Caderno Política · Relações Internacionais
A União Europeia e o Canadá negociam um conjunto inédito de acordos estratégicos que, sem criar uma nova categoria formal de adesão ao bloco europeu, aproxima Ottawa do mercado único como nenhum outro parceiro não europeu jamais esteve. O objetivo declarado por autoridades comunitárias é reduzir vulnerabilidades comuns diante dos ataques comerciais e políticos do presidente americano Donald Trump e do avanço econômico da China1. A expressão usada nos bastidores da negociação resume a ambição: Canadá quer "tudo, menos a associação plena"1.
As tratativas cobrem áreas que vão de energia e minerais críticos a inteligência artificial, pesquisa científica e integração industrial na área de defesa. Segundo fontes comunitárias ouvidas pelo El País, a intenção é anunciar esse novo guarda-chuva de pactos durante a cúpula UE-Canadá marcada para o fim de outubro em Montreal1.
O pano de fundo: Trump como catalisador
A aproximação entre Bruxelas e Ottawa não é nova. Ela ganhou impulso ainda na era de Justin Trudeau, quando a guerra da Rússia contra a Ucrânia empurrou o Canadá para mais perto dos parceiros europeus em temas de defesa1. O que mudou no último ano foi a intensidade da pressão vinda de Washington. Trump chegou a sugerir que o Canadá poderia se tornar mais um estado americano, assinou uma ordem para renomear o Lago Ontário e combinou ataques comerciais contra o bloco europeu com críticas ideológicas ao que classifica como um continente em decadência1.
Para a UE, preocupada com sua dependência de fornecedores chineses em cadeias críticas, o Canadá surge como alternativa natural: juntos, os dois blocos somam quase um quinto do PIB mundial e 19% do comércio global de bens e serviços1. O primeiro-ministro canadense Mark Carney tornou-se presença frequente em reuniões europeias, participou da cúpula da Comunidade Política Europeia na Armênia em maio e discursa esta semana no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, um dia após a fala da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen1.
Uma frente também diplomática
O movimento não se limita ao comércio. Durante a Assembleia Geral da ONU, no fim de setembro, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, organiza ao lado de Carney e do presidente do Quênia, William Ruto, uma cúpula de "parceiros do multilateralismo" para defender a ordem baseada em regras e discutir a reforma de instituições como a ONU e o Tribunal Penal Internacional, alvos recorrentes de críticas de Washington1.
Grupos de trabalho de ambos os lados já desenham pactos específicos em cadeias de suprimento críticas, mobilidade profissional e um espaço digital mais interoperável. Fontes europeias mencionam inclusive a possibilidade de o Canadá aderir a programas de intercâmbio educacional como o Erasmus1.
Contraponto
Nem todos em Bruxelas compartilham o entusiasmo de Von der Leyen. Representantes de vários Estados-membros pediram, em reunião recente, um enfoque mais gradual, lembrando que o próprio acordo comercial já existente entre UE e Canadá, o CETA, segue sem ratificação plena mais de oito anos após entrar em vigor provisório. Até 2025, cerca de 17 dos 27 países da UE haviam concluído seus processos internos de ratificação, entre eles não estão França, Irlanda e Itália, justamente parceiros comerciais relevantes do Canadá16.
Há também quem questione o precedente que um estatuto especial para Ottawa abriria. Noruega, Suíça, Islândia e o próprio Reino Unido pós-Brexit são parceiros que poderiam reivindicar tratamento equivalente, argumento levantado por diplomatas mais cautelosos durante as negociações1.
O que isso muda para o Brasil
A movimentação entre Bruxelas e Ottawa tem efeito colateral direto sobre a diplomacia comercial brasileira. Depois que o Conselho Europeu autorizou a assinatura do acordo entre União Europeia e Mercosul, em janeiro de 2026, o governo brasileiro passou a observar um interesse crescente do Canadá em fechar seu próprio acordo de livre comércio com o bloco sul-americano2. A secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, chegou a afirmar que existe margem para concluir esse tratado ainda em 20262.
As negociações entre Mercosul e Canadá, retomadas em outubro do ano passado após um longo hiato, chegaram à décima rodada em maio, com discussões concentradas no cronograma de liberalização tarifária e nas regras de origem3. O comércio bilateral entre Brasil e Canadá somou 10,4 bilhões de dólares em 2025, com exportações brasileiras batendo recorde histórico de 7,3 bilhões de dólares, alta de 14,8% sobre o ano anterior3.
O gesto simbólico da aproximação também passou por Brasília. Antes da aprovação final do acordo UE-Mercosul, o próprio Carney telefonou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para confirmar viagem ao Brasil e acelerar as tratativas com o bloco sul-americano. Assim como ocorreu na Europa com o setor agrícola francês, a Federação Canadense da Agricultura já manifestou reservas às concessões que um acordo com o Mercosul poderia exigir do setor rural canadense.
Os limites jurídicos da aproximação
Por mais ambiciosa que seja a retórica, a adesão plena do Canadá à UE esbarra em um obstáculo textual: o artigo 49 do Tratado da União Europeia exige que o candidato seja um "Estado europeu", geograficamente. A comissária de Ampliação, Marta Kos, afirma receber cartas de cidadãos canadenses pedindo que essa barreira geográfica seja repensada, mas nenhuma capital do bloco discute hoje alterar essa exigência1.
Isso não impede, porém, que vozes políticas de peso flertem publicamente com a ideia. O presidente finlandês Alexander Stubb chegou a perguntar publicamente, em junho, se não seria mais interessante ver o Canadá como o 28º Estado da União Europeia do que como um eventual 51º estado americano, comentário que circulou amplamente na imprensa europeia. O ministro francês para Assuntos Europeus, Jean-Noël Barrot, fez sugestão semelhante na primavera europeia.
O que observar até outubro
Três frentes devem definir o desenho final da parceria até a cúpula de Montreal: o alcance dos pactos setoriais em negociação, o nível de resistência dos Estados-membros mais cautelosos e o ritmo da própria ratificação do CETA, que segue como termômetro da disposição europeia de aprofundar laços institucionais com Ottawa sem abrir uma discussão formal sobre adesão.
Perguntas frequentes
O que significa a frase "tudo menos a membresia" usada pelo Canadá?
É a expressão usada por fontes comunitárias europeias para descrever o objetivo do Canadá nas negociações: obter acesso ao máximo de mecanismos e programas do mercado único europeu, sem se tornar formalmente um Estado-membro da União Europeia.
O Canadá pode se tornar um país-membro da União Europeia?
Formalmente não, pelo menos não sob as regras atuais. O artigo 49 do Tratado da UE exige que o candidato seja um "Estado europeu" no sentido geográfico, o que exclui o Canadá. Falas de líderes como o presidente finlandês Alexander Stubb sobre um hipotético "28º Estado" são especulação política, não uma proposta formal em discussão.
O que é o CETA e por que ele ainda não está totalmente em vigor?
O CETA é o acordo comercial entre UE e Canadá, em aplicação provisória desde 2017. Por ser classificado como acordo "misto", ele depende da ratificação de cada parlamento nacional europeu para entrar em vigor pleno. Até 2025, cerca de 17 dos 27 países da UE haviam concluído esse processo, entre os que faltam estão França, Irlanda e Itália.
Como a aproximação entre UE e Canadá afeta o Brasil?
Ela acelera indiretamente as negociações entre o Mercosul e o Canadá, que já chegaram à décima rodada em 2026. O governo brasileiro avalia que o precedente do acordo UE-Mercosul aumenta o interesse canadense em fechar seu próprio tratado com o bloco sul-americano, do qual o Brasil é o maior parceiro comercial de Ottawa na região.
Quando o novo pacote de acordos entre UE e Canadá deve ser anunciado?
A expectativa das negociações, segundo apuração do El País, é anunciar o novo conjunto de acordos estratégicos durante a cúpula UE-Canadá prevista para o fim de outubro de 2026, em Montreal.