Cães robóticos que dançam, lutam artes marciais e correm mais rápido do que velocistas olímpicos deixaram de ser curiosidade de feira tecnológica para se tornar tese de investimento. Nesta quarta-feira, a chinesa Unitree Robotics estreou no Star Market, o segmento de tecnologia da Bolsa de Xangai, e viveu um dos debuts mais explosivos do ano: as ações chegaram a disparar mais de 600% sobre o preço de abertura antes de moderar o movimento, encerrando a manhã com alta superior a 450%1.
A oferta pública inicial havia sido precificada em 150,80 yuans por ação, o equivalente a cerca de 19 euros ou pouco mais de 22 dólares. Na abertura do pregão, os papéis chegaram a tocar a casa dos 1.100 yuans, o que elevou o valor de mercado da companhia para aproximadamente 445 bilhões de yuans, algo próximo de 66 bilhões de dólares em determinado momento do dia, antes de o preço recuar para a faixa dos 900 yuans2. Já ao fim da manhã, com parte da euforia dissipada, a capitalização recuada ficava próxima dos 337 bilhões de yuans, cerca de 43,1 bilhões de euros, segundo o jornal espanhol Cinco Días, do grupo El País1.
Um IPO recorde em demanda
A procura pela oferta bateu recordes no mercado chinês. O lote destinado a investidores de varejo foi superdemandado em mais de 8 mil vezes, e cerca de 9,8 milhões de contas de investidores disputaram apenas 9,7 milhões de ações, resultando em uma taxa de rateio de apenas 0,018%2. A operação levantou cerca de 6,1 bilhões de yuans, próximo de 900 milhões de dólares, com a venda de 40,45 milhões de ações, equivalentes a 10% do capital social ampliado da empresa3. Entre os investidores estratégicos que entraram na oferta estão nomes de peso como Tencent, DeepSeek, a petrolífera estatal China National Petroleum, a operadora China Telecom e o fundo previdenciário nacional chinês2.
Antes mesmo da estreia oficial, o mercado paralelo de futuros perpétuos já sinalizava o tamanho do apetite dos investidores. Contratos negociados em plataformas como a Hyperliquid, que permitem apostar no preço de um ativo sem efetivamente possuí-lo, chegaram a precificar a Unitree perto de 86 euros por ação nas vésperas do IPO, valor que apontava para uma capitalização próxima de 35 bilhões de euros, quase cinco vezes acima da avaliação da oferta oficial1. Esse mecanismo já havia se mostrado um termômetro relativamente preciso em estreias recentes, como as da fabricante de chips de memória CXMT, da empresa de inteligência artificial Cerebras Systems e da SpaceX, cujos preços de mercado paralelo se aproximaram bastante do valor efetivamente atingido no primeiro dia de negociação1.
Quem é a Unitree e por que ela virou símbolo do setor
Fundada em 2016 pelo engenheiro Wang Xingxing, a Unitree começou produzindo robôs quadrúpedes de custo relativamente acessível e, com o tempo, ganhou sofisticação até se tornar um fenômeno de cultura pop na China, com aparições em programas de televisão de Ano Novo Lunar e participações em competições esportivas criadas especialmente para robôs, como meias-maratonas e lutas de boxe1. A companhia vende robôs a preços que variam de cerca de 5 mil a 100 mil dólares, dependendo do nível de sofisticação, e já entregou mais de 18 mil unidades4.
Diferentemente de boa parte dos concorrentes globais, a Unitree é lucrativa. No exercício mais recente, a receita ficou perto de 1,7 bilhão de yuans, cerca de 217 milhões de euros, com lucro líquido próximo de 600 milhões de yuans, ou 76,6 milhões de euros1. Mesmo com esse desempenho, analistas apontam que, mesmo à avaliação inicial do IPO, a empresa negociava a cerca de 36 vezes suas vendas, o que a colocava, paradoxalmente, como a opção "mais barata" do setor diante de rivais privadas como a americana Figure AI, avaliada em torno de 39 bilhões de dólares sem gerar lucro4.
Um setor inteiro de olho em Xangai
A estreia da Unitree é vista pelo mercado como uma referência de precificação para o restante do setor. Segundo fontes da indústria ouvidas pela agência financeira Caixin, o resultado deve influenciar a avaliação de outras 30 a 50 empresas chinesas de robótica que preparam aberturas de capital em Hong Kong, entre elas AgiBot e Engine AI, além da Leju Robotics, fabricante do humanoide Kuavo, que pretende listar ações no mercado ChiNext, em Shenzhen3. A pioneira do setor na bolsa, a UBTech Robotics, estreou em Hong Kong em dezembro de 2023 e acumula alta moderada desde então1.
Nos Estados Unidos, a corrida também mobiliza gigantes fora do setor de robótica pura. A Tesla, de Elon Musk, colocou seu robô humanoide Optimus entre as apostas estratégicas da companhia e projeta produção em larga escala, para além dos carros elétricos. No início do ano, o banco Barclays estimou que o mercado de robôs humanoides pode chegar a 200 bilhões de dólares em 2035, ante pouco mais de 3 bilhões atualmente1. Globalmente, o volume de capital de risco destinado à robótica humanoide já vinha em trajetória acelerada: somente em 2025, investidores aportaram cerca de 4,6 bilhões de dólares no setor, quase o triplo do registrado em 20245.
Contraponto: euforia de bolsa x maturidade real do setor
Nem todo especialista compartilha o otimismo do mercado financeiro. Pesquisadores como Rodney Brooks, cofundador da iRobot e uma das vozes mais respeitadas da robótica mundial, vêm alertando que muitas das demonstrações mais chamativas do setor funcionam mais como espetáculo do que como prova de capacidade real, criadas para impressionar investidores e o público em geral, mais do que para comprovar utilidade prática imediata5.
Reportagens do setor também observam que a maior parte das implantações atuais de humanoides ainda ocorre em universidades, projetos apoiados por governos e demonstrações públicas, e não em operações industriais de larga escala já consolidadas4. Ou seja: mesmo com a Unitree já lucrativa e vendendo em volume, o mercado como um todo segue em fase inicial de adoção comercial, o que torna o salto de centenas de pontos percentuais no primeiro dia de negociação um episódio de exuberância especulativa tanto quanto um veredito definitivo sobre o futuro da tecnologia.
E o Brasil, fica de fora dessa corrida?
Enquanto Estados Unidos, Europa e China estruturam políticas industriais e bilhões em investimento voltados a humanoides, o Brasil segue em posição mais cautelosa nesse segmento específico, sem uma estratégia nacional consolidada para a robótica de forma humana6. Isso não significa, porém, que o país esteja parado no debate mais amplo de automação. O parque de robôs industriais brasileiros já ultrapassa 30 mil unidades ativas, com crescimento médio anual de 12%, segundo levantamento da consultoria Indra, e quase metade das indústrias nacionais planeja investir em robôs multifuncionais até o fim deste ano7.
O governo federal também sinalizou apoio ao setor mais amplo de automação: um pacote de 186,6 bilhões de reais foi anunciado para acelerar a transformação digital da indústria nacional, com linhas de financiamento via Finep e editais do BNDES voltados a startups de robótica e automação8. Ainda assim, o desafio específico dos humanoides, robôs de forma humana capazes de tarefas cognitivas complexas, segue distante da pauta industrial brasileira, o que deixa o país na posição de observador de um movimento que já reconfigura cadeias produtivas e mercados de capitais em outras economias.
Riscos para quem quer surfar a euforia
Vale um alerta a investidores tentados a replicar o entusiasmo chinês por meio dos contratos futuros perpétuos negociados fora das bolsas tradicionais. Esses produtos não conferem participação acionária real na empresa, não geram direitos econômicos ou políticos e, na maioria dos casos, não têm qualquer relação formal com a companhia listada1. Como não existe uma referência oficial de preço até a listagem efetiva, as cotações desses derivativos podem sofrer forte influência de problemas de liquidez e de metodologias distintas entre plataformas, funcionando mais como indicador de sentimento do mercado do que como avaliação confiável do valor de uma empresa.
Perguntas frequentes
Quanto a Unitree Robotics subiu na estreia da Bolsa de Xangai?
As ações chegaram a disparar mais de 600% sobre o preço do IPO logo na abertura do pregão, moderando ao longo da manhã para um ganho acima de 450%, o que elevou o valor de mercado da empresa a dezenas de bilhões de dólares em poucas horas.
Qual foi o preço do IPO da Unitree e quanto a empresa levantou?
A oferta foi precificada em 150,80 yuans por ação, cerca de 19 euros, com a venda de 40,45 milhões de ações, equivalentes a 10% do capital social ampliado, levantando aproximadamente 6,1 bilhões de yuans, cerca de 900 milhões de dólares.
A Unitree Robotics é uma empresa lucrativa?
Sim. Diferentemente de várias concorrentes globais ainda deficitárias, a Unitree registrou receita próxima de 1,7 bilhão de yuans e lucro líquido de cerca de 600 milhões de yuans no exercício mais recente antes do IPO.
O que são futuros perpétuos usados para apostar em IPOs como o da Unitree?
São contratos derivativos negociados em plataformas descentralizadas que permitem especular sobre o preço futuro de um ativo sem possuí-lo de fato, sem data de vencimento e com negociação contínua, mas sem qualquer garantia oficial de preço ou vínculo com a empresa listada.
O Brasil tem empresas ou políticas voltadas a robôs humanoides?
O país ainda não possui uma estratégia nacional específica para humanoides, mas avança em automação industrial de forma geral, com mais de 30 mil robôs industriais ativos e um pacote federal de 186,6 bilhões de reais para a transformação digital da indústria.