Caderno Política · Internacional

A Suécia amanheceu nesta segunda-feira com um Parlamento dividido por uma margem mínima, mas com um sinal político mais nítido do que o resultado numérico sugere. Com 94,7% das urnas apuradas, o bloco de centro-esquerda liderado pelo Partido Social-Democrata soma 176 das 349 cadeiras do Riksdag, uma a mais do que o necessário para a maioria absoluta, contra 173 da coalizão de direita que governa o país desde 2022.1 A diferença entre os blocos é de cerca de 28 mil votos, com ainda 200 mil papeletas por contar, incluindo o voto no exterior, o que deve adiar o resultado definitivo para quarta ou quinta-feira.1

À frente da coligação está Magdalena Andersson, ex-primeira-ministra entre 2021 e 2022 e primeira mulher a ocupar o cargo no país escandinavo. Seu partido obteve cerca de 28% dos votos, novamente a força mais votada isoladamente, algo que se repete em toda eleição parlamentar sueca desde 1917.1 Ainda assim, o resultado social-democrata fica abaixo dos 30,3% conquistados em 2022, compensado por um desempenho um pouco melhor de seus parceiros de bloco, o Partido de Esquerda, os Verdes e o Partido de Centro.1

Cadeiras no Riksdag (349 no total, 175 para maioria) 176 Bloco de esquerda 173 Bloco de direita 175 (maioria) 62 Demokraterna (SD) 70 Conservadores (M)

Apuração parcial (94,7%) da eleição parlamentar sueca de 13 de setembro de 2026. Fonte: Autoridade Eleitoral da Suécia.

Quem é Magdalena Andersson e o que muda com sua eventual volta

Economista formada pela Stockholm School of Economics, Andersson comandou o Ministério da Fazenda sueco por sete anos antes de assumir a liderança do Partido Social-Democrata em 2021. Sua primeira passagem pelo cargo de primeira-ministra durou pouco mais de um ano, encerrada justamente pela derrota nas urnas de 2022, quando os social-democratas venceram no voto mas perderam a maioria parlamentar para uma coligação de direita apoiada, sem integrar formalmente o governo, pelo partido de extrema direita Demokraterna da Suécia (SD).1

Se a vantagem atual se confirmar na apuração final, Andersson terá pela frente semanas, possivelmente meses, de negociação para formar governo. O Partido de Esquerda já sinalizou que exigirá espaço no Executivo, enquanto o Partido de Centro descartou publicamente qualquer aliança que inclua os pós-comunistas, condição que promete tensionar a montagem da coalizão.1 Nesta campanha, Andersson também deslocou o discurso social-democrata para a direita em temas sensíveis, mantendo a política migratória restritiva herdada do governo Kristersson e propondo penas mais duras contra o crime organizado, um sinal de como a agenda de segurança pública passou a atravessar todo o espectro partidário sueco.

"Ou teremos uma maioria mínima, ou vai faltar uma cadeira." Ulf Kristersson, primeiro-ministro conservador, na madrugada de segunda-feira, reconhecendo a incerteza do resultado.

O recuo inédito da extrema direita

O dado mais discutido da noite eleitoral não foi a vitória social-democrata, mas o desempenho do Demokraterna da Suécia. Depois de crescer em todas as eleições desde que Jimmie Åkesson assumiu a liderança em 2005, e de ter alcançado a segunda posição nacional em 2022 com 20,5% dos votos, o partido caiu para cerca de 17,5%, superado pelos conservadores do primeiro-ministro Kristersson.1 É a primeira vez em mais de uma década que o SD perde terreno relativo dentro do próprio bloco que ajudou a sustentar no poder.

Parte da explicação está na própria coalizão governista. Ao longo do mandato, os partidos de direita endureceram a legislação migratória sueca a ponto de torná-la uma das mais restritivas da União Europeia, incorporando bandeiras historicamente associadas ao SD.1 Analistas ouvidos pela imprensa europeia descrevem o fenômeno como um esvaziamento da vantagem competitiva da extrema direita: quando o centro-direita absorve a pauta, o voto de protesto perde parte de sua razão de ser.2 A Suécia aprovou ainda neste mandato uma lei que permite revogar autorizações de residência por "mau comportamento" e chegou a discutir a chamada "promessa sueca", que abriria as portas do primeiro escalão do governo ao SD em caso de vitória da direita, um passo inédito na política sueca do pós-guerra.3

Mesmo em recuo, porém, o SD permanece como terceira força nacional, à frente de partidos tradicionais como liberais e cristão-democratas, e segue essencial para qualquer maioria de direita no Riksdag. Não se trata, portanto, de um colapso eleitoral, mas de uma correção de rota dentro de um espaço político que continua relevante.

O que isso diz sobre a Europa e sobre o Brasil

O resultado sueco se soma a um quadro europeu heterogêneo, em que legendas de extrema direita seguem crescendo em países como Alemanha, França e Países Baixos, mas encontram limites quando partidos de centro-direita absorvem parte de sua pauta migratória e de segurança.2 Para a social-democracia europeia, a possível volta de Andersson ao poder é significativa: entre os 27 países da União Europeia, apenas Espanha, Dinamarca e Malta têm hoje um chefe de governo dessa família política.1

Para o leitor brasileiro, o episódio sueco oferece um contraste instrutivo com a própria trajetória institucional do país. Enquanto o sistema parlamentarista sueco distribui o poder entre blocos que precisam negociar coalizões cadeira a cadeira, o presidencialismo de coalizão brasileiro concentra a barganha em torno do Executivo eleito, e o embate entre agendas de centro e extrema direita no Brasil passou, nos últimos anos, menos pelas urnas parlamentares e mais pelo enfrentamento direto entre o Executivo e as instituições de controle, como o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral. Pesquisadores brasileiros que estudam o tema, como os autores ligados à Fundação Getulio Vargas, argumentam que a resiliência de cada democracia diante do avanço de agendas de extrema direita depende menos de um padrão único e mais do desenho institucional específico de cada país, do papel do Judiciário e da disposição do centro-direita em erguer ou não um cordão sanitário. A eleição sueca, nesse sentido, funciona como um teste em tempo real de até que ponto a absorção de pautas da extrema direita pelo centro-direita contém, ou apenas normaliza, seu avanço.

Os próximos passos

A apuração final só deve ser concluída na quarta ou quinta-feira desta semana, quando forem contabilizados os votos no exterior e parte do voto antecipado, que bateu recorde neste pleito: mais de 3,6 milhões dos 8 milhões de suecos aptos a votar antecipavam seu voto, 30% a mais do que em 2022.1 Somente depois desse fechamento começam, formalmente, as negociações de governo, processo que na Suécia recente já se estendeu por mais de quatro meses, como ocorreu na formação de 2018.

Contraponto: uma vitória ainda reversível

A margem de apenas três cadeiras, sujeita a alteração até o fechamento total da apuração, é estreita o bastante para que o resultado final inverta o bloco vencedor, como já ocorreu em eleições suecas recentes. Mesmo em recuo, o Demokraterna da Suécia mantém quase um quinto do eleitorado e segue como peça indispensável para qualquer maioria de direita, o que significa que sua influência sobre a agenda migratória e de segurança pública dificilmente desaparece, independentemente de quem governe. Ler o resultado como uma derrota definitiva da extrema direita sueca seria, portanto, uma simplificação.

Este artigo usa como referência principal a reportagem "El bloque de la izquierda se perfila como vencedor en Suecia con casi el 95% del voto escrutado", publicada pelo jornal El País em 13 de setembro de 2026, com apuração e contextualização independentes de O Tecido.

Perguntas frequentes

Quem venceu a eleição parlamentar da Suécia em 2026?

Com 94,7% dos votos apurados, o bloco de centro-esquerda liderado pelo Partido Social-Democrata de Magdalena Andersson soma 176 das 349 cadeiras do Riksdag, contra 173 da coalizão de direita que governava o país desde 2022.

O que aconteceu com o partido de extrema direita sueco nesta eleição?

O Demokraterna da Suécia (SD), de Jimmie Åkesson, obteve cerca de 17,5% dos votos e perdeu a segunda posição nacional para os conservadores do Partido Moderado, recuando pela primeira vez em mais de uma década de crescimento contínuo.

Quando sai o resultado definitivo da eleição sueca?

A apuração completa, incluindo o voto no exterior e parte do voto antecipado, só deve ser concluída na quarta ou quinta-feira seguinte ao pleito de 13 de setembro de 2026.

Magdalena Andersson já foi primeira-ministra antes?

Sim. Ela governou a Suécia entre novembro de 2021 e outubro de 2022, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo no país, antes de perder o poder para a coalizão de direita nas eleições de 2022.