Política · Geopolítica · Análise

Em resumo
  • Em 2025, o mundo registrou 65 conflitos armados envolvendo Estados, o maior número desde o fim da Segunda Guerra, segundo o Uppsala Conflict Data Program.[2]
  • Os gastos militares globais atingiram US$ 2,887 trilhões, recorde histórico apurado pelo SIPRI.[3]
  • Ensaio do Financial Times sustenta que nenhum dos dois critérios de uma guerra mundial foi cruzado, mas que o risco de escalada acidental cresce.[1]
  • Para o Brasil, a guerra chega pelo preço do petróleo, do diesel e dos fertilizantes, além de testar a diplomacia de não alinhamento do Itamaraty.

Em uma única semana de outubro, o aeroporto internacional de Riad foi atingido repetidas vezes por mísseis e projéteis, a China anunciou exercícios com fogo real em cinco áreas marítimas e a Rússia voltou a bombardear cidades ucranianas. No dia 10, o ataque mais letal contra o terminal King Khalid deixou ao menos 12 mortos e cerca de 300 feridos, segundo as autoridades sauditas, no episódio mais grave em um país do Golfo desde o início da guerra no Irã, conforme relato da NPR com a Associated Press.[4] Entre 12 e 17 de outubro, o Exército de Libertação Popular programou disparos no Mar Amarelo, no Mar da China Oriental e no Mar do Sul da China, segundo avisos de navegação reportados pelo Kyunghyang Shinmun.[7]

É esse acúmulo que o colunista Gideon Rachman, principal comentarista de política internacional do Financial Times, toma como ponto de partida em ensaio publicado nesta semana, cujo título pergunta se o mundo estaria caminhando como sonâmbulo para uma terceira guerra mundial.[1] O argumento central do texto é que regiões que por décadas trataram a paz como dado, como a Europa Ocidental, o Leste Asiático e as monarquias do Golfo, passaram a conviver com a guerra como possibilidade concreta ou como realidade.

O que define uma guerra mundial

A expressão "terceira guerra mundial" circula com frequência crescente entre chefes de Estado, mas raramente vem acompanhada de definição. Rachman propõe dois critérios objetivos: as nações mais poderosas do planeta precisariam estar em confronto direto, como ocorreu em 1914 e 1939, e os combates precisariam se estender por mais de um continente.[1] Pelos dois parâmetros, a resposta hoje é negativa. Nenhuma potência nuclear está em guerra declarada contra outra.

O problema, segundo o próprio ensaio, é que o intervalo entre paz e guerra ficou mais largo e mais difuso. Sabotagens, incêndios criminosos, ataques cibernéticos e drones sobre infraestrutura crítica compõem o que analistas chamam de guerra híbrida, e cada episódio desse tipo carrega o risco de uma resposta mal calibrada. O chanceler alemão Friedrich Merz resumiu esse estado intermediário em setembro de 2025, em Düsseldorf, ao afirmar que a Alemanha não está em guerra, mas também já não vive em paz, segundo a Reuters.[5]

Os números de uma era de guerras

A percepção de insegurança tem lastro estatístico. O relatório Conflict Trends, publicado em junho pelo Peace Research Institute Oslo (PRIO) com base nos dados do Uppsala Conflict Data Program (UCDP), contou 65 conflitos com participação de ao menos um Estado em 2025, seis a mais que o recorde anterior da série iniciada em 1946.[2] Os conflitos diretamente entre Estados dobraram em um ano e chegaram a oito, também o maior número já registrado, e as mortes em combate somaram cerca de 244.600, o patamar mais alto desde o genocídio de Ruanda, segundo reportagem da NPR sobre o estudo.

65conflitos envolvendo Estados em 2025, recorde desde 1946 (UCDP/PRIO)
8guerras diretamente entre Estados, o dobro de 2024
US$ 2,887 triem gastos militares globais em 2025, 11ª alta seguida (SIPRI)

O dinheiro acompanhou a violência. De acordo com o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), os gastos militares globais chegaram a US$ 2,887 trilhões em 2025, com alta real de 2,9% e participação de 2,5% no PIB mundial, a maior desde 2009.[3] A Europa elevou seus orçamentos de defesa em 14%, e a Alemanha, em 24%, chegando a US$ 114 bilhões. A exceção foram os Estados Unidos, que reduziram gastos em 2025 principalmente pela suspensão de novos pacotes à Ucrânia, queda que o diretor do programa de gastos militares do SIPRI, Nan Tian, considera provavelmente passageira, segundo a InfoMoney.

O ensaio do FT acrescenta o custo humano das duas guerras que dominam o noticiário. A guerra entre Rússia e Ucrânia já durou mais que o confronto soviético contra a Alemanha nazista, e o governo britânico estima em cerca de 1,5 milhão as baixas russas, entre mortos e feridos, desde 2022.[1] No Sudão, conflito alimentado por potências externas, mais de 14 milhões de pessoas foram deslocadas.

O "eixo" e a erosão da dissuasão

A preocupação de governos ocidentais concentra-se no que chamam de "eixo de adversários": Rússia, China, Irã e Coreia do Norte. O próprio Rachman reconhece que o termo desperta reservas entre analistas, mas observa que os laços são públicos.[1] Moscou e Pyongyang firmaram um tratado de defesa mútua em 2024, soldados norte-coreanos lutaram ao lado de tropas russas, e o apoio econômico e tecnológico de Pequim foi decisivo para a Rússia atravessar as sanções. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, foi direto em discurso em Berlim, em dezembro de 2025, ao dizer que os aliados são o próximo alvo da Rússia e que Moscou poderia estar pronta para usar força contra a aliança em cinco anos.[6]

Por trás da escalada, o ensaio identifica uma mudança estrutural no equilíbrio de poder. Os países do G7 respondiam por cerca de dois terços da produção econômica global em 1989 e por aproximadamente 43% em 2022, segundo os dados citados pelo FT.[1] Essa redistribuição teria encorajado potências revisionistas a assumir mais riscos, num percurso que vai da Geórgia em 2008 à Crimeia em 2014 e às bases chinesas em ilhas artificiais no Mar do Sul da China.

O ponto mais sensível da análise, porém, está em Washington. Desde a fundação da Otan, a paz entre grandes potências repousou sobre a dissuasão: qualquer agressor saberia que enfrentaria uma resposta unida e contundente. Rachman argumenta que a disposição do governo Trump de rever compromissos com aliados, somada à retórica de esferas de influência, enfraquece justamente esse pilar.[1] Se ninguém sabe ao certo se os Estados Unidos defenderiam os Bálticos, a Polônia ou o Japão, o cálculo de quem pensa em agredir também muda.

A dissuasão funciona enquanto o adversário acredita nela. Quando a dúvida passa a ser sobre o aliado, e não sobre o inimigo, o sistema perde sua âncora.Leitura editorial de O Tecido sobre o argumento do Financial Times

O Brasil na linha de transmissão

Distante dos fronts, o Brasil sente as guerras por dois canais: a economia e a diplomacia. O primeiro ficou evidente em 2026. Com os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, iniciados em 28 de fevereiro, e o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, o barril do Brent saltou de US$ 60,85 no fim de 2025 para US$ 119,24 em 31 de março, segundo levantamento da Fiemg divulgado pelo Poder360.[10] No cenário mais adverso estimado pela federação, a inflação brasileira poderia chegar a 7,66%.

120 60 0 US$ 60,85 Fim de 2025 US$ 119,24 31 mar 2026 US$ 96,18 9 abr 2026 Brent, US$ por barril
Preço do Brent antes e depois da escalada no Irã. Fonte: Gerência de Economia da Fiemg, via Poder360. O recuo de abril ocorreu após trégua provisória entre Irã e EUA.

O elo mais frágil é o agronegócio. O Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes que aplica, e o Irã figura entre os principais fornecedores de nitrogenados, como a ureia, segundo o Jornal da Band.[12] Relatório da consultoria Eurasia citado em artigo no Poder360 apontou alta de 35% no preço da ureia no país nas primeiras semanas de março e lembrou que, mesmo sendo exportador relevante de petróleo, o Brasil importa cerca de um quarto do diesel que consome.[11] A conta chega à safra 2026/27 e, depois, à mesa do consumidor.

O segundo canal é diplomático. O Itamaraty condenou os ataques ao Irã em nota de 28 de fevereiro e reiterou que a negociação é o único caminho viável para a paz. Dias depois, o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, avaliou ao Poder360 que o risco de uma guerra global havia subido um ponto.[8] Sobre a Ucrânia, Amorim declarou em maio, em Moscou, que o Brasil não precisa tomar partido entre Rússia e Ucrânia, segundo o Brasil de Fato.[9] A linha agrada a quem defende autonomia estratégica e acesso a mercados de todos os blocos, e desagrada a quem vê nela uma equivalência indevida entre agressor e agredido.

O país também acompanha a onda de rearmamento, em escala modesta. Segundo o SIPRI, os gastos militares brasileiros subiram 13% em 2025, para US$ 23,9 bilhões, o maior orçamento da América do Sul e o 21º do mundo, ainda na faixa entre 1% e 2% do PIB.[3]

Contraponto

Por que o cenário de guerra mundial pode estar superestimado

Há boas razões para ler os alertas com cautela. A primeira é que a dissuasão nuclear, que impediu um confronto direto entre Estados Unidos e União Soviética ao longo de toda a Guerra Fria, continua operando: nenhuma das guerras atuais colocou duas potências nucleares em combate aberto. A segunda é que o "eixo" é menos coeso do que sugere o rótulo. China e Rússia mantêm interesses próprios, Pequim depende do comércio com o Ocidente, e os encontros entre Trump e Xi Jinping mostram que os canais de negociação seguem abertos.

Há ainda um componente político na retórica. O Kremlin classificou como irresponsáveis as declarações de Rutte sobre preparação para guerra, em resposta noticiada pela Reuters, e críticos europeus de diferentes espectros argumentam que o discurso de ameaça iminente serve para justificar orçamentos de defesa que competem com gastos sociais.[6] Por fim, o recorde de conflitos medido pelo UCDP inclui muitas guerras civis com intervenção estrangeira, que são devastadoras para quem as vive, mas não equivalem a uma conflagração entre grandes potências.

O que observar nos próximos meses

  • Estreito de Taiwan: a frequência e o alcance dos exercícios chineses com fogo real, e a resposta de Washington e Tóquio.
  • Flanco leste da Otan: incidentes com drones, sabotagem e violações de espaço aéreo nos Bálticos e na Polônia, que podem acionar o artigo 5 da aliança.
  • Golfo e Ormuz: a continuidade dos ataques à Arábia Saudita e o efeito sobre o preço do petróleo e da ureia.
  • Compromissos americanos: sinais concretos de redução da presença militar dos EUA na Europa e na Ásia.
  • Brasil: custo dos fertilizantes para a safra 2026/27 e o espaço do Itamaraty como interlocutor de todos os lados.

A tese de Rachman não é que a guerra mundial seja inevitável, e sim que a complacência é o seu principal combustível. Em 2022, parte dos europeus se recusou a acreditar na invasão da Ucrânia até que ela começasse. A lição que o ensaio extrai daquele episódio vale também para países distantes dos fronts, como o Brasil: a geografia protege menos do que parece quando a economia global depende de estreitos, cadeias de insumos e alianças que estão sob tensão ao mesmo tempo.

Perguntas frequentes

O mundo já está em uma terceira guerra mundial?

Não, pelos critérios usuais. Uma guerra mundial exige confronto direto entre as maiores potências e combates em vários continentes. Nenhum dos dois limites foi cruzado até outubro de 2026, mas guerras regionais simultâneas, sabotagem e ataques híbridos elevam o risco de escalada acidental.

Quantos conflitos armados existem no mundo hoje?

O Uppsala Conflict Data Program registrou 65 conflitos envolvendo ao menos um Estado em 2025, o maior número desde 1946, com cerca de 244.600 mortes em combate. Oito desses conflitos eram diretamente entre Estados, também um recorde.

Quanto o mundo gasta com defesa?

Segundo o SIPRI, US$ 2,887 trilhões em 2025, alta real de 2,9% e o 11º aumento anual consecutivo. A Europa ampliou seus gastos em 14%. O Brasil gastou US$ 23,9 bilhões, alta de 13%, e ocupa a 21ª posição mundial.

Como as guerras atuais afetam o Brasil?

Principalmente pelos preços de energia e fertilizantes. O Brent dobrou entre o fim de 2025 e março de 2026 com a guerra no Irã. O Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes e cerca de 25% do diesel que consome, o que pressiona a inflação e os custos do agronegócio.

Qual é a posição do Brasil?

O Itamaraty defende negociação e multilateralismo. O governo condenou os ataques de EUA e Israel ao Irã em fevereiro de 2026 e, na guerra da Ucrânia, não envia armas e afirma não tomar partido.

Nota de atribuição: esta análise toma como ponto de partida o ensaio "Are we sleepwalking into World War III?", de Gideon Rachman, publicado pelo Financial Times em outubro de 2026. O texto original não foi reproduzido nem traduzido; trechos de seus argumentos e dados aparecem parafraseados e creditados. A leitura completa está disponível em ft.com. Os demais dados vêm de fontes independentes indicadas ao longo do texto.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido