Caderno Saúde · Neurociência e comportamento
Este artigo parte da reportagem de Ariana Eunjung Cha publicada no The Washington Post em 8 de outubro de 2026, “The surprising new idea that is reshaping how we think about ADHD”. Não se trata de tradução. O texto foi ampliado com a literatura científica original, dados brasileiros e uma leitura crítica da hipótese.
Durante décadas, a insônia e o sono bagunçado foram tratados como efeitos colaterais do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Quem tem TDAH dorme mal, dizia o raciocínio clínico, porque o cérebro não desacelera à noite. Uma corrente crescente de pesquisadores propõe agora olhar a seta no sentido contrário: em parte dos pacientes, um relógio biológico atrasado pode ajudar a produzir, ou a agravar, os próprios sintomas de desatenção e impulsividade.
A hipótese ganhou forma em um artigo de perspectiva assinado pelos médicos canadenses Brandon Luu, da Queen’s University, e Nicholas Fabiano, da Universidade de Ottawa, publicado em dezembro de 2025 na revista Frontiers in Psychiatry.[2] Os autores não afirmam que o TDAH seja, em todos os casos, um distúrbio do ritmo circadiano. Defendem algo mais preciso e, por isso mesmo, mais útil: que a disfunção circadiana é um traço clinicamente relevante e muito frequente em um subgrupo considerável de pessoas com o diagnóstico, e que deveria ser rastreada de rotina.
O que os dados acumulados mostram
A revisão reúne linhas de evidência que, isoladas, já eram conhecidas, mas que juntas desenham um padrão consistente. Estima-se que entre 73% e 78% de crianças e adultos com TDAH apresentem um ciclo sono-vigília deslocado para mais tarde. Insônia e outros distúrbios do sono aparecem em até 80% dos adultos e em até 82% das crianças com o transtorno.[2]
O dado mais revelador é hormonal. O início da secreção de melatonina sob luz fraca, marcador conhecido pela sigla DLMO e considerado o padrão de referência para medir a fase do relógio interno, ocorre cerca de 45 minutos mais tarde em crianças com TDAH e cerca de 90 minutos mais tarde em adultos.[2] Somam-se a isso um ritmo de cortisol achatado e atrasado, uma glândula pineal de volume reduzido em exames de imagem e oscilações diárias menos nítidas de genes do relógio, como BMAL1 e PER2, em células periféricas.[2]
Cronotipo não é preguiça nem disciplina
Para entender o argumento, é preciso separar o sono do sistema que decide quando dormir. Quase todos os órgãos e boa parte das células do corpo mantêm relógios próprios, sincronizados principalmente pela luz. A posição individual nesse ciclo recebe o nome de cronotipo: há quem sinta sono cedo e acorde naturalmente de madrugada, e há quem só desligue tarde. A reportagem do Washington Post lembra que o cronotipo é parcialmente genético, muda ao longo da vida e atinge seu ponto mais tardio no fim da adolescência.[1]
A divisão popular entre “cotovias” e “corujas” engana ao sugerir dois grupos estanques. O jornal americano cita um levantamento publicado na PLOS One em 2017, com 53.689 pessoas nos Estados Unidos, em que cerca de 40% tinham cronotipo precoce, 44% intermediário e 16% tardio, definidos pelo ponto médio do sono.[1] É um contínuo, com a maioria no meio. O que a hipótese circadiana do TDAH sustenta é que as pessoas com o diagnóstico estão desproporcionalmente concentradas na ponta tardia dessa curva.
Quando o corpo e o relógio da parede discordam
Um cronotipo tardio, por si só, não é doença. O problema surge quando a rotina exige desempenho em horas em que o corpo ainda está, biologicamente, no meio da noite. Pesquisadores ouvidos pelo Post descrevem como cognição e humor oscilam ao longo do dia: o humor positivo tende a atingir o pico durante o dia e o negativo, a piorar de madrugada. Viver acordado no horário errado da própria fisiologia equivale, na imagem usada por um deles, a um carro com rodas desalinhadas.[1]
Há evidência experimental de que esse descompasso pesa mais sobre quem tem TDAH. Um estudo com universitários de cronotipo vespertino, publicado em 2022 na Frontiers in Psychology, mostrou que os alunos com sintomas de TDAH, sem medicação, tiveram queda maior na atenção sustentada quando testados pela manhã do que colegas com o mesmo cronotipo e sem os sintomas.[3] Em outras palavras, o TDAH parece amplificar o custo de funcionar fora de fase.
“Nossa sociedade não é boa em apoiar uma boa saúde circadiana.” Brandon Luu, em entrevista ao The Washington Post
O ângulo brasileiro: aula às sete e um país de turnos
A discussão tem peso particular no Brasil. Segundo estimativas do Ministério da Saúde reproduzidas em reportagem do portal ABC do ABC, a prevalência de TDAH no país é de 7,6% entre crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, 5,2% entre pessoas de 18 a 44 anos e 6,1% acima dos 44.[4] São números que colocam o transtorno entre as condições de neurodesenvolvimento mais comuns da população.
Ao mesmo tempo, o sistema escolar brasileiro oferece algo raro na literatura internacional: um experimento natural. Milhões de estudantes são divididos entre turno da manhã, que costuma começar por volta das sete horas, e turno da tarde. Uma tese de doutorado do Instituto de Psicologia da USP comparou adolescentes dos dois turnos e encontrou, entre os da manhã, sono 1h45 mais curto nos dias letivos, sem compensação suficiente por cochilos. Os alunos da tarde mostraram ritmos mais regulares ao longo da semana e melhor desempenho em alguns testes de memória.[5] Outro estudo, publicado no Brazilian Journal of Biology, concluiu que parte do desempenho de estudantes de uma escola de ensino médio em tempo integral pode ser atribuída ao cronotipo.[6]
Cruzando essas evidências com a hipótese canadense, surge uma pergunta que a política educacional brasileira raramente formula: quantos adolescentes de cronotipo tardio, matriculados no turno da manhã, apresentam sinais que se confundem com TDAH? Um editorial publicado no Journal of Child Psychology and Psychiatry já levantava essa possibilidade para os casos de TDAH com início tardio, na adolescência, quando o atraso natural do relógio é mais pronunciado.[7] A questão não é negar o diagnóstico, mas evitar que um desalinhamento tratável seja lido apenas como déficit de atenção.
Luz, regularidade e exercício: o que as intervenções sugerem
O lado promissor da hipótese está no tratamento. A revisão de Luu e Fabiano relata que a fase circadiana pode ser adiantada em pessoas com TDAH, e que a combinação de terapia de luz intensa com melatonina produziu o maior avanço observado, de cerca de duas horas, em adultos com TDAH e fase de sono atrasada. Dados preliminares associam esse avanço à melhora dos sintomas.[2] Os autores também apontam o exercício físico e protocolos combinados, já testados em cronotipos vespertinos sem TDAH, como linhas que merecem investigação.
O próprio Luu, que relatou ao Post ter enfrentado na adolescência um atraso circadiano com sintomas semelhantes aos do TDAH, descreve uma rotina de horário fixo para acordar, exposição à luz logo cedo, exercício pela manhã e redução de luz e de estímulos à noite.[1] São medidas de baixo custo, mas o relato é individual e não substitui avaliação clínica.
No caso da melatonina, o contexto regulatório brasileiro é distinto do americano. Desde 2021, a Anvisa permite a venda da substância como suplemento alimentar apenas para maiores de 19 anos, com limite diário de 0,21 mg, e não aprovou nenhuma alegação de benefício associada ao produto. O rótulo deve informar que não é indicado para crianças, gestantes, lactantes e pessoas em atividades que exigem atenção constante.[8] Qualquer uso com finalidade terapêutica, sobretudo em crianças e adolescentes, depende de orientação médica.
O que pode mudar na prática clínica
A recomendação central dos autores é modesta: incluir perguntas sobre horário de sono, cronotipo e regularidade da rotina na avaliação de quem tem ou pode ter TDAH, com apoio de diários de sono ou rastreamento simples.[2] Para um sistema de saúde pressionado como o brasileiro, a vantagem é evidente. Trata-se de uma camada de investigação de baixo custo, que pode separar casos em que o desalinhamento circadiano domina o quadro daqueles em que ele é apenas um agravante.
Há também uma implicação coletiva. Se o horário em que uma sociedade exige atenção máxima entra em choque com a biologia de parte expressiva de seus jovens, o debate deixa de ser apenas clínico. Envolve horário de início das aulas, iluminação de salas, exposição a telas à noite e organização do trabalho. Como lembra a própria reportagem do Post, a pergunta sobre quanto do prejuízo nasce da biologia e quanto nasce do descompasso com o ambiente ecoa debates mais amplos sobre neurodivergência.[1] É uma pergunta que o Brasil, com seus turnos escolares e suas longas jornadas de deslocamento, está em boa posição para investigar.
Perguntas frequentes
O TDAH é um distúrbio do sono?
Não exatamente. A hipótese circadiana propõe que, em um subgrupo grande de pessoas com TDAH, o relógio biológico funciona atrasado e isso contribui para os sintomas. O TDAH continua sendo um transtorno do neurodesenvolvimento com causas múltiplas.
Qual a proporção de pessoas com TDAH que dormem tarde?
Revisão publicada na Frontiers in Psychiatry em 2025 estima que entre 73% e 78% de crianças e adultos com TDAH têm o ciclo sono-vigília deslocado para mais tarde, e que o início da melatonina ocorre cerca de 45 minutos depois em crianças e 90 minutos depois em adultos.
Ser “coruja” significa ter TDAH?
Não. O cronotipo tardio é uma variação normal. Nos Estados Unidos, cerca de 16% da população tem cronotipo tardio. A associação indica que pessoas com TDAH aparecem com mais frequência nesse grupo, não que todo cronotipo tardio seja sinal do transtorno.
Ajustar o relógio biológico pode melhorar os sintomas?
Estudos pequenos sugerem que sim. Luz intensa pela manhã, horários regulares e, sob orientação médica, melatonina conseguiram adiantar a fase circadiana em adultos com TDAH, com sinais de melhora dos sintomas. Faltam ensaios maiores para confirmar o efeito.
Posso tomar melatonina por conta própria no Brasil?
A Anvisa permite a venda de melatonina como suplemento apenas para maiores de 19 anos, com limite de 0,21 mg por dia e sem alegação aprovada de benefício. Uso terapêutico, especialmente em crianças e adolescentes, exige avaliação e acompanhamento médico.