Saúde · Bem-estar · Psicologia

Solteiro não é sinônimo de incompleto, sugere um conjunto de estudos recentes de psicologia social. Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Simon Fraser, no Canadá, e publicada em agosto de 2026 na revista Personality and Social Psychology Bulletin, propõe que a vida sem parceria romântica pode funcionar como terreno fértil para o que os pesquisadores chamam de "potencial de autoexpansão da solteirice": a crença de que estar só abre espaço para experiências, perspectivas e vínculos novos, historicamente associados apenas a quem vive um relacionamento.

Durante décadas, a psicologia tratou a chamada teoria da autoexpansão quase como sinônimo de casal. Criada em 1986 pelos psicólogos Arthur e Elaine Aron, da Universidade Stony Brook, nos Estados Unidos, a teoria descreve o impulso humano de ampliar competências, identidade e visão de mundo, e associava esse ganho principalmente à convivência íntima com um parceiro. O trabalho liderado por Elina Moreno, hoje pós-graduanda na Universidade de Toronto, e pela professora Yuthika Girme, da Simon Fraser, decidiu testar se o mesmo mecanismo também se aplica a quem vive sozinho.

O que os pesquisadores encontraram

Foram três estudos, dois deles diários e um experimental, aplicados a pessoas solteiras. O resultado central: quanto mais forte a crença de que a solteirice oferece oportunidades de crescimento, maior o engajamento em atividades novas, de trilhas e restaurantes desconhecidos a aulas e esportes recém-descobertos. Essa crença também esteve ligada a maior satisfação com a própria vida, menos medo de permanecer solteiro e sensação mais forte de autonomia e competência.

Um dado chamou atenção dos autores: até 82% dos participantes não viveram essas experiências de expansão sozinhos, mas na companhia de amigos e familiares. Ou seja, o crescimento pessoal associado à solteirice não depende de isolamento, e sim de rede de apoio fora do círculo romântico.

"A teoria da autoexpansão sempre presumiu que o crescimento pessoal acontece no contexto de relações íntimas. Nossos achados mostram que também existe potencial de expansão em atividades solo." Yuthika Girme, professora da Simon Fraser University e coautora do estudo

A mentalidade importa mais do que o estado civil

O achado mais delicado da pesquisa diz respeito à causalidade. Pessoas que já tinham autoestima mais alta e se sentiam bem com a própria solteirice foram as que mais enxergaram potencial de crescimento na condição. Já quem sentia ansiedade por estar sozinho, ou considerava um relacionamento indispensável para a felicidade, dificilmente percebeu esse potencial, mesmo quando estimulado a imaginar cenários de autoexpansão em laboratório. Segundo os autores, tentar mudar essa crença por meio de exercícios pontuais teve pouco efeito, o que sugere que a mentalidade sobre a própria solteirice é mais estável e mais difícil de alterar do que se supunha.

É uma nuance sublinhada por especialistas fora do estudo: o que parece pesar não é apenas viver sozinho, mas o significado atribuído a essa condição. Pesquisas anteriores sobre solteirice permanente já indicavam que pessoas que escolhem ficar solteiras relatam mais autonomia e realização, enquanto quem se sente forçado a essa condição relata mais arrependimento. Outro levantamento com adultos jovens mostrou que atribuir a solteirice a motivos de autoafirmação, e não a fracasso ou falta de interesse alheio, também está ligado a maior bem-estar.

Contraponto: nem toda solteirice é vivida como oportunidade

A generalização tem limites. A maior parte dos participantes dos três estudos era formada por adultos jovens, com mais tempo e liberdade social para explorar novidades do que pessoas em fases da vida com mais responsabilidades familiares ou profissionais. Os próprios pesquisadores reconhecem que o benefício de bem-estar encontrado nos diários foi de curto prazo, ligado ao mesmo dia da atividade, e não necessariamente cumulativo ao longo do tempo. Terapeutas ouvidos pela reportagem do Washington Post que deu origem a esta cobertura reforçam que solteirice pode, sim, abrir espaço para autoconhecimento, mas isso não significa que toda pessoa solteira viva essa condição de forma positiva, sobretudo quando não é uma escolha.

Um retrato que conversa com o Brasil

O achado internacional dialoga com uma mudança demográfica que já está em curso no país. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE, o Brasil soma hoje cerca de 81 milhões de solteiros contra 63 milhões de casados, tornando o estado civil solteiro o predominante entre os brasileiros. O Censo 2022 do IBGE também mostrou que a proporção de domicílios formados por casais sem filhos quase dobrou em 22 anos, saltando de 13% para 24,1% do total, enquanto a fatia de casais com filhos caiu de 56,4% para 42%, a primeira vez que deixaram de representar mais da metade dos lares do país.

Isso não significa, necessariamente, isolamento social. Levantamento da Booking.com sobre comportamento de viagem mostrou que boa parte dos brasileiros que planejam viagens solo o fazem em busca de equilíbrio mental e introspecção, mas segue aberta a criar conexões novas pelo caminho, um padrão semelhante ao encontrado pelos pesquisadores canadenses: a solteirice como espaço de exploração, não de isolamento.

Como colocar o conceito em prática

Segundo os pesquisadores e especialistas ouvidos na reportagem original, o ganho de autoexpansão não exige nenhum grande gesto financeiro ou uma viagem internacional cara. Pequenas rupturas de rotina já contam:

  • Experimentar algo novo: um curso online, um hobby ou um tema de estudo que já despertava curiosidade.
  • Investir em autoconhecimento: escrever um diário ou buscar acompanhamento terapêutico para refletir sobre crenças ligadas à própria solteirice e à autoestima.
  • Construir comunidades novas: grupos esportivos, clubes de leitura ou hortas comunitárias, com constância e abertura para vínculos fora do universo romântico.
  • Viajar sozinho: a experiência costuma favorecer autonomia, tomada de decisão e socialização fora do ambiente habitual, segundo terapeutas consultados pelo estudo original.

Para a psicóloga Avigail Lev, diretora do Bay Area CBT Center e que não participou da pesquisa, o objetivo não é decidir se viver só ou acompanhado é melhor, mas parar de tratar a solteirice como uma etapa a ser superada. Encarada como oportunidade, e não como carência, ela pode se tornar espaço de exploração, conexão e intencionalidade sobre quem a pessoa quer se tornar.

Perguntas frequentes

O que é "potencial de autoexpansão da solteirice"?

É o termo usado por pesquisadores da Universidade Simon Fraser para descrever a crença de que estar solteiro oferece oportunidades reais de crescimento pessoal, por meio de novas experiências, perspectivas e relações, sem depender de um parceiro romântico.

Ser solteiro traz benefícios comprovados para a saúde mental?

O estudo associou a crença de autoexpansão a maior satisfação com a vida, menos medo da solteirice e mais sensação de autonomia e competência, mas os próprios autores destacam que esses ganhos de bem-estar apareceram concentrados no mesmo dia da atividade, sem garantia de efeito duradouro.

É possível "aprender" a ver a solteirice como oportunidade?

Na fase experimental do estudo, pedir que os participantes imaginassem cenários positivos sobre a solteirice aumentou o engajamento em atividades novas, mas não alterou de forma significativa a crença de fundo sobre o próprio estado civil, o que sugere que essa mentalidade é mais estável do que os pesquisadores esperavam.

O Brasil tem mais solteiros do que casados?

Sim. De acordo com a PNAD Contínua do IBGE, o país soma cerca de 81 milhões de solteiros ante 63 milhões de casados, e o Censo 2022 mostrou aumento expressivo na proporção de casais sem filhos nas duas últimas décadas.

Nota de atribuição: esta reportagem foi inspirada pela cobertura "New study reveals a major perk of being single", publicada pelo Washington Post em 31 de agosto de 2026 e assinada por Cheyenne Buckingham. O texto original não foi traduzido nem reproduzido integralmente; O Tecido buscou fontes brasileiras e internacionais adicionais para contextualizar o tema para o leitor local. Leia a reportagem original em: washingtonpost.com.
Solteirice Saúde Mental Autoexpansão Psicologia Social Bem-estar

Em números

81 milhões de solteiros no Brasil, contra 63 milhões de casados, segundo a PNAD Contínua do IBGE.
82% dos participantes do estudo viveram suas experiências de autoexpansão acompanhados de amigos ou familiares, não sozinhos.
24,1% dos domicílios brasileiros eram formados por casais sem filhos em 2022, ante 13% em 2000 (Censo IBGE).

Linha do tempo

1986 Arthur e Elaine Aron formulam a teoria da autoexpansão, associando-a sobretudo a relações íntimas.
2022 Censo do IBGE registra que casais sem filhos já somam 24,1% dos domicílios brasileiros.
Ago. 2026 Estudo da Simon Fraser University propõe o conceito de "potencial de autoexpansão da solteirice" e é publicado na Personality and Social Psychology Bulletin.

Glossário

Autoexpansão Impulso psicológico de ampliar identidade, competências e perspectivas de mundo ao longo da vida. Solitude Estado de estar só por escolha e de forma confortável, distinto de solidão, que implica sofrimento pela falta de companhia. PNAD Contínua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, levantamento periódico do IBGE sobre características da população brasileira.

Referências

  • Buckingham, C. "New study reveals a major perk of being single". The Washington Post, 31 ago. 2026. Acesse aqui.
  • Moreno, E.; Girme, Y. et al. Estudo sobre potencial de autoexpansão da solteirice. Personality and Social Psychology Bulletin, 2026.
  • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). PNAD Contínua, 2025.
  • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Módulo de Nupcialidade e Família, Censo 2022.
  • Aron, A.; Aron, E. Modelo de Autoexpansão. Stony Brook University, 1986.
  • Booking.com. Pesquisa sobre viagens solo e autocuidado, 2025.