Política · Internacional · Guerra na Ucrânia
Na madrugada de quarta-feira (14), drones ucranianos começaram a perder conexão em pleno voo. Horas depois, o principal diplomata da Ucrânia em Washington, Denys Sienik, enviou a parlamentares americanos um alerta urgente: as forças do país enfrentavam, sem aviso, restrições no acesso aos terminais militares do Starlink, e Kiev não sabia o motivo. O relato foi publicado pelo The Wall Street Journal[1], que descreve um governo ucraniano já trabalhando com a hipótese mais grave: a de que o presidente Donald Trump teria pedido a Elon Musk, dono da SpaceX, que limitasse o serviço. Até o fechamento deste texto, nenhuma evidência independente confirmava essa suspeita.
O episódio é o capítulo mais recente de uma deterioração acelerada entre Washington e Kiev. Em menos de uma semana, Trump fechou com Vladimir Putin um acordo para liberar exportações de diesel russo, sugeriu publicamente que a Ucrânia troque de presidente e anunciou um "cessar-fogo energético" que a Rússia descumpriu poucas horas depois. A soma desses movimentos reabre uma pergunta que o Brasil também deveria fazer a si mesmo: o que acontece quando infraestrutura crítica depende de um fornecedor estrangeiro sujeito a cálculos políticos alheios?
O que aconteceu com o Starlink militar na Ucrânia
Segundo autoridades ucranianas ouvidas pela Axios[3], a SpaceX impôs as restrições na noite de terça-feira (13). O alvo foi o Starshield, a versão militar do Starlink destinada a governos. De acordo com Serhii Beskrestnov, assessor de tecnologia de defesa de Volodymyr Zelensky, o limite foi fixado em 100 milhas por hora, cerca de 160 km/h, conforme reportou a CNBC[4]. Acima dessa velocidade, o terminal perde comunicação com veículos e equipamentos militares, explicou uma fonte à CNN[2].
A velocidade não é um detalhe técnico. Drones interceptadores, usados para derrubar drones russos movidos a jato, e drones de longo alcance operam justamente acima dessa faixa. A agência Reuters, citada pela Forbes[6], relatou que operações foram canceladas e que alguns drones ficaram sem conexão por até 20 segundos mesmo a velocidades menores, entre 110 e 120 km/h. Para Beskrestnov, o Starlink era a solução mais eficaz disponível para interceptar drones, segundo a ABC australiana[5].
O momento agravou a desconfiança. As restrições surgiram horas depois de os militares ucranianos não receberem o alerta antecipado de um ataque com mísseis balísticos russos. Zelensky afirmou que foi a segunda vez na mesma semana em que parceiros não avisaram Kiev a tempo. O Washington Post[7] registrou a confusão em Kiev sobre se os Estados Unidos já teriam começado a restringir inteligência e ajuda militar. Na mesma madrugada, outro ataque russo à infraestrutura energética deixou mais de 600 mil pessoas sem luz, segundo Zelensky.
Quem controla o Starshield, afinal
A SpaceX não comentou o caso. Musk, porém, publicou nas redes sociais que os sistemas Starshield pertencem ao governo americano e são controlados por ele, e que limites de velocidade ou de uso são decididos pelas Forças Armadas dos EUA e, em última instância, pelo presidente. Ele não mencionou a Ucrânia. A Casa Branca se recusou a responder perguntas sobre o tema, segundo o WSJ[1], enquanto um alto funcionário americano disse à Axios[3] que o governo não teve nada a ver com as limitações.
A declaração de Musk transfere a responsabilidade para Washington sem confirmar nem negar a origem da ordem. A Euronews[8] ressalta que não há prova independente de que a Casa Branca tenha determinado a mudança, e o Kremlin disse não ter informações. O que se sabe é que a dependência ucraniana desse serviço tem história. Em 2023, senadores democratas pediram explicações ao Pentágono depois de relatos de que Musk teria impedido o uso do Starlink em uma operação contra navios russos na Crimeia, como noticiou a NBC News[9]. A Polônia, por sua vez, informou que paga cerca de US$ 50 milhões por ano pelo serviço fornecido à Ucrânia, e seu chanceler, Radosław Sikorski, voltou a criticar Musk publicamente.
Da reunião na ONU ao acordo do diesel
A tensão atual começou em 22 de setembro, no encontro entre Trump e Zelensky à margem da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Segundo o WSJ[1], Trump cobrou do ucraniano explicações sobre os ataques a refinarias russas, peça central da estratégia de Kiev para drenar as receitas que financiam a guerra. Analistas estimam que a campanha de drones tenha tirado de operação entre 40% e 50% da capacidade de refino russa. Um funcionário americano disse à Axios[10] que Washington pediu meia dúzia de vezes que os ataques parassem. Kiev respondeu que aceitaria uma trégua energética recíproca, mas Moscou recusou.
No dia 9 de outubro, em Miami, Jared Kushner e o enviado Steve Witkoff comunicaram a negociadores ucranianos e europeus que Trump pretendia falar com Putin e suspender sanções ao diesel russo. Naquele mesmo dia, depois de uma ligação de 90 minutos com o Kremlin, Trump anunciou que a Rússia passaria a fornecer 300 mil toneladas de diesel de imediato, outras 500 mil em novembro e 1 milhão de toneladas na sequência, segundo o The Hill[11]. O Departamento do Tesouro emitiu uma licença temporária flexibilizando as sanções. A reação de Zelensky foi resumida em uma frase: presentes a Putin não trarão paz.
No dia seguinte, questionado sobre os riscos do acordo para a população ucraniana, Trump sugeriu que o país arranjasse um novo líder capaz de fechar um acordo, conforme a CNN[12]. Zelensky respondeu com uma contraproposta pública: um "acordo do diesel" com a própria Ucrânia, no qual Kiev suspenderia os ataques a refinarias se Washington garantisse que Moscou parasse de bombardear a rede elétrica ucraniana. Ele também estimou em 2,2% o peso russo no mercado global de diesel, número que usou para contestar o argumento de que o acordo baixaria preços, segundo o Kyiv Post[13]. Analistas de energia, por sua vez, atribuem a alta do diesel principalmente à guerra envolvendo o Irã e ao bloqueio do Estreito de Ormuz.
Um cessar-fogo anunciado e violado no mesmo dia
No domingo (11), Trump declarou em sua rede social um cessar-fogo energético "com efeito imediato", afirmando que ambas as partes haviam concordado. Horas depois, uma usina termelétrica em Kharkiv foi atingida duas vezes, segundo autoridades locais ouvidas pela ABC News[14]. No Fórum de Segurança de Varsóvia, na segunda-feira, Zelensky disse que soube do acordo pela imprensa, e o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, limitou-se a afirmar que os contatos continuavam, sem confirmar a adesão russa, conforme a Associated Press[15].
Não é a primeira vez. Em março de 2025, um cessar-fogo parcial sobre alvos energéticos, negociado após telefonema entre Trump e Putin, também foi seguido de ataques russos na mesma noite. Diante do impasse, Zelensky disse ao Financial Times, segundo relato do WSJ[1], que a Ucrânia retomará os ataques a refinarias.
"Se começarmos a apagar a Ucrânia, haverá consequências."Deputado Brian Fitzpatrick (Republicano, Pensilvânia), ao The Wall Street Journal
A fissura republicana a três semanas das eleições
A frase acima, do deputado Brian Fitzpatrick, que disputa uma reeleição apertada, sintetiza a mudança de humor no Capitólio. Segundo o WSJ[1], ele indicou que o Congresso pode reter recursos de agências federais caso se comprove que o governo americano limitou o acesso ucraniano ao Starlink militar. Além dele, candidatos republicanos ao Senado em disputas competitivas, como Ashley Hinson, em Iowa, e Mike Rogers, em Michigan, criticaram o acordo do diesel, assim como os senadores e deputados em fim de mandato Thom Tillis e Don Bacon. Parlamentares ouvidos pelo jornal afirmam ainda que o acordo contraria uma lei de 2022 que exige consulta prévia ao Congresso antes da importação de energia russa.
Com as eleições de meio de mandato marcadas para 3 de novembro, o tema deixa de ser apenas diplomático. Parte do partido defende o acordo como alívio ao consumidor americano pressionado pelo preço dos combustíveis; outra parte o trata como uma concessão gratuita a um líder sem interesse real na paz.
Contraponto
O argumento da Casa Branca
Integrantes do governo Trump sustentam que o presidente é o único interlocutor capaz de conversar simultaneamente com Putin e Zelensky. A estratégia descrita por eles tem duas etapas: primeiro reduzir a intensidade dos combates, depois levar a Moscou uma oferta de benefícios econômicos e políticos condicionada a um cessar-fogo duradouro. Nessa leitura, o diesel funciona ao mesmo tempo como alívio ao consumidor americano e como incentivo para trazer o Kremlin de volta à mesa.
O governo também argumenta que Kiev ignorou pedidos reiterados para suspender ataques que, na visão de Washington, pressionam preços globais de energia. Um funcionário americano afirmou à Axios que Zelensky estaria "lendo mal a sala" ao continuar os ataques. Quanto ao Starlink, a administração nega participação, e até agora não há prova em contrário. Em nota, a Casa Branca disse que Trump segue comprometido com um papel construtivo e otimista quanto a um acordo de paz.
O que o episódio significa para o Brasil
O Brasil não é parte do conflito, mas está exposto às duas alavancas que aparecem nesta crise: diesel russo e conectividade via Starlink.
Dependência do diesel russo
O país importa entre 25% e 30% do diesel que consome. Em 2025, quase metade dessas importações (47,1%) veio da Rússia, segundo dados citados pela Petrobras à agência ANSA[16]. Com a guerra no Oriente Médio, a fatia cresceu: em março e abril de 2026, 81,25% do valor importado veio de Moscou, segundo levantamento da Agência Brasil reproduzido pela Datamar News[17].
O efeito do acordo entre Trump e Putin sobre o Brasil ainda é incerto, e convém tratá-lo como hipótese. Por um lado, mais diesel russo circulando legalmente pode aliviar o mercado global. Por outro, o desconto que tornou o produto atraente para importadores brasileiros existe em boa parte porque, sob sanções, a Rússia tinha poucos compradores, como observou a Bloomberg Línea[18]. Se os Estados Unidos entram na fila, a disputa por esses barris aumenta. Em julho, a própria Petrobras já alertava que uma oferta russa menor intensificaria a competição pelos volumes disponíveis, com risco de alta para importadores.
Dependência do Starlink
No campo da conectividade, a exposição é ainda mais direta. O Brasil é o segundo maior mercado do Starlink no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e a empresa detinha 77,3% dos acessos de internet via satélite em fevereiro de 2026, segundo dados da Anatel compilados pelo site Basenor[19]. Comunidades remotas da Amazônia e serviços públicos municipais dependem do sistema, como mapeou o projeto Sky Commons, da Open Knowledge Foundation[20].
A própria Anatel reconheceu o problema. Em abril de 2025, ao aprovar a expansão da constelação para quase 12 mil satélites, a agência emitiu um alerta regulatório sobre concentração de mercado, sustentabilidade espacial e soberania digital, com relatório previsto para o segundo semestre de 2026. A autorização atual da SpaceX vence em 2027. O Brasil também já viveu o lado político dessa dependência: em 2024, durante o embate entre o STF e a plataforma X, os ativos do Starlink no país foram bloqueados porque as autoridades trataram as duas empresas de Musk como parte do mesmo grupo econômico.
A lição ucraniana não é que o Starlink seja um fornecedor ruim. É que, quando um único operador concentra um serviço essencial, quem controla esse operador, seja uma empresa ou um governo estrangeiro, passa a ter uma alavanca sobre decisões que deveriam ser soberanas. A renovação da licença em 2027 é a próxima oportunidade concreta para o país discutir redundância.
O que observar nas próximas semanas
- Pentágono: se o Departamento de Defesa confirma, explica ou reverte o limite imposto ao Starshield.
- Congresso: se republicanos transformam a ameaça de Fitzpatrick em retenção efetiva de recursos.
- Licença do Tesouro: por quanto tempo vale a flexibilização das sanções ao diesel russo.
- Cessar-fogo energético: se a Rússia formaliza a adesão e se a Ucrânia de fato retoma ataques a refinarias.
- Eleições de 3 de novembro: o peso da política para a Ucrânia em disputas apertadas no Senado e na Câmara.
- Brasil: preço e origem do diesel importado e o relatório da Anatel sobre satélites de baixa órbita.
Perguntas frequentes
O que é o Starshield e por que a Ucrânia depende dele?
O Starshield é a versão militar e governamental do Starlink, a rede de satélites de órbita baixa da SpaceX. A Ucrânia usa o sistema para comunicação no front, coleta de inteligência, operação de drones interceptadores e ataques de longo alcance. Um contrato com o Pentágono ampliou o acesso ucraniano a cerca de 3 mil terminais desse tipo.
Quem limitou o Starlink militar na Ucrânia em outubro de 2026?
Não há confirmação oficial. Autoridades ucranianas atribuem a mudança à SpaceX. Elon Musk afirmou que limites no Starshield são definidos pelas Forças Armadas americanas e, em última instância, pelo presidente dos EUA. A Casa Branca não respondeu, e um alto funcionário americano negou envolvimento do governo.
Qual é a restrição imposta ao Starlink na Ucrânia?
Segundo o assessor ucraniano Serhii Beskrestnov, o Starshield passou a cortar a conexão de equipamentos que se deslocam acima de 100 milhas por hora (cerca de 160 km/h), faixa em que operam drones interceptadores e de longo alcance.
O que é o acordo do diesel entre Trump e Putin?
Anunciado em 9 de outubro de 2026, o acordo prevê que a Rússia forneça 300 mil toneladas de diesel de imediato, 500 mil em novembro e 1 milhão depois, com flexibilização temporária de sanções pelo Tesouro americano. Zelensky criticou a medida por financiar o esforço de guerra russo.
O cessar-fogo energético entre Rússia e Ucrânia está em vigor?
Trump o anunciou em 11 de outubro, mas a Rússia atacou uma usina em Kharkiv horas depois, e o Kremlin não confirmou a adesão. A Ucrânia diz aceitar uma trégua recíproca e afirmou que retomará ataques a refinarias russas.
Como essa crise afeta o Brasil?
O Brasil importa entre 25% e 30% do diesel que consome, e a Rússia respondeu por mais de 80% dessas importações em março e abril de 2026. Além disso, o Starlink concentra mais de três quartos dos acessos de internet via satélite no país, o que levou a Anatel a emitir alerta sobre soberania digital.
Referências
- GRAMER, Robbie; WISE, Lindsay; WALKER, Marcus. "Starlink Suspicions and a Frantic Warning: Inside Trump's Turn on Zelensky". The Wall Street Journal, 15 out. 2026. wsj.com
- CNN. "Ukraine says Starlink restriction disrupting military as Musk claims US controls those systems", 14 out. 2026.
- Axios. "Ukraine's Starlink restrictions raise suspicions of Musk, Trump retaliation", 14 out. 2026.
- CNBC. "Ukraine warns Starlink limits are disrupting military operations as Russia pounds its energy infrastructure", 14 out. 2026.
- ABC News (Austrália). "In Ukraine, the sudden restriction of Elon Musk's Starlink sparks confusion", 15 out. 2026.
- Forbes. "Ukraine Says Musk's SpaceX Is Restricting Its Starlink Military Use", 14 out. 2026.
- The Washington Post. "U.S. warnings sow confusion, alarm in Ukraine over intelligence, Starlink access", 14 out. 2026.
- Euronews. "Starlink terminals operations restricted in Ukraine overnight, adviser to Zelenskyy says", 14 out. 2026.
- NBC News. "Warren, Shaheen and Duckworth want to know if Musk limited Ukraine's Starlink access", set. 2023.
- Axios. "U.S. official: Trump cut deal with Putin after Zelensky ignored his requests", 10 out. 2026.
- The Hill. "Zelensky decries US-Russia diesel deal", 9 out. 2026.
- CNN. "Trump says Ukraine should get a new leader as he spars with Zelensky over US-Russia diesel deal", out. 2026.
- Kyiv Post. "'Let's Sign a Diesel Deal': Zelensky Challenges Trump", out. 2026.
- ABC News (EUA). "Russia strikes power plant in Ukraine after Trump announces energy ceasefire", 11 out. 2026.
- Associated Press / PBS NewsHour. "Zelenskyy says Russia strikes energy facilities despite Trump claim of an energy ceasefire", 12 out. 2026.
- ANSA / ICE. "Brasile, stop diesel russo rischia di aumentare costi import", 16 jul. 2026.
- Agência Brasil / Datamar News. "Russia dominates diesel sales to Brazil amid Iran war", maio 2026.
- Bloomberg Línea. "Menos EUA, mais Rússia: Brasil altera dinâmica de importação de diesel".
- Basenor, com dados da Anatel. "Starlink in Brazil: 5 Numbers That Show How Far It's Come", jul. 2026.
- Open Knowledge Foundation. Sky Commons: Brazil, atualização de março de 2026.
Nota editorial: este artigo é uma análise original de O Tecido. Fatos e declarações atribuídos ao The Wall Street Journal foram resumidos e creditados, com link para a reportagem original; o texto do jornal não foi reproduzido nem traduzido. As demais informações foram verificadas em fontes independentes, citadas ao longo do texto.