CIÊNCIA · ARQUEOLOGIA

Um cão mumificado encontrado sobre um casal em Luxor e o DNA de um filhote turco de 16 mil anos reacendem a pergunta sobre quando, e por quê, humanos e cães começaram a se amar.

Necrópole de Tebas · Luxor, Egito

Uma câmara funerária na margem ocidental do Nilo, em frente à cidade de Luxor, guardava um detalhe que intrigou arqueólogos espanhóis e egípcios nas últimas semanas.1 Entre dezesseis múmias humanas recuperadas na Tumba Tebana 209 (TT 209), uma sepultura reutilizada por cerca de trezentos anos durante o período ptolemaico, havia um cão mumificado colocado diretamente sobre os membros inferiores de um homem e uma mulher.1 A equipe, liderada por pesquisadores da Universidade de La Laguna e publicada na revista Frontiers in Environmental Archaeology, descreve o achado como raro o suficiente para levantar uma hipótese específica: o animal pode ter sido depositado ali com uma função simbólica, talvez como guia da dupla humana para a vida após a morte.1

A notícia circulou pela imprensa internacional na mesma semana em que a jornalista Patricia Fernández de Lis publicou, na coluna de opinião do jornal espanhol El País, um texto que conecta esse achado a outro símbolo muito mais antigo da relação entre humanos e cães: Argos, o cão fiel de Ulisses na Odisseia, que reconhece o dono após vinte anos de ausência e morre em seguida, feliz por tê-lo revisto. Para a autora, a arqueologia egípcia confirma o que Homero já registrava há 2.500 anos, a existência de um vínculo afetivo entre cães e pessoas que atravessa culturas e séculos sem perder intensidade.

O cão mais antigo já identificado geneticamente

O caso de Luxor não é isolado. Em março de 2026, dois estudos publicados simultaneamente na revista Nature revisaram por completo a cronologia da domesticação canina no continente europeu.2 Uma equipe internacional, com participação de mais de vinte instituições, analisou fragmentos ósseos de um filhote encontrado em Pınarbaşı, um abrigo rochoso na Anatólia central usado por caçadores coletores do Paleolítico Superior. O resultado do sequenciamento genético apontou uma idade de aproximadamente 15.800 anos, o que faz desse animal o cão doméstico mais antigo confirmado por DNA até hoje, superando em cerca de cinco mil anos o registro anterior, encontrado na região da Carélia, na Rússia.2

O detalhe que mais chamou atenção dos pesquisadores não foi apenas a idade do animal, mas o contexto do enterro. Em Pınarbaşı, os filhotes caninos foram depositados junto a sepulturas humanas, alimentados com a mesma dieta rica em peixe que os grupos humanos da região consumiam.3 Segundo o geneticista Laurent Frantz, da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, um dos autores do estudo, isso sugere que já existia algum tipo de vínculo emocional entre esses primeiros cães e as crianças e famílias que conviviam com eles, ainda que o papel prático do animal, como caça ou alarme contra predadores, também tenha pesado na aproximação.3

Dedicando parte de sua obra a um cão idoso, abandonado e ainda assim capaz de reconhecer seu dono, Homero registrou por escrito algo que a arqueologia agora consegue datar em ossos e DNA.

Uma domesticação com origem ainda em disputa

Apesar dos avanços genéticos, a pergunta sobre onde exatamente os cães foram domesticados pela primeira vez continua sem resposta definitiva. Os estudos de 2026 identificaram populações caninas geneticamente muito próximas convivendo com grupos humanos completamente distintos entre si, adaptados ao frio extremo da Europa em alguns casos e a ambientes temperados, ricos em recursos aquáticos, em outros.3 Essa descoberta reforça uma hipótese mais antiga, já discutida em pesquisas anteriores, de que a domesticação pode ter ocorrido de forma paralela em diferentes regiões da Eurásia, com os animais circulando entre populações humanas geneticamente separadas.

O cão foi, com folga, o primeiro animal domesticado pelo ser humano, milhares de anos antes de vacas, cabras, porcos ou ovelhas.2 Essa antecedência ajuda a explicar por que a relação entre as duas espécies foi capaz de desenvolver um componente afetivo tão forte, ao contrário do vínculo majoritariamente utilitário estabelecido depois com o gado.

O que a ciência do comportamento diz sobre esse laço

Enquanto a arqueologia reconstrói o passado, a etologia tenta explicar o mecanismo biológico por trás do apego. Um estudo japonês conduzido por Miho Nagasawa e publicado em 2015 na revista Science mostrou que o contato visual prolongado entre cães e seus tutores eleva os níveis de ocitocina, o hormônio associado à formação do vínculo entre mães e filhos, tanto no animal quanto na pessoa.4 A equipe também observou que cães que recebiam ocitocina antes de interagir com seus donos passavam a mantê-los mais tempo no campo de visão, sugerindo um ciclo de reforço positivo entre olhar e vínculo.4

Pesquisas publicadas nos anos seguintes tentaram replicar esses resultados com graus variados de sucesso, e parte da comunidade científica aponta limitações metodológicas no desenho original do experimento, como o tamanho reduzido da amostra de lobos usada para comparação.5 Ainda assim, a maioria dos estudos posteriores confirma que o contato visual e o toque entre humanos e cães ativam vias neuroquímicas associadas ao afeto e à confiança, dando uma base biológica mensurável para algo que tutores descrevem havia milênios apenas em termos afetivos.

O Brasil e a escala afetiva do vínculo com os cães

Se a arqueologia mede esse vínculo em milênios, os dados oficiais brasileiros medem sua escala hoje. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 46,1% dos domicílios do país tinham pelo menos um cão, totalizando 33,8 milhões de residências com o animal.6 Levantamento anterior, de 2013, já havia constatado algo simbólico, o número de cães em lares brasileiros superava o número de crianças de até 14 anos no país.7

Contraponto

Nem todo arqueólogo concorda com a leitura simbólica automática de sepultamentos com animais. Parte da comunidade científica alerta que a presença de um cão sobre um corpo humano pode refletir simples reaproveitamento de espaço em tumbas usadas por séculos, prática comum no Egito ptolemaico, e não necessariamente um gesto afetivo deliberado. Os próprios autores do estudo de Luxor tratam a hipótese do papel ritual do cão como uma interpretação plausível, não como fato estabelecido, e pedem cautela até que achados semelhantes apareçam em outras necrópoles da região.

O que une o achado de Luxor, o filhote de Pınarbaşı e os números do IBGE é uma linha de continuidade pouco comum na ciência, a mesma espécie que caçava ao lado de humanos no Paleolítico é hoje, em quase metade das casas brasileiras, tratada como parte da família. A arqueologia mostra a antiguidade do vínculo, a etologia explica parte do mecanismo, e a literatura, desde Homero, continua sendo a forma mais eficiente de contar essa história para quem nunca leu um artigo científico sobre ocitocina.

Nota editorial: Este artigo foi inspirado pela coluna de opinião "Argos y el amor", de Patricia Fernández de Lis, publicada em 22 de agosto de 2026 no jornal espanhol El País. O texto original, que articula o achado de Luxor com o mito de Argos na Odisseia, pode ser lido na íntegra em elpais.com/opinion/argos-y-el-amor. O conteúdo acima é reportagem original de O Tecido, com apuração e fontes independentes.

Perguntas frequentes

Qual é o cão doméstico mais antigo já identificado pela ciência?

É um filhote encontrado em Pınarbaşı, na Anatólia central, na Turquia, datado por análise genética em aproximadamente 15.800 anos. O resultado foi publicado em dois estudos na revista Nature em março de 2026 e supera em cerca de cinco mil anos o registro genético mais antigo conhecido até então, feito na região da Carélia, na Rússia.

O que foi encontrado na tumba egípcia de Luxor?

Arqueólogos da Universidade de La Laguna encontraram, na Tumba Tebana 209, um cão mumificado colocado sobre o corpo de um casal humano, em uma sepultura do período ptolemaico. Os pesquisadores levantam a hipótese de que o animal cumpria um papel simbólico, possivelmente ligado à jornada da dupla para a vida após a morte.

O contato visual entre cães e humanos realmente libera ocitocina?

Estudos, a partir de uma pesquisa japonesa de 2015, mostram que o olhar prolongado entre cão e tutor eleva os níveis de ocitocina em ambos, hormônio ligado ao vínculo entre mães e filhos. Parte da comunidade científica pede cautela quanto à robustez metodológica do estudo original, mas pesquisas posteriores sustentam a existência de uma base biológica para esse vínculo.

Quantos lares brasileiros têm cães?

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, do IBGE, 46,1% dos domicílios brasileiros tinham ao menos um cão, o equivalente a 33,8 milhões de residências.

Qual foi o primeiro animal domesticado pelo ser humano?

O cão foi o primeiro animal domesticado, milhares de anos antes de espécies como vacas, cabras, porcos e ovelhas, segundo o conjunto de evidências genéticas e arqueológicas reunidas até 2026.

Em números

15.800 anos
idade do cão mais antigo já confirmado por DNA (Pınarbaşı, Turquia)
46,1%
dos domicílios brasileiros têm ao menos um cão (IBGE, PNS 2019)
300 anos
de uso contínuo da Tumba Tebana 209, em Luxor

Linha do tempo

  • c. 15.800 anos atrásFilhote de Pınarbaşı, Turquia, cão doméstico mais antigo confirmado por DNA.
  • c. 2.500 anos atrásHomero registra a morte de Argos na Odisseia.
  • 305 a.C. a 30 a.C.Período ptolemaico, datação do cão mumificado da Tumba Tebana 209.
  • 2015Estudo japonês associa contato visual cão-tutor à liberação de ocitocina.
  • Março de 2026Dois artigos na Nature revisam a cronologia da domesticação canina europeia.
  • Agosto de 2026Publicação do achado da Tumba Tebana 209 na Frontiers in Environmental Archaeology.

Glossário

Psicopompo
Figura ou entidade que, em determinadas tradições religiosas, conduz almas dos mortos até a vida após a morte.
Ocitocina
Hormônio ligado à formação de vínculos sociais, incluindo o apego entre mães e filhos.
Domesticação
Processo biológico e cultural pelo qual uma espécie selvagem passa a conviver e se reproduzir sob influência humana.

Referências

  1. CARBALLO-PÉREZ, J. et al. Achado de cão mumificado sobre casal na Tumba Tebana 209, Luxor. Frontiers in Environmental Archaeology, 2026. Cobertura: Infobae
  2. MARSH, W. et al. Evidência genética de cão de 15.800 anos em Pınarbaşı, Turquia. Nature, mar. 2026. Cobertura: CNN Brasil
  3. Cobertura complementar sobre dieta e enterro dos filhotes de Pınarbaşı. Correio Braziliense
  4. NAGASAWA, M. et al. Oxytocin-gaze positive loop and the coevolution of human-dog bonds. Science, 2015. Resumo em português: Ciência Hoje
  5. Discussão sobre limites metodológicos do estudo de 2015 e réplicas posteriores. Tribuna de Minas
  6. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde 2019, presença de cães e gatos nos domicílios. Correio Braziliense
  7. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde 2013, comparação entre número de cães e de crianças. Coripa
  8. FERNÁNDEZ DE LIS, Patricia. Argos y el amor. El País, 22 ago. 2026. elpais.com/opinion/argos-y-el-amor (artigo de inspiração, não traduzido nem reproduzido)