Política · Estados Unidos · Inteligência Artificial

Um levantamento do Washington Post sobre declarações financeiras e comunicados corporativos mostra que os negócios da família de Donald Trump se entrelaçaram de forma crescente com o boom da inteligência artificial, no mesmo período em que o presidente tem resistido a pedidos para desacelerar o desenvolvimento da tecnologia1. A conclusão do jornal, publicada em 20 de setembro, chama atenção porque decisões que cabem à própria Casa Branca, sobre chips, energia e regulação de IA, podem influenciar diretamente o valor dos investimentos pessoais do presidente e de seus filhos.

Diferentemente de antecessores recentes, Trump não colocou seus ativos em um blind trust (fundo cego administrado sem interferência do titular) e segue comprando e vendendo ações enquanto ocupa o cargo1. Segundo o Post, as contas de investimento do presidente registraram cerca de 30 mil transações de valores mobiliários desde o retorno dele à Casa Branca, incluindo compras e vendas de participações em empresas que fornecem chips, servidores e infraestrutura energética para data centers de IA, entre elas Dell Technologies, Micron Technology e GE Vernova1.

Uma rede que cresce em torno da IA

O caso mais recente e visível dessa aproximação é o anúncio, em dezembro de 2025, de que a Trump Media & Technology Group, controladora da rede Truth Social, fecharia uma fusão de mais de US$ 6 bilhões com a TAE Technologies, empresa de fusão nuclear apoiada pela Alphabet e que projeta construir a primeira usina de fusão em escala comercial do mundo, voltada a suprir a demanda elétrica de data centers de IA2. Richard Painter, ex-advogado de ética da Casa Branca no governo George W. Bush, classificou o negócio como um conflito de interesses evidente, comparando o movimento à entrada anterior de Trump no mercado de criptoativos2.

Esse não é um episódio isolado. Os filhos do presidente, Donald Trump Jr. e Eric Trump, mantêm participações relevantes em fundos voltados a infraestrutura de IA. A 1789 Capital, da qual Trump Jr. é sócio, fechou um fundo de US$ 1,2 bilhão com foco em ativos imobiliários ligados à tecnologia, incluindo data centers, e já investiu em empresas como Cerebras Systems, Perplexity e xAI, de Elon Musk1. Eric Trump, por sua vez, aplica recursos por meio da American Ventures, braço do banco de investimentos Dominari Holdings, com posições em empresas de defesa e robótica1.

Nenhum presidente desde que existe esse regime de leis sobre conflito de interesses conduziu suas finanças dessa maneira. Don Fox, ex-diretor interino do Escritório de Ética Governamental dos EUA

Quando a política de IA mexe no próprio bolso

A semana que antecedeu a publicação do levantamento do Post ilustrou o quanto a fortuna de Trump está exposta às oscilações do setor. Depois que líderes proeminentes da indústria de IA defenderam publicamente uma desaceleração no ritmo de desenvolvimento por temerem riscos de perda de controle sobre sistemas cada vez mais avançados, ações ligadas à IA caíram de forma acentuada em uma segunda-feira, mesmo com o presidente chamando publicamente esses temores de farsa1. Entre os papéis que recuaram estavam justamente companhias nas quais as declarações financeiras de Trump indicam posições compradas, como Broadcom, Texas Instruments, Credo Technology e Super Micro Computer1.

O peso do setor na economia americana ajuda a explicar por que qualquer sinal de desaceleração preocupa investidores. Segundo cálculos do estrategista-chefe de mercado Matt Orton, da Raymond James Investment Management, citados pelo Post, papéis ligados à IA responderam por cerca de dois terços da alta do índice S&P 500 neste ano1. Trump atribuiu parte de sua renda declarada de mais de US$ 2 bilhões em 2025 justamente às máximas do mercado financeiro1.

Criptoativos, dados e a periferia regulatória

Uma fatia crescente da renda da família vem de empreendimentos cripto ligados à inteligência artificial. A World Liberty Financial, fundada por Trump e os filhos em 2024, teria gerado mais de US$ 500 milhões ao presidente somente no último ano1. A empresa mantém parceria com a WorldClaw, plataforma sediada em Hong Kong que dá acesso a modelos de IA, alguns deles desenvolvidos por companhias chinesas já sinalizadas por preocupações de segurança nacional do próprio governo americano1.

Também chama atenção a TruthAPI, ferramenta da Truth Social que licencia postagens do presidente para laboratórios de IA e permite que investidores acessem seus anúncios antes do público em geral, o que já levanta questionamentos éticos e jurídicos1. A Casa Branca nega qualquer irregularidade. Em nota ao Post, o porta-voz Davis Ingle afirmou que os investimentos do presidente são geridos por administradores independentes, replicando índices de mercado sem qualquer possibilidade de interferência da família1.

Contraponto

A Casa Branca sustenta que não há conflito de interesses porque as posições financeiras de Trump ficam em contas discricionárias, operadas por carteiras-modelo que replicam automaticamente índices reconhecidos, como o Schwab 1000, sem qualquer capacidade do presidente ou de familiares de decidir compra, venda ou alocação1. Sob essa leitura, a coincidência entre política de IA e patrimônio pessoal seria efeito de mercado, não de decisão deliberada. Críticos como Painter e Fox rebatem que a ausência de um blind trust tradicional, somada a negócios diretos como a fusão da Truth Social com a TAE, ultrapassa o espectro de investimentos passivos em índice.

O espelho brasileiro: o que a lei federal exige por aqui

No Brasil, situação equivalente esbarraria em um arcabouço jurídico específico. A Lei nº 12.813, de 2013, define conflito de interesses como o confronto entre interesses públicos e privados capaz de comprometer a imparcialidade de um agente público, e não exige prova de dano ao erário ou de vantagem obtida para caracterizar a infração3. Ministros de Estado e ocupantes de cargos de alto escalão são obrigados a declarar anualmente bens, rendas e situações de potencial conflito por meio do sistema e-Patri, administrado pela Controladoria-Geral da União, que fiscaliza inconsistências ao lado da Comissão de Ética Pública da Presidência3.

Contexto institucional

A legislação brasileira não impõe um blind trust obrigatório a autoridades, mas centraliza a fiscalização de eventuais conflitos em um órgão de controle único, o que difere do modelo americano, apoiado sobretudo em normas de conduta e na pressão da opinião pública. Enquanto isso, o Congresso Nacional discute em paralelo o Marco Legal da Inteligência Artificial (PL 2338/2023), aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e ainda em tramitação na Câmara dos Deputados, que deverá estabelecer regras de governança, classificação de risco e responsabilização para sistemas de IA no país4. O episódio americano é acompanhado de perto por juristas brasileiros como um alerta sobre a necessidade de blindar a formulação de políticas de IA contra interesses financeiros de quem as decide.

Um tema que já entra na disputa eleitoral

A discussão ganha contornos políticos às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Pesquisas de opinião indicam que a maioria dos americanos está preocupada com o ritmo de desenvolvimento da IA e se opõe à construção acelerada de data centers pelo país1. Diante das críticas, Trump respondeu em publicações recentes que o único mecanismo de controle necessário seria a existência de "um presidente forte e inteligente" à frente do país, além de sugerir a criação de uma força de fiscalização, ainda pouco detalhada, batizada informalmente de AI Force1.

Esta reportagem se baseia, em parte, em levantamento originalmente publicado pelo The Washington Post em 20 de setembro de 2026, com apuração independente adicional, contextualização institucional brasileira e verificação de fontes complementares pela redação de O Tecido. Trechos do texto original não são reproduzidos; toda informação factual atribuída ao Post está devidamente referenciada.

Perguntas frequentes

Por que os investimentos da família Trump em IA são vistos como conflito de interesses?

Porque decisões que cabem à própria administração Trump, sobre regulação, tarifas de chips e política energética, podem valorizar ou desvalorizar diretamente ativos que o presidente e seus filhos possuem em empresas ligadas à cadeia de inteligência artificial.

Trump colocou seus bens em um blind trust como presidentes anteriores?

Não. Diferentemente de predecessores recentes, Trump não transferiu seus ativos a um fundo cego e continua realizando movimentações financeiras enquanto ocupa a Presidência.

Quais empresas ligadas à IA aparecem nos investimentos da família Trump?

Entre os exemplos citados estão Dell Technologies, Micron Technology, GE Vernova, Broadcom, Texas Instruments, além de participações via fundos em Cerebras Systems, Perplexity, xAI e a fusão da Truth Social com a TAE Technologies.

O Brasil tem uma lei equivalente para evitar esse tipo de situação?

Sim. A Lei nº 12.813/2013 trata de conflito de interesses no Poder Executivo Federal e obriga autoridades de alto escalão a declarar bens e potenciais conflitos por meio do sistema e-Patri, fiscalizado pela Controladoria-Geral da União.