Reportagem baseada em cobertura original de El País, assinada por Carlos Torralba em Estocolmo (14 de setembro de 2026). Leia o texto integral em espanhol: "Por qué la ultraderecha baja en Suecia mientras avanza en Europa". Esta análise usa a reportagem como ponto de partida, soma fontes independentes e desenvolve o contraponto europeu e brasileiro.

A noite eleitoral de domingo em Estocolmo devolveu algo que a Suécia não via desde a fundação dos Democratas Suecos, em 1988: o partido de ultradireita perdeu votos numa eleição parlamentar1. Com quase todo o escrutínio concluído, o bloco de centro esquerda liderado pela ex primeira ministra socialdemocrata Magdalena Andersson abriu uma vantagem apertada sobre a coalizão de direita que governa o país desde 2022, e que dependia justamente do apoio parlamentar dos ultranacionalistas de Jimmie Åkesson2.

Um resultado que rompe quatro anos de avanço

Em 2022, os Democratas Suecos haviam feito sua melhor campanha histórica, com 20,5% dos votos e a segunda posição no Parlamento, atrás apenas dos socialdemocratas. Dessa vez, as apurações indicam uma queda para a faixa de 17% a 18%, o suficiente para o partido ser ultrapassado novamente pelos Moderados do primeiro ministro Ulf Kristersson13. A diferença entre os dois blocos ficou em poucos assentos, e a Autoridade Eleitoral sueca só deve confirmar o resultado definitivo nesta quarta feira, quando entram na contagem os votos do exterior e parte do voto antecipado.

O resultado chama atenção justamente por ir na direção oposta à de boa parte da Europa em 2026. Enquanto os suecos reduziram o apoio à sua legenda ultranacionalista mais antiga, a Alemanha assistiu, apenas uma semana antes, à vitória histórica da Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições regionais da Saxônia Anhalt, com cerca de 44% dos votos, o melhor desempenho do partido em qualquer pleito desde sua criação4.

Por que os suecos moderados absorveram a pauta dos ultras

A explicação mais repetida entre analistas suecos aponta para um fenômeno de cooptação programática. Depois do acordo de 2022, que rompeu décadas de isolamento político dos Democratas Suecos e os transformou em sustentáculo externo do governo, os Moderados e os Democratas Cristãos passaram a incorporar boa parte da agenda migratória e de segurança pública que antes era monopólio da extrema direita1. O cientista político Tommy Möller, da Universidade de Estocolmo, resumiu o efeito à imprensa sueca na noite da eleição: uma "onda de choque" atingiu o partido de Åkesson, que não esperava perder terreno justamente quando exigia pastas ministeriais pela primeira vez.

Some se a isso o desgaste de vínculos de dirigentes do partido com a Rússia, revelados na reta final da campanha, e o quadro ajuda a explicar por que um partido que crescia havia quatro eleições seguidas parou de crescer justamente na hora que mais precisava.

A fuga entre os jovens e um rival ainda mais radical

O sinal mais consistente do desgaste aparece entre os eleitores mais jovens. As eleições escolares suecas, um simulado cívico realizado em todos os institutos do país para estimular o interesse político entre adolescentes, mostraram os Democratas Suecos caindo de 21% para 14% entre 2022 e 20261. No mesmo levantamento, uma dissidência ainda mais radical, a Alternativa pela Suécia, inspirada na alemã AfD, saltou de 0,06% para 1,2% entre os adolescentes, um indício de que parte do eleitorado mais jovem não está migrando para o centro, e sim para uma direita ainda mais extrema.

Democratas Suecos: de recorde a recuo (% de votos) 20,5% 2022 ~17,5% 2026 Para comparar, a AfD alemã saltou de cerca de 20% para 44% na Saxônia Anhalt no mesmo período.
Estimativas de apuração eleitoral, 2022 e 2026. Fontes: El País, France 24 e CNN em Espanhol (ver referências).
"Uma onda expansiva deve estar percorrendo os Democratas Suecos agora mesmo. É um golpe com o qual não contavam." Tommy Möller, professor de Ciência Política da Universidade de Estocolmo

O contraste europeu: onde a ultradireita segue avançando

O recuo sueco é a exceção, não a regra. Na Alemanha, a vitória da AfD na Saxônia Anhalt reacendeu o debate sobre o Brandmauer, o "muro de contenção" que impede partidos tradicionais de formar coalizões com a extrema direita, cada vez mais pressionado a cada eleição regional4. Na França, o Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen aparece como favorito nas pesquisas para a próxima disputa presidencial. Na Itália, o governo de Giorgia Meloni segue consolidado no poder. No Reino Unido, o Reform UK de Nigel Farage cresce nas intenções de voto5.

Há também um contraexemplo que reforça a ideia de que a onda não é linear: em abril de 2026, o partido de centro direita Tisza, de Péter Magyar, derrotou o governo iliberal de Viktor Orbán na Hungria, encerrando dezesseis anos de Fidesz no poder5. O caso húngaro e o sueco sugerem que a extrema direita pode perder força quando enfrenta um adversário disposto a competir diretamente por sua pauta, e não apenas condená la moralmente.

Panorama comparativo: extrema direita na Europa em 2026
PaísPartidoTendência em 2026
SuéciaDemocratas SuecosRecuo, perde 2º lugar
AlemanhaAfDRecorde histórico regional (~44%)
FrançaReagrupamento NacionalFavorito nas pesquisas presidenciais
ItáliaIrmãos da ItáliaGoverno consolidado
Reino UnidoReform UKEm ascensão
HungriaFideszDerrotado pelo centro direita Tisza

Contraponto: nem todo recuo é derrota

Reduzir o resultado sueco a uma vitória automática da moderação seria simplificar demais o quadro. Os Democratas Suecos continuam sendo a segunda maior força do bloco conservador e devem seguir com influência real sobre qualquer governo de direita que se forme. Além disso, a fuga de eleitores jovens para uma sigla ainda mais radical, a Alternativa pela Suécia, mostra que parte do eleitorado não abandonou o campo ultranacionalista: apenas trocou de embalagem. Um recuo eleitoral pontual, sustentado por poucos milhares de votos, não equivale necessariamente a uma reversão estrutural da direita radical na Escandinávia.

O que isso significa para o debate brasileiro

Analistas brasileiros já vinham tratando o avanço europeu da extrema direita como um fator externo capaz de influenciar a política doméstica, sobretudo às vésperas do ciclo eleitoral de 2026. Um artigo do Le Monde Diplomatique Brasil observou que o crescimento da direita radical na Europa e nas Américas tende a repercutir no Brasil, ainda que o quadro doméstico não pareça catastrófico no curto prazo6. Uma análise do laboratório de jornalismo da PUC SP também destacou que partidos de direita populista vêm crescendo em vários países europeus ao mesmo tempo que ganham força discursos nacionalistas e críticas às instituições no Brasil e nos Estados Unidos7.

O caso sueco oferece um dado concreto para esse debate. A estratégia que reduziu o espaço eleitoral dos Democratas Suecos não foi o isolamento político dos ultras, e sim sua absorção parcial pelo campo conservador tradicional, que passou a falar a mesma língua sobre imigração e segurança. É uma lição ambígua: pode significar que partidos de centro direita conseguem esvaziar a extrema direita adotando parte de sua pauta, mas também que a pauta em si venceu, mesmo quando a legenda original perde alguns pontos percentuais nas urnas.

Perguntas frequentes

Os Democratas Suecos perderam a eleição de 2026?

Não exatamente. O partido perdeu votos e a segunda posição entre as legendas suecas, caindo de cerca de 20,5% em 2022 para a faixa de 17% a 18% em 2026, mas seguiu sendo a maior força da extrema direita no país e mantém influência sobre o bloco de direita.

Por que a extrema direita recua na Suécia enquanto avança na Alemanha?

Na Suécia, partidos tradicionais de direita absorveram parte da pauta migratória e de segurança dos ultranacionalistas, reduzindo seu diferencial eleitoral. Na Alemanha, o Brandmauer que isola a AfD de coalizões de governo permanece formalmente em vigor, o que preserva o partido como opção de protesto contra todo o establishment.

Quem é favorita a formar o próximo governo sueco?

A socialdemocrata Magdalena Andersson, ex primeira ministra e líder da oposição desde 2022, desponta como favorita, embora negociações com o Partido do Centro e a legenda La Izquierda (À Esquerda) sejam consideradas difíceis pelas divergências entre os dois.

O resultado sueco já está confirmado?

Não. Até a publicação desta análise, a Autoridade Eleitoral sueca ainda não havia divulgado o resultado definitivo, que depende da contagem de votos do exterior e de parte do voto antecipado, prevista para esta quarta feira.