2 de setembro de 2026

Geopolítica · Análise

O suicídio de uma superpotência

Impérios surgem e caem — mas nunca antes um Estado destruiu seu próprio poder de forma tão intencional e sistemática. É o que ocorre com Trump, que conduz os Estados Unidos à irrelevância por meio de uma mistura de ganância e incompetência.

Timothy Snyder  ·  22 de maio de 2026

Os Estados Unidos estão gastando bilhões de dólares para perder uma guerra no Irã que enriquece seus oligarcas, empobrece seus cidadãos, sabota suas alianças e fortalece seus inimigos. O conflito ilustra o princípio orientador da política externa do presidente Donald Trump: o suicídio de uma superpotência. Impérios surgem e caem, mas, que eu saiba, nenhum Estado jamais destruiu seu poder de forma tão intencional e sistemática — e muito menos com tamanha rapidez.

Admitir esse suicídio estratégico pode ser difícil. Seria mais confortável supor que as aventuras desastrosas de Trump se baseassem em alguma concepção de interesse nacional americano. Mas não é assim.

Uma superpotência precisa ser um Estado moderno que inclua — por meio do Estado de direito e de outras instituições — um conjunto substancial de cidadãos comprometidos com um projeto comum. A administração Trump, porém, trata seu próprio país não como um Estado moderno, mas como uma oportunidade de negócios para alguns privilegiados.

Uma superpotência também precisa ter uma ideia de interesse nacional. Embora haja divergências sobre como definir esse conceito, o que ninguém esperava era um presidente indiferente ao bem do povo e do Estado. A continuidade do poder depende de um princípio de transmissão da autoridade política. Ao aspirar permanecer no poder indefinidamente e atacar a credibilidade das eleições, Trump coloca em xeque o próprio princípio da sucessão política — e qualquer substituto possível, seja dinástico ou por decisão de um politburo, significaria o fim da república americana.

"Que Tulsi Gabbard, Kash Patel e Pete Hegseth ocupem cargos de inteligência, segurança e defesa é sinal inequívoco de uma superpotência em processo de autodestruição."

Para que um Estado obtenha e conserve poder, é fundamental que as pessoas certas estejam no comando. Ao longo da história, as potências identificaram indivíduos qualificados e os promoveram independentemente de sua origem. A China antiga tinha um sistema de exames. Napoleão elevou o mérito à condição de princípio tanto na vida civil quanto na militar. Os Estados Unidos já tiveram um funcionalismo público invejável e forças armadas altamente meritocráticas. A atual administração desvirtuou o serviço público e purgou os altos escalões militares — um processo conduzido por pessoas sem qualificação para os cargos que ocupam.

No plano mais profundo, uma superpotência precisa de um sistema educacional capaz de preparar sua população e seus líderes para os desafios globais. Na América de Trump, a educação pública é privada de recursos, universidades que defendem a liberdade acadêmica são punidas e livros úteis são removidos das bibliotecas escolares.

* * *

A ascensão das grandes potências também se apoiou sobre a ciência. A Mesopotâmia mapeou os céus; Roma aplicou a ciência grega para construir e defender um império; os Estados Unidos se tornaram superpotência graças a instituições estatais de financiamento à pesquisa e à atração de cientistas — frequentemente imigrantes. A administração Trump lançou uma ofensiva impressionante contra esse legado: desfaz investimentos em pesquisa por razões ideológicas, desencoraja a radicação de cientistas no país e contesta descobertas fundamentais, como as mudanças climáticas de origem humana.

Em consequência, o governo paralisou a transição energética americana para subsidiar combustíveis fósseis que já se tornam obsoletos tanto ecológica quanto economicamente. Como demonstra o livro prestes a ser publicado — The Co-Creation, da bióloga Olivia Judson — as sociedades que adotam novas formas de energia prosperam; as demais fracassam. Talvez seja a verdade mais profunda da história humana, e isso torna a decisão de Trump um erro existencial que acelerará a perda de relevância dos Estados Unidos e fortalecerá a posição da China, superpotência mundial em energias limpias.

O mesmo se aplica às tecnologias que sustentam o poder militar. Os Estados Unidos sempre investiram cifras astronômicas em armamento, mas este governo prioriza equipamentos do passado — por exemplo, novos navios de guerra que levarão o nome de Trump. O plano é pura fantasia: mesmo que sejam construídos, serão totalmente inadequados para a guerra moderna, da qual o conflito ultratecnológico entre Rússia e Ucrânia oferece um primeiro vislumbre.

A guerra na Ucrânia é um exemplo claro do desprezo da administração Trump pela diplomacia e de sua preferência por "negociar acordos". Há evidências fartíssimas de que Trump não sabe negociar — e isso inclui sua submissão ao presidente russo Vladimir Putin. Além disso, maltrata e marginaliza aliados dos Estados Unidos por razões puramente pessoais. Sem uma noção de interesse nacional, não há como compreender a utilidade das alianças nem apreciar o sistema internacional — as leis, regras e normas que sustentaram a primazia global americana.

O que nos traz de volta ao Irã. Nas disputas internacionais, as superpotências vencem ao menos parte do tempo. A administração Trump perde repetidamente. A guerra contra o Irã é uma derrota estratégica inequívoca: se os Estados Unidos tinham algum objetivo nela, não o alcançaram. As políticas de Trump deixaram mais urânio enriquecido nas mãos de um regime iraniano mais intransigente e provido de novas fontes de poder econômico — controle do Estreito de Ormuz e capacidade de intimidar os Estados do Golfo —, ao mesmo tempo que eliminaram quase qualquer possibilidade de influência americana sobre a sociedade iraniana.

Por fim, muitos Estados perdem poder porque simplesmente não conseguem mais sustentá-lo. Pela primeira vez desde 1945, a dívida nacional americana supera seu PIB. A comparação é reveladora: um déficit elevado é normal diante de um desafio como a Segunda Guerra Mundial. O governo Trump, porém, acumula déficits por uma razão completamente diferente: para não cobrar impostos de pessoas e empresas ricas. A concepção do Estado como serviço para os ultra-ricos é incompatível com vencer guerras ou com manter os serviços sociais que permitem o funcionamento de uma sociedade moderna.

Já não faz sentido falar em reformas pontuais, pois o suicídio da superpotência americana sob Trump é sintoma de desigualdades e distorções democráticas que tornaram possível uma pantomima estratégica sem precedentes na história. O que fez dos Estados Unidos uma superpotência também viabilizou esta tentativa de autodestruição. Em vez de buscar o retorno ao status quo anterior, é necessário um esforço vigoroso para reestruturar a política americana de modo que confira à cidadania mais poder para construir um futuro mais justo.

Timothy Snyder (Ohio, EUA, 1969) é professor na Universidade de Toronto. Especialista em Europa Central e Oriental, é autor de cerca de vinte livros, entre eles Sobre a Tirania (Galaxia Gutenberg, 2017) e Sobre a Liberdade (Galaxia Gutenberg, 2024).

Tradução: Equipe O Tecido. Copyright: Project Syndicate, 2026. www.project-syndicate.org

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