Caderno Saúde · Prevenção do câncer

Durante décadas, a prevenção do câncer foi contada quase apenas pela via dos hábitos: cigarro, álcool, sedentarismo, alimentação. Uma nova estimativa da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), braço da Organização Mundial da Saúde dedicado ao tema, desloca parte dessa conversa para outro terreno. Segundo o estudo publicado em 28 de setembro na The Lancet Oncology, cerca de 2,3 milhões dos novos casos de câncer diagnosticados no mundo em 2024, perto de 12% do total, foram causados por infecções. Em termos simples, um em cada oito.23

A reportagem da Scientific American que repercutiu o levantamento destaca a consequência prática do número: uma parcela expressiva desses tumores pode ser evitada com instrumentos que já existem, como vacinas, exames e tratamento das infecções.1 A questão, para o Brasil, deixa de ser científica e passa a ser de execução.

Cinco agentes concentram quase toda a carga

A análise da IARC considerou 12 agentes infecciosos reconhecidos como causadores de câncer em humanos, entre vírus, uma bactéria e parasitas. Mas a distribuição é muito concentrada. De acordo com o comunicado oficial da agência, a bactéria Helicobacter pylori respondeu por cerca de 760 mil casos, seguida de perto pelo papilomavírus humano (HPV), com 750 mil. O vírus da hepatite B aparece com aproximadamente 360 mil, o vírus Epstein-Barr (EBV) com 260 mil e o da hepatite C com 160 mil. Juntos, esses cinco explicam praticamente todos os cânceres de origem infecciosa.2

Casos de câncer atribuídos a cada agente infeccioso, mundo, 2024

H. pylori760 mil HPV750 mil Hepatite B360 mil Epstein-Barr260 mil Hepatite C160 mil
Fonte: IARC, Comunicado de Imprensa nº 387 (28/09/2026), com base em Rumgay et al., The Lancet Oncology. Elaboração: O Tecido.

A novidade mais relevante está na quarta posição. O EBV, conhecido há muito tempo por sua relação com o câncer de nasofaringe e com linfomas, passou à frente da hepatite C porque evidências recentes passaram a associá-lo também a uma fração dos tumores de estômago.2 A atualização incorporou ainda agentes que não constavam de rodadas anteriores, como o HIV e o poliomavírus de células de Merkel, além de 16 novas relações entre infecção e tipo de câncer.2 Para efeito de comparação, a estimativa anterior da IARC, referente a 2018, havia chegado a 2,2 milhões de casos.4

Um mapa desenhado pela desigualdade

O peso dessas infecções não se distribui de forma homogênea. O Leste Asiático concentrou 42% de todos os casos atribuíveis a infecções no planeta, puxados por H. pylori e hepatite B. Na África Subsaariana, a carga é sustentada por HPV e pelo herpesvírus associado ao sarcoma de Kaposi, agravada pelo HIV. No conjunto, mais de três quartos desses cânceres ocorreram em países de renda baixa e média.2

Ouvido pela Scientific American, o epidemiologista Gary Clifford, autor sênior do estudo, atribuiu parte dessa disparidade a diferenças de investimento, como a ausência de programas de rastreamento do câncer do colo do útero em regiões africanas, em contraste com a oferta disponível em países ricos.1 A leitura vale para dentro do Brasil, onde o mesmo padrão aparece entre regiões.

"São fatores de risco muito acionáveis. Podemos testá-los. Podemos vacinar contra eles."

Gary Clifford, IARC, em entrevista à Scientific American (tradução livre)

O que vinte anos de vacina contra o HPV já mostraram

A evidência mais robusta de que prevenir infecção reduz câncer vem do HPV. Segundo a Scientific American, nos Estados Unidos, duas décadas depois da introdução da vacina, as taxas de câncer do colo do útero caíram mais da metade em alguns estados entre mulheres de 20 a 31 anos, a primeira geração imunizada ainda na pré-adolescência. A pesquisadora Anna Giuliano, do Moffitt Cancer Center, avaliou à revista que não resta dúvida de que o imunizante cumpre o que prometia.1

O alcance do vírus, aliás, é maior do que a associação popular com o colo do útero sugere. A nova análise relaciona o HPV a oito localizações de câncer, que vão do colo do útero e do pênis até a laringe, passando por ânus e orofaringe.6 Por isso a vacinação de meninos deixou de ser complemento e passou a fazer parte do núcleo da estratégia.

O Brasil no mapa: colo do útero, estômago e fígado

A Estimativa 2026-2028 do Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta 781 mil novos casos de câncer por ano no país, ou cerca de 518 mil quando excluídos os tumores de pele não melanoma.7 Três dos tipos com forte componente infeccioso aparecem com destaque nesse retrato.

O primeiro é o câncer do colo do útero, praticamente sempre ligado ao HPV. São esperados 19.310 casos novos por ano, com risco de 17,59 casos a cada 100 mil mulheres, segundo o pacto nacional lançado pela Febrasgo com base nos dados do INCA.8 A OMS considera a doença eliminada como problema de saúde pública quando a incidência fica abaixo de 4 casos por 100 mil mulheres. O Brasil está, portanto, a mais de quatro vezes dessa linha, e o número absoluto cresceu em relação ao triênio anterior, de cerca de 17 mil para cerca de 19 mil casos anuais. Nas regiões Norte e Nordeste, o tumor está entre os mais incidentes entre mulheres.7

O segundo é o câncer de estômago, o tumor em que H. pylori e EBV se encontram. Entre os homens brasileiros, são esperados 13.830 casos por ano, segundo a revista Rede Câncer, do INCA.9 No Norte, o câncer gástrico ocupa o segundo lugar em incidência masculina, e o câncer de fígado, cujo principal fator de risco são as hepatites virais, figura entre os cinco mais frequentes da região, um padrão que destoa do restante do país.7

Vacina disponível, cobertura incompleta

A vacina contra o HPV é oferecida gratuitamente pelo SUS desde 2014 e, desde 2024, em dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos. A meta de cobertura recomendada pela OMS é de 90%. Em 2025, segundo dados reunidos pelo portal Afya, o país alcançou 86,22% entre as meninas e 74,55% entre os meninos dessa faixa etária.10

Cobertura vacinal contra o HPV, 9 a 14 anos, Brasil, 2025

Meninas
86,2%
Meninos
74,6%
Linha dourada: meta de 90% recomendada pela OMS. Fonte: Ministério da Saúde, dados compilados pelo portal Afya (jul/2026). Elaboração: O Tecido.

A lacuna maior está em quem passou da idade sem se vacinar. O Ministério da Saúde estima em cerca de 7 milhões os jovens de 15 a 19 anos nessa situação. Até dezembro de 2025, a estratégia de resgate havia aplicado 208,7 mil doses, sendo 91 mil em meninas e 117,7 mil em meninos.11 Isso representa algo próximo de 3% do público estimado. O prazo do resgate, inicialmente previsto para o primeiro semestre, foi estendido até dezembro de 2026.10

Do Papanicolau ao teste de DNA-HPV

A vacina protege as gerações mais jovens. Para as mulheres adultas, o instrumento é o rastreamento, e ele está em plena transição. O SUS vem substituindo o Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV, que detecta diretamente o vírus antes do aparecimento de lesões. A tecnologia é nacional, desenvolvida pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná, ligado à Fiocruz, e identifica 14 genótipos do vírus.13 Como o resultado negativo é muito confiável, o intervalo entre exames pode chegar a cinco anos. O Ministério da Saúde estabeleceu a meta de levar o teste a todo o território nacional até dezembro de 2026, com potencial para atender cerca de 7 milhões de mulheres de 25 a 64 anos por ano.14

O gargalo está no que vem depois do teste. Um estudo publicado em janeiro na Revista Panamericana de Salud Pública, com dados do programa de Indaiatuba (SP), estimou que o rastreamento organizado exigiria por ano no país 8,2 milhões de testes, 506 mil colposcopias, 355 mil biópsias e 127 mil procedimentos excisionais. Comparada à oferta atual, a demanda revela déficit em todos os estados, chegando a 96,5% em procedimentos especializados.12 Um teste mais sensível encontra mais mulheres que precisam de seguimento, e sem colposcopia disponível o diagnóstico antecipado vira fila.

Hepatites e H. pylori: prevenção que não depende só de vacina

Para o fígado, o SUS oferece vacina contra a hepatite B e tratamento para a hepatite C, que cura cerca de 97% dos casos. Ainda assim, mais de 826 mil casos de hepatites virais foram confirmados no país entre 2000 e 2024, e a hepatite C responde por três em cada quatro mortes associadas a essas infecções, segundo dados do boletim epidemiológico do Ministério da Saúde. O Brasil assumiu com a OMS o compromisso de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030.15 Como a infecção crônica costuma ser silenciosa, o obstáculo central é a testagem: quem não sabe que está infectado não chega ao tratamento.

No caso do H. pylori, não existe vacina. A prevenção passa por diagnosticar e erradicar a bactéria com antibióticos, sobretudo em pessoas com histórico familiar ou lesões gástricas. Um estudo publicado na Nature Medicine estimou que, de 15,6 milhões de casos de câncer gástrico projetados ao longo da vida para pessoas nascidas em uma única década, cerca de 12 milhões estariam ligados à bactéria.16 O Brasil, assim como a maioria dos países ocidentais, não adota rastreamento populacional para câncer de estômago.

Dezembro de 2026 como teste

O mérito do estudo da IARC é transformar uma parte da prevenção do câncer em problema de infraestrutura pública: cadeia de frio, vacinação nas escolas, laboratórios, colposcopistas, testagem para hepatites. Diferentemente de mudar hábitos, essas são decisões de gestão, com orçamento, meta e prazo.

No Brasil, dois desses prazos coincidem. O resgate vacinal contra o HPV para jovens de 15 a 19 anos termina em dezembro, e a mesma data é a meta para que o teste de DNA-HPV esteja disponível em todo o país. Os números de cobertura e de implantação no fim do ano dirão se o país está convertendo uma vantagem que já tem, vacina e teste nacionais e gratuitos, em redução efetiva de casos. Como disse Clifford à Scientific American, a prevenção aqui pode ser tão simples quanto uma injeção no braço.1 A parte difícil é fazer essa injeção chegar a todos.

Perguntas frequentes

Quantos casos de câncer no mundo são causados por infecções?

Segundo a IARC, cerca de 2,3 milhões de novos casos em 2024, o equivalente a aproximadamente 12% de todos os diagnósticos, ou um em cada oito.

Quais infecções mais causam câncer?

A bactéria Helicobacter pylori (cerca de 760 mil casos), o HPV (750 mil), o vírus da hepatite B (360 mil), o vírus Epstein-Barr (260 mil) e o vírus da hepatite C (160 mil). Juntos, respondem por quase todos os cânceres de origem infecciosa.

A vacina contra o HPV é oferecida pelo SUS? Para quem?

Sim. É aplicada em dose única em meninas e meninos de 9 a 14 anos. Jovens de 15 a 19 anos não vacinados podem se imunizar na estratégia de resgate, prorrogada até dezembro de 2026. Grupos como pessoas imunocomprometidas, usuários de PrEP e vítimas de violência sexual seguem esquemas específicos.

Ter H. pylori significa que vou ter câncer de estômago?

Não. A maioria das pessoas infectadas nunca desenvolve câncer. A bactéria aumenta o risco, sobretudo quando a infecção é persistente e há outros fatores, como histórico familiar. Diagnóstico e tratamento devem ser avaliados por um médico.

O que muda com o teste de DNA-HPV no SUS?

O exame detecta o vírus diretamente, antes de surgirem lesões, e permite intervalos de até cinco anos entre coletas quando o resultado é negativo. Ele está substituindo gradualmente o Papanicolau, com meta de cobertura nacional até dezembro de 2026.

Existe vacina contra o vírus Epstein-Barr?

Ainda não há vacina eficaz disponível contra o EBV, apontado pela IARC como a quarta maior causa infecciosa de câncer. A agência defende investimento no desenvolvimento desse tipo de imunizante.

Nota de atribuição. Este texto foi produzido a partir da reportagem "Want to protect yourself against cancer? Get vaccinated", de Jackie Flynn Mogensen, com edição de Claire Cameron, publicada pela Scientific American. Não se trata de tradução: o conteúdo foi ampliado com apuração independente e dados brasileiros. Trechos atribuídos à publicação original estão identificados ao longo do texto. Este artigo tem caráter informativo e não substitui orientação médica.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido