Saúde · Resistência antimicrobiana

Durante quase um século, uma receita de antibiótico foi sinônimo de problema resolvido. Infecção urinária, pneumonia, ferida infeccionada: tomava-se o remédio por alguns dias e a vida seguia. Esse pacto silencioso entre a medicina e as bactérias está se desfazendo. Os microrganismos aprendem a sobreviver aos medicamentos mais rápido do que a indústria consegue criar novos, e o resultado já aparece nas estatísticas de mortalidade de países ricos e pobres, incluindo o Brasil.

O alerta mais recente veio do Reino Unido. Em artigo publicado nesta terça-feira (20) no The Telegraph, o médico Chris Smith, consultor em microbiologia e virologia clínica do Addenbrooke's Hospital, em Cambridge, descreve a situação como uma corrida armamentista em que, por ora, só um dos lados parece estar vencendo.[1] O exemplo que ele escolhe é doméstico: quando começou a carreira, há cerca de 25 anos, a amoxicilina resolvia a maior parte das infecções urinárias simples. Hoje, segundo ele, três em cada quatro dessas infecções já não respondem ao medicamento.[1]

O que é resistência antimicrobiana

Resistência antimicrobiana (RAM) é a capacidade que bactérias, fungos, vírus e parasitas desenvolvem de sobreviver a medicamentos que antes os eliminavam ou impediam sua multiplicação. O mecanismo é a evolução por seleção natural. Mutações aleatórias dão a alguns microrganismos uma vantagem diante de determinado remédio. Cada vez que o antibiótico é usado, as bactérias sensíveis morrem e as resistentes ficam com o terreno livre para se multiplicar.

Isso significa que o problema não é apenas o uso errado, mas o volume total de uso. Quanto mais antibiótico circula na medicina humana, na criação de animais e no ambiente, maior a pressão seletiva a favor das linhagens resistentes. Por essa razão, organismos internacionais tratam o tema sob a abordagem de Saúde Única, que integra saúde humana, animal e ambiental.

Qual o tamanho do problema no mundo

O retrato global mais completo foi publicado pela Organização Mundial da Saúde em outubro de 2025. O relatório do sistema de vigilância GLASS, com dados de mais de 23 milhões de infecções em 104 países, concluiu que cerca de uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório em 2023 era resistente aos antibióticos, proporção que sobe para uma em cada três no caso das infecções urinárias.[2] Entre 2018 e 2023, a resistência aumentou em mais de 40% das combinações entre bactéria e antibiótico monitoradas, com alta média anual de 5% a 15%.[2]

As projeções para as próximas décadas são igualmente sérias. Um estudo do projeto Global Research on Antimicrobial Resistance (GRAM), publicado na revista The Lancet e divulgado pela Universidade de Oxford, estimou que a resistência causa pelo menos um milhão de mortes por ano desde 1990 e que, sem novas políticas, pode matar diretamente mais de 39 milhões de pessoas entre 2025 e 2050, o equivalente a três mortes por minuto.[3]

Mortes anuais ligadas à resistência antimicrobiana, 2021 e projeção para 2050 Mortes diretamente atribuídas: 1,14 milhão em 2021 e 1,91 milhão projetadas em 2050. Mortes associadas: 4,71 milhões em 2021 e 8,22 milhões projetadas em 2050. Fonte: GRAM, The Lancet. MILHÕES DE MORTES POR ANO 1,14 1,91 Atribuídas (diretas) 4,71 8,22 Associadas 2021 2050 (projeção)
Mortes anuais em que a resistência é a causa direta e mortes em que ela contribui. Valores de 2050 são projeções do cenário de referência, sem novas políticas. Fonte: projeto GRAM, The Lancet (2024).

No Reino Unido, Smith cita dados da UK Health Security Agency segundo os quais as infecções resistentes cresceram 13% em cinco anos, com uma média próxima de 400 novos casos notificados por semana, e as mortes estimadas entre pessoas com infecção resistente chegaram a 2.379 em 2025.[1] Ele lembra que os números são britânicos, mas que o problema é mundial: bactérias resistentes viajam junto com as pessoas.

O que acontece no Brasil

O Brasil não é espectador dessa crise. A análise do relatório GLASS repercutida pela imprensa brasileira apontou uma escalada preocupante da resistência no país, sobretudo entre bactérias Gram-negativas, responsáveis por infecções urinárias e respiratórias, além de resistência relevante da Shigella em infecções gastrointestinais.[4] A epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo, que representou o Ministério da Saúde na discussão do relatório, associou o aumento ao uso indiscriminado de antibióticos durante a pandemia de Covid-19 e ao emprego desses medicamentos na pecuária, e mencionou um inquérito nacional com análise de águas e amostras hospitalares.[4]

Os números de mortalidade dão a dimensão do custo. Segundo a Agência Estadual de Notícias do Paraná, o país registra cerca de 33,2 mil mortes diretas por ano causadas por bactérias resistentes, e a presença de genes de resistência nas amostras analisadas saltou de cerca de 4% em 2015 para quase 24% em 2022.[5] O mesmo levantamento destaca que o Laboratório Central do Paraná (Lacen-PR) foi escolhido pelo Ministério da Saúde como referência nacional do BR-GLASS, braço brasileiro da vigilância da OMS, e que tecnologias de diagnóstico rápido reduziram em até 39 horas o tempo para identificar mecanismos de resistência.[5] Quando se consideram as mortes em que uma infecção resistente contribui sem ser a causa única, a conta é bem maior: análise do Center for Global Development estima que cerca de 140 mil brasileiros morrem todos os anos com alguma infecção bacteriana resistente.[6]

A resistência bacteriana não é uma ameaça futura. É uma conta que já está sendo paga, em leitos de UTI, em cirurgias mais arriscadas e em tratamentos mais longos e caros.

As regras brasileiras

Em um ponto o Brasil está mais próximo do Reino Unido do que dos países citados por Smith como exemplos de venda livre. Desde a RDC nº 20/2011 da Anvisa, antibióticos só podem ser vendidos com retenção da receita na farmácia e registro da movimentação em sistema nacional de controle. A estratégia pública está organizada no Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no Âmbito da Saúde Única (PAN-BR) e, para hospitais, no plano específico para serviços de saúde, com vigência de 2023 a 2027.[7] Em 2026, a Anvisa publicou nota técnica que orienta a notificação de infecções hospitalares e de resistência dentro do novo programa nacional para o período de 2026 a 2030.[8]

A regra da receita reduziu a automedicação com antibióticos, mas não resolve dois gargalos: a prescrição inadequada, que continua acontecendo dentro do consultório, e a baixa capacidade de diagnóstico laboratorial em parte da rede. Sem saber qual bactéria causa a infecção e a que ela é sensível, o médico tende a prescrever antibióticos de amplo espectro, o que alimenta o próprio problema que se quer combater.

Por que as bactérias estão vencendo

Smith aponta a má gestão do uso de antibióticos como causa principal. Ele dá o exemplo da tuberculose na África Subsaariana: o tratamento exige pelo menos seis meses de medicação, mas muitos pacientes compram o que conseguem pagar, tomam por poucas semanas, melhoram e interrompem. O resultado é uma bactéria resistente que passa a ser transmitida já com essa característica.[1] Ele também lembra a trajetória do MRSA, o Staphylococcus aureus resistente à meticilina, que deixou de ser raridade para se tornar presença comum em hospitais britânicos na virada do milênio.[1]

No consultório, a pressão também existe. O microbiologista descreve situações em que o médico de família, com a sala de espera cheia, é pressionado a receitar antibiótico para quadros que provavelmente são virais. Uma saída adotada no Reino Unido é a receita de reserva: o paciente leva a prescrição, mas só a utiliza se não melhorar em um ou dois dias.[1] Vale o lembrete que dá nome à seção onde o artigo britânico foi publicado: gripes e resfriados são causados por vírus, e antibióticos não têm efeito sobre eles.

Por que faltam antibióticos novos

O segundo lado da crise é a escassez de inovação. A análise da OMS sobre o desenvolvimento de antibacterianos mostrou que o número de candidatos em ensaios clínicos caiu de 97 em 2023 para 90 em 2025, sendo 50 antibióticos tradicionais e 40 abordagens não tradicionais, como bacteriófagos, anticorpos e agentes que modulam o microbioma.[9] Desde julho de 2017, 17 novos agentes contra bactérias prioritárias foram aprovados, mas apenas dois pertencem a uma classe química nova.[9]

A explicação é econômica. Smith resume o dilema: desenvolver um antibiótico leva cerca de dez anos, custa caro e tem baixa taxa de sucesso, enquanto medicamentos para doenças crônicas, usados por anos, oferecem retorno muito maior.[1] Há ainda um paradoxo: quando um antibiótico novo chega ao mercado, a boa prática manda guardá-lo como última linha de defesa. Ele vende pouco, a patente expira e a empresa que o criou não recupera o investimento. Segundo a OMS, cerca de 90% das empresas que desenvolvem antibacterianos em fase pré-clínica são pequenas, com fôlego financeiro limitado.[9]

A inteligência artificial como aposta

É na descoberta de moléculas que surge a notícia mais animadora. Em agosto de 2025, pesquisadores do MIT usaram algoritmos de IA generativa para projetar mais de 36 milhões de compostos e chegaram a candidatos estruturalmente diferentes de qualquer antibiótico existente, com ação contra gonorreia resistente e MRSA em testes de laboratório e em camundongos.[10] Smith também vê na IA um fator transformador para o desenho de medicamentos.[1] O caminho entre um resultado em camundongos e um remédio na farmácia, porém, continua longo, caro e incerto.

Contraponto

O risco do alarmismo e o outro lado do acesso

A comparação com o terrorismo ajuda a chamar atenção, mas tem limites. Projeções de longo prazo dependem de premissas sobre tendências, e estimativas anteriores de mortes futuras por resistência foram criticadas por pesquisadores como exageradas. O próprio estudo GRAM registra uma boa notícia pouco lembrada: entre 1990 e 2021, as mortes por resistência em crianças menores de cinco anos caíram pela metade, em grande parte graças a vacinas, saneamento e melhor atendimento.[3]

Há também um dilema de política pública. Em boa parte do mundo, inclusive em regiões do Brasil, morre-se mais por falta de acesso a antibióticos do que por excesso de uso. O GRAM estima que melhorar o cuidado das infecções e ampliar o acesso aos antibióticos poderia evitar 92 milhões de mortes entre 2025 e 2050.[3] Restringir sem garantir diagnóstico e tratamento adequados pode trocar um problema por outro. E especialistas lembram que a IA acelera a descoberta, mas não elimina as etapas de teste de segurança e eficácia, nem o problema econômico que afasta a indústria.

Na prática

O que cada pessoa pode fazer

  • Não pedir antibiótico para gripe, resfriado ou a maioria das dores de garganta. Essas doenças costumam ser virais, e o remédio não ajuda.
  • Seguir a prescrição até o fim, na dose e pelo tempo indicados pelo médico, mesmo que os sintomas melhorem antes.
  • Não guardar sobras nem repassar antibióticos a familiares. Descarte em pontos de coleta de farmácias.
  • Manter a vacinação em dia. Menos infecções significam menos antibióticos em uso.
  • Higienizar as mãos, especialmente em hospitais e ao cuidar de pessoas doentes.

Perguntas frequentes sobre resistência a antibióticos

O que é uma superbactéria?

É o nome popular de uma bactéria resistente a vários antibióticos, às vezes a quase todos os disponíveis. Exemplos são o MRSA e as enterobactérias resistentes aos carbapenêmicos, antibióticos usados como última linha de tratamento em hospitais.

Quantas pessoas morrem por resistência antimicrobiana no Brasil?

Estimativas citadas pelo Lacen-PR indicam cerca de 33,2 mil mortes por ano causadas diretamente por bactérias resistentes. Considerando as mortes em que a infecção resistente contribui sem ser a causa única, análises internacionais chegam a cerca de 140 mil por ano.

Antibiótico funciona para gripe ou resfriado?

Não. Gripe e resfriado são causados por vírus, e antibióticos agem apenas contra bactérias. Usá-los nesses casos não acelera a cura e aumenta o risco de resistência.

Posso comprar antibiótico sem receita no Brasil?

Não. Desde a RDC nº 20/2011 da Anvisa, a venda de antibióticos exige receita, que fica retida na farmácia, e a movimentação é registrada em sistema nacional de controle.

Existem antibióticos novos sendo desenvolvidos?

Sim, mas poucos. Segundo a OMS, havia 90 candidatos em ensaios clínicos em 2025, contra 97 em 2023, e apenas dois dos 17 aprovados desde 2017 representam uma classe química nova. A inteligência artificial tem acelerado a descoberta de moléculas, mas elas ainda precisam passar por anos de testes.

Este artigo foi produzido pelo O Tecido a partir de reportagem de Chris Smith publicada no The Telegraph em 20 de outubro de 2026, disponível em telegraph.co.uk. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido: as informações atribuídas ao autor foram resumidas com crédito e complementadas por fontes independentes, com foco no contexto brasileiro. Este texto tem caráter informativo e não substitui orientação médica.