Caderno Filosofia · Religião e Poder

Aos oitenta anos que completa em outubro, o teólogo espanhol Juan José Tamayo mantém a mesma disposição que lhe custou censuras dos dois lados do Atlântico ao longo de quase cinco décadas. Em entrevista recente ao jornal El País, o autor de mais de cinquenta livros propõe uma imagem de Jesus de Nazaré dificilmente compatível com a que circula em púlpitos e discursos políticos: a de uma figura vulnerável, derrotada e processada como subversivo pelas autoridades de seu tempo.[1]

O fracasso como ponto de partida

A tese central de Tamayo rompe com a iconografia triunfal que boa parte do cristianismo institucional consolidou ao longo dos séculos. Para ele, Jesus é descrito como [1] uma pessoa vulnerável, frágil, de modo algum um herói: antes um fracassado, e esse fracasso se manifesta no desfecho de sua trajetória: julgamento, condenação e execução como subversivo político.

"Jesus é uma pessoa vulnerável, frágil, de modo algum um herói: antes um fracassado." Juan José Tamayo, teólogo, em entrevista ao El País[1]

Essa leitura não é um exercício retórico isolado. Ela se apoia no que Tamayo chama de cristianismo originário: um movimento igualitário entre homens e mulheres, marcado por uma ética radical de opção pelos grupos oprimidos, e organizado sem hierarquia clerical fixa. A tradição que hoje se identifica como Teologia da Libertação, formulada por autores como Gustavo Gutiérrez a partir do final dos anos 1960, recupera justamente esse núcleo: a leitura da salvação cristã como libertação histórica e concreta dos pobres, não apenas espiritual.

A aliança entre trono e altar

Tamayo situa a principal ruptura entre o cristianismo de Jesus e o cristianismo institucional no século IV, quando o poder político e o poder religioso passam a se fundir. Dessa aliança decorreriam três deslocamentos que, segundo o teólogo, ainda estruturam boa parte da vida eclesiástica: da libertação para o dogma, da presença ativa das mulheres para sua exclusão dos espaços de decisão, e da comunidade de iguais para o clericalismo.

A tensão entre essas duas matrizes não é um debate apenas acadêmico ou europeu. Ela reaparece com força no Brasil, ainda que sob outra configuração histórica. Entre os anos 1960 e 1980, as Comunidades Eclesiais de Base e a Teologia da Libertação foram protagonistas de um catolicismo progressista influente dentro da própria hierarquia da Igreja, antes de perder terreno para o avanço evangélico neopentecostal nas décadas seguintes.[3]

Contraponto

Nem todos os teólogos leem essa história da mesma forma. Setores conservadores da própria Igreja Católica argumentam que a Instrução de 1984, assinada pelo então cardeal Joseph Ratzinger, não perseguia a opção pelos pobres em si, mas alertava para riscos de leitura marxista das Escrituras, um debate teológico legítimo e não apenas político. Também dentro da Teologia da Libertação há vozes que preferem separar radicalmente militância religiosa de disputa partidária, temendo que a fé seja instrumentalizada em qualquer direção do espectro político, inclusive à esquerda.

Cristoneofascismo: um nome para um fenômeno em curso

Um dos pontos mais diretos da entrevista de Tamayo é a proposta de um termo para descrever a convergência entre extrema direita política e cristianismo fundamentalista: cristoneofascismo. Trata-se, na definição do teólogo, da aliança entre setores da direita radical e movimentos cristãos fundamentalistas, tanto evangélicos quanto integristas católicos, que instrumentalizam textos bíblicos para justificar posições belicistas, antimigratórias e excludentes.[1]

No Brasil, esse debate tem nome próprio na literatura acadêmica: a chamada Teologia do Domínio, corrente que busca a ocupação de instituições políticas em nome de uma agenda religiosa, contraposta à Teologia da Libertação, que historicamente propôs o caminho inverso, o de transformar o Estado a partir dos pobres.[4] A disputa ganhou visibilidade eleitoral crescente nos últimos ciclos políticos brasileiros, com pesquisas mostrando o eleitorado evangélico e católico se posicionando de forma marcadamente distinta entre os principais candidatos presidenciais.

Essa disputa ocorre em paralelo a uma transformação profunda do mapa religioso do país. O Censo Demográfico de 2022 mostrou queda de mais de oito pontos percentuais na proporção de católicos em relação a 2010, ao mesmo tempo em que a população evangélica e a parcela sem religião cresceram de forma consistente em todas as regiões.[2] Pesquisas mais recentes, como as do Pew Research Center, sugerem que essa reconfiguração pode estar avançando em ritmo ainda mais acelerado do que os dados oficiais capturam.[5]

Onde está Deus diante do sofrimento

A entrevista também aborda um dos problemas clássicos da teologia contemporânea: como sustentar a ideia de um Deus onipotente diante da destruição da natureza e do sofrimento das populações mais pobres. Tamayo recorre à figura de Elie Wiesel e à experiência dos campos de concentração para propor uma resposta que desloca a questão: Deus estaria ao lado das vítimas, não acima delas, o que reforça sua leitura de um cristianismo definido pela solidariedade com quem sofre, e não pela afirmação de poder absoluto.

É essa mesma chave interpretativa que Tamayo usa para nomear figuras políticas contemporâneas. Ao ser questionado sobre a existência do diabo, o teólogo responde que sua figura física não existe, mas suas representações sim, e as localiza em líderes que fazem uma leitura bélica e excludente dos textos bíblicos.[1] É uma provocação deliberada, que reposiciona o vocabulário religioso como instrumento de crítica política, e não de legitimação do poder estabelecido.

Esta reportagem é inspirada na entrevista original de Manuel Jabois com o teólogo Juan José Tamayo, publicada pelo jornal El País em 17 de setembro de 2026. O conteúdo aqui apresentado não reproduz o texto original e traz reportagem e fontes complementares desenvolvidas pela equipe editorial de O Tecido. Leia a entrevista completa em: El País.
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Quem é Juan José Tamayo?

Teólogo e filósofo espanhol nascido em Palencia, autor de mais de cinquenta livros sobre teologia contemporânea e figura central da Teologia da Libertação em língua espanhola. Teve obras condenadas pela Congregação para a Doutrina da Fé, órgão então dirigido pelo cardeal Joseph Ratzinger.

O que significa cristoneofascismo?

Termo usado por Tamayo para descrever a aliança entre extrema direita política e movimentos cristãos fundamentalistas, evangélicos e católicos integristas, que interpretam textos bíblicos de forma belicista e excludente.

Qual a diferença entre Teologia da Libertação e Teologia do Domínio?

A Teologia da Libertação propõe transformar o Estado a partir da opção pelos pobres. A Teologia do Domínio busca ocupar instituições políticas em nome de uma agenda religiosa. São projetos praticamente opostos sobre o papel da fé na vida pública.

Por que a Igreja perseguiu os livros de Tamayo?

Segundo o próprio autor, a condenação de 2003 ao livro Dios y Jesús teria sido motivada por artigos críticos anteriores sobre a canonização de Josemaría Escrivá de Balaguer, e não apenas pelo conteúdo teológico da obra.

Como esse debate se conecta ao Brasil?

O país viveu forte influência da Teologia da Libertação entre 1960 e 1980, hoje disputada pela chamada Teologia do Domínio, em um cenário de queda do catolicismo e crescimento evangélico documentado pelo Censo de 2022.