Caderno Política · O Tecido 20 de setembro de 2026 · Leitura de 9 min

Na próxima quinta-feira, dia 24 de setembro, Donald Trump recebe Xi Jinping na Casa Branca para uma cúpula que promete decidir menos sobre tarifas e mais sobre quem vai escrever as regras da inteligência artificial nas próximas décadas. O encontro chega num momento curioso: as duas potências que mais investem na tecnologia têm populações com reações opostas a ela. Enquanto a maioria dos chineses recebe a IA com entusiasmo, boa parte dos americanos enxerga nela um risco existencial1.

A cúpula que pode redesenhar a corrida tecnológica

O encontro de quinta-feira é o segundo entre os dois presidentes em 2026, depois da reunião de maio em Pequim, quando os líderes discutiram salvaguardas de segurança sem chegar a um acordo formal2. Desta vez, o diálogo bilateral sobre IA, criado naquele encontro mas que patinou nos meses seguintes, deve ser incorporado à mesma conversa que trata de comércio, terras raras e semicondutores, segundo relatos da imprensa internacional3. Antes da cúpula, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, se reúne neste fim de semana com o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng para fechar os últimos detalhes das conversas preparatórias1,3.

Na mesa estarão temas concretos: o futuro das exportações de chips avançados da Nvidia para o mercado chinês, o ritmo dos controles americanos sobre semicondutores e a possibilidade de um canal de comunicação permanente para reduzir o risco de incidentes cibernéticos ligados a sistemas de IA1,4. Segundo Aalok Mehta, do centro Wadhwani de Inteligência Artificial do think tank CSIS, o resultado mais provável é modesto: um entendimento sobre práticas básicas de segurança, uma linha direta de comunicação e algum compromisso pontual sobre incidentes cibernéticos1. Analistas do Peterson Institute for International Economics (PIIE) fazem coro a essa leitura contida, lembrando que a idade e o temperamento de ambos os líderes favorecem a inércia mais do que a ruptura5.

O simbolismo do jantar de gala não deixa dúvidas sobre o peso da pauta. Estarão à mesa nomes como Sam Altman, da OpenAI, Jensen Huang, da Nvidia, Elon Musk, da xAI, e Sundar Pichai, do Google1. Dario Amodei, da Anthropic, tem defendido publicamente que desacelerar modelos de fronteira deveria vir acompanhado de mais restrições à exportação de semicondutores para Pequim, uma posição que expõe a divisão dentro do próprio setor americano sobre até onde ir na corrida1. Do outro lado do espectro político, o ex-assessor de Trump, Steve Bannon, tem defendido isolar por completo o ecossistema chinês de IA, um tema que discutiu recentemente ao lado do senador progressista Bernie Sanders num simpósio sobre os riscos da tecnologia1.

Duas psicologias para a mesma tecnologia

O que separa os dois países vai além da geopolítica. Uma pesquisa do banco Morgan Stanley mostra que 80% dos chineses consultados usam inteligência artificial pelo menos uma vez por semana, contra 54% dos americanos1. A base de usuários de IA generativa na China saltou de 249 milhões em dezembro de 2024 para 602 milhões um ano depois, um ritmo de adoção mais acelerado do que o dos próprios smartphones no país1.

Essa familiaridade tem reflexo direto na percepção pública. Segundo a consultoria Ipsos, 83% dos chineses consideram os produtos e serviços movidos por IA algo empolgante1. Nos Estados Unidos, o cenário se inverte: 63% da população acredita existir ao menos um risco moderado de a inteligência artificial destruir a humanidade, segundo levantamento do site Politico, e apenas 22% consideram esse risco leve ou inexistente1. Uma sondagem da YouGov reforça o retrato: dois terços dos americanos acham que os modelos avançam rápido demais e só 2% acreditam no oposto1.

Uso semanal de IA generativa China · 80% EUA · 54% Consideram a IA "empolgante" / temem risco existencial China · 83% empolgados EUA · 63% temem risco Fontes: Morgan Stanley, Ipsos, Politico (citado em El País, 20/09/2026)
Adoção e percepção de risco da IA, China e Estados Unidos.

O papel da confiança no governo

Parte da explicação para esse abismo está na relação de cada população com seu próprio governo. Nos Estados Unidos, o ceticismo histórico em relação ao poder público, agravado por episódios como a guerra do Iraque, deixou a confiança institucional em nível baixo: apenas 17% dos americanos acreditam que as autoridades tomam as decisões corretas. Na China, a consultoria de marketing Edelman registra o oposto, com 86% dos entrevistados confiando que o governo vai agir de forma apropriada1.

Essa confiança tem precedente concreto. Em 2020, o governo chinês abriu uma investigação antimonopólio contra a gigante de comércio eletrônico Alibaba, que se transformou numa ampla campanha regulatória sobre setores como educação a distância e videogames, e chegou a cortar 1,5 trilhão de dólares do valor de mercado dessas empresas1. Para o público chinês, o episódio funciona como prova de que o Estado é capaz de conter os excessos do setor tecnológico quando julga necessário, o que ajuda a sustentar o otimismo em relação à nova onda de IA.

Para boa parte dos americanos, a IA ainda é um risco a ser contido. Para boa parte dos chineses, é a prova de que o país finalmente alcançou a linha de frente da inovação global. Leitura editorial a partir dos dados de Morgan Stanley, Ipsos e Politico compilados por El País

Há também uma leitura estratégica por trás do entusiasmo chinês com o código aberto. Enquanto os grandes laboratórios de Silicon Valley tratam seus processos de treinamento como segredo industrial, a China tem incentivado ativamente modelos abertos como ferramenta de expansão internacional, uma escolha que amplia sua influência sobre o chamado Sul Global, onde a IA americana mais cara nem sempre é acessível1. Uma análise da comissão americana de segurança econômica com a China (USCC) de 2026 mostra que o ecossistema aberto Qwen, da Alibaba, já soma mais de 100 mil variações derivadas na plataforma Hugging Face, sinal do alcance dessa estratégia6. O próprio índice de IA de Stanford para 2026 mostrou que, até março, o modelo americano líder guardava uma vantagem de apenas 2,7% sobre o principal concorrente chinês em benchmarks de desempenho, uma distância que era muito maior há poucos anos6.

Contraponto

Nem todo especialista aceita a leitura de que a diferença de percepção reflita apenas confiança institucional genuína. Pesquisas de opinião feitas sob regimes com menor liberdade de imprensa e de expressão tendem a produzir respostas mais alinhadas ao discurso oficial, o que pode inflar os números de aprovação chinesa em temas sensíveis como tecnologia e governo. Do lado americano, o ceticismo elevado convive com uma corrida acelerada por parte das próprias empresas do país, incluindo as mesmas que alimentam o temor público, o que sugere que o receio da população nem sempre se traduz em desaceleração real da oferta de produtos de IA no mercado americano.

O que isso significa para o Brasil

Enquanto Washington e Pequim debatem quem regula o quê, o Brasil segue um caminho próprio, e mais lento. O Projeto de Lei 2.338/2023, conhecido como marco legal da IA, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e aguarda desde então um parecer do relator na Comissão Especial da Câmara dos Deputados, num trâmite marcado por impasses políticos e pela proximidade das eleições de 20267. Em dezembro de 2025, o Poder Executivo enviou um projeto complementar para criar o Sistema Nacional para Desenvolvimento, Regulação e Governança de Inteligência Artificial (SIA), que reforça o papel da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) como coordenadora da futura fiscalização7.

A adoção da tecnologia, porém, já avança na prática. Segundo o Cetic.br, braço do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), o uso de IA nas empresas brasileiras passou de 13% em 2024 para 17% em 2025, um salto puxado principalmente pelas grandes companhias, onde a adoção foi de 38% para 50% no mesmo período8. No setor público, a pesquisa mediu pela primeira vez a presença da tecnologia nas prefeituras, encontrando uso em 27% dos municípios, além de 59% dos órgãos federais, com a falta de capacitação técnica como principal barreira relatada8.

O retrato brasileiro tem semelhanças com os dois lados do Pacífico. Um estudo global da KPMG mostra que quase três em cada quatro trabalhadores já usam IA no ambiente profissional, com as economias emergentes, incluindo o Brasil, na liderança da adoção, mas ainda assim mais da metade dos respondentes expressa preocupação com o uso da tecnologia9. Ou seja: o país cresce em uso prático de IA no ritmo de uma economia emergente otimista, mas carrega parte da desconfiança típica de democracias com instituições mais fiscalizadas, e ainda não tem um marco regulatório concluído para equilibrar as duas coisas.

Este texto usa como referência principal a reportagem "Tú la temes, yo la amo: la cumbre Trump-Xi afronta la IA con mentalidades opuestas en China y EE UU", de Macarena Vidal Liy, publicada por El País em 20 de setembro de 2026. Os dados de pesquisas de opinião (Morgan Stanley, Ipsos, Politico, YouGov, Edelman) e as falas de George Chen e Aalok Mehta citadas neste artigo foram originalmente reunidos por essa reportagem. Leia a reportagem original em espanhol.

Perguntas frequentes

O que será discutido na cúpula entre Trump e Xi de 24 de setembro?

Comércio, terras raras e exportação de semicondutores dividem espaço com um item que ganhou peso próprio: a inteligência artificial. Especialistas apontam como resultados prováveis um entendimento sobre práticas básicas de segurança, uma linha direta de comunicação entre os dois países e algum compromisso pontual sobre incidentes cibernéticos ligados a sistemas de IA.

Por que os americanos temem mais a inteligência artificial do que os chineses?

Pesquisas apontam uma combinação de fatores: menor confiança institucional nos Estados Unidos, preocupação com perda de empregos e impacto ambiental dos data centers, e desconfiança nas próprias empresas do setor. Na China, o entusiasmo é sustentado por décadas de ganhos pessoais associados a novas ondas tecnológicas e por maior confiança de que o Estado saberá conter eventuais excessos.

Qual a situação da regulação da inteligência artificial no Brasil?

O PL 2.338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, segue em análise na Comissão Especial da Câmara dos Deputados, sem parecer final do relator. Um projeto complementar do Executivo, enviado em dezembro de 2025, propõe criar um sistema nacional de governança de IA coordenado pela ANPD.

Por que a China aposta em modelos de inteligência artificial de código aberto?

O código aberto amplia a influência tecnológica chinesa em mercados que não conseguem pagar pelos modelos americanos mais caros, especialmente no Sul Global, e ajuda o país a reduzir a distância em relação aos Estados Unidos em benchmarks de desempenho.

Números-chave

  • 80% × 54%Uso semanal de IA generativa, China e EUA (Morgan Stanley)
  • 83%Chineses que veem a IA como algo empolgante (Ipsos)
  • 63%Americanos que temem risco moderado ou maior de a IA ameaçar a humanidade (Politico)
  • 86% × 17%Confiança no governo, China e EUA (Edelman)
  • 17%Empresas brasileiras que já usam IA em 2025 (Cetic.br)
  • 2,7%Vantagem restante dos modelos americanos sobre os chineses em benchmarks (Stanford AI Index, mar/2026)

Linha do tempo

  • OUT 2025Primeiro encontro entre Trump e Xi no segundo mandato, na Cúpula de Busan.
  • MAI 2026Cúpula em Pequim discute salvaguardas de IA sem acordo formal.
  • DEZ 2025Executivo brasileiro envia projeto complementar criando o SIA, com a ANPD como coordenadora.
  • MAR 2026Índice de IA de Stanford mostra vantagem americana reduzida a 2,7%.
  • SET 2026Bessent e He Lifeng se reúnem no fim de semana anterior à cúpula.
  • 24 SET 2026Trump recebe Xi na Casa Branca para a cúpula bilateral.

Glossário

IA de fronteira
Modelos de inteligência artificial mais avançados disponíveis num dado momento, geralmente os mais custosos para treinar.
Modelo de código aberto
Sistema de IA cujo código e pesos de treinamento são disponibilizados publicamente para adaptação por terceiros.
Controles de exportação
Restrições impostas por um governo à venda de tecnologia sensível, como chips avançados, a outros países.
Marco legal da IA
Nome popular do PL 2.338/2023, que regula direitos, deveres e níveis de risco no uso de IA no Brasil.
ANPD
Autoridade Nacional de Proteção de Dados, órgão brasileiro que deve coordenar a futura governança de IA no país.

Referências

  1. Macarena Vidal Liy. "Tú la temes, yo la amo: la cumbre Trump-Xi afronta la IA con mentalidades opuestas en China y EE UU". El País, 20/09/2026.
  2. Reportagem sobre a cúpula de Pequim de maio de 2026, Reuters/Associated Press.
  3. South China Morning Post, cobertura sobre reunião preparatória entre Bessent e He Lifeng.
  4. Axios, "U.S. open to discuss AI shared risks with China, Bessent says".
  5. Peterson Institute for International Economics (PIIE), análise sobre expectativas da cúpula.
  6. U.S.-China Economic and Security Review Commission (USCC) e Stanford AI Index 2026.
  7. Barbieri Advogados, "Regulamentação da Inteligência Artificial no Brasil: estado atual e perspectivas".
  8. Cetic.br/NIC.br, pesquisa TIC Empresas 2025 e TIC Governo Eletrônico 2025.
  9. KPMG, "Confiança, Atitudes e Uso de Inteligência Artificial: um estudo global 2025".