Caderno Saúde

O carrinho de compras do brasileiro mudou nos últimos anos. Onde antes havia arroz, feijão e óleo, agora dividem espaço potes de whey protein, cápsulas de colágeno, sachês de magnésio e vidros de ômega 3. Segundo a BRASNUTRI (Associação Brasileira de Suplementos Alimentares), o setor faturou cerca de R$ 7,6 bilhões em 2025, um crescimento de 15% em relação ao ano anterior, com projeção de chegar a R$ 13,8 bilhões até 20301. A pesquisa da consultoria Abiad já havia identificado suplementos em mais da metade (59%) dos lares brasileiros2.

Mas quantos desses produtos são realmente necessários? Uma reportagem recente do The New York Times reuniu nutricionistas e médicos de instituições como Harvard e Stanford para responder justamente a essa pergunta, revisando os dez suplementos mais populares nos Estados Unidos e mostrando, para cada um, uma alternativa alimentar equivalente3. O caderno Saúde d'O Tecido foi além: buscou o que essa mesma discussão significa para quem vive no Brasil, cruzando os dados internacionais com pesquisas do IBGE, alertas da Anvisa e o comportamento do consumidor nacional.

"Fibra, magnésio e proteína continuam sendo o retrato mais fiel do que falta no prato do brasileiro, e não necessariamente do que falta no armário de suplementos."

Por que o brasileiro está suplementando mais

O movimento não é isolado. Segundo levantamento da McKinsey em parceria com a Scanntech, que analisou mais de 13,5 bilhões de cupons fiscais do varejo alimentar brasileiro, o volume de creatina vendida cresceu 89% em um ano, e o de whey protein avançou 124%4. Uma pesquisa publicada pela revista Veja no fim de 2025 confirma a creatina como o suplemento mais desejado pelos brasileiros, citada por 57,8% dos entrevistados, à frente do whey protein (31,3%) e das vitaminas isoladas (6,4%)5.

Parte dessa procura tem lastro real: cerca de 68% da população brasileira consome fibras abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, e o consumo médio diário de fibras caiu de 20,5 g em 2008-2009 para 15,6 g em 2017-2018, provavelmente reflexo da queda no consumo de feijão, que passou de 72,8% para 60% dos domicílios no mesmo período6. Já a ingestão de frutas, legumes e verduras fica abaixo dos 400 g diários recomendados pelo Ministério da Saúde para mais de 90% da população7.

O problema, apontam os especialistas ouvidos pelo NYT, é que boa parte dos consumidores não está preenchendo lacunas nutricionais reais, e sim seguindo recomendações de podcasts e redes sociais. A dietista Marily Oppezzo, da Universidade Stanford, relata que alguns pacientes chegam a tomar 20 tipos diferentes de suplementos por dia, muitas vezes sem orientação profissional3.

⚖️ Contraponto: o que diz a indústria

Representantes do setor, como a BRASNUTRI, argumentam que o crescimento do consumo reflete maior consciência sobre saúde preventiva, envelhecimento ativo e desempenho físico, e defendem que a nova regulamentação da Anvisa, que passou a exigir notificação obrigatória de todos os suplementos a partir de setembro de 2025, tende a elevar a segurança e a qualidade média dos produtos disponíveis no mercado nacional8.

O que a Anvisa encontrou ao apertar a fiscalização

A nova regra (RDC nº 843/2024, complementada pela IN nº 281/2024) substituiu um modelo em que a maioria dos suplementos era liberada por simples comunicação às vigilâncias sanitárias locais. Agora, todo suplemento precisa ser notificado eletronicamente à Anvisa, com documentação técnica e estudo de estabilidade9. O resultado do escrutínio mais rígido já apareceu nos números: até julho de 2025, a agência avaliou 423 novos suplementos e reprovou 277 deles, principalmente por falta de comprovação de que o produto mantém suas propriedades nutricionais até o vencimento10.

Entre 2020 e 2025, suplementos alimentares foram alvo de 63% de todos os processos de investigação abertos pela Anvisa, a maioria motivada por propaganda enganosa em plataformas digitais10. Ao longo de 2025, a agência recolheu do mercado produtos como suplementos líquidos de procedência desconhecida e multivitamínicos com quantidade de ingredientes abaixo da informada no rótulo11. É exatamente o tipo de risco de contaminação e dosagem inadequada mencionado pela médica Dra. JoAnn Manson, da Harvard Medical School, na reportagem original: suplementos podem conter contaminantes, doses excessivas de nutrientes ou interagir com medicamentos de uso contínuo3.

Os suplementos mais populares e suas alternativas no prato brasileiro

Com base na revisão de evidências reunida pelo NYT e adaptando as fontes alimentares à realidade nutricional brasileira (usando como referência a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, TACO/Unicamp), veja o que a ciência sugere para os suplementos mais consumidos:

SuplementoQuando faz sentidoAlternativa alimentar
MultivitamínicoIdosos, dietas restritivas, doença celíaca ou de CrohnDieta variada e colorida: frutas, leguminosas, grãos integrais
MagnésioUso pontual sob orientação médicaSemente de abóbora, amêndoas, espinafre, feijão-preto, quinoa
Ômega 3 / óleo de peixeBaixo consumo de peixe na dieta habitualSardinha, salmão, atum, chia, linhaça, duas porções de peixe por semana
Vitamina CRaramente necessário fora de casos clínicosLaranja, kiwi, acerola, goiaba, brócolis, pimentão
ColágenoEvidência ainda limitada e mistaProteína adequada, vitamina C, zinco e cobre na dieta; proteção solar
Vitamina B12Veganos, vegetarianos, idosos, uso de metforminaCarnes, ovos, laticínios, cereais fortificados
Proteína em póIdosos ou recuperação pós-cirúrgica com baixa ingestãoOvo, feijão, frango, peixe, iogurte em cada refeição
FibrasQuando a dieta não supre 21-38 g/diaFeijão, aveia, frutas com casca, hortaliças

Um caso que merece atenção especial no Brasil é o do magnésio: cerca de metade dos adultos americanos não atinge os 310-420 mg diários recomendados, segundo o NYT3, e o padrão alimentar brasileiro, com baixo consumo de folhosos verde-escuros e oleaginosas, sugere um cenário semelhante por aqui, ainda que faltem levantamentos nacionais recentes e específicos sobre adequação de magnésio na dieta.

O caso da fibra: um problema genuinamente brasileiro

Diferentemente de vitamina C ou colágeno, a lacuna de fibras no prato brasileiro tem respaldo estatístico robusto. Além da queda já mencionada no consumo médio, a análise da POF 2008-2009 mostrou que 68% da população brasileira ingeria fibras abaixo do recomendado, junto com excesso de gordura saturada (82%) e açúcar (61%)6. Para o gastroenterologista Kyle Staller, do Massachusetts General Hospital, ouvido pelo NYT, quando a dieta não é suficiente, a fibra de psyllium é uma opção razoável, por formar gel em contato com água e ajudar em quadros de prisão de ventre, diarreia e dor abdominal3. Ainda assim, alimentos integrais como feijão, aveia e frutas com casca continuam trazendo vitaminas, minerais e gorduras boas que nenhuma cápsula reproduz.

Creatina e whey: o fenômeno das academias chegou ao supermercado

Se em outros países a preocupação recai sobre multivitamínicos e colágeno, no Brasil o crescimento mais expressivo do setor está em produtos ligados a desempenho físico. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Nutrição Esportiva identificou que, entre praticantes de atividade física avaliados, 59% dos usuários de suplementos recorriam a produtos à base de proteínas e aminoácidos, com o ganho de massa muscular como principal objetivo declarado, mas apenas 29,4% haviam recebido orientação de nutricionista e 5,9% de médico12. É um retrato da lacuna entre popularidade e acompanhamento profissional que também aparece na reportagem original do NYT em relação a outros tipos de suplemento.

O que muda na prática

Nenhum dos especialistas consultados pelo NYT defende o fim dos suplementos. Eles recomendam apenas inverter a lógica: partir da comida e usar a suplementação como exceção, não como ponto de partida. No Brasil, esse raciocínio ganha um argumento extra, o de que boa parte da população ainda não atinge recomendações básicas de fibras, frutas e hortaliças, o que torna qualquer suplementação isolada, sem ajuste da dieta, uma solução incompleta. Com a Anvisa reforçando a fiscalização e o setor projetando novo crescimento até 2030, a orientação profissional individualizada tende a se tornar cada vez mais relevante para diferenciar o suplemento que resolve um problema real daquele que só resolve o problema do marketing.

Perguntas frequentes

Suplementos alimentares precisam de receita médica no Brasil?

Não, em geral. A Anvisa classifica suplementos alimentares como categoria de alimento, não de medicamento, o que dispensa receita. Ainda assim, a agência recomenda orientação de nutricionista ou médico, já que o uso sem acompanhamento aumenta o risco de dosagem inadequada ou interação com remédios de uso contínuo.

É verdade que a Anvisa mudou as regras para suplementos em 2025?

Sim. Desde 1º de setembro de 2025, todos os suplementos alimentares comercializados no Brasil precisam estar notificados eletronicamente junto à Anvisa, com documentação técnica e estudo de estabilidade, conforme a RDC nº 843/2024 e a IN nº 281/2024.

Qual suplemento os brasileiros mais consomem atualmente?

Segundo levantamento de mercado de 2025, creatina lidera a preferência dos brasileiros, seguida por whey protein e vitaminas isoladas, refletindo o crescimento do público ligado a academias e desempenho físico.

Fibra em cápsula substitui comer feijão e vegetais?

Não integralmente. Suplementos como o psyllium podem ajudar em casos específicos de constipação, mas não entregam o mesmo pacote nutricional de alimentos integrais, que somam vitaminas, minerais e gorduras boas junto com a fibra.

Fonte internacional: reportagem original de Alice Callahan, publicada pelo The New York Times em 9 de fevereiro de 2026.

Nota de verificação editorial: os dados sobre volume de vendas de creatina e whey protein (McKinsey/Scanntech) e sobre o ranking de preferência do consumidor (Veja/2025) referem-se a levantamentos de mercado e pesquisas de opinião, não a estudos clínicos, e devem ser tratados como indicadores de comportamento de consumo. Os dados de adequação nutricional da POF são do levantamento 2017-2018, o mais recente publicado pelo IBGE até o fechamento desta edição; uma atualização mais recente do inquérito ainda não estava disponível publicamente. Recomenda-se confirmação junto às fontes primárias antes de republicação em outros veículos.