Enquanto este texto é escrito, a Espanha soma 32 grandes incêndios florestais em 2026, mais de 200 mil hectares queimados e quatorze mortes em Los Gallardos, a pior tragédia do tipo no país desde 1984. O debate público espanhol, no entanto, gastou boa parte do verão discutindo não como reduzir o próximo incêndio, mas quem tem razão sobre a causa do atual: a esquerda aponta o dedo para o negacionismo climático da direita, e a direita responde acusando décadas de abandono do meio rural por governos de esquerda. Um artigo de opinião publicado pelo jornal El País descreve esse fenômeno como um mecanismo que põe as neurônios do debate público para trabalhar apenas naquilo que serve para derrotar o adversário, em vez de compreender o conjunto de fatores e as soluções possíveis.
É uma descrição que qualquer pessoa que acompanha o debate ambiental brasileiro reconhece de imediato. Curiosamente, é também nesta mesma data, 31 de julho, que o Brasil completa dois anos de uma lei que nasceu tentando romper exatamente essa lógica: a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), sancionada em 2024 sob pressão dos incêndios recordes no Pantanal daquele ano.
O que os números brasileiros mostram
O retrato mais recente do fogo no Brasil vem do Relatório Anual do Fogo, do MapBiomas, divulgado em julho de 2026: o país queimou 12,7 milhões de hectares em 2025, uma queda de 31% em relação à média histórica de 18,4 milhões de hectares por ano e praticamente metade do que havia sido registrado em 2024. A Amazônia foi a principal responsável por essa melhora, com a menor área queimada de toda a série histórica de 41 anos, 3,1 milhões de hectares, contra os 15,8 milhões atingidos no ano anterior. O Pantanal teve queda de 85,6% frente à sua média histórica.
Até aqui, uma boa notícia. Mas o mesmo relatório revela um dado que deveria moderar qualquer comemoração precipitada: desde 1985, 64% de toda a área já queimada no Brasil pegou fogo mais de uma vez, e mais da metade desses casos voltou a queimar em até quatro anos. Na Amazônia, floresta que não é biologicamente adaptada ao fogo, quase um terço das áreas atingidas volta a queimar em menos de dois anos, o que compromete a capacidade de regeneração da vegetação. O Cerrado, apesar da retração geral, seguiu como o bioma mais afetado do país, com 8,7 milhões de hectares.
Uma lei nascida para sair da lógica da culpa
A Lei 14.944/2024 tentou justamente isso: sair do binômio proibição total versus repressão reativa que caracterizava o Código Florestal desde 2012. Ela distingue queima controlada, usada em atividades agropecuárias mediante autorização prévia, de queima prescrita, aplicada com fins de conservação e pesquisa, e reconhece formalmente o uso tradicional do fogo por povos indígenas e comunidades quilombolas. Também obriga estados e o Distrito Federal a criarem planos regionais de manejo do fogo até março de 2027 e susbstitui parte da lógica puramente punitiva por uma de gestão de risco territorial, com aceiros, planos de prevenção e articulação entre União, estados, municípios e sociedade civil.
O ministério do Meio Ambiente comemorou, nesta mesma semana de aniversário da lei, os dados que associam a queda dos incêndios de 2025 tanto à melhora das condições climáticas quanto aos esforços de prevenção viabilizados pela nova política. É uma leitura defensável, mas incompleta se tomada isoladamente, pelo mesmo motivo que o artigo do El País aponta para o caso espanhol: clima e gestão do território raramente operam sozinhos, e separá-los para fins de disputa política tende a produzir diagnósticos parciais.
Contraponto
O paralelo com a Espanha
O artigo do El País lembra que, na Espanha, quase três quartas partes da área florestal é de propriedade privada e frequentemente fragmentada em pequenos lotes cujos donos não têm incentivo para geri-los, enquanto a fiscalização do cumprimento dos planos de prevenção cabe às comunidades autônomas, com capacidades desiguais entre si. A distância para o Brasil não é tão grande quanto parece: aqui, a ausência de regularização fundiária em assentamentos e pequenas propriedades rurais é apontada por técnicos do Senado como um obstáculo real à responsabilização de quem provoca incêndios, um problema estrutural que nenhuma lei de manejo do fogo resolve sozinha.
Um estudo de 2012 dos pesquisadores Juli Pausas e Santiago Fernández-Muñoz, citado no texto espanhol, mostrou como o abandono da agropecuária tradicional na região de Valência transformou o mosaico de pastos e cultivos em uma massa florestal contínua, que passou a interagir com ondas de calor cada vez mais extremas. É a mesma lógica que o Cerrado e partes da Amazônia enfrentam quando a expansão da vegetação secundária, combinada a episódios de seca mais intensos, cria janelas de propagação do fogo maiores do que as que existiam há poucas décadas.
Uma política que exige coordenar, não vencer
A conclusão do artigo espanhol vale igualmente para o debate brasileiro: tratar incêndios florestais como fenômenos recorrentes que precisam ser geridos, em vez de riscos que uma única medida eliminaria, libera energia política para investir em capacidade de prevenção e resposta. Os dois anos da PNMIF mostram que essa mudança de enquadramento é possível, mas os números de recorrência do fogo do MapBiomas mostram que ela ainda está longe de estar concluída. Nem o clima explica tudo, nem a gestão do território explica tudo. A pergunta que interessa não é quem estava certo sobre a causa do último incêndio, mas o que será feito, de forma coordenada, antes do próximo.