Sempre que o nome de Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez ou, mais recentemente, Abdul El-Sayed aparece em uma roda de conversa brasileira, uma palavra costuma surgir quase como um veredito: socialistas. O rótulo circula com a força de um xingamento e a precisão de um chute no escuro. Poucas vezes alguém para para perguntar o que, exatamente, esses políticos defendem, e menos ainda se compara essas pautas com o que já existe, funcionando, em democracias capitalistas como Canadá, Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca.
Este texto não pretende fazer campanha por nenhum partido americano. Pretende, isso sim, provocar uma pergunta desconfortável: será que o problema é o rótulo "socialista", ou é o fato de que, quando confrontados com o conteúdo real dessas propostas, muitos brasileiros que hoje rejeitam o termo descobririam que concordam com boa parte da lista?
O que, afinal, esses políticos defendem
Sanders, Ocasio-Cortez e El-Sayed se autodenominam socialistas democráticos, uma corrente política distinta do socialismo de Estado associado a Cuba, Venezuela ou à antiga União Soviética. Na prática legislativa e nos discursos de campanha, as bandeiras centrais desse grupo giram em torno de um pacote bastante específico:
- saúde pública universal (o projeto "Medicare for All");
- educação pública gratuita ou mais acessível, incluindo universidades;
- fortalecimento de sindicatos e do poder de negociação dos trabalhadores;
- tributação mais alta sobre grandes fortunas e altas rendas;
- ampliação de programas sociais e de proteção ao trabalhador;
- maior regulação sobre setores como saúde, energia e serviços financeiros.
Não há, nessa lista, estatização de todos os meios de produção, partido único ou fim da propriedade privada, elementos que de fato caracterizam o socialismo clássico. Especialistas em ciência política costumam apontar essa distinção com frequência: os dois políticos podem até se identificar pessoalmente como socialistas democráticos, mas as políticas concretas que defendem, como saúde universal e ensino superior gratuito, são mais bem descritas como social-democracia, um modelo plenamente compatível com economia de mercado.
A pergunta que vale a pena fazer não é "isso é socialismo?", mas "eu viveria bem em um país que faz isso?"
O espelho que eles próprios escolheram: os países nórdicos
Quando cobrados a citar um exemplo concreto de país que inspira o projeto, Sanders e Ocasio-Cortez raramente mencionam Cuba ou Venezuela. Ocasio-Cortez já declarou publicamente que suas políticas se aproximam do que existe no Reino Unido, na Noruega, na Finlândia e na Suécia. Sanders segue a mesma linha, apontando repetidamente a Dinamarca e a Suécia como modelos de bem-estar para os trabalhadores americanos.
É aqui que o debate fica interessante, e também mais honesto. Analistas de centro e de direita, de institutos como o American Enterprise Institute e a Heritage Foundation, fazem coro em um argumento: os países nórdicos não são socialistas. São economias de mercado, com forte proteção à propriedade privada e ambiente favorável aos negócios, que decidiram, via processo democrático, cobrar impostos altos para financiar redes robustas de proteção social. O próprio ex-primeiro-ministro da Dinamarca já afastou publicamente o rótulo, classificando seu país como uma economia de mercado.
É justo reconhecer o argumento central dos críticos: se o modelo nórdico é, na raiz, uma economia capitalista com Estado de bem-estar generoso, então chamá-lo de "socialismo" (mesmo democrático) é impreciso nos dois sentidos, tanto para quem ataca Sanders e Ocasio-Cortez quanto para quem os defende usando a Escandinávia como prova de conceito socialista. Pesquisadores também alertam que os países nórdicos têm populações pequenas, relativamente homogêneas e com alta confiança institucional, fatores que facilitam a sustentação desses programas e que não se replicam automaticamente em países grandes, desiguais e heterogêneos como o Brasil ou os Estados Unidos.
Dito isso, o ponto que este artigo quer destacar não é etiqueta ideológica, e sim substância de política pública. Se a pergunta for "você gostaria de viver em um país com saúde pública de qualidade, educação acessível, sindicatos fortes e uma rede social robusta", a resposta de boa parte de quem hoje rejeita "o socialismo americano" provavelmente seria sim, desde que o pacote venha embrulhado em outro nome.
O caso do Canadá: impostos altos, mas para quem?
O Canadá é um exemplo particularmente útil para o público brasileiro porque não é um país socialista por nenhuma definição séria, é uma economia de mercado, membro do G7, com forte proteção à propriedade privada. Ainda assim, sua estrutura tributária lembra bastante o que Sanders e companhia propõem para os Estados Unidos.
Em Ontário, a província mais populosa do país, a alíquota marginal combinada (imposto federal mais provincial) para as faixas mais altas de renda chega a aproximadamente 53,5%. Em Quebec e na Colúmbia Britânica, o número fica muito próximo disso, e na Nova Escócia chega a superar 54%. Essas alíquotas incidem justamente sobre profissionais de alta renda, categoria que no Brasil inclui boa parte dos médicos, advogados e engenheiros que hoje se posicionam contra qualquer pauta rotulada de "socialista".
O médico canadense ganha bem no sistema público
É aqui que entra a conversa que motivou este texto. Ao comentar esse modelo tributário com um médico brasileiro, a resposta foi imediata: "isso não funciona no Brasil, porque médico do sistema público não ganha nada, tem que ir para o privado". A frustração é real e compreensível, mas os números merecem contexto.
No Canadá, a remuneração de médicos no sistema público varia amplamente por especialidade e província, com médias anuais que costumam ficar entre CAD 150 mil e CAD 350 mil, pagas justamente pelo sistema público de saúde (o chamado Medicare canadense). É esse mesmo sistema público, financiado pelos impostos altos citados acima, que sustenta salários competitivos o suficiente para reter profissionais sem depender de um mercado privado paralelo tão robusto quanto o brasileiro.
No Brasil, a realidade é mista: o setor público emprega uma fatia expressiva dos médicos do país, mas a remuneração tabelada tende a ficar abaixo da praticada no setor privado, especialmente para especialistas, o que empurra parte da categoria para plantões extras, múltiplos vínculos ou migração para a rede privada. O problema não é a existência de um SUS universal (uma política, aliás, mais ambiciosa do que a de muitos países ricos), mas o financiamento e a gestão desse sistema.
Capitalismo puro e o excesso de faculdades de medicina
Há um segundo dado, ainda mais revelador, que surgiu naquela mesma conversa: a quantidade de faculdades de medicina no Brasil. Um levantamento da Faculdade de Medicina da USP, com dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, mostrou que o país chegou a 494 cursos de medicina em 2025, sendo 80% deles em instituições privadas, com mais de 50 mil vagas anuais de graduação. O Brasil é hoje o segundo país do mundo em número de escolas médicas, atrás apenas da Índia, nação com mais de 1,4 bilhão de habitantes.
O Canadá, por comparação, opera com apenas 17 faculdades de medicina credenciadas (18, contando uma com acreditação preliminar) para uma população de cerca de 40 milhões de pessoas. Se o Brasil, com seus aproximadamente 203 milhões de habitantes, seguisse a mesma proporção canadense de faculdades por habitante, teria hoje algo perto de 85 a 90 escolas médicas, não 494.
Vale ponderar o outro lado do argumento: o Brasil tem uma proporção histórica de médicos por habitante mais baixa que a média da OCDE, e parte da expansão de vagas, especialmente via editais que exigem leitos do SUS e hospital de ensino vinculado, foi pensada para reduzir a desigualdade regional no acesso a médicos, um problema que o modelo canadense, mais restritivo, também enfrenta, com escassez de médicos de família em áreas remotas. A crítica pertinente não é à existência de mais vagas em si, mas ao ritmo de abertura de cursos sem lastro de infraestrutura, com boa parte das autorizações recentes concedidas por decisões judiciais, e não por critérios técnicos do Ministério da Educação.
O próprio Conselho Federal de Medicina já alertou publicamente para essa distorção, chamando de "criação indiscriminada de escolas médicas" um processo que ocorre "sem critérios técnicos mínimos" e que compromete a qualidade da formação. Isso não é um fenômeno natural do livre mercado funcionando bem, é justamente o oposto: instituições de ensino abrindo cursos de medicina por atratividade financeira, já que são um dos produtos educacionais mais lucrativos do setor privado, independentemente de haver hospitais-escola, leitos ou corpo docente suficiente para formar bons profissionais.
O fio que une os dois casos
Os dois exemplos, o tributário e o educacional, apontam para o mesmo argumento de fundo: mercado sem nenhuma regulação e sem investimento público robusto tende a gerar externalidades negativas, seja na forma de faculdades de qualidade duvidosa multiplicando-se para captar mensalidades, seja na forma de médicos mal remunerados na rede pública que precisam se dividir entre plantões e consultórios particulares para sobreviver financeiramente. Isso não é uma defesa de estatização total nem de fechamento de faculdades privadas, é um convite a reconhecer que existe um meio-termo, testado e funcional, entre o Estado que controla tudo e o mercado que regula muito pouco.
Os países nórdicos e o Canadá não abandonaram o capitalismo, eles o temperaram com tributação progressiva pesada sobre quem ganha mais, investimento público de qualidade em saúde e educação, e regulação criteriosa sobre a abertura de cursos e serviços essenciais. O resultado, medido em expectativa de vida, satisfação com a vida e índices de desigualdade, costuma superar o de países que escolheram o caminho oposto.
Uma pergunta, não uma conclusão fechada
Talvez o convite mais honesto que se possa fazer ao leitor brasileiro seja este: antes de rejeitar uma pauta por ela ter sido chamada de "socialista" em uma manchete ou em um vídeo de rede social, vale a pena olhar para o conteúdo concreto da proposta e perguntar se ela já existe, funcionando, em algum país que ninguém, nem seus críticos mais ferrenhos, classificaria seriamente como uma ditadura socialista. Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca e Canadá respondem por essa pergunta todos os dias. A questão não é se essas ideias funcionam. É se o Brasil está disposto a discutir os trade-offs, tributação mais alta, regulação mais rigorosa e investimento público sustentado, que fazem elas funcionarem.
Bernie Sanders e AOC são socialistas no sentido tradicional do termo?
Não exatamente. Eles se autodenominam socialistas democráticos, mas as políticas que defendem, como saúde universal, educação pública acessível e sindicatos fortes, são classificadas por muitos cientistas políticos como social-democracia, um modelo que preserva a propriedade privada e a economia de mercado, diferente do socialismo de Estado.
Os países nórdicos são socialistas?
Não. Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca são economias de mercado com forte proteção à propriedade privada. O que as diferencia é a carga tributária alta, usada para financiar saúde universal, educação gratuita e uma rede de proteção social ampla, dentro de um sistema essencialmente capitalista.
Por que médicos ganham bem no sistema público canadense e não no brasileiro?
No Canadá, o sistema público de saúde é financiado por uma carga tributária alta sobre rendas elevadas, o que permite remunerações competitivas para médicos dentro da própria rede pública. No Brasil, a remuneração tabelada do setor público costuma ficar abaixo da praticada no setor privado, o que leva parte dos médicos a acumular plantões ou migrar para a rede privada.
Por que o Brasil tem tantas faculdades de medicina?
O Brasil chegou a 494 cursos de medicina em 2025, sendo 80% privados, o segundo maior número do mundo depois da Índia. Parte da expansão busca reduzir a escassez regional de médicos, mas o Conselho Federal de Medicina aponta que boa parte das novas autorizações ocorre por decisões judiciais, sem critérios técnicos suficientes, o que gera preocupação com a qualidade da formação.
Este é um artigo de opinião. As posições expressas refletem a análise da Redação e não esgotam o debate sobre o tema, que segue aberto a réplicas e outros pontos de vista dentro do espaço editorial do O Tecido.