Economia · Mercado de capitais
Este texto parte da reportagem Rockets, robots and risk: Elon Musk's $3.6tn gamble to merge Tesla and SpaceX, de Ryan McMorrow, Sujeet Indap e Stephen Morris, publicada pelo Financial Times em 21 de outubro de 2026. O Tecido não reproduz nem traduz o conteúdo original; os dados atribuídos ao FT estão creditados ao longo do texto, complementados por apuração própria em outras fontes.

Elon Musk quer transformar suas duas maiores empresas em uma só. Na terça-feira (20), durante a teleconferência de resultados do terceiro trimestre da SpaceX, o empresário confirmou que os conselhos da fabricante de foguetes e da Tesla criaram, cada um, um comitê especial formado por conselheiros independentes para avaliar uma fusão. Se o negócio avançar, nasceria um conglomerado de cerca de US$ 3,6 trilhões, reunindo foguetes, satélites, internet, inteligência artificial, rede social, robôs e carros sob uma única estrutura de capital. Pelos preços de mercado atuais, seria uma das cinco empresas mais valiosas do planeta, ao lado de Nvidia, Apple, Alphabet e Microsoft, segundo cálculo do Financial Times1.

O próprio Musk tratou de baixar a temperatura. Segundo a NBC News, ele afirmou que os comitês não chegaram a um acordo sobre termos, que não há garantia de que cheguem e que qualquer operação dependeria do aval dos acionistas das duas companhias2. Por ser parte conflitada, já que é presidente executivo e maior acionista individual de ambas, Musk disse não participar das conversas. De acordo com o TechCrunch, os comitês foram criados a pedido de acionistas3. O mercado, ainda assim, reagiu: na manhã de quarta-feira (21), as ações da SpaceX subiam 9% e as da Tesla, 2,5%, conforme o FT1.

Como seria a empresa combinada

A escala impressiona tanto pela receita quanto pelo consumo de capital. Com base em projeções de analistas compiladas pela Visible Alpha, o FT estima que o grupo teria mais de 155 mil funcionários e uma receita combinada de US$ 153 bilhões neste ano, mas também um fluxo de caixa livre negativo de pelo menos US$ 54 bilhões, pressionado pelos planos de Musk em infraestrutura de IA, fábricas de chips e foguetes1.

Os dois lados chegam à mesa em momentos distintos. A SpaceX acaba de reportar receita de US$ 14,6 bilhões no terceiro trimestre, bem acima dos US$ 12,87 bilhões esperados por Wall Street, segundo o Investing.com4. A Tesla entregou 486.532 veículos no mesmo período, número acima do consenso, mas cerca de 2% abaixo do recorde do terceiro trimestre de 2025, de acordo com o Not a Tesla App5. A montadora sustenta boa parte de seu valor de mercado em promessas ainda não materializadas, como a direção autônoma e o robô humanoide Optimus, linha que Musk já disse poder levar a Tesla a valer US$ 25 trilhões1.

Na prática, a integração já começou. Em março, as duas empresas anunciaram a Terafab, complexo de semicondutores no Texas. Em agosto, segundo a Reuters, SpaceX e Tesla detalharam um investimento inicial de US$ 16,8 bilhões no condado de Grimes, com documentos da SpaceX indicando que o total pode chegar a US$ 119 bilhões caso todas as fases sejam concluídas6. O FT lembra ainda que o chatbot Grok é oferecido gratuitamente em muitos carros da Tesla e que o novo Roadster usa propulsores de gás frio desenvolvidos pela SpaceX1.

Valor de mercado e controle de votos de Musk em Tesla e SpaceX Tesla valia US$ 1,48 trilhão e SpaceX US$ 2,01 trilhões no fechamento de 20 de outubro de 2026. Musk controla cerca de 84% dos votos na SpaceX e cerca de 20% na Tesla. VALOR DE MERCADO EM 20/10/2026 (US$ TRILHÕES) Tesla 1,48 SpaceX 2,01 ≈ 3,5 Proporção simples: cerca de 42% Tesla e 58% SpaceX, antes de qualquer prêmio. FATIA DOS VOTOS CONTROLADA POR MUSK SpaceX ~84% Tesla ~20% Na SpaceX, ações com supervoto; na Tesla, uma ação equivale a um voto.
Fontes: valores de mercado no fechamento de 20/10/2026 segundo a 24/7 Wall St.; controle de votos segundo o Financial Times. Proporção calculada pelo O Tecido.

O nó da governança: quem negocia com quem

A questão central não é industrial, é de poder. Pelos dados do FT, Musk controla cerca de 84% dos votos da SpaceX graças a ações com supervoto, contra algo perto de 20% na Tesla, onde cada ação dá direito a um voto1. Uma fusão por troca de ações tenderia a estender à Tesla o padrão de controle que ele já tem na SpaceX. O TechCrunch observa que a abertura de capital consolidou a influência de Musk sobre a empresa espacial, com mais de 50% do poder de voto, o que facilitaria obter apoio do lado da SpaceX3.

A conta de quem fica com o quê também pesa. No fechamento de 20 de outubro, a Tesla valia US$ 1,48 trilhão e a SpaceX, US$ 2,01 trilhões, segundo a 24/7 Wall St., o que deixaria os acionistas da Tesla com menos da metade da empresa resultante7. O analista Dan Levy, do Barclays, já havia levantado a hipótese de a SpaceX ser a compradora em uma operação integralmente em ações, de acordo com o Investing.com4.

É por isso que os comitês independentes importam. Eles existem para dar ao conflito de interesses um rito formal: assessores próprios, avaliação independente do preço e poder de dizer não. A composição, porém, ainda não foi divulgada. O TechCrunch lembra que nomes como Kimbal Musk, irmão do empresário, Antonio Gracias, fundador da Valor Equity Partners, e Gwynne Shotwell, presidente da SpaceX, não são considerados independentes3.

Musk está dos dois lados da mesa. O valor real dos comitês independentes será medido pela capacidade de discordar dele.

Precedentes: SolarCity e xAI

O mercado já viu esse filme. Em 2016, a Tesla comprou por US$ 2,6 bilhões a SolarCity, fabricante de painéis solares fundada por primos de Musk, que era o maior acionista das duas. Acionistas processaram o empresário em Delaware. Em 2022, o tribunal decidiu a favor de Musk, mas, como registrou o escritório Goodwin Procter, criticou seu envolvimento excessivo e negou a ele até o reembolso de custas, por entender que o litígio poderia ter sido evitado com regras básicas de governança em transações conflitadas8.

O segundo precedente é mais recente. Em 2 de fevereiro de 2026, a SpaceX incorporou a xAI, dona do Grok e da rede social X, em uma operação em ações que avaliou o conjunto em US$ 1,25 trilhão, com US$ 250 bilhões atribuídos à empresa de IA, segundo análise da Sacra9. Quatro meses depois, em 12 de junho, a SpaceX estreou na Nasdaq a US$ 135 por ação, levantando cerca de US$ 75 bilhões no maior IPO da história, de acordo com o IPOScoop10. A sequência sugere um método: usar a empresa mais sólida do grupo como veículo para absorver e financiar as apostas mais intensivas em capital.

Há uma diferença relevante em relação a 2016. A Tesla transferiu sua sede jurídica de Delaware para o Texas em 2024, e a legislação societária texana foi revista em 2025 para dar mais proteção a decisões de conselho em transações com acionistas controladores, desde que aprovadas por comitês independentes. O ambiente judicial em que esta fusão seria contestada é, portanto, mais favorável a Musk do que aquele que julgou a SolarCity.

Os obstáculos regulatórios, de Washington a Pequim

Por qualquer métrica, seria a maior fusão já feita, e o FT aponta que autoridades dos Estados Unidos e da China devem examiná-la de perto1. Do lado americano, a SpaceX é hoje peça da infraestrutura de defesa: fechou 18 novos contratos de lançamento de segurança nacional apenas no último trimestre e constrói os satélites militares Starshield para o governo, segundo o jornal britânico1.

Do lado chinês, o problema é o espelho disso. A Tesla depende da fábrica de Xangai e do mercado chinês, enquanto pesquisadores militares da China passaram a tratar a Starlink como ameaça desde que a SpaceX forneceu terminais à Ucrânia após a invasão russa de 2022. Analistas do JPMorgan, citados pelo FT, avaliam que a aprovação em Pequim pode ser um obstáculo particular por causa dessas sensibilidades de segurança nacional1. Em termos práticos, a fusão colocaria sob a mesma pessoa jurídica um fornecedor do Pentágono e uma montadora com forte exposição industrial à China.

O que muda para o Brasil

O tema não é distante. A Starlink, braço de internet da SpaceX, somava 936,8 mil acessos de banda larga fixa no Brasil em agosto de 2026 e ultrapassou a TIM, tornando-se a nona maior provedora do país, segundo dados da Anatel reportados pelo Canaltech11. A autorização original concedida pela agência em 2022 tem vencimento previsto para março de 2027, conforme registrou o Canaltech na época12, o que coloca a renovação no horizonte próximo.

Há também um aspecto institucional. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal bloqueou contas da Starlink no país para garantir o pagamento de multas aplicadas ao X, sob o argumento de que as empresas de Musk formavam um mesmo grupo econômico de fato. Desde fevereiro, X e Starlink pertencem formalmente à mesma companhia. Uma fusão com a Tesla ampliaria esse perímetro e tornaria ainda mais difícil separar, aos olhos de reguladores e tribunais brasileiros, os riscos de cada negócio.

Para o investidor pessoa física, o efeito é direto. Desde 12 de junho, o BDR da SpaceX é negociado na B3 sob o código SPCX34, com paridade de 15 recibos para cada ação americana, e a bolsa informou que mais de 1 milhão de investidores tinham BDRs em carteira até abril, segundo a B313. Quem detém TSLA34 ou SPCX34 terá sua posição definida pela relação de troca que os comitês vierem a negociar, com ajustes a cargo das instituições depositárias. Uma eventual análise pelo Cade também não está descartada, a depender do faturamento das empresas no Brasil e de como o órgão enquadrar o grupo econômico de Musk.

O que observar daqui em diante

Os próximos sinais virão da forma, não do discurso. Os pontos decisivos são a divulgação dos membros dos comitês e de seus assessores financeiros, a relação de troca proposta e o eventual prêmio pago aos acionistas da Tesla, as regras de votação na assembleia da montadora, a notificação às autoridades antitruste dos EUA e da China e, no Brasil, a renovação da autorização da Starlink na Anatel. Até lá, a fusão segue como hipótese, ainda que uma hipótese com potencial de redesenhar o mapa das maiores empresas do mundo.

Perguntas frequentes

A Tesla e a SpaceX vão se fundir?

Ainda não há acordo. Em 20 de outubro de 2026, Elon Musk confirmou que as duas empresas criaram comitês especiais de conselheiros independentes para estudar a fusão. Ele afirmou que os termos não foram definidos e que não há garantia de que a operação aconteça.

Quanto valeria a empresa resultante da fusão entre Tesla e SpaceX?

Cerca de US$ 3,6 trilhões a preços de mercado de 21 de outubro de 2026, segundo o Financial Times, o que a colocaria entre as cinco empresas mais valiosas do mundo. O grupo teria receita projetada de US$ 153 bilhões em 2026 e fluxo de caixa livre negativo de ao menos US$ 54 bilhões.

Por que Elon Musk não participa das negociações?

Porque é parte conflitada: é presidente executivo e maior acionista individual das duas companhias. Por isso, a negociação cabe a comitês formados apenas por conselheiros independentes de cada empresa.

Quais são os principais obstáculos da fusão?

A preocupação de acionistas com a ampliação do controle de Musk, que tem cerca de 84% dos votos na SpaceX e 20% na Tesla; a aprovação por autoridades dos EUA e da China, por envolver contratos de defesa americanos e a fábrica da Tesla em Xangai; e o elevado consumo de caixa do grupo combinado.

Como a fusão afeta investidores brasileiros?

Quem tem BDRs da Tesla (TSLA34) ou da SpaceX (SPCX34) na B3 terá a posição definida pela relação de troca acordada entre as empresas. No mercado de telecomunicações, a Starlink, que pertence à SpaceX, já é a nona maior provedora de banda larga fixa do Brasil.

O que a fusão muda para clientes da Starlink no Brasil?

No curto prazo, nada no serviço. A mudança é societária: a Starlink passaria a integrar o mesmo grupo que a Tesla, o que pode influenciar a análise de órgãos como Anatel e Cade e a renovação da autorização da empresa, prevista para março de 2027.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido