Opinião · Política e redes

Algumas piadas funcionam melhor como ferramenta de análise do que muitos tratados. Em setembro de 2025, o músico americano Patrick Cosmos escreveu no Bluesky que estava elaborando uma nova teoria sobre a realidade dos Estados Unidos, batizada de "agora todo mundo tem 12 anos". A premissa é curta: diante de certas bravatas políticas, basta imaginar que o autor é um pré-adolescente, e o comportamento passa a fazer sentido. A ideia foi resgatada nesta semana pelo jornalista Jaime Rubio Hancock em coluna publicada no El País1.

Rubio Hancock aplica a lente ao caso espanhol. O perfil oficial do Partido Popular publicou um vídeo de 2023 em que o hoje ministro dos Transportes, Óscar Puente, aparece se contorcendo de dor após uma lesão na perna, isso pouco depois de o porta-voz da legenda prometer banir o insulto da vida pública. O colunista não poupa o outro lado: Puente ficou conhecido no X justamente por responder com ofensas a políticos e jornalistas. A conclusão do texto espanhol é menos engraçada que a premissa. Se quem deseja atenção nas redes precisa agir como uma criança de 12 anos, todos acabam agindo assim.

O Brasil não precisa importar a teoria, porque já tem vocabulário próprio para ela. "Lacrar" e "mitar" nasceram como gíria de internet e chegaram aos palanques, aos gabinetes e aos perfis oficiais de partidos de todos os campos. A pergunta que interessa a este jornal não é qual lado lacra mais, e sim por que lacrar se tornou uma estratégia racional.

O que a piada acerta: incentivos, não temperamento

A teoria de Cosmos parece falar de maturidade, mas o que ela descreve com mais precisão é um sistema de recompensas. A evidência empírica sobre isso é robusta. Em estudo publicado na PNAS em 2021, os pesquisadores Steve Rathje, Jay Van Bavel e Sander van der Linden analisaram mais de 2,7 milhões de publicações de veículos de imprensa e parlamentares americanos no Facebook e no Twitter. Cada termo que fazia referência ao grupo político adversário aumentava em 67% a chance de a publicação ser compartilhada2. Falar mal do outro lado rendia mais do que linguagem negativa em geral (efeito cerca de 4,8 vezes maior) e mais do que linguagem moral e emocional (cerca de 6,7 vezes). O efeito, registraram os autores, era mais forte entre lideranças políticas do que entre veículos de imprensa.

EFEITO RELATIVO SOBRE COMPARTILHAMENTOS (GRUPO ADVERSÁRIO = 100) Termos sobre o grupo adversário 100 Linguagem negativa ≈21 Linguagem moral e emocional ≈15
Valores normalizados a partir das razões de efeito médio relatadas por Rathje, Van Bavel e van der Linden (PNAS, 2021): 4,8 vezes sobre a linguagem negativa e 6,7 vezes sobre a linguagem moral e emocional. Elaboração: O Tecido.

Há também um mecanismo de aprendizado. Pesquisa de William Brady e colegas publicada na Science Advances acompanhou milhões de tweets e mostrou que usuários recompensados com curtidas e compartilhamentos ao expressar indignação moral passavam a expressar mais indignação nas publicações seguintes3. Em outro trabalho, na Nature Human Behaviour, Claire Robertson e coautores testaram dezenas de milhares de variações de manchetes e encontraram aumento consistente de cliques a cada palavra negativa adicionada4. Ninguém precisa ter 12 anos para aprender rápido o que funciona. Basta ser recompensado.

A pesquisadora Renée DiResta, citada pelo El País, chama atenção para essa engrenagem no livro Invisible Rulers5: as plataformas moldam não apenas o formato, mas o conteúdo do que se publica, e as mensagens passam a ser escritas para a interseção entre pessoas e algoritmos. DiResta cunhou o termo "ampliganda" para descrever a propaganda que deixa de depender de um emissor central e passa a ser produzida e multiplicada por redes de usuários engajados.

Quando a mensagem é escrita para o algoritmo, o eleitor vira plateia secundária da própria eleição.

Brasil 2026: a campanha que trocou o debate pelo feed

O primeiro turno de 4 de outubro deu ao país o resultado mais apertado do período democrático. Segundo a apuração final registrada pelo Poder360, Flávio Bolsonaro (PL) terminou com 47,03% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 45,16%. A diferença de 1,95 ponto percentual é a menor entre os dois primeiros colocados desde 19897. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.

O mesmo levantamento descreve uma campanha em que os dois principais candidatos se ausentaram do debate da Band e em que o debate da TV Globo acabou cancelado. Em compensação, a inteligência artificial ganhou o palco. A convenção do PL exibiu um vídeo que simulava a voz de Jair Bolsonaro, o que levou o PT a acionar o TSE por suspeita de deepfake; o tribunal não aplicou multa, mas fixou parâmetros para casos semelhantes. A campanha de Flávio também divulgou um vídeo feito com IA mostrando o filho do presidente em um jatinho e petistas presos. Do lado governista, o próprio Lula resumiu a estratégia frente a Donald Trump, aliado declarado do adversário, dizendo que queria "ganhar dele na narrativa"7.

Esse ambiente encontra um público cada vez mais exposto às plataformas. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute da Universidade de Oxford, registrou que 53% dos brasileiros usam redes sociais semanalmente para se informar, que 33% consomem notícias por meio de influenciadores e que a confiança nas notícias em geral está em 36% no país, segundo resumo publicado pela Consumidor Moderno8. Quando o noticiário chega de forma incidental, entre um vídeo de humor e outro de culinária, a provocação tem vantagem estrutural sobre a proposta.

Para quem se fala quando se fala com a máquina

O consolo que Rubio Hancock oferece no fim da coluna é que esses tuits não se dirigem a nós, eleitores, mas sobretudo ao algoritmo. A observação é perspicaz, mas o consolo é frágil. O algoritmo não decide eleições; quem decide é a fração de eleitores que ainda não escolheu. No caso brasileiro, o próprio Poder360 aponta que, com rejeição alta para os dois finalistas, a disputa passou a depender de centro-direita moderada, mulheres e evangélicos indecisos.

Aqui a lógica do feed e a lógica eleitoral se separam. A provocação infantil mobiliza quem já está convencido e rende números vistosos, mas os próprios autores do estudo da PNAS advertem que conteúdo hostil ao adversário pode gerar engajamento superficial enquanto prejudica, no longo prazo, indivíduos, partidos e a sociedade. Em uma eleição decidida por menos de dois pontos, a pergunta prática para as campanhas é se cada lacração conquista mais votos do que afasta. Ninguém publica essa conta, porque o painel de métricas mede curtidas, não confiança.

O que muda quando o adulto é o leitor

Se a piada tem utilidade, ela está menos em zombar dos políticos e mais em revelar o papel de quem consome. Engajamento hostil também é engajamento: o compartilhamento indignado, feito para ridicularizar uma publicação, ensina ao sistema que aquele conteúdo merece alcance. A regra eleitoral oferece algum limite. A Resolução TSE nº 23.732/2024 proíbe deepfakes em propaganda e exige que conteúdos produzidos com inteligência artificial sejam identificados9. Mas a regra alcança a fraude, não a puerilidade, e nenhum tribunal pode proibir um partido de agir como um adolescente.

Restam, portanto, os incentivos. Partidos e campanhas respondem ao que é premiado, e o prêmio é distribuído por milhões de decisões pequenas tomadas por adultos diante de uma tela. A teoria de Cosmos diz que todo mundo tem 12 anos. A pesquisa sugere uma versão menos confortável: os políticos se comportam como acham que a plateia quer. Nas próximas duas semanas, a plateia somos nós.

Perguntas frequentes

O que é a teoria "todo mundo tem 12 anos"?

É uma formulação humorística do músico americano Patrick Cosmos, publicada no Bluesky em setembro de 2025. Ela propõe interpretar bravatas e provocações políticas como se tivessem sido feitas por pré-adolescentes. Foi retomada pelo jornalista Jaime Rubio Hancock em coluna do El País em 8 de outubro de 2026.

Existe evidência científica de que as redes premiam ataques ao adversário?

Sim. Estudo de Rathje, Van Bavel e van der Linden (PNAS, 2021), com mais de 2,7 milhões de publicações, mostrou que cada termo sobre o grupo político adversário aumentava em 67% a chance de compartilhamento, efeito maior do que o da linguagem negativa ou moral e emocional.

Trocar o feed algorítmico pelo cronológico reduz a polarização?

Não necessariamente. Experimentos publicados na Science em 2023, com usuários do Facebook e do Instagram na eleição americana de 2020, mostraram que o feed cronológico reduziu o tempo de uso, mas não alterou de forma significativa as medidas de polarização.

Como esse debate se aplica à eleição brasileira de 2026?

O primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro (47,03%) e Lula (45,16%) separados por 1,95 ponto, a menor diferença desde 1989. A campanha teve debates esvaziados ou cancelados e uso intenso de vídeos com IA, enquanto 53% dos brasileiros se informam semanalmente pelas redes, segundo o Reuters Institute.

O que a lei eleitoral brasileira diz sobre inteligência artificial nas campanhas?

A Resolução TSE nº 23.732/2024 proíbe o uso de deepfakes na propaganda eleitoral e exige a identificação de conteúdos fabricados ou manipulados com inteligência artificial.

Nota de atribuição: este artigo de opinião foi inspirado na coluna "Todo el mundo tiene 12 años", de Jaime Rubio Hancock, publicada pelo jornal espanhol El País em 8 de outubro de 2026. O texto original não foi reproduzido nem traduzido; as referências a ele são resumos com crédito. A análise sobre o Brasil, os dados e as conclusões são de responsabilidade de O Tecido.

Ewerton Lopes — Curador Editorial