Caderno Economia · Geopolítica Agrícola 4 de agosto de 2026

Ilustração: representação esquemática de lavoura de trigo sobre solo salino-alcalino recuperado.

No litoral leste de Cangzhou, na província chinesa de Hebei, uma faixa de terra que durante décadas foi considerada imprópria para o cultivo produziu neste verão uma colheita de trigo recorde. Mais de 2 milhões de mu, o equivalente a cerca de 133 mil hectares de solo salino-alcalino, uma categoria de terreno historicamente associada a baixíssima produtividade, renderam uma safra que agricultores da região descrevem como a melhor em uma geração, segundo reportagem publicada pelo People's Daily.

Em vilarejos como Xianzhuang, no distrito de Jiucheng, e Houdiao, no condado de Haixing, produtores que colhiam pouco mais de 100 quilos de grão por mu relatam produtividade até três vezes maior neste ciclo. O ganho não é acidental: resulta de mais de uma década de melhoramento genético conduzido pela Academia de Ciências Agrícolas e Florestais de Cangzhou, que desenvolveu a variedade Cangmai 33 após 12 anos de seleção entre dezenas de milhares de materiais vegetais, chegando a rendimentos experimentais de quase 474 quilos por mu, conforme o mesmo levantamento do jornal chinês.

Na média regional, a safra de trigo cultivada em solo salino-alcalino de Cangzhou atingiu neste ano 305,4 quilos por mu, com produção total de 628,6 mil toneladas, superando pela primeira vez a marca de 300 quilos por mu. Parte do avanço também vem da organização produtiva: cooperativas padronizaram o cultivo e elevaram o rendimento médio em mais de 20% em relação ao ano anterior. A cadeia não parou na porteira da fazenda; empresas locais, como a processadora de alimentos Dijian, ampliaram o portfólio para mais de 70 produtos derivados do trigo cultivado nessas terras, de massas a itens de confeitaria com validade estendida graças a uma parceria com o Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas.

A China trata a recuperação de solos salino-alcalinos com a mesma lógica estratégica que aplica a semicondutores: segurança de longo prazo, não eficiência de curto prazo. Leitura editorial a partir de análises setoriais citadas neste texto

Uma política de Estado, não um caso isolado

O episódio de Hebei é a ponta visível de uma estratégia nacional. A China estima possuir cerca de 37 milhões de hectares de terras salino-alcalinas, das quais aproximadamente 20% teriam potencial de conversão em área agrícola, o equivalente a 6% de todas as terras aráveis do país, segundo dados do governo chinês compilados pelo portal The AgriBiz. Como a dessalinização química do solo é cara, Pequim optou por concentrar recursos no desenvolvimento de sementes tolerantes ao sal, exatamente a rota seguida em Cangzhou.

Essa aposta está formalizada no 15º Plano Quinquenal (2026-2030), publicado em março de 2026, que eleva a segurança alimentar ao mesmo patamar estratégico da segurança energética e financeira. As metas incluem elevar a produção nacional de grãos dos atuais 700 milhões para até 725 ou 750 milhões de toneladas anuais, atingir 85% de autossuficiência em sementes e recuperar terras salino-alcalinas como parte da chamada "linha vermelha" de 120 milhões de hectares de área cultivável que o país se compromete a preservar, conforme reportagens da CNN Brasil e do Gazeta do Povo.

O pano de fundo é um déficit comercial agrícola chinês estimado em US$ 124,5 bilhões, que o governo pretende reduzir por meio de uma doutrina interna chamada de "Alimentação Expandida", combinando biotecnologia, mecanização acima de 80% no plantio e na colheita, e recuperação de terras hoje consideradas marginais, segundo análise publicada pelo Brasilagro.

Contraponto: quão rápido isso avança de fato

Nem todos os analistas leem o movimento chinês com o mesmo grau de urgência. Casas como o Goldman Sachs projetam redução relevante nas importações agrícolas da China até 2030 caso as metas de produtividade se confirmem. Do lado brasileiro, porém, especialistas ouvidos pelo Correio do Estado são mais céticos, lembrando que a própria China reconhece ser impossível atingir autossuficiência absoluta, já que o país detém apenas 8% das terras aráveis do mundo para 15% da população global.

Nessa leitura, o objetivo chinês não é eliminar a dependência externa, mas torná-la mais "segura", diversificando fornecedores e reduzindo a exposição a um único parceiro comercial. Para o economista Marcos Jank, citado no mesmo levantamento, o potencial de expansão da oferta agrícola brasileira segue muito maior do que o chinês, que esbarra em restrições estruturais de terra e água.

O que isso significa para os produtos brasileiros

O trigo em si não é o ponto de maior exposição do Brasil nessa história. O país é, na verdade, um grande importador do cereal, não um concorrente da China nesse mercado: a produção nacional de trigo deve recuar cerca de 28% na safra 2026/27, levando as importações a um recorde histórico acima de 8 milhões de toneladas, principalmente da Argentina, segundo o Canal Rural e a CNN Brasil.

O verdadeiro ponto de atenção é a lógica por trás do episódio de Hebei, que se estende à soja, ao milho e ao sorgo, produtos em que o Brasil hoje é fornecedor central da China. Em 2025, o comércio agrícola entre os dois países somou cerca de US$ 100 bilhões, com a China absorvendo mais de 82 milhões de toneladas de soja brasileira por cerca de US$ 33,5 bilhões, quase 80% de tudo que o Brasil exportou do grão no ano, de acordo com dados da CNN Brasil e da Forbes. O Brasil também consolidou participação crescente no mercado chinês de milho e obteve, em novembro de 2025, autorização para exportar sorgo, item em que a China responde por mais de 80% das compras globais.

Essa concentração é, ao mesmo tempo, força e vulnerabilidade. Ela sustenta receita recorde para o agronegócio brasileiro hoje, mas também significa que qualquer avanço estrutural chinês na própria produção de grãos, ainda que gradual e distribuído ao longo de uma década, tende a reduzir a margem de crescimento das exportações brasileiras no médio prazo, especialmente se as metas de produtividade em terras antes marginais, como as salino-alcalinas de Hebei, se confirmarem em escala nacional.

Uma janela para o solo salino do Nordeste

O caso chinês também ilumina, por contraste, um ativo pouco explorado no Brasil. O país tem cerca de 16 milhões de hectares de solos afetados por sais, mais da metade concentrada no semiárido nordestino, onde entre 20% e 25% das áreas irrigadas já enfrentam problemas de salinidade ou drenagem, segundo levantamento da Embrapa citado pelo Movimento Econômico. Pesquisas recentes da Embrapa, incluindo uma parceria com a Brandeis University sobre microrganismos que aumentam a tolerância do milho ao sal, e um projeto de agricultura biossalina financiado com R$ 20 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia, seguem uma lógica semelhante à chinesa: em vez de dessalinizar o solo, adaptar a planta a ele.

A diferença de escala e de prioridade orçamentária entre os dois programas é grande, mas o princípio técnico que resultou na colheita recorde de Hebei já tem raízes, ainda modestas, em Pernambuco, na Bahia e no Rio Grande do Norte. Se a rota brasileira ganhar o mesmo fôlego institucional observado na China, o país pode transformar um passivo ambiental em nova fronteira produtiva, sem depender de irrigação intensiva ou de novas áreas de desmatamento.

Em números

Área recuperada em Cangzhou
133 mil ha solo salino-alcalino
Produtividade média 2026
305,4 kg/mu recorde histórico local
Terras salino-alcalinas na China
37 milhões ha ~20% com potencial agrícola
Meta de grãos até 2030
até 750 Mt 15º Plano Quinquenal
Comércio agrícola Brasil-China (2025)
US$ 100 bi recorde histórico
Solo salino no Brasil
16 milhões ha maioria no semiárido

Linha do tempo

~2014 Início do desenvolvimento da variedade Cangmai 33 pela Academia de Cangzhou.
2022 China abre mercado para milho brasileiro.
Nov. 2025 China autoriza exportação de sorgo brasileiro.
Mar. 2026 Publicação do 15º Plano Quinquenal chinês (2026-2030).
Ago. 2026 Colheita recorde de trigo em solo salino de Hebei.

Glossário

Solo salino-alcalino
Terreno com concentração de sais e alta alcalinidade que reduz ou impede o cultivo convencional.
Mu
Unidade de área chinesa; 1 mu equivale a cerca de 667 m² (15 mu = 1 hectare).
Linha vermelha (120 milhões de ha)
Limite mínimo de área cultivável que a China se compromete a preservar por política de Estado.
Agricultura biossalina
Cultivo de espécies adaptadas a solo ou água com alta salinidade, sem necessidade de dessalinização prévia.

Referências

  1. People's Daily Online. "Wheat cultivated on saline-alkali fields grows into thriving industry in N China's Hebei", 4 ago. 2026. en.people.cn
  2. The AgriBiz. "As novas metas de segurança alimentar da China: o Brasil corre risco?" theagribiz.com
  3. Correio do Estado. "China planeja autossuficiência alimentar e ameaça o agro brasileiro." correiodoestado.com.br
  4. CNN Brasil. "China quer produzir 725 milhões de toneladas de grãos até 2030." cnnbrasil.com.br
  5. Brasilagro. "China transforma segurança alimentar em questão de Estado." brasilagro.com.br
  6. Gazeta do Povo. "Como plano da China de reduzir importações afeta agro brasileiro." gazetadopovo.com.br
  7. CNN Brasil. "Comércio entre Brasil e China gera US$ 100 bilhões ao agronegócio." cnnbrasil.com.br
  8. Canal Rural. "Brasil em rota de colisão com a maior dependência de importações de trigo da história." canalrural.com.br
  9. Movimento Econômico. "Pesquisa abre caminho para produção agrícola em solo salobro do semiárido." movimentoeconomico.com.br

Reportagem baseada em informações originalmente publicadas pelo People's Daily Online em 4 de agosto de 2026, com apuração e contextualização adicionais sobre o impacto para o agronegócio brasileiro. Fonte original: en.people.cn/n3/2026/0804/c90000-20484953.html.

Ewerton Lopes — Curador Editorial