Se os cerca de 3 mil bilionários do planeta pagassem um imposto anual de 3% sobre seu patrimônio, e todo o valor arrecadado fosse direcionado à cooperação internacional, seria possível evitar a morte de 29,5 milhões de pessoas até 2030. A estimativa é do maior estudo já publicado sobre o tema: uma pesquisa liderada pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), divulgada nesta terça-feira na revista científica The Lancet, que avaliou dez mecanismos distintos de redistribuição de riqueza como resposta ao desmonte da ajuda humanitária global.

O trabalho parte de um diagnóstico incômodo. Segundo o jornal espanhol El País, que teve acesso antecipado ao estudo, os pesquisadores analisaram vinte anos de dados sobre ajuda oficial ao desenvolvimento (AOD) em 59 países de renda baixa e média-baixa para projetar o que aconteceria se os cortes atuais se mantivessem até o fim da década. O resultado do cenário de referência é grave: cerca de 7,6 milhões de mortes adicionais, o suficiente para reverter duas décadas de avanços em saúde global.

O colapso silencioso da ajuda internacional

A crise não é hipotética. Ano e meio atrás, o governo dos Estados Unidos desmantelou a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), interrompendo o fornecimento de medicamentos essenciais contra HIV, tuberculose e malária em dezenas de países. Reino Unido, Alemanha, França, Países Baixos e Bélgica reduziram seus próprios aportes para redirecionar recursos a despesas militares. O resultado, segundo dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), foi uma queda de 23,1% na ajuda oficial global em 2025 na comparação com o ano anterior, a maior retração já registrada.

O impacto já aparece em números concretos. Um relatório do UNAIDS apresentado na 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada no Rio de Janeiro em julho, mostrou que o financiamento internacional para programas de HIV caiu 18% entre 2024 e 2025, atingindo o menor patamar em quase duas décadas. A Organização Mundial da Saúde chegou a alerta semelhante para a tuberculose, apontando que os Estados Unidos respondiam por cerca de metade de todo o financiamento internacional bilateral da doença entre 2015 e 2024.

"Um dos argumentos para reduzir a ajuda humanitária é que não há mais dinheiro. Isso não é verdade: os recursos existem, o mundo tem uma altíssima concentração de riqueza." Davide Rasella, coordenador do estudo no ISGlobal, em entrevista ao El País

Dez mecanismos, um mesmo objetivo

Os pesquisadores testaram dez formas de redistribuição de riqueza, das mais discutidas nos fóruns internacionais às mais recentes, como a tributação de criptoativos. A hipótese de trabalho é simples: se a receita arrecadada compensasse o que os países doadores deixaram de repassar, seria possível manter em funcionamento os programas de saúde e desenvolvimento hoje ameaçados. Os impostos sobre grandes fortunas aparecem como o mecanismo de maior impacto potencial entre os testados.

Mecanismo Arrecadação estimada Mortes evitadas até 2030
Imposto sobre criptoativos (proposta setorial)US$ 32,6 bi6,6 milhões
Taxa sobre juros da dívida soberanaUS$ 74 bi12,8 milhões
1% sobre patrimônio de bilionáriosUS$ 90 bi15,1 milhões
Imposto sobre criptoativos (modelo FMI)US$ 100 bi16,4 milhões
Taxa sobre emissões de carbonoUS$ 102,2 bi16,6 milhões
Taxa sobre juros da dívida soberana (variante ampliada)US$ 120 bi17,7 milhões
Tributação mínima global de multinacionaisUS$ 173,5 bi20,1 milhões
2% sobre patrimônio de bilionáriosUS$ 217,5 bi22,9 milhões
Taxa Tobin (transações financeiras)US$ 234 bi24,5 milhões
3% sobre patrimônio de bilionáriosUS$ 343,5 bi29,5 milhões

Fonte: ISGlobal, com dados apresentados na revista The Lancet (2026)

Os autores destacam que o universo de contribuintes seria pequeno. Há hoje pouco mais de 3 mil bilionários no mundo, com patrimônio conjunto estimado em US$ 16,1 trilhões. Mesmo a alíquota mais branda testada, de 1%, já permitiria evitar 15 milhões de mortes segundo o modelo. Para o economista Lucio Espósito, da Escola de Economia de ICESI e um dos autores principais do estudo, faixas entre 1% e 3% representam uma tributação mínima diante do crescimento médio do capital nos últimos anos, hoje entre 6% e 7% ao ano.

Um debate que o Brasil já conhece

O tema não é novidade na diplomacia brasileira. Em 2024, sob presidência do país no G20, o governo brasileiro liderou a proposta de uma tributação mínima global de 2% sobre a riqueza de bilionários, elaborada pelo economista francês Gabriel Zucman e apresentada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. A estimativa oficial era de arrecadação entre US$ 200 bilhões e US$ 250 bilhões por ano. A declaração final da cúpula do Rio de Janeiro incluiu um compromisso genérico de cooperação para tributar "indivíduos de patrimônio líquido ultra-alto", mas sem definir alíquota, em parte por resistência dos Estados Unidos. Em 2025, na IV Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, em Sevilha, Brasil e Espanha voltaram a defender conjuntamente maior tributação sobre grandes fortunas.

Internamente, porém, o Brasil ainda não aplica a própria versão do instrumento. O Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF) está previsto no artigo 153, inciso VII, da Constituição de 1988, mas depende de lei complementar nunca aprovada pelo Congresso. Passadas mais de três décadas, existem hoje dezenas de projetos de lei em tramitação, com faixas de isenção que variam de R$ 5 milhões a R$ 50 milhões em patrimônio líquido e alíquotas propostas entre 0,5% e 5%. Segundo dados do IBGE citados em levantamentos recentes sobre desigualdade, o 1% mais rico da população brasileira tem renda média superior a trinta vezes a da metade mais pobre do país.

Contraponto: por que a ideia ainda não saiu do papel

Nem todos veem a tributação de grandes fortunas como solução simples. Críticos apontam três obstáculos recorrentes, tanto na esfera internacional quanto no debate brasileiro sobre o IGF. Primeiro, o risco de fuga de capitais para jurisdições de menor tributação, o que exigiria coordenação internacional difícil de sustentar politicamente, como mostrou a ausência de consenso sobre uma alíquota fixa no G20 de 2024. Segundo, a dificuldade de definir e fiscalizar o que constitui uma "grande fortuna", com patrimônio disperso em ativos financeiros, imóveis e participações societárias no exterior. Terceiro, estimativas de arrecadação doméstica relativamente modestas, no caso brasileiro, algo em torno de R$ 40 bilhões por ano segundo estudos legislativos, o que levanta dúvidas sobre o custo administrativo frente ao benefício fiscal. Some-se a isso a oposição de países desenvolvidos como Estados Unidos e Alemanha à proposta global, o que mantém o mecanismo mais como sinalização política do que como política tributária em vigor.

O que vem a seguir

O estudo do ISGlobal não recomenda uma política específica, mas busca demonstrar que a escassez de recursos para a cooperação internacional é uma escolha, não uma inevitabilidade. Para Rasella, a comparação com a magnitude da riqueza global torna o argumento difícil de ignorar: segundo ele, as medidas simuladas tocam apenas uma fração pequena do patrimônio dos bilionários, algo próximo do que Elon Musk perde em um único dia de oscilação de mercado. Se esse argumento vai se traduzir em política concreta, seja em fóruns internacionais, seja na tramitação do IGF no Congresso brasileiro, é uma pergunta que segue em aberto.

O que descobriu o estudo do ISGlobal publicado na The Lancet?

O estudo, liderado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona, calcula que um imposto de 3% sobre o patrimônio dos bilionários do mundo poderia gerar recursos suficientes para evitar até 29,5 milhões de mortes até 2030, compensando o impacto dos cortes na ajuda internacional ao desenvolvimento.

Quanto a ajuda internacional caiu nos últimos anos?

Segundo a OCDE, a ajuda oficial ao desenvolvimento caiu 23,1% em 2025 na comparação com o ano anterior, a maior queda já registrada, impulsionada pelo desmonte da USAID nos Estados Unidos e por reduções de aporte em países europeus.

O Brasil já propôs taxar os super-ricos internacionalmente?

Sim. Na presidência do G20 em 2024, o Brasil liderou a proposta de uma tributação mínima global de 2% sobre a riqueza de bilionários, com estimativa de arrecadação entre US$ 200 bilhões e US$ 250 bilhões por ano, mas a cúpula do Rio de Janeiro não fixou uma alíquota obrigatória.

O que é o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF) brasileiro?

É um tributo previsto no artigo 153 da Constituição de 1988 que incidiria sobre patrimônios líquidos elevados, mas nunca foi regulamentado por lei complementar. Existem dezenas de projetos em tramitação no Congresso Nacional, sem previsão de votação definitiva.

Quais outros mecanismos de tributação global foram estudados?

Além do imposto sobre bilionários, o estudo avaliou a taxa Tobin sobre transações financeiras, tributação mínima para multinacionais, taxas sobre emissões de carbono, tributação de criptoativos e mecanismos ligados aos juros da dívida soberana de países de baixa renda.

Referências

  1. Ana Puentes. "Un impuesto para los superricos evitaría 29,5 millones de muertes asociadas a los recortes de la ayuda internacional". El País, 8 de setembro de 2026. Ler artigo original
  2. Agência Brasil. "Taxação dos super-ricos é aprovada em declaração de líderes do G20" (2024).
  3. Governo Federal (Secom). "Proposta brasileira no G20 para taxar super-ricos pode arrecadar até US$ 250 bilhões por ano" (2024).
  4. UNAIDS Brasil. "Resposta global ao HIV perde força enquanto aumenta o risco de agravamento da epidemia" (2026).
  5. Organização Mundial da Saúde. "The impact of 2025 funding cuts on TB services", Global Tuberculosis Report 2025.
  6. Politize! "Imposto sobre grandes fortunas: você sabe como funciona?" (2025).
  7. Inteligov. "Imposto sobre grandes fortunas no Brasil e no mundo" (2025).

— Ewerton Lopes, Curador Editorial