Este texto é uma análise original de O Tecido. Parte do ponto de vista apresentado por Gideon Rachman na coluna "Trump and Xi are the wrong men at the wrong time", publicada no Financial Times em 21 de setembro de 2026. O conteúdo do FT não é reproduzido nem traduzido; os créditos pertencem ao autor e ao jornal.

Política · Relações internacionais

Nesta terça-feira (22), Luiz Inácio Lula da Silva abriu o debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU em Nova York, com um discurso centrado no multilateralismo e na reforma do Conselho de Segurança, e Donald Trump foi o orador seguinte na tribuna.16 O plenário, porém, é apenas a antessala da semana. Na quarta-feira (23), Xi Jinping chega aos Estados Unidos para uma visita de Estado que se estende até sexta (25), a primeira de um líder chinês a Washington desde 2015.2 A reunião na Casa Branca, na quinta-feira (24), será o terceiro encontro presencial entre os dois desde a cúpula de Busan, em outubro de 2025.

É nesse intervalo, entre o discurso multilateral e o aperto de mão bilateral, que se encaixa a provocação publicada no domingo pelo Financial Times.1

A tese do Financial Times

Gideon Rachman, principal comentarista de assuntos internacionais do FT, resume o argumento já no título da coluna: Trump e Xi seriam os homens errados no momento errado. A linha fina completa o diagnóstico ao afirmar que o mundo precisa de lideranças capazes de enxergar longe, e que é improvável que os presidentes dos Estados Unidos e da China ofereçam isso.1

A tese não é sobre um dossiê específico, e sim sobre o tipo de liderança que ocupa as duas cadeiras mais poderosas do planeta. O exercício proposto aqui é testá-la contra a pauta concreta desta semana e perguntar o que ela significa para quem observa de fora, a começar pelo Brasil.

Uma agenda cheia, compromissos escassos

A expectativa em Washington é de pompa e pouco detalhe. A correspondente da NPR na Casa Branca, Emily Feng, relatou que autoridades americanas, atuais e antigas, esperam símbolos para os dois líderes, mas não compromissos detalhados. Pelo lado chinês, a prioridade seria manter os EUA apaziguados sem se comprometer; pelo lado americano, fontes ouvidas pela repórter apontam falta de direção na política para a China neste mandato.3

Inteligência artificial

O tema mais novo da mesa é também o que mais testa a tese do FT. No domingo (20), o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng passaram cerca de oito horas reunidos em Nova York. Ao final, Bessent informou que Washington propôs um diálogo bilateral sobre IA com um sistema de notificação para incidentes que atinjam o nível de segurança nacional.4 O representante comercial Jamieson Greer deixou claro que os controles de exportação de chips avançados e equipamentos de semicondutores ficam fora do mecanismo.5

Em outras palavras, trata-se de um canal de alerta, algo próximo de uma linha direta, e não de um regime de governança. Até 20 de setembro não havia acordo assinado, e o grupo de trabalho proposto pelos americanos ainda não estava formalmente constituído. O único precedente concreto segue sendo a declaração de Lima, de novembro de 2024, em que os dois países afirmaram que decisões sobre armas nucleares devem permanecer sob controle humano.6

Terras raras e aviões

A trégua sobre minerais críticos mostra o grau de desconfiança. Pelo acordo, a China adiou por um ano controles de exportação que cortariam quase por completo o acesso americano a produtos de terras raras. Segundo a NPR, Washington acusa Pequim, em privado, de abusar da trégua ao restringir o fornecimento ao Japão e ao atrasar licenças de exportação. Em contrapartida, a China, que se comprometeu em maio a comprar 200 aviões da Boeing, não tem conseguido adquirir peças de reposição, um ponto de estrangulamento que os EUA estariam testando discretamente.3

Taiwan

Em dezembro de 2025, dois meses depois de Busan, o governo Trump anunciou um pacote de US$ 11,1 bilhões em armas para Taiwan, o que irritou Pequim.17 Às vésperas desta visita, o movimento é inverso. O South China Morning Post informou, segundo relato do Seoul Economic Daily, que a Casa Branca avalia empurrar para o fim do ano a decisão sobre uma grande venda de armas à ilha; no mesmo período, Trump sugeriu que montadoras chinesas poderiam instalar fábricas nos EUA.9 A Reuters, em reportagem reproduzida pelo Japan Times, relata que Xi deve pressionar pela suspensão das vendas com base no comunicado conjunto de 1982, oferecendo em troca ajuda para pressionar o Irã.8 Bonnie Glaser, do German Marshall Fund, avalia que Taiwan terá menos destaque do que em maio, mas que Xi deve advertir que novas vendas minariam o consenso de "estabilidade estratégica construtiva".7

Irã e comércio

Completam a pauta a guerra envolvendo o Irã, em que a China foi uma tábua de salvação econômica de Teerã ao comprar grandes volumes de petróleo iraniano, e a guerra comercial, que tecnicamente continua em curso.3 O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) lista comércio, investimento, IA, Irã e Taiwan como os eixos esperados do encontro.10

Dois relógios domésticos

O ponto mais forte da tese de Rachman talvez esteja menos no temperamento dos líderes e mais nos calendários que os governam. Trump recebe Xi a menos de seis semanas das eleições de meio de mandato, e a NPR observa que ele vai querer imagens de vitórias econômicas, como compras chinesas de produtos agrícolas americanos. Xi, ao voltar a Pequim, inicia um ano político que culmina no congresso do Partido Comunista no segundo semestre de 2027, onde deve buscar mais cinco anos no poder e, por isso, precisa projetar força e estabilidade.3 A trégua comercial firmada em Busan tem vencimento previsto para 10 de novembro, segundo o Eastern Herald.18

24 set 2026 Cúpula na Casa Branca 3 nov 2026 Midterms nos EUA 10 nov 2026 Vence a trégua de Busan* 2º sem. 2027 Congresso do PC Chinês nov 2028 Eleição presidencial EUA O horizonte que pesa sobre a mesa de negociação
Linha do tempo fora de escala. Fontes: NPR (midterms e congresso do PCCh); Eastern Herald (*data de vencimento da trégua, a confirmar). Elaboração: O Tecido.

Esses incentivos premiam entregas visíveis em semanas, como toneladas de soja, encomendas de aviões e alívio tarifário, e desestimulam estruturas que só dão retorno em décadas, como regras para IA de fronteira, controle de armas e cooperação climática. É exatamente o tipo de assimetria que torna plausível a leitura do FT.

Quando a eleição de um lado e o congresso partidário do outro ditam o ritmo, negocia-se o que cabe numa foto, não o que cabe numa geração.

O Brasil entre as duas pontas

A soja como termômetro

Para o Brasil, a cúpula tem efeito direto no campo. Em 2025, o agronegócio exportou o recorde de US$ 169,2 bilhões, e a China absorveu US$ 55,3 bilhões, ou 32,7% do total. A soja em grão rendeu US$ 43,5 bilhões, com 108,2 milhões de toneladas embarcadas. Em maio de 2026, os chineses responderam por perto de 40% das exportações do agro brasileiro no mês, enquanto a fatia dos EUA ficou em 5,2%, com queda anual de 28%, segundo dados do Ministério da Agricultura compilados pela Agrolink.11

O ritmo segue forte: o primeiro semestre de 2026 fechou com quase 74 milhões de toneladas de soja embarcadas, alta de 12,5%, de acordo com a consultoria Biond Agro.13 O risco está na execução do compromisso chinês de comprar 25 milhões de toneladas anuais de soja americana. Em cenário de implementação plena, o economista André Nassar estimou perda de até US$ 4 bilhões em vendas brasileiras à China.12 Um pacote agrícola adicional em Washington, desenhado para a campanha das midterms, seria sentido nos portos do Arco Norte antes de ser sentido em Iowa.

Terras raras: reserva não é poder

Se a China usa minerais críticos como instrumento de pressão, quem tem reservas ganha relevância. O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, cerca de 21 milhões de toneladas, contra 44 milhões da China, segundo o Serviço Geológico dos EUA (USGS). A China concentra ainda perto de 90% da capacidade global de refino.14 A produção brasileira subiu de 560 toneladas em 2024 para 2 mil toneladas em 2025, avanço expressivo em termos relativos e irrelevante diante da escala chinesa.14 Em janeiro, foi noticiado que Brasil e EUA avaliam um acordo de cooperação no setor.15

Reservas de terras raras (milhões de toneladas) China44 Brasil21 Austrália6,3 Rússia3,8 Vietnã3,5 EUA1,9
Fonte: U.S. Geological Survey, Mineral Commodity Summaries 2026, conforme reportado por Monitor Mercantil e LabGRIMA/UFPel. Elaboração: O Tecido.

Multilateralismo em um mundo de dois

A sessão da ONU aberta por Lula tem como tema a restauração da confiança e a gestão da transformação.16 O contraste com a semana é evidente: enquanto o Itamaraty aposta em fóruns amplos e na reforma do Conselho de Segurança, as decisões que mais afetam o preço da soja, o acesso a minerais críticos e as regras sobre IA são negociadas a dois, numa sala da Casa Branca. Para potências médias como o Brasil, o risco não é ficar de fora de uma disputa, e sim ser afetado por acordos em que não tem assento.

Contraponto

O argumento a favor dos líderes transacionais

Há boas razões para relativizar a tese do FT. Visitas de Estado entre as duas potências historicamente serviram para estabilizar a relação: Jiang Zemin foi a Washington em 1997 para recompor os laços depois de 1989, e Deng Xiaoping, em 1979, marcou a abertura chinesa com uma viagem que incluiu um rodeio no Texas.3 Greer argumenta que, sendo os dois países mais poderosos do mundo em comércio e em IA, é imperativo que consigam trabalhar juntos, sem ignorar os desafios.4

Miles Yu, que assessorou a política para a Ásia no primeiro mandato de Trump, sustenta que o foco atual no Irã, na Venezuela e no Canal do Panamá é, na verdade, parte de uma estratégia para conter a China no hemisfério.3 E um canal de notificação de incidentes de IA, se formalizado, seria o primeiro mecanismo estruturado entre as duas potências sobre riscos da tecnologia. Líderes guiados por resultados imediatos às vezes fecham acordos que governos mais ideológicos não conseguiriam. A questão é se esses acordos sobrevivem ao próximo ciclo eleitoral.

O que observar na quinta-feira

  • IA: se o mecanismo de notificação sai do papel com grupo de trabalho, periodicidade e pontos focais, ou fica como intenção declarada.
  • Taiwan: se o comunicado final menciona vendas de armas ou o documento de 1982, o que indicaria mudança concreta de posição americana.
  • Terras raras: se a trégua é prorrogada antes do vencimento e com quais garantias sobre licenças de exportação.
  • Agro: se há novo volume de compras agrícolas, número que o mercado brasileiro vai ler como sinal de preço para a safra 2026/27.

Perguntas frequentes

Quando acontece a visita de Xi Jinping aos Estados Unidos?

De 23 a 25 de setembro de 2026, com a cúpula na Casa Branca em 24 de setembro. É a primeira visita de Estado de Xi a Washington desde 2015.

O que Gideon Rachman argumenta no Financial Times?

Que Trump e Xi são os líderes errados para o momento: o mundo precisaria de visão de longo prazo, e é improvável que os dois a ofereçam.

Quais temas estão na pauta da cúpula?

Comércio e tarifas, a trégua sobre terras raras, um canal de notificação de incidentes de IA, vendas de armas a Taiwan e a guerra envolvendo o Irã.

Existe acordo entre EUA e China sobre segurança em IA?

Até 20 de setembro de 2026, não. Os EUA propuseram um mecanismo de notificação. O único precedente concreto é a declaração de Lima, de 2024, sobre controle humano de decisões nucleares.

Como a cúpula afeta o Brasil?

Pela soja, já que compras chinesas nos EUA disputam espaço com o produto brasileiro; pelas terras raras, em que o Brasil tem a segunda maior reserva do mundo; e pela diplomacia, porque acordos bilaterais entre as potências reduzem o peso dos fóruns multilaterais.

Ewerton Lopes — Curador Editorial