Economia · O Tecido
A abertura das subscrições da oferta pública inicial (IPO) da Unitree Robotics, nesta segunda-feira, 10 de agosto, na Bolsa de Xangai, marca um ponto de inflexão simbólico para a indústria global de robótica. Pela primeira vez, uma fabricante de robôs humanoides com faturamento e lucro consolidados chega ao mercado acionário chinês, oferecendo aos investidores algo raro no setor: números reais, não apenas promessas. A empresa de Hangzhou está vendendo cerca de 40,45 milhões de ações a 150,80 yuans (por volta de US$ 22) cada, o equivalente a 10% do seu capital social após a oferta, em uma operação que deve captar aproximadamente 6,1 bilhões de yuans (cerca de US$ 900 milhões)1.
A procura superou em muito a oferta disponível. Depois de excluídas as propostas inválidas e a fatia de maior preço, as subscrições institucionais somaram 71,46 bilhões de ações, o equivalente a 2.760,67 vezes o tamanho inicial da oferta offline antes dos ajustes de alocação estratégica1. Bancos de investimento internacionais estimaram a operação em torno de US$ 9 bilhões de valor de mercado, o que tornaria a Unitree, fundada em 2016, a primeira fabricante de robôs humanoides listada no mercado continental chinês2,3.
Da garagem ao pregão: os números por trás do robô que dança
Fundada como uma empresa civil de robótica, a Unitree construiu liderança em componentes centrais de robôs, controle de movimento e sensoriamento, com foco em robôs humanoides e quadrúpedes de uso geral, componentes robóticos e modelos de inteligência incorporada (embodied intelligence)1. Entre 2023 e 2025, a companhia vendeu 33.294 robôs quadrúpedes e 5.632 humanoides, com os embarques de humanoides superando 5.500 unidades somente em 20251.
A receita saltou de 159,13 milhões de yuans em 2023 para 392,77 milhões em 2024 e 1,70 bilhão de yuans em 2025, com lucro líquido de 278,21 milhões de yuans no último ano1. As vendas internacionais já respondem por 43,65% da receita principal da empresa, o equivalente a 731,66 milhões de yuans1. Ainda assim, o preço médio dos humanoides vendidos pela empresa caiu de forma expressiva, de cerca de 593 mil yuans em 2023 para aproximadamente 167,6 mil yuans em 2024, um movimento de popularização que ajuda a explicar o salto nos volumes, mas que também pressiona margens em um setor ainda dominado por prejuízos entre concorrentes4.
O processo regulatório também chama atenção pela velocidade. Segundo o China Securities Journal, a candidatura da Unitree foi aceita pela Bolsa de Xangai em 20 de março e aprovada pelo comitê de listagem em apenas 73 dias, um ritmo recorde para o mercado STAR1. Outras análises situam a aprovação final da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China em 2 de julho, fechando um ciclo de 104 dias, o mais rápido já registrado no mecanismo de pré-análise da bolsa desde sua criação5. A discrepância entre as datas provavelmente reflete etapas distintas do processo (aceitação do pedido versus registro final), mas o consenso entre analistas é o mesmo: Pequim tratou a listagem como um evento de sinalização política tanto quanto financeira.
Robótica entra na lista das novas exportações estratégicas da China
A IPO da Unitree ocorre em um momento em que robótica, produtos ligados a inteligência artificial e medicamentos inovadores despontam como três novos motores das exportações chinesas, sucedendo o antigo trio formado por veículos elétricos, baterias de lítio e painéis fotovoltaicos1. Os dados alfandegários sustentam essa leitura: a China se tornou exportadora líquida de robôs industriais pela primeira vez em 2025 e, no primeiro semestre de 2026, suas exportações de robôs industriais alcançaram 6,29 bilhões de yuans, alta de 18,6% em relação ao ano anterior, com produtos enviados a 141 países e regiões, enquanto as exportações de robôs biomiméticos inteligentes superaram 10 mil unidades1. Em julho, especificamente, as exportações chinesas de robôs industriais cresceram 13,2% na comparação anual, segundo a Administração Geral das Alfândegas6.
O ministro da Ciência e Tecnologia da China, Yin Hejun, afirmou que os três setores emergentes avançam rapidamente e podem se tornar novos pilares industriais do país1. O pano de fundo geopolítico, porém, é mais tenso do que o discurso oficial sugere: a oferta da Unitree acontece em meio ao acirramento das tensões comerciais e tecnológicas entre Estados Unidos e China, com Washington endurecendo o acesso chinês a tecnologia e mercado americanos, incluindo novas restrições à importação de robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior, e Pequim respondendo com controles de exportação e sanções a entidades selecionadas3. A Unitree afirma que seus modelos atuais já possuem aprovações regulatórias para venda nos Estados Unidos, mas reconhece que produtos futuros podem ser barrados do mercado americano3.
Contraponto: entusiasmo justificado ou bolha de expectativas?
Nem todos os analistas compartilham o otimismo em torno da robótica humanoide como classe de ativos. A consultoria Goldman Sachs projeta que o mercado global de robótica humanoide deve valer cerca de US$ 38 bilhões até 2035, um valor que a startup americana Figure AI já teria superado isoladamente em avaliações privadas, apoiada em receita ainda modesta e não totalmente divulgada5. Críticos apontam que o setor segue distante da adoção em massa fora de nichos como pesquisa, educação e demonstrações, e que mais de 70% dos humanoides vendidos pela própria Unitree em 2025 tiveram fins educacionais ou de pesquisa, não aplicações comerciais de larga escala4. A queda acentuada nos preços médios dos robôs também pode ser lida de duas formas: como sinal de maturação tecnológica e escala industrial, ou como indício de que a demanda real ainda não sustenta os preços praticados anos atrás, forçando fabricantes a competir por volume em vez de margem.
O que isso significa para a indústria brasileira
Enquanto a China acelera a robotização de sua base industrial e testa o apetite do mercado de capitais para humanoides, o Brasil segue em um estágio bem mais incipiente de automação avançada. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado em agosto de 2026, mostra que 74% das empresas industriais brasileiras compraram máquinas e equipamentos novos em 2025, mas apenas 9% direcionaram esses investimentos para robotização e apenas 5% para automação baseada em máquinas conectadas em rede, capazes de processar dados de forma autônoma7. Entre as grandes empresas, o percentual de investimento voltado à automação de processo produtivo sobe para 7%; nas médias e pequenas, cai para 4% e 2%, respectivamente7.
Há, porém, sinais de aceleração em outra frente. Segundo a Pesquisa de Inovação (Pintec) do IBGE, a adoção de inteligência artificial pelas empresas industriais brasileiras mais que dobrou entre 2022 (16,9%) e 2024 (41,9%)8. Ainda assim, a difusão de tecnologias digitais em conjunto permanece baixa: 59,2% das indústrias usam apenas uma ou duas tecnologias digitais entre as seis mapeadas pelo IBGE, incluindo robótica, manufatura aditiva e computação em nuvem8. O contraste com a Ásia é evidente também em escala: a Federação Internacional de Robótica (IFR) estima que 542 mil robôs industriais foram instalados no mundo em 2024, com a Ásia concentrando 74% dessas novas implantações, a Europa 16% e as Américas apenas 9%9.
O comércio bilateral reforça a proximidade entre as duas economias, ainda que majoritariamente concentrado em commodities e bens de consumo. No primeiro semestre de 2026, a China respondeu por cerca de um terço das exportações brasileiras e por 27% de todas as compras externas do Brasil, com importações de origem chinesa somando US$ 38,5 bilhões no período, o maior valor já registrado10. Máquinas, equipamentos eletrônicos e insumos industriais figuram entre os principais itens importados da China pelo Brasil, um canal que tende a se tornar mais relevante caso a robótica humanoide de fato amadureça como categoria de exportação chinesa nos próximos anos6.
Para o mercado de trabalho brasileiro, a corrida pela automação levanta uma questão de qualificação, não apenas de capital. O ecossistema CNI/SENAI estima, no Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, que o país precisará qualificar cerca de 14 milhões de trabalhadores em ocupações industriais até 2027, entre formação inicial e requalificação profissional9. É um lembrete de que, independentemente do ritmo de adoção de robôs humanoides no chão de fábrica brasileiro, a lacuna de mão de obra especializada em sistemas automatizados já é hoje um gargalo concreto, citado por 63% dos empregadores consultados pelo Fórum Econômico Mundial como a maior barreira à transformação tecnológica das empresas9.
Perguntas frequentes
O que a Unitree faz exatamente?
A Unitree Robotics, também conhecida como Yushu Technology, é uma fabricante chinesa de Hangzhou especializada em robôs quadrúpedes (com formato de cão) e robôs humanoides de uso geral, além de componentes robóticos e modelos de inteligência incorporada aplicados ao controle de movimento1.
Quanto a Unitree pretende levantar com a IPO e qual sua avaliação de mercado?
A oferta deve captar cerca de 6,1 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 900 milhões), com a companhia avaliada em torno de 61 bilhões de yuans, o equivalente a cerca de US$ 9 bilhões1,2.
A Unitree é lucrativa?
Sim. A empresa registrou lucro líquido de 278,21 milhões de yuans em 2025, um diferencial relevante em um setor de robótica humanoide ainda marcado por prejuízos generalizados entre concorrentes globais1,5.
Como isso afeta o Brasil diretamente?
Não há impacto imediato sobre a indústria brasileira, que ainda investe pouco em robotização (9% das empresas industriais em 2025, segundo a CNI). O efeito mais provável é indireto: pressão de preço e maior oferta de equipamentos automatizados chineses no médio prazo, além de um cenário competitivo global em que o Brasil corre o risco de ampliar sua defasagem tecnológica frente a Ásia e economias avançadas7,9.
Glossário
- STAR Market
- Segmento da Bolsa de Xangai voltado a empresas de ciência e tecnologia de alto crescimento, com regras de listagem mais flexíveis que o mercado principal chinês, comparável ao papel da Nasdaq nos Estados Unidos.
- Robô humanoide
- Robô projetado com forma e movimentação semelhantes às de um ser humano, geralmente bípede, usado em pesquisa, educação, logística e, potencialmente, manufatura.
- Inteligência incorporada (embodied intelligence)
- Abordagem de inteligência artificial que integra percepção, raciocínio e ação física em um corpo robótico, permitindo que o sistema aprenda a partir da interação direta com o ambiente.
- IPO (Initial Public Offering)
- Oferta pública inicial de ações, processo pelo qual uma empresa privada passa a ter suas ações negociadas em bolsa de valores.