A esquerda sueca venceu a eleição de 13 de setembro, mas ainda não conseguiu transformar a vitória em governo. Nesta segunda-feira (28), a líder do Partido Social-Democrata, Magdalena Andersson, anunciou que devolveria ao presidente do Parlamento o mandato exploratório que havia recebido apenas dez dias antes. O motivo imediato foi a decisão do Partido da Esquerda, aliado de seu bloco, de votar no conservador Andreas Norlén para mais um período à frente do Riksdag, como relatou o El País1.

O episódio parece um detalhe regimental, mas expõe a contradição central da política sueca em 2026: o bloco de centro-esquerda somou 176 das 349 cadeiras, uma a mais do que o mínimo para a maioria absoluta, e ainda assim não reúne condições de negociar um programa comum. Segundo a Bloomberg, o recuo evidencia como é difícil costurar uma coalizão em um parlamento fragmentado2.

O que aconteceu nesta segunda-feira

Andersson recebeu o encargo em 18 de setembro, depois que o primeiro-ministro Ulf Kristersson, do Partido Moderado, reconheceu a derrota e renunciou3. Nos dias seguintes, sondou os partidos do próprio campo e de fora dele. O golpe veio no domingo, quando o Partido da Esquerda (Vänsterpartiet) anunciou que apoiaria Norlén, parlamentar moderado que preside a Casa desde 2018.

Em entrevista coletiva em Estocolmo, a social-democrata argumentou que existe na Suécia a tradição de que a presidência do Riksdag fique com o maior partido do campo que governa. Ao apoiar o candidato da direita, a Esquerda teria criado, nas palavras dela, uma "nova constelação" no Parlamento, envolvendo a legenda e os moderados, e essa constelação deveria agora ter a oportunidade de tentar formar um governo, de acordo com o relato da NordiskPost com base na emissora pública SVT4.

"Constato que, neste momento, não há possibilidade de eu formar um governo."Magdalena Andersson, líder social-democrata, em Estocolmo

Andersson rejeitou a leitura de que a devolução seria apenas uma manobra para pressionar os demais partidos e não descartou voltar ao posto que já ocupou entre 2021 e 2022. Disse que ainda é preciso ver como a situação evolui nas próximas semanas4.

Por que a presidência do Riksdag pesa tanto

No sistema sueco, quem preside o Parlamento (o talman) não é figura cerimonial. Desde a entrada em vigor do Instrumento de Governo de 1974, é ele, e não mais o monarca, quem indica e destitui o primeiro-ministro5. Cabe ao talman ouvir os líderes partidários, escolher quem conduzirá as sondagens e submeter nomes ao plenário.

Há ainda uma particularidade que confunde observadores estrangeiros. A Suécia pratica o chamado parlamentarismo negativo: o candidato a chefe de governo não precisa do voto favorável da maioria, apenas precisa evitar que 175 deputados votem contra ele. O plenário pode rejeitar até quatro propostas do talman; depois disso, a Constituição exige uma eleição extraordinária em até três meses6. Na prática, isso favorece governos minoritários tolerados por partidos que se abstêm.

Norlén conhece esse roteiro melhor do que ninguém. Em 2018, conduziu a negociação mais longa da história recente do país, que levou mais de quatro meses e incluiu a primeira rejeição formal de um candidato a primeiro-ministro. O site The Local Sweden descreve o talman como uma figura vista em geral como competente e imparcial, mas observa que o apoio da Esquerda a ele também funciona como pressão sobre os social-democratas nas negociações7.

Cadeiras por partido no Riksdag, eleição de 13 de setembro de 2026 Social-Democratas (S)99 Moderados (M)70 Democratas Suecos (SD)62 Esquerda (V)30 Centro (C)25 Democratas-Cristãos (KD)22 Verdes (MP)22 Liberais (L)19 Blocos Oposição 176 Tidö 173 maioria: 175 centro-esquerda direita (partidos de Tidö)
Distribuição das 349 cadeiras do Riksdag após a eleição de 13 de setembro de 2026. Fontes: Sveriges riksdag e compilações de resultados oficiais. Elaboração: O Tecido.

Uma maioria que não se senta à mesma mesa

A vitória do centro-esquerda nasceu dividida. De um lado, o Partido da Esquerda exige participar do Executivo. De outro, o Partido do Centro, que integrou o bloco de direita por anos, recusa qualquer governo que inclua a Esquerda, como detalhou o El País1. O Centro também mantém o veto a qualquer acordo com os Democratas Suecos, legenda de extrema direita que sustentou Kristersson na legislatura passada.

Os números ajudam a entender por que o impasse é tão difícil. Os social-democratas continuam sendo, com folga, a maior força do país, com 28% dos votos, mas o jornal espanhol lembra que se trata do pior resultado da legenda em quase um século1. A Esquerda subiu para 8,4% e o Centro para 7%, segundo a Fundação Europeia de Estudos Progressistas (FEPS)8. Os dois parceiros cresceram justamente enquanto o partido de Andersson encolhia, o que aumenta o preço que cada um cobra para apoiar o governo.

A análise da FEPS sugere que a eleição foi decidida por um grupo relativamente pequeno de eleitores liberais e centristas que migraram da direita para a esquerda, em boa medida por receio dos Democratas Suecos8. O pleito foi lido como um plebiscito sobre a disposição de Kristersson de levar a extrema direita para dentro do governo, e os Democratas Suecos caíram cerca de três pontos, para 17,5%, perdendo o posto de segunda força para os moderados.

Há também o fator externo. Desde a adesão à Otan, a Suécia discute os maiores orçamentos de defesa em décadas, e a Esquerda resiste a parte desse gasto, tensão apontada pelo Eastern Herald já no dia em que Andersson recebeu o mandato3.

Contraponto

A leitura do Partido da Esquerda

A líder da Esquerda, Nooshi Dadgostar, rejeitou a ideia de que seu partido tenha formado um novo bloco com os moderados. Segundo a agência teleSUR, ela justificou o voto pela longa experiência de Norlén no cargo e na condução de negociações de governo9. Ao jornal Expressen, citado pelo El País, afirmou que o talman merecia um terceiro mandato por ter conduzido negociações anteriores com dignidade1.

Há ainda um argumento institucional a favor dessa posição: o talman sueco, embora indicado por partidos, deve agir com neutralidade, e reconduzir um nome testado em crises anteriores pode reduzir a incerteza de um processo que promete ser longo. Críticos de Andersson, por sua vez, observam que devolver o mandato também transfere o desgaste para a direita, que agora terá de provar que consegue algo que os números não indicam.

Os cenários a partir daqui

Com o mandato devolvido, a bola volta para o talman. O nome mais provável para a próxima rodada de sondagens é o do próprio Kristersson, primeiro-ministro interino, segundo a análise da The Local repercutida pela imprensa internacional7. O problema é aritmético: o bloco de Tidö, que reúne moderados, democratas-cristãos, liberais e o apoio dos Democratas Suecos, tem 173 cadeiras, e uma oposição unida bastaria para derrubar qualquer indicação.

  • Kristersson tenta e fracassa. É o cenário que devolveria a iniciativa a Andersson com o argumento reforçado de que a direita também não tem maioria.
  • Governo minoritário tolerado. Como o sistema sueco exige apenas que a maioria não vote contra, um gabinete social-democrata sozinho ou com os Verdes pode sobreviver com abstenções negociadas, fórmula usada em janeiro de 2019.
  • Rearranjo de alianças. A "nova constelação" citada por Andersson é, por ora, mais retórica do que programática, mas o episódio mostra que os blocos já não funcionam como unidades estáveis.
  • Eleição extraordinária. Só ocorre após quatro rejeições no plenário. A Suécia não realiza uma eleição antecipada desde 1958, o que torna o desfecho improvável, mas não impossível.

O que a crise sueca diz ao leitor brasileiro

A comparação com o Brasil é tentadora e exige cuidado. Aqui, o chefe do Executivo é eleito diretamente e não depende de um voto do Congresso para assumir. Mas a lógica que o cientista político Sérgio Abranches batizou em 1988 de presidencialismo de coalizão10 revela uma semelhança de fundo: vencer a eleição e conseguir governar são tarefas distintas, e a segunda depende de construir maiorias entre partidos com agendas divergentes.

O caso sueco também ilumina a importância das presidências das casas legislativas, tema recorrente no debate brasileiro. Na Suécia, o talman escolhe quem tenta formar governo. No Brasil, o comando da Câmara dos Deputados define a pauta do plenário e decide sobre o andamento de pedidos de impeachment, prerrogativa que faz da eleição da Mesa Diretora um dos momentos de maior barganha da legislatura. Em ambos os casos, quem controla o procedimento influencia o resultado político.

A diferença mais instrutiva está na forma de lidar com o impasse. A regra sueca das quatro votações cria um prazo e uma consequência clara, a volta às urnas, que obriga os partidos a calcular o custo da intransigência. A uma semana do primeiro turno das eleições gerais brasileiras, marcado para 4 de outubro, a experiência de Estocolmo serve de lembrete de que a aritmética parlamentar costuma importar tanto quanto o placar da noite da apuração.

Perguntas frequentes

Por que Magdalena Andersson desistiu de formar governo na Suécia?

Porque o Partido da Esquerda, aliado de seu bloco, decidiu apoiar o conservador Andreas Norlén para presidir o Riksdag. Andersson entendeu que isso criou uma nova configuração parlamentar e concluiu que não havia, naquele momento, condições de formar um governo.

Quem venceu a eleição sueca de 2026?

O bloco de centro-esquerda, formado por social-democratas, Esquerda, Verdes e Centro, conquistou 176 das 349 cadeiras, contra 173 do bloco de direita. Os social-democratas foram o partido mais votado, com 28% dos votos.

Como se escolhe o primeiro-ministro na Suécia?

O presidente do Parlamento (talman) propõe um nome ao plenário. O candidato é aprovado se a maioria absoluta dos 349 deputados não votar contra ele, sistema conhecido como parlamentarismo negativo.

A Suécia pode ter novas eleições?

Sim, mas apenas se o Parlamento rejeitar quatro propostas de primeiro-ministro. Nesse caso, a Constituição determina uma eleição extraordinária em até três meses. O país não realiza uma desde 1958.

Andersson ainda pode se tornar primeira-ministra?

Pode. A devolução do mandato encerra apenas a primeira tentativa. Se Kristersson ou outro candidato não reunir apoio suficiente, o talman pode voltar a indicá-la.

Este artigo tem como ponto de partida a reportagem "La socialdemócrata Magdalena Andersson renuncia a formar Gobierno en Suecia", publicada pelo El País em 28 de setembro de 2026 e disponível em elpais.com. Trechos atribuídos ao jornal foram parafraseados e creditados. A análise, o contexto adicional e o ângulo brasileiro são de responsabilidade de O Tecido, com base em fontes independentes listadas nas referências.