Em resumo
- Cerca de 2,3 milhões de novos casos de câncer em 2024, ou 12% do total mundial, foram atribuídos a infecções, segundo a IARC.
- H. pylori e HPV lideram, com cerca de 760 mil e 750 mil casos cada; hepatite B, Epstein-Barr e hepatite C completam o quadro.
- 77% desses cânceres ocorrem em países de baixa e média renda, grupo que inclui o Brasil.
- No Brasil, o câncer do colo do útero, quase sempre causado pelo HPV, deve somar 19.310 casos por ano entre 2026 e 2028, segundo o INCA.
- Vacinas contra HPV e hepatite B, teste de DNA-HPV e tratamento de infecções crônicas já estão disponíveis no SUS.
Parte relevante do câncer não começa numa célula que enlouquece por acaso, mas numa infecção que o corpo não conseguiu eliminar. Uma bactéria transmitida na infância, um vírus sexualmente transmissível comum, uma hepatite adquirida no parto. A nova estimativa da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), braço da Organização Mundial da Saúde, dimensiona esse fenômeno: um em cada oito novos casos de câncer registrados no mundo em 2024 teve origem em um agente infeccioso2.
O dado ganhou repercussão nesta semana com uma reportagem do The Washington Post1, que ouviu autores do estudo e especialistas independentes. O ponto central, ali e aqui, é menos o tamanho do número e mais o que ele revela: trata-se de uma fatia do câncer para a qual a medicina já dispõe de vacinas, testes e tratamentos. Se ela continua do mesmo tamanho, o problema está na entrega.
O que diz o novo estudo da IARC
Publicada na revista The Lancet Oncology em 28 de setembro, a análise usou as estimativas de incidência do Observatório Global do Câncer para 2024 e calculou quantos casos podem ser atribuídos a 12 agentes infecciosos classificados pela IARC como carcinógenos do Grupo 1, a categoria de evidência mais forte. O total chegou a 2,3 milhões de casos, num universo de aproximadamente 20 milhões de diagnósticos anuais2.
Cinco agentes concentram praticamente toda a carga. A bactéria Helicobacter pylori aparece em primeiro lugar, ligada sobretudo ao câncer de estômago, seguida de perto pelo HPV, responsável por praticamente todos os casos de câncer do colo do útero do planeta, cerca de 600 mil, além de tumores de ânus, vulva, vagina, pênis e orofaringe3. Depois vêm as hepatites B e C, associadas principalmente ao câncer de fígado, e o vírus Epstein-Barr, cuja ligação com tumores de nasofaringe, linfomas e uma parcela dos cânceres gástricos ficou mais sólida nesta edição2.
A distribuição geográfica é desigual. O Leste Asiático, puxado por H. pylori e hepatite B, concentra 42% dos casos. Na África Subsaariana, um quarto de todos os cânceres tem origem infecciosa, em grande parte pelo HPV agravado pelo HIV. No conjunto, mais de três quartos desses tumores ocorrem em países de baixa e média renda4, o que levou a autora principal do estudo, Harriet Rumgay, a tratar o tema como questão de equidade em saúde, e não apenas de prevenção.
Como uma infecção vira câncer
Nenhum desses micro-organismos "quer" causar câncer. Como explicou ao jornal americano o epidemiologista Gary Clifford, coautor do estudo, o tumor é um efeito colateral da convivência prolongada entre agente e hospedeiro1. Os caminhos são basicamente três. Alguns vírus, como o HPV, inserem material genético que desregula o controle da divisão celular. Outros agentes, como a H. pylori e os vírus das hepatites, mantêm uma inflamação crônica que, ao longo de décadas, acumula dano no tecido. E há os que agem de forma indireta, como o HIV, que enfraquece a vigilância imunológica e abre espaço para outros vírus oncogênicos.
A palavra decisiva é persistência. A maior parte das infecções por HPV é eliminada espontaneamente em até dois anos, e a imensa maioria das pessoas com H. pylori nunca terá câncer gástrico. O risco se concentra em quem permanece infectado por muito tempo, sem diagnóstico, e acumula outros fatores, como tabagismo, dieta rica em sal e defasagem no rastreamento.
"Isso é, na verdade, um fracasso da saúde pública."
Lorelei Mucci, epidemiologista da Universidade Harvard, ao The Washington PostUma fatia que não diminui
Na edição anterior do levantamento, com dados de 2018, a proporção de cânceres atribuídos a infecções era de cerca de 13%. Seis anos depois, está em 12%. Para Lorelei Mucci, que não participou do estudo, a estabilidade é preocupante justamente porque se sabe como evitar boa parte desses casos1. Rumgay pondera que as duas edições não são diretamente comparáveis, porque a nova análise incorporou pares de infecção e câncer que antes ficavam de fora, como os tumores associados ao HIV, mas concorda que a tendência geral pouco se alterou1.
Há uma explicação estrutural para o descompasso. Vacinas protegem crianças e adolescentes que só chegariam à idade de risco daqui a duas ou três décadas. O efeito da imunização em massa contra o HPV, iniciada em muitos países na década de 2010, ainda não aparece com força nas estatísticas de incidência. Clifford disse ao Post esperar que esse impacto se torne visível à medida que as coortes vacinadas envelhecerem1.
O retrato brasileiro
O Brasil está no grupo de renda média onde a carga infecciosa pesa mais, e os dados nacionais confirmam isso por três frentes.
HPV e o câncer do colo do útero
A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer (INCA)5 projeta 781 mil novos casos de câncer por ano no país até 2028. Entre as mulheres, o colo do útero responde por 7,4% dos diagnósticos, com 19.310 casos anuais, o que o coloca em terceiro lugar entre os tumores femininos quando se exclui o câncer de pele não melanoma. Nas regiões Norte e Nordeste, ele sobe para a segunda posição. Segundo dados preliminares do Ministério da Saúde, a doença matou 7.249 brasileiras em 2025, quase 20 por dia6.
A resposta pública mudou de patamar nos últimos dois anos. Desde abril de 2024, o SUS aplica a vacina quadrivalente contra o HPV em dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos, seguindo recomendação da OMS, e mantém uma estratégia de resgate para jovens de 15 a 19 anos que não se vacinaram na idade indicada7. A cobertura voltou a subir e já supera 80% no público-alvo, ainda abaixo da meta de 90%. No rastreamento, o Ministério da Saúde está substituindo o Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV8, que identifica o vírus antes que ele produza lesões e permite, com resultado negativo, ampliar o intervalo entre exames para cinco anos. A meta oficial é que o teste esteja disponível em toda a rede do SUS até dezembro de 2026, um prazo que vence em menos de três meses e que esbarra em capacidade laboratorial e logística regional.
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) lançou em 2026 um pacto nacional pela eliminação da doença9, que pela definição da OMS exige menos de 4 casos por 100 mil mulheres ao ano. O Brasil está hoje em torno de 17,6.
H. pylori e o câncer de estômago
O câncer de estômago é o quarto mais frequente entre os homens brasileiros, com 5,4% dos casos, e se concentra no Norte e no Nordeste. No Norte, aparece como o segundo mais incidente, à frente do colorretal5. O INCA destaca o contraste internacional: enquanto ocupa a quarta posição no Brasil, o tumor gástrico está apenas em 13º lugar nos Estados Unidos10. A diferença acompanha a prevalência da H. pylori, bactéria adquirida geralmente na infância, por via oral, e associada a saneamento precário e aglomeração domiciliar. Estudos brasileiros apontam taxas de infecção que passam da metade da população adulta.
Ao contrário do HPV, não há vacina. A estratégia defendida pela IARC é a de testar e tratar, com exames não invasivos e antibióticos, em populações de alto risco. O Brasil não tem programa de rastreamento populacional para câncer gástrico, e a decisão de investigar a bactéria fica a cargo do médico, normalmente diante de sintomas, úlcera ou histórico familiar.
Hepatite B: um caso de avanço mensurável
É na hepatite B que o país exibe seu resultado mais concreto. A vacina é aplicada ao nascer e está disponível no SUS para todas as idades. Segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2026, os casos de hepatite B caíram 25,5% e os óbitos 31,9% entre 2015 e 2025. Em julho, o Ministério da Saúde entregou à OPAS e à OMS o dossiê que pede a certificação da eliminação da transmissão vertical do vírus11, de mãe para filho: a cobertura da dose ao nascer chegou a 100% em 2025, e a prevalência de infecção ativa em crianças de até 5 anos ficou muito abaixo do limite internacional. Como o câncer de fígado associado ao vírus surge após décadas de infecção crônica, cada criança protegida hoje é um caso evitado por volta de 2060.
O que reduz o risco, na prática
As medidas são conhecidas, baratas em comparação com o tratamento oncológico e, em sua maioria, gratuitas no SUS:
- Vacinar contra o HPV entre 9 e 14 anos, antes do início da vida sexual, quando a resposta imune é mais forte. Jovens de 15 a 19 anos não vacinados podem procurar a unidade básica enquanto a estratégia de resgate estiver vigente.
- Completar o esquema da hepatite B, que vale para qualquer idade. Adultos que não sabem se foram vacinados podem verificar a caderneta ou fazer o teste rápido.
- Manter o rastreamento do colo do útero entre 25 e 64 anos, por DNA-HPV ou Papanicolau, conforme o que estiver disponível no município. A vacina não substitui o exame, porque não cobre todos os tipos oncogênicos do vírus.
- Testar hepatites B e C e HIV ao menos uma vez na vida. A hepatite C tem cura com antivirais orais, e o tratamento precoce reduz o risco de câncer de fígado.
- Investigar a H. pylori quando houver indicação médica, como úlcera, gastrite crônica ou parente de primeiro grau com câncer gástrico.
- Usar preservativo, que reduz a transmissão de HPV, HIV e hepatite B, ainda que não elimine o risco do HPV, transmitido também pelo contato pele a pele.
O ruído que vem dos Estados Unidos
A reportagem do Washington Post chama atenção para um risco que não é técnico, mas político. Nos Estados Unidos, autoridades federais de saúde tentaram encerrar a recomendação universal da dose de hepatite B ao nascer e reduzir o número de doses recomendadas da vacina contra o HPV. Em março, um juiz federal suspendeu essas mudanças e restabeleceu o calendário anterior dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças enquanto o processo segue1. Mucci também alertou que cortes na ajuda internacional e no apoio a programas globais de saúde podem frear o progresso justamente nos países que concentram a carga1.
O calendário brasileiro não depende de decisões americanas, mas a hesitação vacinal circula sem fronteiras pelas redes sociais, e o financiamento de iniciativas multilaterais afeta vizinhos latino-americanos com sistemas de saúde mais frágeis. Para um país que levou quase uma década para recuperar a cobertura contra o HPV após a queda iniciada em meados dos anos 2010, a estabilidade da recomendação é um ativo a ser protegido.
Perguntas frequentes
Quantos casos de câncer são causados por infecções no mundo?
Segundo a IARC, cerca de 2,3 milhões de novos casos em 2024, aproximadamente 12% do total mundial, foram atribuíveis a infecções.
Quais infecções mais causam câncer?
Helicobacter pylori (cerca de 760 mil casos), HPV (750 mil), hepatite B (360 mil), vírus Epstein-Barr (260 mil) e hepatite C (160 mil).
Ter HPV ou H. pylori significa que vou ter câncer?
Não. A maioria das infecções não evolui para câncer. O risco cresce quando a infecção persiste por anos e se soma a outros fatores, como tabagismo e falta de rastreamento.
Quem pode tomar a vacina contra HPV pelo SUS?
Meninas e meninos de 9 a 14 anos, em dose única, além de jovens de 15 a 19 anos na estratégia de resgate e grupos prioritários, como pessoas imunossuprimidas e usuárias de PrEP.
O que é o teste de DNA-HPV e quem deve fazer?
É o exame molecular que detecta tipos de HPV de alto risco. É indicado para pessoas com colo do útero de 25 a 64 anos; com resultado negativo, o próximo teste é feito em cinco anos.
Como reduzir o risco de câncer de estômago associado ao H. pylori?
Saneamento, água tratada e higiene reduzem a transmissão. Com indicação médica, a bactéria pode ser diagnosticada e tratada com antibióticos.
Este artigo foi produzido pelo O Tecido a partir da reportagem "These common infections can cause cancer. Here's what can lower your risk.", de Daniel Wu, publicada pelo The Washington Post, cujo conteúdo foi usado como referência e não reproduzido. Os dados brasileiros e a análise são de apuração própria, com base nas fontes indicadas. As informações têm caráter jornalístico e não substituem orientação médica.