Uma entrevista concedida em Segovia, na Espanha, reacendeu um debate que a Alemanha tenta evitar desde 1945: o de saber se um partido nascido dentro das regras do jogo democrático pode caminhar, passo a passo, na direção do que essas mesmas regras foram desenhadas para impedir. O filósofo alemão Peter Sloterdijk, um dos pensadores mais influentes da Europa contemporânea, afirmou que a Alternative für Deutschland (AfD) reproduz, na sua origem aparentemente inofensiva, o mesmo padrão que permitiu ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) chegar ao poder nos anos 1930.1 A declaração ganhou peso porque veio poucos dias depois de a AfD vencer, com folga, as eleições regionais da Sajônia-Anhalt.
O paralelo que incomoda a Alemanha
Sloterdijk foi direto ao apontar a semelhança que julga mais perigosa: não o programa do partido, mas a disposição dos seus eleitores em permanecer fiéis mesmo diante de sinais de risco institucional. Segundo ele, uma vez que a política passa a girar em torno de identidade, o caminho para a autodestruição coletiva encurta.1 É uma leitura que ecoa entre historiadores e cientistas políticos alemães, ainda que nem todos aceitem a equivalência direta com o nazismo: o Departamento Federal de Proteção à Constituição (Verfassungsschutz) classifica formalmente a ala do partido na Sajônia-Anhalt como movimento de extrema direita comprovadamente extremista, não como organização nazista propriamente dita.3
A vitória de 6 de setembro deu números concretos ao alerta. A AfD obteve 43,9% dos votos e 39 das 83 cadeiras do parlamento estadual, dezesseis a mais do que em 2021. A CDU, partido do chanceler Friedrich Merz, perdeu metade de sua bancada, caindo de 40 para 15 assentos.6 A abstenção também recuou de forma expressiva: o comparecimento às urnas saltou de 60% em 2021 para 77% neste pleito, o maior índice já registrado no estado.6 Para Sloterdijk, essa combinação de mobilização recorde com resultado histórico não é acidental: é o efeito de uma sociedade que deixou de sentir vergonha de declarar seu voto em pesquisas, um comportamento que, segundo ele, as próprias sondagens semanais ajudaram a naturalizar.1
A metáfora dos "bancos da ira"
A frase acima retoma um conceito que Sloterdijk desenvolveu quase duas décadas atrás, no livro Ira e Tempo. Nele, o filósofo descreve movimentos políticos que funcionam como instituições financeiras da indignação: recebem o ressentimento acumulado de eleitores insatisfeitos e prometem devolvê-lo, no futuro, em forma de justiça ou reparação. O problema, argumenta ele agora, é que a AfD seria um mau banco: promete rendimento alto, mas paga em frustração.1 É uma imagem que ajuda a explicar por que discursos de protesto continuam atraindo eleitores mesmo quando as consequências práticas de um voto radical raramente cumprem o que prometeram.
O chanceler Friedrich Merz reagiu ao resultado dizendo que o país está profundamente abalado e que a mudança de opinião faz parte da democracia, mas que os valores constitucionais não estão em votação.4 Todos os partidos tradicionais mantêm o chamado cordão sanitário, recusando qualquer coalizão com a AfD, o que deixa o partido vencedor sem caminho claro para governar sozinho a Sajônia-Anhalt.2
O elo com a inteligência artificial
Na mesma conversa, Sloterdijk conectou o avanço político da extrema direita a um segundo fenômeno: o esvaziamento de sentido produzido pela inteligência artificial. Para ele, a rapidez com que os sistemas de IA passaram a gerar texto coerente, em pouco mais de dois anos, reduziu a distância entre a surpresa e a humilhação humana diante da máquina.1 O argumento não é sobre desemprego técnico apenas: é sobre a sensação difusa de inutilidade que se instala quando tarefas antes vistas como propriamente humanas passam a ser replicáveis por software, e sobre como esse vazio busca preenchimento em identidades políticas fortes.
É uma hipótese difícil de comprovar estatisticamente, mas que conversa com um dado alemão concreto: pesquisas recentes mostram a AfD colhendo apoio também de eleitores de regiões do leste que se sentem abandonados, sem médico ou comércio próximo, e insatisfeitos com a chamada migração de pobreza.8 Descontentamento econômico, esvaziamento de sentido e polarização identitária parecem, no relato de Sloterdijk, três sintomas do mesmo quadro.
E o Brasil, corre risco parecido?
O paralelo interessa ao leitor brasileiro por um motivo direto: o país também vive, às vésperas da eleição presidencial de 2026, um debate intenso sobre polarização e desgaste institucional. Uma pesquisa Ipsos-Ipec divulgada neste ano mostra que 57% dos brasileiros veem mais malefícios do que benefícios na polarização política, 58% acham que ela enfraquece a democracia e 72% dizem se sentir incomodados com o clima atual.5 São números que, à primeira vista, sugerem um cenário próximo ao descrito por Sloterdijk na Alemanha.
No entanto, um estudo do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP relativiza essa leitura: 69% dos eleitores brasileiros não se enquadram no perfil de polarização afetiva estrita, aquela em que a adesão a um campo político vem acompanhada de rejeição intensa ao outro. O fenômeno mais expressivo no Brasil, segundo os pesquisadores, seria antes uma "negativização afetiva" da política: menos gente que ama um lado e mais gente que rejeita antes de aderir a qualquer um.7 Já o Datafolha de agosto de 2026 registrou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno contra 32% de Flávio Bolsonaro, com a disputa de segundo turno dentro da margem de erro.9 A diferença estrutural em relação à Alemanha é que o Brasil não tem, hoje, um partido situado fora do arco democrático tradicional colhendo votos de protesto na escala em que a AfD colheu na Sajônia-Anhalt. O risco descrito por Sloterdijk, portanto, existe em ingredientes (desconfiança institucional, desgaste de lideranças, ausência de terceira via), mas ainda não se materializou na mesma equação partidária.
Contraponto
Nem todos os analistas aceitam a comparação direta entre AfD e NSDAP como ferramenta explicativa útil. Cientistas políticos alemães costumam apontar que equiparar os dois movimentos corre o risco de banalizar o Holocausto ou, inversamente, de funcionar como propaganda para a própria AfD, que se apresenta como vítima de perseguição midiática ao ser chamada de herdeira do nazismo.
O próprio Sloterdijk reconhece parte desse risco quando descreve o efeito das pesquisas de opinião como um mecanismo que amplifica pequenos fenômenos: ao repetir insistentemente o alarme, a imprensa poderia estar ajudando a normalizar o que pretende combater. É uma tensão que o jornalismo sobre extremismo enfrenta em qualquer país, inclusive no Brasil.
O que fica desse alerta
A entrevista de Sloterdijk não oferece uma previsão fechada sobre o futuro alemão, e o próprio filósofo evita esse tom. O que ele propõe é uma chave de leitura: partidos que canalizam raiva sem oferecer solução concreta funcionam como bancos que pagam juros ruins, e sociedades que perdem o sentido de suas ocupações tendem a buscar substitutos, sejam eles religiosos, digitais ou políticos. Para o leitor brasileiro, o valor da comparação não está em prever um cenário idêntico, mas em observar com atenção os mesmos ingredientes: desconfiança institucional, desgaste das lideranças tradicionais e um ambiente informacional que recompensa a indignação.
Perguntas frequentes
O que Peter Sloterdijk disse sobre a AfD?
O filósofo alemão afirmou que a Alternative für Deutschland (AfD) reproduz, em sua origem aparentemente inofensiva, o mesmo padrão de ascensão do NSDAP nos anos 1930, e que eleitores que depositam sua raiva no partido tendem a perder dinheiro, esperança e ilusões, comparando a AfD a um "mau banco" de indignação política.
Qual foi o resultado da AfD nas eleições da Sajônia-Anhalt em 2026?
Em 6 de setembro de 2026, a AfD obteve 43,9% dos votos e 39 das 83 cadeiras do parlamento estadual, o melhor resultado já alcançado pelo partido em uma eleição regional, mas sem maioria absoluta. A CDU, do chanceler Friedrich Merz, caiu para 17,2% e 15 cadeiras.
O que são os "bancos da ira" na teoria de Sloterdijk?
É um conceito do livro Ira e Tempo, no qual movimentos políticos funcionam como instituições que recebem o ressentimento acumulado da população e prometem devolvê-lo como justiça futura. Sloterdijk usa a metáfora para explicar por que discursos de protesto atraem eleitores mesmo sem garantia de resultado.
Como a inteligência artificial se relaciona, segundo o filósofo, com o avanço do populismo?
Sloterdijk argumenta que a rapidez com que a IA passou a gerar textos coerentes aprofundou uma sensação de inutilidade humana, à medida que tarefas antes vistas como exclusivamente humanas se tornam automatizáveis. Esse vazio de sentido, para ele, alimenta a busca por identidades políticas fortes como forma de compensação.
O Brasil vive um cenário de polarização comparável ao alemão?
Pesquisas mostram sinais mistos: a maioria dos brasileiros diz se incomodar com a polarização, mas um estudo da FESPSP indica que 69% do eleitorado não se enquadra no perfil de polarização afetiva estrita, sugerindo um quadro de desgaste e desconfiança institucional mais do que de radicalização identitária generalizada como a alemã.