Uma promessa que nasceu falsa e ainda assim mudou o mundo
Enquanto os Estados Unidos celebram o semiquincentenário de sua independência em meio a uma disputa aberta sobre o que essa data significa, o Brasil tem seus próprios motivos para revisitar a distância entre o texto fundador e o país real — o dele e o nosso.
Neste sábado, 4 de julho, os Estados Unidos completam 250 anos da Declaração de Independência — um documento que afirmou serem "todos os homens criados iguais" enquanto a maioria de seus signatários possuía escravizados, e que acusou o rei Jorge III de tirania ao mesmo tempo em que descrevia povos indígenas como "selvagens implacáveis". A data marca o semiquincentenário da adoção do documento pelo Segundo Congresso Continental em 4 de julho de 1776, e não se resume a uma festa nacional: ela reabre debates sobre quem foi incluído na promessa original e quem ficou de fora. O contraste entre o texto e a prática histórica dos Estados Unidos é o ponto de partida de um artigo de opinião do historiador norte-americano Michael Kazin publicado nesta semana no jornal espanhol El País, que argumenta que a hipocrisia fundacional não impediu — e talvez tenha até alimentado — dois séculos e meio de movimentos que usaram os próprios ideais da Declaração para cobrar do país aquilo que ele prometeu e não cumpriu.
A programação oficial dos 250 anos nos Estados Unidos já nasceu dividida. De um lado, a comissão bipartidária America 250, criada pelo Congresso em 2016, organiza atividades educacionais e culturais com ênfase em pluralidade e participação cívica. De outro, a Freedom 250, lançada pelo governo Trump em 2025 e conduzida por uma força-tarefa da Casa Branca, articula uma celebração centrada no Executivo e numa leitura específica da fundação nacional — a própria escolha da palavra "freedom", em vez de "liberty", já é reveladora de um enquadramento mais emocional e menos ligado a instituições e garantias legais. Os dois eventos-âncora do feriado deste ano resumem a disputa: em Washington, Trump participa de uma celebração no National Mall promovida por ele mesmo como grande ato patriótico, enquanto em Los Angeles um comitê distinto reúne artistas como Queen Latifah, Chris Stapleton e Chaka Khan em uma programação com foco na diversidade cultural. Parte do line-up originalmente anunciado para os eventos oficiais em Washington, aliás, recuou: artistas como Martina McBride e The Commodores desistiram de participar da Great American State Fair após descobrirem sua ligação com a organização Freedom 250.
A hipocrisia como ponto de partida, não como veredito final
Kazin não amacia a contradição central. Ele lembra que Thomas Jefferson, autor principal da Declaração, manteve mais de 600 pessoas escravizadas em sua propriedade na Virgínia ao longo da vida — o mesmo Jefferson que redigiu a frase que se tornaria a mais citada da história política ocidental. O historiador argumenta, porém, que essa hipocrisia fundacional não paralisou o país: pelo contrário, deu a sucessivas gerações de reformistas um vocabulário de legitimidade para cobrar dos Estados Unidos aquilo que a Declaração prometia e a prática desmentia. A convenção de Seneca Falls, em 1848, reescreveu o texto de Jefferson trocando "homens" por "homens e mulheres". Frederick Douglass, ex-escravizado, usou o 4 de julho de 1852 para perguntar em praça pública o que a data significava para quem ainda vivia em cativeiro — e terminou o discurso afirmando que a própria Declaração continha os princípios que um dia derrubariam a escravidão.
A hipocrisia do texto fundador não impediu que ele se tornasse arma retórica de quem historicamente foi excluído da promessa que ele descreve.
O padrão se repete: sindicalistas do fim do século XIX, movimentos de desempregados durante a Grande Depressão e, décadas mais tarde, líderes anticoloniais em outros continentes recorreram à mesma linguagem. O caso mais dramático é o de Ho Chi Minh, que em 1945, no dia em que terminou a Segunda Guerra, discursou em Hanói citando quase literalmente o preâmbulo da Declaração de 1776 — para, pouco depois, liderar seu país em uma guerra sangrenta justamente contra os Estados Unidos.
O eco brasileiro: outra independência, outra hipocrisia
A distância entre texto fundador e país real não é exclusividade americana — e o Brasil tem sua própria versão do problema, às vésperas de completar 204 anos de independência em setembro. Historiadores como Rafael Domingos Oliveira, do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Afro-América, descrevem a ruptura de 1822 com Portugal como a fundação de uma nação erguida sobre a escravidão: Dom Pedro I declarou a emancipação política, mas a escravidão legal só terminaria décadas depois, em 1888. Diferentemente do caso americano, em que ao menos a linguagem da igualdade universal entrou no texto fundador — ainda que traída na prática —, a independência brasileira sequer produziu essa promessa escrita. O consenso entre historiadores é que as elites brasileiras sustentaram a monarquia de Dom Pedro I, em vez de uma república, para preservar a unidade nacional e, com ela, a estrutura escravista que interessava aos proprietários rurais, apesar da pressão britânica pelo fim do tráfico.
Livros acadêmicos recentes reforçam essa leitura crítica do mito fundador nacional. A obra "O Sequestro da Independência: Uma História da Construção do Mito do Sete de Setembro", dos historiadores Carlos Lima Junior, Lilia Moritz Schwarcz e Lúcia Klück Stumpf, argumenta que o processo de 1822 não destruiu estruturas coloniais como o latifúndio e a escravidão — ao contrário, as preservou, silenciando projetos populares que esperavam da independência uma extensão real de cidadania. A diferença brasileira é que, aqui, a ruptura sequer articulou um texto com pretensão universalista para servir de munição retórica a gerações futuras de abolicionistas e reformistas — algo que, no caso americano, Kazin identifica como o principal legado paradoxal da Declaração.
Essa herança segue mensurável. Em 2024, o rendimento médio por hora era de R$ 24,60 para trabalhadores brancos contra R$ 15,00 para pretos e pardos, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE. O mesmo levantamento mostra que pessoas negras em cargos de direção e gerência recebem, em média, 34% menos que brancas nas mesmas funções — uma diferença que caiu de 39% em 2012 para os atuais patamares, mas que ainda representa quase R$ 3.400 mensais de diferença. Passados quase 138 anos da Lei Áurea e 204 da independência, a distância entre o texto da cidadania plena e sua distribuição real segue documentada, ano após ano, pelos institutos oficiais de estatística.
Duas leituras da mesma data, um continente de distância
A comparação entre os dois processos de independência não é gratuita: ela ajuda a explicar por que 1776 se tornou uma referência tão citada fora dos Estados Unidos. Analistas apontam que a independência americana abriu uma fissura inédita no sistema imperial atlântico ao afirmar que a legitimidade política vinha do consentimento dos governados, e não da coroa — uma ideia que impressionou diretamente líderes como Simón Bolívar, José de San Martín e Bernardo O'Higgins, e que também atravessou o Brasil de 1822, ainda que aqui a resposta institucional tenha sido monárquica, e não republicana. Nessa leitura, a diferença central não estaria nos ideais declarados, mas na capacidade de cada país de construir, depois da ruptura, mecanismos duráveis — tribunais independentes, alternância de poder, imprensa livre — capazes de processar as próprias contradições ao longo do tempo.
Nos Estados Unidos de 2026, contudo, mesmo essa leitura mais institucional das próprias contradições enfrenta resistência política. A programação vinculada ao governo Trump para o aniversário — que inclui eventos como um encontro nacional de oração e uma luta do UFC na Casa Branca — foi descrita por pesquisadores como uma celebração centrada no "espírito americano" e na grandeza do país, com pouco espaço reservado a reflexões críticas, dissenso ou aos custos humanos da trajetória nacional. É exatamente o oposto do gesto que Kazin defende em seu artigo: o de tratar a hipocrisia fundacional não como motivo para descartar os ideais de 1776, mas como razão para segui-los cobrando, ano após ano, a distância entre o que a nação promete e o que ela entrega — um exercício que, guardadas as proporções, também caberia a qualquer país que, como o Brasil, segue medindo por institutos como o IBGE o tamanho da distância entre sua própria Constituição e sua própria realidade.
Referências
- Kazin, M. "Una declaración por el cambio". El País, 03/07/2026. elpais.com
- Oeste Geral. "Você sabe por que 2026 marca 250 anos da Declaração..." revistaoeste.com
- The Conversation Brasil / OPEU. "America 250 e Freedom 250". opeu.org.br
- Terra. "Estados Unidos comemoram 250 anos de Independência com programação fragmentada". terra.com.br
- Gazeta do Povo. "Os 250 anos da independência dos EUA e a cópia latino-americana". gazetadopovo.com.br
- Agência Brasil. "Para historiador, independência criou nação fundada na escravidão". agenciabrasil.ebc.com.br
- Toda Matéria. "Primeiro Reinado (1822-1831)". todamateria.com.br
- Terra. "Independência do Brasil: o que mudou depois da declaração de D. Pedro?" terra.com.br
- IBGE Educa. "Síntese de Indicadores Sociais 2025". educa.ibge.gov.br
- Agência Brasil/IBGE. "Diretores e gerentes negros ganham 34% menos que brancos". agenciabrasil.ebc.com.br