em um golpe via Pix. O que fazer?

Conteste a transação o quanto antes pelo botão do Mecanismo Especial de Devolução (MED) no aplicativo do seu banco, registre boletim de ocorrência e preserve conversas e comprovantes. Pelas regras do Banco Central, a devolução pode ocorrer em até 11 dias após a contestação, se ainda houver recursos na conta de destino.

Nota editorial: este texto foi produzido pelo O Tecido com base em pesquisa independente. As declarações e resultados atribuídos à pesquisadora Fangzhou Wang foram apresentados no podcast Science Quickly, da Scientific American (episódio de Rachel Feltman, Fonda Mwangi e Alex Sugiura), aqui parafraseados e contextualizados. Leia o original em scientificamerican.com.