Política · Geopolítica · Guerra na Ucrânia

Nota editorial: este texto parte da coluna "Why Trump is going for Zelenskyy's jugular", de Edward Luce, comentarista-chefe do Financial Times. O Tecido não reproduz nem traduz o original. A análise abaixo é própria e se apoia em reportagens de agências e veículos internacionais e em dados do setor de combustíveis brasileiro, citados ao longo do texto.

Em resumo

  • Em 9 de outubro de 2026, Donald Trump anunciou um acordo com Vladimir Putin que suspende sanções ao diesel russo, enquanto negociadores ucranianos estavam reunidos com enviados americanos em Miami.
  • Zelensky chamou o acordo de "não justo e não honesto". No dia seguinte, Trump afirmou que a Ucrânia precisa de "um novo presidente" capaz de fazer um acordo.
  • Em 11 de outubro, Trump anunciou um "cessar-fogo energético" entre Rússia e Ucrânia. Kiev disse ter sido surpreendida, mas aceita se Moscou cumprir.
  • Para o Edward Luce, do FT, a hostilidade de Trump é pessoal: ele não perdoa o líder ucraniano por expor os limites de sua capacidade de negociar.
  • O Brasil importa entre 25% e 30% do diesel que consome. Em setembro, 80% dessas compras vieram dos EUA, e outubro é o mês de maior consumo do ano.

Em menos de 72 horas, a Casa Branca produziu três gestos que, somados, dizem mais sobre a política externa de Donald Trump do que qualquer documento estratégico. Na sexta-feira, 9 de outubro, o presidente americano anunciou pelo Truth Social um acordo com Vladimir Putin para liberar diesel russo no mercado global. No sábado, disse a repórteres que a Ucrânia deveria escolher "um novo líder" capaz de fechar um acordo. No domingo, declarou em vigor um "cessar-fogo energético" que nenhuma das partes havia anunciado.

A sequência aconteceu enquanto, em Miami, os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner passavam oito horas negociando com uma delegação ucraniana. Segundo o Axios, os americanos avisaram aos ucranianos, durante a própria reunião, que Trump falaria com Putin e levantaria sanções sobre as exportações russas de diesel.2 Zelensky chamou a visita de "cortina de fumaça".

O que foi acordado entre Trump e Putin

Pelos termos divulgados por Trump, a Rússia colocaria imediatamente 300 mil toneladas de diesel no mercado americano e global, mais 500 mil toneladas em novembro e um milhão de toneladas na sequência, segundo a ITV News.3 O Departamento do Tesouro emitiu no mesmo dia uma licença temporária que autoriza a venda do combustível russo. É uma inflexão notável: os Estados Unidos não importam petróleo nem gás da Rússia desde 2022, quando o governo Biden proibiu essas compras após a invasão.

Do lado americano, a justificativa é doméstica. O diesel passou de US$ 6 por galão a menos de um mês das eleições legislativas de 3 de novembro, como registrou o Kyiv Post.4 Uma fonte do governo disse ao Axios que Trump decidiu fazer o acordo depois que Zelensky ignorou cerca de seis pedidos americanos para suspender os ataques com drones contra refinarias russas, que Washington associa à alta dos combustíveis.

A resposta de Kiev foi das mais duras desde o início do segundo mandato de Trump. Em entrevista ao Axios, Zelensky disse ter sido pego de surpresa e classificou a decisão como "não justa e não honesta", um presente imerecido a Putin.5 No dia seguinte, ataques russos contra áreas residenciais em Zaporizhzhia mataram cerca de 20 pessoas, segundo autoridades ucranianas. Zelensky descreveu as mortes como o "agradecimento" de Moscou pelo acordo.

A tese do Financial Times: o rancor do negociador

Em sua coluna no Financial Times, Edward Luce oferece uma chave de leitura que desloca o debate da estratégia para a psicologia do poder.1 A linha de apoio do texto resume o argumento: por mais que os aliados dos Estados Unidos insistam para que o presidente apoie a Ucrânia, Trump não consegue perdoar Zelensky por ter exposto a sua impotência como negociador.

A hipótese é útil porque explica uma assimetria que a análise puramente geopolítica tem dificuldade de explicar. Trump prometeu, na campanha de 2024, encerrar a guerra em um dia. Quase dois anos depois do início do mandato, a guerra continua. Houve a cúpula de Anchorage com Putin em agosto de 2025, rodadas sucessivas com Witkoff e Kushner e um encontro com Zelensky na Assembleia Geral da ONU em setembro deste ano. O resultado concreto é escasso. Quando um negociador que construiu sua identidade política na promessa de "fazer acordos" não consegue entregar, alguém precisa ser responsabilizado. Para Trump, esse alguém é sistematicamente o lado mais fraco.

O padrão não é novo. Em fevereiro de 2025, Trump chamou Zelensky de "ditador sem eleições" e, dias depois, protagonizou com o vice J.D. Vance o bate-boca no Salão Oval transmitido para o mundo. A diferença, agora, é o custo material da hostilidade: ela vem acompanhada de alívio de sanções a Moscou, em vez de apenas retórica.

Quando um negociador que construiu sua identidade política na promessa de fazer acordos não consegue entregar, alguém precisa ser responsabilizado. Para Trump, esse alguém é sistematicamente o lado mais fraco. Análise · O Tecido

A legitimidade como instrumento de pressão

"Acho que é hora de a Ucrânia ter um novo presidente", disse Trump no sábado, segundo a Bloomberg Línea.6 O argumento ecoa uma das linhas mais persistentes do Kremlin: a de que Zelensky não teria mandato legítimo porque foi eleito em 2019 para cinco anos e não realizou eleições em 2024.

O dado é verdadeiro, mas incompleto. A Constituição ucraniana veda eleições durante a lei marcial, em vigor desde a invasão de fevereiro de 2022. Realizar um pleito com parte do território ocupado, milhões de deslocados e soldados na linha de frente seria, para a maioria dos constitucionalistas ucranianos, um convite à contestação do resultado. Zelensky respondeu à rede ABC que cabe à sociedade ucraniana escolher seus líderes e, segundo a BBC News Brasil, reproduzida por A Gazeta, ofereceu organizar eleições em troca de um cessar-fogo total de 60 dias.7

A contraproposta é hábil. Ela devolve a Trump a pergunta que ele evita: se a democracia ucraniana importa, por que a exigência de eleições recai sobre Kiev e não vem acompanhada de nenhuma exigência equivalente a Moscou?

O "cessar-fogo energético"

O anúncio de domingo pode ser lido de duas formas. Na leitura otimista, Trump converteu a crise em um avanço real: Zelensky já havia dito estar disposto a suspender ataques a refinarias russas se a Rússia parasse de bombardear a rede elétrica ucraniana, e a trégua parcial formaliza essa troca. Na leitura cética, trata-se de um anúncio unilateral, sem mecanismo de verificação, que nem Kiev nem Moscou haviam confirmado no momento em que foi publicado. A primeira semana de vigência dirá qual das duas prevalece.

O que muda para o Brasil

A briga entre Washington e Kiev parece distante do eleitor brasileiro até chegar ao preço do frete. O país importa entre 25% e 30% do diesel que consome, e a origem desse combustível mudou de forma abrupta em 2026.

A Rússia forneceu 47% do diesel importado pelo Brasil em 2025. Em julho deste ano, após os ataques ucranianos às suas refinarias, Moscou proibiu a maior parte de suas exportações de combustíveis. Segundo levantamento da agência eixos, os embarques russos para o Brasil caíram de 909 mil toneladas em abril para 56 mil em agosto, enquanto os americanos subiram de 90 mil para 721 mil.8 Em setembro, 80% do diesel importado veio dos Estados Unidos, de acordo com a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).

Embarques de diesel para o Brasil por origem, abril e agosto de 2026, em mil toneladas EMBARQUES DE DIESEL PARA O BRASIL (MIL TONELADAS) 0 500 1.000 909 90 ABRIL/2026 56 721 AGOSTO/2026 Rússia EUA
Fonte: agência eixos, com base em dados de mercado e ANP (setembro de 2026). A inversão ocorreu após a Rússia restringir exportações de combustíveis em julho.

Essa concentração cria uma dupla vulnerabilidade. A primeira vem de Washington: em 22 de setembro, Trump disse estudar a proibição total ou parcial das exportações americanas de diesel para conter preços internos. O secretário de Energia, Chris Wright, afirmou no dia seguinte que a medida não funcionaria. A segunda vem do calendário: outubro é tradicionalmente o mês de maior venda de diesel no Brasil, puxado pela safra, e em 2025 bateu o recorde de 6,43 milhões de metros cúbicos, segundo a ANP.

A Petrobras respondeu por 86% do diesel entregue às distribuidoras em agosto, a maior fatia da série histórica, e nunca comprou diesel russo. Os importadores privados, que se abasteciam do produto russo mais barato, perderam espaço. O governo federal, segundo o presidente Lula, já gastou R$ 47 bilhões em subvenções para segurar os preços da gasolina e do diesel ao longo da crise, agravada pela guerra no Oriente Médio e pelo fechamento do Estreito de Ormuz em março.

Alívio de curto prazo, risco de médio prazo

Se o acordo Trump-Putin de fato devolver diesel russo ao mercado, o efeito imediato para o Brasil tende a ser positivo: mais oferta global, menos dependência de uma única origem e, possivelmente, preços menores para importadores privados. Mas há três ressalvas. A licença americana é temporária. O volume anunciado, cerca de 1,8 milhão de toneladas no total, é modesto frente à demanda mundial. E a própria Rússia ainda mantém restrições internas à exportação.

Há ainda a dimensão diplomática. Em 18 de setembro, Trump sancionou uma lei de sanções contra a Rússia aprovada por 86 a 11 no Senado e 262 a 159 na Câmara, que autoriza tarifas de até 100% sobre produtos dos cinco maiores compradores de petróleo bruto ou gás russo, além dos cinco maiores facilitadores da evasão de sanções, como detalhou a Al Jazeera.9 O Brasil compra sobretudo diesel refinado, e não petróleo bruto, o que o mantém fora do alvo óbvio, ocupado por China e Índia. A aplicação da lei, porém, depende de critérios que o governo americano ainda não detalhou. A convivência entre uma lei que pune compradores de energia russa e um acordo presidencial que libera energia russa mostra quanto a política americana para Moscou se tornou errática.

O que observar nos próximos dias

  • Cumprimento da trégua energética: se Rússia e Ucrânia suspenderem ataques à infraestrutura de energia, a narrativa de Trump ganha substância. Se não, o anúncio vira mais uma promessa sem lastro.
  • Prazo da lei de sanções: o texto sancionado em 18 de setembro prevê que as tarifas sejam aplicadas em até 30 dias. A Casa Branca pode usar a ampla cláusula de dispensa por interesse nacional.
  • Eleições americanas de 3 de novembro: o preço do diesel virou variável eleitoral, o que torna improvável qualquer endurecimento contra Moscou antes do pleito.
  • Abastecimento no Brasil: a renovação das subvenções ao diesel importado e a eventual volta de cargas russas definem o risco de falta de produto em novembro, alertado pela Abicom.

A coluna de Edward Luce acerta ao tratar a relação entre Trump e Zelensky como algo mais do que divergência tática. Quando a política externa da maior potência do mundo passa a ser conduzida como acerto de contas pessoal, os custos não ficam restritos aos dois protagonistas. Eles aparecem em Zaporizhzhia, nas capitais europeias e, de forma menos visível, nos postos de combustível de um país que importa quase um terço do diesel que move sua safra.

Perguntas frequentes

O que é o acordo do diesel entre Trump e Putin?

Anunciado em 9 de outubro de 2026, o acordo suspende temporariamente sanções americanas ao diesel russo. Segundo Trump, a Rússia liberaria 300 mil toneladas imediatamente, 500 mil em novembro e um milhão de toneladas depois. O Tesouro dos EUA emitiu uma licença temporária para viabilizar as vendas.

Por que Trump pediu um novo presidente para a Ucrânia?

Em 10 de outubro, depois de Zelensky criticar o acordo do diesel, Trump disse que a Ucrânia precisa de um líder capaz de fechar um acordo com a Rússia e acusou o presidente ucraniano de não suspender ataques a refinarias russas. Para Edward Luce, do Financial Times, a hostilidade reflete o ressentimento de Trump por Zelensky ter exposto seus limites como negociador.

O mandato de Zelensky expirou?

Zelensky foi eleito em 2019 para cinco anos. A Constituição ucraniana proíbe eleições durante a lei marcial, em vigor desde a invasão russa de fevereiro de 2022, por isso ele permanece no cargo. Em outubro de 2026, Zelensky propôs realizar eleições em troca de um cessar-fogo total de 60 dias.

O que é o cessar-fogo energético anunciado por Trump?

É uma trégua parcial, anunciada por Trump em 11 de outubro de 2026, pela qual Rússia e Ucrânia deixariam de atacar a infraestrutura de energia uma da outra. Kiev disse ter sido surpreendida pelo anúncio, mas afirmou que aceita se Moscou também cumprir.

Como a disputa afeta o diesel no Brasil?

O Brasil importa entre 25% e 30% do diesel que consome. Com a Rússia fora do mercado desde julho, 80% das importações de setembro vieram dos EUA. A volta do diesel russo pode ampliar a oferta, mas a licença americana é temporária e Trump já cogitou restringir exportações de diesel dos EUA.

O Brasil pode ser atingido pela nova lei americana de sanções à Rússia?

A lei sancionada em 18 de setembro de 2026 mira os cinco maiores compradores de petróleo bruto ou gás russo e os cinco maiores facilitadores da evasão de sanções. O Brasil compra principalmente diesel refinado, o que o afasta do alvo principal, mas os critérios de aplicação ainda não foram detalhados pelo governo americano.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Política