Um casal de turistas se debruça sobre o barco e aponta para a água escura do Lago do Oeste, em Hangzhou. "Olha, um tubarão!", grita um deles. A cena se repete todos os fins de semana desde que a Polícia Ecológica local começou a soltar no lago uma criatura de aproximadamente 60 a 70 centímetros, com olhos, boca, nadadeiras e cauda perturbadoramente realistas. Não é um tubarão. É um peixe-robô biomimético, inspirado em um tubarão-limão, desenvolvido especificamente para patrulhar um dos cartões-postais mais fotografados da China.
Segundo Liu Yuping, chefe da divisão de polícia ecológica da filial do Lago do Oeste junto ao Departamento de Segurança Pública de Hangzhou, o robô pesa entre 4 e 5 quilos, o suficiente para ser erguido com uma só mão, e tem uma carcaça cinza feita de material que reproduz a textura da pele de um peixe real. Dentro do corpo selado ficam a bateria e o sistema de controle, enquanto duas câmeras subaquáticas de alta definição estão embutidas na cabeça do equipamento.
A peça foi desenvolvida em parceria com o Instituto de Automação da Academia Chinesa de Ciências, um dos centros de pesquisa robótica mais ativos do país, responsável também por projetos de robôs humanoides e sistemas de inteligência artificial multimodal. Depois de quase um ano de trabalho, a equipe superou desafios como a propulsão flexível da nadadeira caudal, o desvio autônomo de obstáculos e a operação em ultrabaixo ruído. O resultado é um dispositivo capaz de patrulhas submersas 24 horas por dia, com autonomia de até quatro horas por carga, manobrabilidade de 360 graus e velocidade de cerca de 0,3 metro por segundo, o que praticamente não perturba a água em profundidades rasas.
Uma rede de segurança integrada
O peixe-robô não opera sozinho. De acordo com Gong Yingqiang, chefe da Divisão de Investigação de Crimes contra Recursos Ambientais, Alimentos e Drogas da mesma corporação, o equipamento trabalha em conjunto com veículos não tripulados, cães-robô, drones e dispositivos inteligentes instalados nas margens, formando uma rede de segurança integrada para o entorno do lago. Antes, explicou Gong, patrulhas e operações de resgate dependiam quase inteiramente de trabalho manual, algo mais lento e mais invasivo para o ecossistema aquático.
Nos testes, quando o robô se aproximou de uma ave aquática, reduziu automaticamente a velocidade para não assustá-la, e o sistema também é capaz de desviar sozinho de pedras e plantas submersas. Equipado com sensores, o peixe monitora temperatura da água e pH, identifica espécies invasoras e apoia estudos de biodiversidade, além de ajudar a recuperar celulares e outros objetos perdidos por visitantes, tarefa que antes exigia varas de resgate.
Uma família crescente de "peixes" chineses
Hangzhou não é um caso isolado. Universidades chinesas vêm apresentando uma nova geração de robôs biomiméticos para monitoramento ambiental e coleta de dados subaquáticos, movidos por uma lógica simples: ao imitar a hidrodinâmica de peixes reais, esses robôs gastam menos energia, produzem menos ruído e manobram com mais precisão em áreas estreitas ou de difícil acesso. Um modelo apresentado pela Universidade de Wuhan durante a Conferência Mundial de Educação Digital, em maio de 2025, foi descrito oficialmente como uma ferramenta de proteção ecológica do Rio Yangtzé.
Pesquisadores citados pelo portal espanhol Xataka observam, no entanto, que as mesmas capacidades que tornam esses robôs úteis para monitorar poluição também os tornam interessantes para aplicações estratégicas, incluindo o interesse da marinha chinesa em coletar dados discretos sobre condições do mar. O discurso oficial permanece focado na preservação ambiental, mas a sobreposição entre vigilância ecológica e vigilância de segurança é um dos aspectos mais debatidos dessa nova geração de robôs.
Um campo de pesquisa global
A ideia de usar peixes-robô como sensores ambulantes antecede a China em décadas. Desde que o MIT publicou os primeiros estudos sobre o tema, ainda nos anos 1980, centenas de artigos científicos já documentaram tentativas de replicar a propulsão caudal de peixes reais. No Reino Unido, pesquisadores da Universidade de Essex testaram uma frota de robôs equipados com sensores químicos no porto de Gijón, na Espanha, capazes de rastrear a origem de poluentes na água usando sinais ultrassônicos e operar por até oito horas sem intervenção humana. Projetos financiados pela União Europeia, como o citado pela revista Horizon, também usaram cardumes de robôs para mapear coletivamente portos europeus em busca de vazamentos químicos e poluentes.
Na aquicultura, pesquisadores chineses desenvolveram peixes-robô impressos em 3D para monitorar em tempo real parâmetros como temperatura, acidez e turbidez da água, reportando margens de erro inferiores a 1,3% em testes de campo, uma alternativa de baixo custo à dependência da experiência empírica de produtores rurais. Já revisões científicas recentes sobre o tema destacam que peixes-robô já foram testados a mais de 10 mil metros de profundidade, na Fossa das Marianas, reforçando o potencial da tecnologia para exploração de ambientes extremos onde robôs convencionais de hélice enfrentam mais dificuldade.
O que isso significa para o Brasil
O princípio por trás do peixe de Hangzhou não é estranho à pesquisa brasileira. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, o robô submersível Luma já foi enviado a missões na Antártida, enquanto a Universidade Federal do ABC, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco, desenvolve o veículo Parati, voltado à indústria offshore e ao monitoramento ambiental. Um estudo publicado em 2025 na revista Scientific Reports, assinado por pesquisadores do Observatório Nacional e do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, mostrou que drones subaquáticos do tipo glider também podem detectar sinais sísmicos no fundo do mar de forma eficiente e barata.
Há ainda propostas mais modestas, mas alinhadas ao mesmo espírito: um protótipo de robô autônomo de baixo custo para coletar resíduos flutuantes em rios e lagos das regiões Norte e Nordeste, onde a escassez de dados sobre qualidade da água agrava desigualdades ambientais e sociais. Corpos d'água urbanos brasileiros com forte pressão turística e ecológica, caso da Lagoa Rodrigo de Freitas e da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, ilustram o tipo de ambiente em que sensores discretos e não invasivos poderiam, em tese, complementar o trabalho de fiscalização hoje feito majoritariamente por embarcações e equipes humanas.
Contraponto
A favor: defensores da robótica biomimética argumentam que sensores como o peixe de Hangzhou reduzem custos operacionais, evitam a perturbação de fauna aquática causada por embarcações convencionais e permitem monitoramento contínuo em locais de difícil acesso, algo já demonstrado em projetos de aquicultura, portos europeus e pesquisa oceânica.
Ressalvas: pesquisadores e analistas apontam que a mesma tecnologia usada para "proteção ecológica" integra, no caso chinês, uma rede de vigilância que combina drones, cães-robô e sensores urbanos sob comando de órgãos de segurança pública, o que levanta questões sobre os limites entre monitoramento ambiental e vigilância de espaços públicos. Há também quem destaque o interesse estratégico e militar em tecnologias de coleta discreta de dados subaquáticos, um uso dual que raramente aparece no discurso oficial dos projetos.
Entre o encanto turístico de um "tubarão" que desliza silenciosamente pelas águas de um lago milenar e o debate mais amplo sobre vigilância tecnológica, o peixe-robô de Hangzhou resume bem o momento atual da robótica biomimética: uma tecnologia amadurecida o bastante para sair dos laboratórios, mas cujas aplicações continuam sendo definidas tanto pela ciência quanto pela política de quem a implementa.