Sustentabilidade · Transição Energética

Enquanto boa parte do noticiário climático se resume a recordes de calor e metas descumpridas, um dos ambientalistas mais influentes dos Estados Unidos vem defendendo uma leitura menos comum: a de que a combinação entre energia solar, eólica e baterias já mudou de forma irreversível o jogo geopolítico e sanitário do planeta, não apenas o climático. É essa a tese central do escritor e ativista Bill McKibben, fundador das organizações 350.org e Third Act, em entrevista recente ao jornal espanhol El País por ocasião do lançamento, na Espanha, de seu novo livro sobre o tema.

McKibben argumenta que a energia limpa deixou de ser apenas uma resposta às mudanças climáticas para se tornar também um instrumento de redução de conflitos ligados a combustíveis fósseis e de melhoria da saúde pública, já que substitui a queima de carvão, petróleo e gás por fontes que não emitem poluentes locais. Em entrevista ao El País, ele resume a ideia de forma direta: ao contrário do petróleo, que frequentemente exige rotas marítimas estratégicas e disputadas, a luz do sol não depende de nenhum estreito controlado por potências rivais.

"A luz solar precisa percorrer 150 milhões de quilômetros até a Terra, mas não precisa passar pelo estreito de Ormuz."

A frase resume o argumento central de sua obra mais recente: pela primeira vez em quatro décadas de ativismo climático, existiria uma ferramenta tecnológica e economicamente viável capaz de alterar significativamente a trajetória de emissões globais. Segundo o ativista, a virada ocorreu quando produzir eletricidade solar e eólica se tornou mais barato do que manter usinas a combustíveis fósseis, um cruzamento de custos que analistas do setor elétrico já vinham registrando desde meados da década.

A China como fabricante do mundo

Um dos pontos mais discutidos na entrevista é o papel da China na cadeia produtiva de energia limpa. De acordo com estimativas da Agência Internacional de Energia (IEA) e da consultoria Wood Mackenzie, o país concentra entre 80% e 90% de toda a capacidade mundial de fabricação de polissilício, wafers, células e módulos fotovoltaicos, um domínio que se estende também à produção de baterias de íon-lítio usadas tanto em veículos elétricos quanto em sistemas de armazenamento de energia. Reportagem do Financial Times mostrou que as fábricas chinesas produziram 588 gigawatts (GW) de células solares em um único ano recente, mais do que o dobro da demanda mundial estimada.

Essa escala de produção derrubou os preços internacionais dos equipamentos e, segundo especialistas ouvidos por veículos como a revista Fórum, beneficiou diretamente mercados importadores como o Brasil, que passou a comprar painéis chineses a valores muito inferiores aos praticados há poucos anos. Ao mesmo tempo, o excesso de capacidade instalada gerou prejuízos bilionários para fabricantes chineses, levando Pequim a estudar planos de fechamento de fábricas para reequilibrar o mercado.

O caso do Paquistão: transição sem plano de governo

Outro exemplo citado por McKibben na entrevista ao El País é o do Paquistão, onde a expansão da energia solar não resultou de política pública, mas de decisões individuais de milhões de famílias cansadas de tarifas caras e apagões frequentes. Levantamentos internacionais confirmam a magnitude do fenômeno: o país importou cerca de 16,9 GW em painéis solares chineses somente em 2025, acumulando mais de 55 GW desde 2023, o que o tornou o segundo maior importador mundial de painéis fotovoltaicos naquele ano, atrás apenas dos volumes que chegam à Holanda para redistribuição dentro da União Europeia.

Boa parte dessa capacidade é instalada em telhados residenciais e comerciais, fora dos registros oficiais de geração centralizada, o que torna difícil dimensionar com precisão o real tamanho da revolução energética paquistanesa. Ainda assim, dados setoriais indicam que a energia solar já responde por cerca de um quarto da eletricidade consumida no país durante os meses de pico de geração, e que a chegada recente de baterias de lítio chinesas mais baratas começa a permitir o armazenamento da energia solar para uso noturno, embora o acesso permaneça desigual entre famílias de renda mais baixa.

O que isso significa para o Brasil

O movimento descrito por McKibben tem um paralelo direto na realidade brasileira. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), a fonte solar já responde por cerca de 19,5% da matriz elétrica nacional, com mais de 4 milhões de sistemas instalados em telhados e pequenos terrenos, beneficiando diretamente cerca de 21 milhões de brasileiros. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) projeta ainda que a geração solar centralizada deve crescer 4,56 GW somente em 2026, um avanço de 61,7% em relação ao ano anterior, enquanto a geração distribuída, aquela instalada por consumidores em suas próprias residências e empresas, segue batendo recordes mês a mês.

Contraponto: otimismo tem limites

Nem todos os analistas do setor energético compartilham o otimismo de McKibben quanto à velocidade da transição. Economistas ligados à área de infraestrutura elétrica apontam que o crescimento acelerado da geração solar no Brasil e em outros países tem esbarrado em gargalos de transmissão, já que a rede elétrica nem sempre acompanha o ritmo de novas usinas, gerando episódios de "curtailment" (corte forçado de geração). Há também quem questione a tese de que energia limpa reduza automaticamente conflitos geopolíticos, argumentando que a dependência do petróleo pode simplesmente ser substituída por uma nova dependência de minerais críticos e de tecnologia concentrada majoritariamente na China, o que criaria outro tipo de vulnerabilidade estratégica para países importadores.

Minerais críticos e a próxima fronteira das baterias

Questionado sobre o risco de escassez de matérias-primas como o lítio, McKibben minimiza o problema, argumentando que a quantidade de mineração necessária para energias renováveis é pequena se comparada à exigida por um sistema baseado em combustíveis fósseis, já que uma bateria de lítio pode funcionar por cerca de 25 anos e depois ser reciclada, enquanto o carvão precisa ser extraído continuamente. Ele também menciona o avanço das baterias de sódio, alternativa que usa o sexto elemento mais abundante da crosta terrestre, como resposta tecnológica a eventuais gargalos de lítio.

Esse debate tem eco direto no setor de armazenamento de energia, que vem crescendo em ritmo acelerado globalmente. Reportagens do setor indicam que a capacidade chinesa de armazenamento em baterias saltou de menos de 4 GW há cinco anos para mais de 155 GW atualmente, com meta de alcançar 300 GW até 2030. Nos Estados Unidos, o estado da Califórnia já registra momentos em que baterias conectadas à rede alcançam picos de descarga equivalentes à produção de diversas usinas nucleares de grande porte, embora por períodos limitados de tempo.

Inteligência artificial, ar-condicionado e a próxima demanda por energia

Na entrevista, McKibben também é questionado sobre o aumento do consumo energético provocado pela expansão da inteligência artificial. Ele pondera que o crescimento da demanda para refrigeração de ambientes em razão do aquecimento global tende a superar, em volume, o consumo adicional gerado por data centers de IA nas próximas décadas, embora reconheça que empresas de tecnologia americanas têm optado por construir novas usinas a gás para abastecer seus centros de processamento, uma escolha que ele classifica como míope do ponto de vista climático.

Perguntas frequentes

Energia solar já é mais barata que combustíveis fósseis?

Sim, em grande parte do mundo. Segundo especialistas do setor, a partir de meados da década de 2020 produzir eletricidade solar e eólica passou a custar menos do que operar usinas movidas a carvão, petróleo ou gás natural em diversas regiões, embora o custo final ao consumidor dependa também de fatores como infraestrutura de transmissão e política tarifária local.

Qual a participação da China na fabricação de painéis solares?

Estimativas da Agência Internacional de Energia e da consultoria Wood Mackenzie indicam que a China concentra entre 80% e 90% da capacidade mundial de fabricação de polissilício, células e módulos fotovoltaicos, além de dominar boa parte da cadeia produtiva de baterias de íon-lítio.

Por que o Paquistão é citado como exemplo de transição energética?

Porque o crescimento da energia solar no país ocorreu de forma descentralizada, puxado por famílias e empresas que buscaram reduzir custos com eletricidade e escapar de apagões frequentes, sem depender de um programa governamental estruturado, tornando-se um dos casos de adoção mais rápidos de energia distribuída já registrados.

Qual é a participação da energia solar na matriz elétrica brasileira?

De acordo com a Absolar, a energia solar responde por cerca de 19,5% da matriz elétrica brasileira em 2026, somando geração centralizada em usinas de grande porte e geração distribuída instalada em telhados residenciais e comerciais.

As baterias de sódio podem substituir as de lítio?

Ainda não em larga escala, mas a tecnologia vem avançando como alternativa complementar, aproveitando a maior abundância do sódio na natureza para reduzir a dependência de minerais mais escassos e concentrados geograficamente, como o lítio.

Nota de atribuição: Esta reportagem foi inspirada na entrevista "Bill McKibben, activista: 'La luz solar no tiene que pasar por el estrecho de Ormuz'", publicada pelo jornal espanhol El País em 6 de setembro de 2026. O texto original foi usado apenas como ponto de partida temático; os dados, fontes e análises apresentados nesta reportagem foram apurados de forma independente pela equipe de O Tecido.

Em números

Solar na matriz elétrica do Brasil (2026)19,5%
Nova capacidade solar centralizada prevista no Brasil em 20264,56 GW
Participação chinesa na fabricação global de painéis80–90%
Painéis solares importados pelo Paquistão em 202516,9 GW
Capacidade de baterias instalada na China+155 GW

Linha do tempo

  • 1943Primeira turbina eólica industrial do mundo é instalada em Vermont, nos Estados Unidos.
  • 1954Bell Labs constrói a primeira célula solar funcional, em Nova Jersey (EUA).
  • Meados dos anos 2020Energia solar e eólica se tornam mais baratas que combustíveis fósseis em diversos mercados.
  • 2023–2025Paquistão dispara nas importações de painéis solares chineses, sem programa estatal.
  • 2026Solar já responde por quase 20% da matriz elétrica brasileira, segundo a Absolar.

Glossário

Geração distribuída (GD)
Modelo em que o próprio consumidor produz energia, geralmente com painéis solares instalados em telhados.
Curtailment
Corte forçado da geração de energia quando a rede elétrica não consegue escoar toda a eletricidade produzida.
Bateria de sódio
Tecnologia de armazenamento que usa sódio no lugar do lítio, aproveitando sua maior abundância natural.
GW / GWh
Gigawatt mede potência instalada; gigawatt-hora mede energia efetivamente armazenada ou gerada ao longo do tempo.

Referências

  • Clemente Álvarez. "Bill McKibben, activista: 'La luz solar no tiene que pasar por el estrecho de Ormuz'". El País, 06/09/2026.
  • Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) — Relatório de Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica (Ralie), 2026.
  • Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) — dados de participação da energia solar na matriz elétrica brasileira, 2026.
  • Agência Internacional de Energia (IEA) e Wood Mackenzie — estimativas de capacidade global de fabricação fotovoltaica.
  • Ember — relatórios sobre exportações chinesas de painéis solares e boom solar na África e Ásia.
  • BloombergNEF — dados sobre importações paquistanesas de painéis solares chineses.
  • Financial Times — reportagem sobre excesso de capacidade produtiva de células solares na China.