Caderno Economia · Mercado de capitais

Este texto parte de reportagem de Becky Peterson publicada pelo The Wall Street Journal em 20 de outubro de 2026. Os dados atribuídos ao jornal são creditados ao longo do texto. A análise, o contexto brasileiro e as demais fontes são de responsabilidade de O Tecido.

Elon Musk escolheu o fim de uma teleconferência de resultados para dizer o que o mercado especulava havia meses. Tesla e SpaceX, as duas maiores empresas que ele comanda, montaram comitês especiais para discutir uma fusão. Segundo o The Wall Street Journal, Musk afirmou que os comitês não chegaram a termos, que não há garantia de acordo e que ele próprio vê "muito mérito" na combinação.[1] A ação da SpaceX subiu mais de 7% no after-hours; a da Tesla, cerca de 1%.

O anúncio veio embalado por números fortes da SpaceX. A receita do terceiro trimestre chegou a US$ 14,6 bilhões, mais de 160% acima do mesmo período de 2025, com lucro de US$ 4,4 bilhões, de acordo com o WSJ.[1] A Tesla, por outro lado, divulga seus resultados apenas nesta quarta-feira, depois de dois anos em que vender carros ficou mais difícil. É essa assimetria que torna o anúncio relevante: quando uma empresa está no auge e a outra tenta reencontrar o rumo, a fusão deixa de ser só estratégia e passa a ser também uma forma de redistribuir expectativas.

O que se sabe sobre a fusão Tesla e SpaceX

Pelos dados do WSJ, a Tesla vale cerca de US$ 1,5 trilhão em bolsa e a SpaceX, perto de US$ 2 trilhões.[1] Musk diz não integrar nenhum dos dois comitês e afirma que os acionistas votarão a proposta. Uma combinação desse porte passaria, inevitavelmente, pelo crivo de autoridades concorrenciais.

Analistas já desenham cenários. Em nota de 14 de outubro, o analista Dan Levy, do Barclays, considerou possível uma aquisição da Tesla pela SpaceX paga em ações e estimou que Musk ficaria com cerca de 37% da participação econômica e 56% do poder de voto da empresa resultante, segundo relato da nota publicado a partir da Bloomberg.[2] O dado importa mais do que parece: na SpaceX, Musk já detém o controle de voto por meio de ações de classe especial. Na Tesla, depende do apoio de acionistas externos. A fusão, na prática, levaria o carro elétrico para dentro da estrutura em que o fundador manda com mais folga.

Um roteiro conhecido: promessas grandes, prazos elásticos

Para entender por que parte do mercado recebe a ideia com desconfiança, é preciso olhar o histórico de compromissos públicos de Musk. A Reuters compilou os principais: em 2015, ele disse que carros autônomos estariam disponíveis em três anos; desde 2020, repetiu a promessa quase todo ano; em 2023, chegou a se descrever como o menino que gritava "FSD", a sigla do software de direção autônoma.[3] Em 2019, declarou-se muito confiante de que haveria robotáxis operando em 2020. O novo Roadster, anunciado no fim de 2017 para 2020, foi empurrado para 2023 e depois para 2025.

O padrão se repete no produto mais recente. Em janeiro de 2025, Musk previu a fabricação de cerca de 10 mil robôs humanoides Optimus naquele ano. A meta não foi alcançada, e em janeiro de 2026 ele admitiu que nenhum Optimus fazia trabalho útil nas fábricas, conforme registrou o Electrek; na teleconferência seguinte, a empresa se recusou a dar qualquer meta de volume para 2026.[4]

Nada disso significa que as promessas nunca se concretizam. Significa que o prazo anunciado funciona menos como cronograma e mais como instrumento de captação de atenção e capital. Na mesma teleconferência desta semana, segundo o WSJ, Musk projetou que a SpaceX poderá operar cerca de 13 gigawatts de capacidade computacional até o fim do próximo ano, podendo chegar a 23 gigawatts "se tudo der certo", partindo de 1,7 gigawatt no terceiro trimestre, e falou em data centers no espaço já em 2027.[1] O investidor atento deve ler esses números à luz da série histórica.

Quando uma empresa está no auge e a outra tenta reencontrar o rumo, a fusão deixa de ser apenas estratégia e passa a redistribuir expectativas.

A fusão como ferramenta: SolarCity, X, xAI e agora a Tesla

Musk já usou esse caminho outras vezes, e o padrão tem um traço comum: a empresa com mais fôlego absorve a que precisa de capital ou de narrativa. O caso fundador é a SolarCity. Em 2016, a Tesla pagou US$ 2,6 bilhões pela instaladora de painéis solares, comandada por um primo de Musk e da qual ele era o maior acionista, com 22,2%, e presidente do conselho. Acionistas processaram a empresa alegando que a operação era um resgate de uma companhia em dificuldades; quando o negócio foi anunciado, a ação da Tesla caiu mais de 10%, segundo a CNBC.[5] Os demais conselheiros fizeram acordo de US$ 60 milhões em 2020. Musk foi a julgamento e venceu na Corte de Chancelaria de Delaware em 2022.

O roteiro ganhou velocidade recentemente. Em 2025, a rede social X foi incorporada à xAI por troca de ações. Em 2 de fevereiro de 2026, a SpaceX absorveu a xAI em operação que avaliou a empresa espacial em US$ 1 trilhão e a de inteligência artificial em US$ 250 bilhões, segundo a Reuters.[6] Na época, a Bloomberg estimava que a xAI queimava cerca de US$ 1 bilhão por mês, como resumiu o Storyboard18.[7] A Tesla, dias antes, havia investido US$ 2 bilhões na mesma xAI. Quatro meses depois, a SpaceX abriu capital com a xAI dentro dela.

Agora o alvo seria a própria Tesla, e o momento das duas empresas não poderia ser mais desigual. Em 2025, a Tesla entregou 1,636 milhão de veículos, queda de cerca de 8,6%, e pela primeira vez foi superada pela chinesa BYD em vendas anuais de carros 100% elétricos, segundo dados divulgados pelas montadoras.[8] No terceiro trimestre de 2026, entregou 486.532 veículos, recuo de cerca de 2% sobre o mesmo período do ano anterior, ainda que acima das estimativas, de acordo com a Agenzia Nova.[9] Enquanto isso, a unidade de IA da SpaceX, rebatizada por Musk como "SpaceX Super Intelligence", viu a receita saltar quase 830%, para US$ 7,6 bilhões, segundo o WSJ.[1]

SpaceX: receita por segmento, 3º tri 2026 (US$ bi) IA · 7,6 Conectividade · 5,2 Espaço · 1,8 Tesla: entregas anuais (milhões de veículos) 2023 · 1,81 2024 · 1,79 2025 · 1,64
Fontes: The Wall Street Journal (segmentos da SpaceX); comunicados da Tesla compilados por agências (entregas). Escalas independentes entre os dois blocos.

Carro, robô, chatbot, foguete: a troca constante de narrativa

A outra marca do método Musk é a mudança frequente do produto que justifica o valor das ações. A Tesla foi vendida como montadora de carros elétricos, depois como empresa de energia (era o argumento da SolarCity), depois como plataforma de direção autônoma e robotáxis. Em janeiro de 2026, na teleconferência do quarto trimestre, a companhia passou a se apresentar como uma empresa de "IA física", anunciou o fim da produção do Model S e do Model X e a conversão da linha de Fremont para fabricar robôs Optimus, com capacidade anunciada de 1 milhão de unidades por ano, segundo o SiliconANGLE.[10]

A SpaceX percorre trajetória parecida. Nasceu como empresa de foguetes, ganhou escala com a internet por satélite Starlink e hoje tem na inteligência artificial seu principal motor de receita, incluindo aluguel de capacidade de data centers e assinaturas do chatbot Grok e do assistente GrokBot, este oriundo da compra da Cursor por US$ 60 bilhões, conforme o WSJ.[1] A cada virada, o horizonte de retorno se desloca para frente e a régua de avaliação muda: deixa de ser quantos carros a empresa vende hoje e passa a ser quanto pode valer um mercado que ainda não existe.

Para o acionista, o efeito é concreto. Uma fusão nesse contexto mistura no mesmo papel um negócio maduro sob pressão de margem, como o automotivo, e apostas de longo prazo com fluxo de caixa ainda incerto. Fica mais difícil medir separadamente o desempenho de cada parte, e mais fácil sustentar o valor do conjunto pela narrativa.

O investidor de varejo, e jovem, como combustível

Esse modelo depende de uma base de investidores pessoas físicas excepcionalmente fiel. Entre as grandes empresas de tecnologia americanas, a Tesla é a que tem a maior fatia de capital nas mãos de indivíduos, e não de instituições, segundo levantamento citado pelo TipRanks.[11] Os jovens ocupam lugar central nessa base: em 2020, a Tesla ultrapassou a Apple como principal ativo na plataforma SoFi Invest, usada sobretudo por millennials de 25 a 40 anos, de acordo com a CNBC.[12]

O IPO da SpaceX, em junho, levou a estratégia ao limite. A empresa reservou entre 20% e 30% das ações da oferta para o varejo, bem acima dos 5% a 10% habituais em operações desse tamanho, e um estrategista da Renaissance Capital classificou o preço como muito caro, segundo a Fast Company.[13] Observadores lembraram, na ocasião, que as dez maiores estreias da história dos Estados Unidos tiveram desempenho conjunto inferior ao do S&P 500 desde a listagem. A combinação de prazos ambiciosos, transmissões ao vivo com vídeos simulados de lançamentos e acesso facilitado ao pequeno investidor cria um ciclo em que o engajamento alimenta a cotação, e a cotação valida o engajamento.

O que muda para o investidor brasileiro

O tema não é distante do Brasil. Desde que os BDRs foram liberados para todas as pessoas físicas, em 2020, a Tesla está entre os recibos mais negociados da B3. No primeiro semestre de 2025, o TSLA34 liderou o ranking com volume médio diário de R$ 138,3 milhões, segundo dados da própria B3.[14] O número de investidores em BDRs chegou a 996 mil em outubro de 2025, oito vezes mais que na abertura do produto, conforme relatório da bolsa noticiado pela Reuters.[15]

A SpaceX chegou à B3 no mesmo dia do IPO americano, com o código SPCX34 e paridade de 15 BDRs para cada ação, informou a B3.[16] Em junho, mesmo negociado por apenas parte do mês, o recibo ficou em quarto lugar entre os mais negociados, à frente do próprio TSLA34. Se a fusão avançar, o brasileiro que hoje escolhe entre uma montadora e uma empresa aeroespacial passará a ter um ativo único, com perfil de risco diferente do que comprou, e dependerá das regras de conversão definidas pela operação e pelas instituições depositárias. Some-se a isso a variação cambial, que já embute uma camada extra de volatilidade.

Há ainda a dimensão da economia real. A Starlink somava 936,8 mil acessos de banda larga fixa no Brasil em agosto de 2026, ultrapassando a TIM e alcançando a nona posição no ranking nacional, segundo dados da Anatel publicados pelo Canaltech.[17] A autorização da empresa para explorar satélites no país vence em março de 2027, e a Anatel já emitiu um alerta regulatório para revisar as regras da baixa órbita, com menção explícita a soberania e proteção de dados. Um conglomerado que reúna conectividade, inteligência artificial, carros e robôs sob um único controlador amplia a relevância dessa renovação para o regulador brasileiro.

Contraponto

Os argumentos a favor da combinação

Defensores da fusão lembram que Musk entregou feitos que o mercado considerava improváveis: foguetes reutilizáveis, uma constelação com mais de 10 mil satélites e a popularização do carro elétrico. A SpaceX dá lucro e cresce com força, e a Tesla superou as estimativas de entregas no último trimestre, com recuperação na Europa.

No caso SolarCity, a Justiça de Delaware não reconheceu irregularidade, e a compra fora aprovada por 85% dos acionistas da Tesla. Há também lógica industrial: chips, energia, baterias e software de IA são compartilhados entre as empresas, e a integração poderia reduzir custos e conflitos de interesse hoje resolvidos por contratos entre partes relacionadas. Por fim, o processo prevê comitês independentes, sem participação de Musk, e votação dos acionistas.

O que observar nas próximas semanas

O primeiro termômetro é o balanço da Tesla, divulgado nesta quarta-feira após o fechamento do mercado americano: margens, demanda na China e o ritmo real do Optimus dirão quanto a montadora precisa da companhia da SpaceX. Depois, os termos da eventual troca de ações, o relatório dos comitês e as avaliações independentes de preço, que determinarão se os acionistas minoritários da Tesla são remunerados de forma justa. Por fim, a posição dos reguladores americanos e o próximo voo de teste da Starship, previsto por Musk para novembro, que voltará a testar a distância entre o anúncio e a entrega.

A pergunta que o investidor, brasileiro ou não, precisa fazer não é se Musk tem visão. É se a estrutura proposta permite cobrar resultados de cada negócio, ou se mistura tudo em uma promessa só, mais difícil de auditar.

Perguntas frequentes

O que foi anunciado sobre a fusão entre Tesla e SpaceX?

Em 20 de outubro de 2026, Musk afirmou que as duas empresas criaram comitês especiais para avaliar uma possível fusão. Não há termos acertados, e a operação dependeria de votação dos acionistas e de aval regulatório.

Musk já fez fusões entre as próprias empresas antes?

Sim. A Tesla comprou a SolarCity em 2016; a X foi incorporada à xAI em 2025; e a xAI foi absorvida pela SpaceX em fevereiro de 2026.

Quais promessas de Musk não foram cumpridas no prazo?

Direção totalmente autônoma (prometida em 2015 para três anos depois), robotáxis em 2020, o novo Roadster em 2020 e cerca de 10 mil robôs Optimus em 2025, entre outras.

Por que a Tesla é vista como a parte mais frágil?

Teve duas quedas anuais seguidas nas entregas, perdeu para a BYD a liderança global em carros 100% elétricos em 2025 e encerrou a produção do Model S e do Model X, enquanto a SpaceX cresce mais de 160% ao ano.

Como a fusão afeta o investidor brasileiro?

Quem tem TSLA34 ou SPCX34 na B3 passaria a deter um ativo combinado, com risco diferente, sujeito às regras de conversão da operação e à variação cambial.

A fusão já está aprovada?

Não. Os comitês não chegaram a acordo, e a decisão final caberá aos acionistas, além da análise de órgãos reguladores.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido